quinta-feira, 2 de novembro de 2017

‘Segredos de liquidificador’ em sala de aula

Na minha frente, apresentando a análise de peças gráficas, um aluno treme, em sala de aula. Mais correto seria dizer: o aluno vibra, seu corpo estremece e se mostra em uma emoção alterada. O jornal, em sua mão, objeto empírico da análise, vai mostrando, ‘traidor’, que esse ser estudante tem a emoção à flor da pele. Ao mesmo tempo, ao falar, ele esboça um riso de quem se sente satisfeito pelas ‘descobertas’, pelo que pode enunciar de saber construído. Ele tem a emoção de aprender, assim, ali, visível aos nossos olhos, com um corpo que vibra, independentemente de sua vontade consciente. Eu me lembrei da canção "Codinome Beija-flor", de Cazuza, especialmente pela expressão "Segredos de liquidificador"!

Fiquei pensando que também a educação, o conhecimento, quando vividos com amorosidade e intensidade podem emocionar e nos desafiar como seres inteiros, com nosso ‘corpo vibrátil’, para lembrar um conceito da Esquizoanálise, uma das teorias que estudo. A emoção é diferente, da referida pelo poeta Cazuza, mas também é avassaladora e mobilizadora do conjunto do ser, feito corpo, alma e mundaréu de afetos. Somos seres complexos, em corpos que vibram e entram em sintonias com energiais circundantes e transversalizantes. E essa vibração não segue ou serve ao intelecto, nem se limita à materialidade do corpo, em si, mas diz respeito ao que nos emociona, o que nos põe vivos, o que nos transversaliza de emoção ‘derramante’, que nos mobiliza como seres inteiros e nos põe prontos para nos mostrar, nos entregar, de alguma forma. 

Nesse sentido, o encontro amoroso, com a emoção de quem encontra o outro e se emociona por isso, assim como a apresentação de um trabalho, a aula, a palestra, são situações que podem nos colocar em condição de estremecimento, de alteração nas vibrações emocionais e físicas, a tal ponto que isso transpareça, se faça visível. Isso ocorre em cada momento em que nos ‘enviamos’ para o outro, nos expomos, nos dispomos para, na entregar, sermos tocados pelo corpo ou pelo olhar do outro. Quando a situação nos emociona grandemente, nosso corpo vibra e, às vezes, essa vibração se expressa em tremor, em vida que jorra, nas suas variações, em riso, em choro, enfim...

Eu me lembrei também de outra canção, essa de Caetano Veloso, intitulada Força Estranha. Na letra da música, ele diz: “Eu vi um menino correndo/ Eu vi o tempo brincando ao redor/ Do caminho daquele menino”. E nesse momento, eu também vi o tempo, o tempo de docência, outros tantos meninos-moços, como aquele que, emocionado, apresentavam seu trabalho, com esforço e alegria. Lembrei-me de alguns, em especial, preparando-se para as primeiras apresentações de pesquisa, esforçando-se para se mostrarem corajosos e, com a voz embargada e certo estremecimento, mostrando a mim e a si mesmos a emoção de crescer e aprender, de se mostrar em cenas mais desafiadoras. Emociona-me o fato de que, sendo educadora, eu acompanho seres em processo de construção de projetos de vida, seres que investem muito mais que dinheiro e tempo; investem sua emoção, sua esperança e a si mesmos, inteiros, na construção de um devir vida, que os sustente existencialmente, em sentidos vários.

Fico pensando no compromisso e nas marcas que, como educadores, deixamos nessas estradas existenciais singulares e no quanto é necessário investir em amorosidade, acolhimento, bons afetos, nos processos de aprendizagens para que eles sejam geradores de alegria e potência de vida, pautada pela confiança amorosa, pela construção de autoestima e humildade, ao mesmo tempo. Fazer pontes entre as trajetórias que os trouxeram até nós e as novas estradas que se abrem. Ao mesmo tempo, compreender que é tudo construção conjunta, que a produção é resultado dos entrelaçamentos de saberes, das histórias de vidas todas que se encontram e que a transformação é ecossistêmica. Assim, também sinto que sou eu também que estremeço e umedeço o olhar com meu aluno que treme, com o jornal nas mãos.

Assim, nessa condição emocionada, lembrei-me também de Rubem Alves e do lindo livro Variações sobre o Prazer. Entre tantas bonitezas, ele afirma que o corpo sabe sem saber, e resgata o personagem Riobaldo, de Guimarães Rosa: “O corpo não traslada, mas muito sabe, advinha, se não entende” (p.77). Gosto também quando ele nos desafia a encontrar as crianças em cada um, pois a crianças sabem lidar melhor com as “caixas de brinquedos” enquanto os adultos, tantas vezes, ficam restritos às “caixas de ferramentas”. Assim, vale igualmente o pensamento do poeta Manoel de Barros, quando diz que “a palavra poética tem que chegar ao grau de brinquedo para ser séria”. Penso que isso é pertinente para a educação também, que precisa mobilizar afetos profundos. Para tanto, precisa fazer com que o sujeito se sinta em processos de brincadeira séria e, assim, se permita emocionar-se, revolucionar-se, crescer, ameninando-se, vibrando e, se preciso for, estremecendo com as experiências de se entregar, de se mostrar, de ser fazer seres em processos de autopoiese, de reinvenção de si mesmos.


segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Casa de floresceres!

A energia da casa precisa ser trabalhada com entrelaços de amorosidade e firmeza. Há laços a serem revisados, ajustados, laços que enlaçam, que envolvem os sujeitos, ao mesmo tempo que são agenciados por esses próprios sujeitos, numa energia que emana e se autoproduz constantemente. Campo de floresceres, campo de usinagem de vida. Habitat de seres-alma entrelaçados por uma razão sensível cósmica. Leva-se muito tempo para entender o que se sente todos os dias, o que vai tranversalizando a nós mesmos, construindo liames, em cenas compartilhadas, frases, olhares, risos, gestos, carícias trocadas. Momentos de aprendizado imenso...em que se aprende a compartilhar, conviver, dividir o alimento, o sustento, os sabores e amores.

A casa da gente é uma matriz ecossistêmica de força, de onde florescem projetos de vida, de seres-flores, seres que, em determinado momento, se vão, pelo mundo afora, para construir outras casas-matrizes de florescimentos. O que acontece é que a casa é uma roupa grande, uma outra pele, maior, mais densa, que reveste a vida da gente, na usina de produção, em entrelaços com os seres que o Universo escolheu para serem nossos, nessa vida, nessa passagem-viagem! Cada um constitui uma parte de um texto maior, textura, tessitura de vidas em brotação.

Eu gosto das minhas casas. Gosto de cada coisa, das minúcias. Em cada detalhe, há vestígios de mim mesma, ali, inscrita no tempo e nas minhas tantas limitações e algumas potencialidades.  Gosto do que venho construindo e tenho respeito pelo que pude (e também pelo que não pude!) fazer. Fui vivendo sempre no meu máximo, fazendo sempre o que podia, como tentativa imensa, me esforçando para conseguir manter a família, manter os projetos seres filhos, como seres de amor e bem-querer-bem. Há também sinais de muitas dores vividas, muitos momentos sofridos, desgastes da vida, momentos impensados, violência existencial. Nem tudo são flores, mas das dores também floresceu um ser Malu mais forte, sensivelmente mais forte. Fui o que precisava ser, em cada momento.

“De tudo ficou um pouco”, como diz Drummond, em um dos meus poemas preferidos, lindamente intitulado Resíduo. Também há nas minhas casas meus melhores momentos, os momentos cúmplices, os momentos de paixão, momentos de impetuosidade e italianidade, momentos ardentes. Foram todos momentos de amor profundo. É esse amor que sinto, ainda hoje, me sustenta e mantém viva a orientação para trabalhar a energia das casas, para tentar fazê-las mais acolhedoras, mais floridas, mais amorosas. São casas simples, sem cadeiras na calçada, porque minha condição de vida não me permite morar em ‘casa, casa’ mesmo... Meus espaços de vida são ‘casa’, porque fiz ‘casa’ dos apartamentos que tenho... casa, morada, toca da leoa, Solar Cardinale, onde transitam pessoas que amo ou por quem tenho amoramizade! Assim como tem que ser!


terça-feira, 1 de agosto de 2017

Um filho é uma alma da gente!

A frase me veio hoje à cabeça, em uma situação importante. Um filho é uma alma da gente! Eu sei, alma não tem dono, não faz sentido, mas eu penso que a frase veio, porque eu senti e pensei que um filho é uma alma que o cosmo escolheu para estar sob os nossos cuidados. Cuidados imensos, entrelaços na mesma proporção. Uma alma que nos desafia, nos alegra, nos preocupa, às vezes também nos cuida... Uma alma ‘nossa’! Uma alma amada, com quem se cultiva o amor e se aprende a amar e estabelecer e reconhecer limites! Uma alma que nos faz humildes, profundamente humildes, compreendemos que sabemos pouco da vida e que nada está decidido nunca, nada que sabemos de nós mesmos vale para o outro que vive outra vida, em outro tempo, com outras tramas existenciais. Tudo tem que ser construído na vivência e na trama de entrelaçamentos e acontecimentos.

Ao mesmo tempo, parece que somos nós mesmos do lado ‘de fora’. É como se fosse o desdobramento da nossa própria alma, um desdobramento do nosso corpo físico espiritual emocional. Eu já tinha ouvido falar que um filho é o coração da gente multiplicado. Não, não é só isso. É muito mais que o coração. Sinto que há entre nós uma ligação de natureza meio mágica, um filamento espiritual que nos une e nos faz conectados, para muito além do que é visível, para muito além do corpo físico, para muito além do que eu um dia pude imaginar. Eu sempre tive isso especialmente com minha mãe, mas não entendia bem. Só sabia que era uma conexão profunda. Ainda hoje temos conexões sem explicação no mundo físico, material. Coisas de mãe-filha.

Agora, nesse outro tempo da minha vida, todas as vezes que meu olhar encontra os olhos dos meus filhos parece que o mundo, a vida, faz sentido e eu vislumbro meu sentido de vida. E que o sentido mesmo é um texto que não pode ser dito na sua completude, até porque é um texto que eu não sei completo.  Eu só pressinto, porque é um texto sempre em construção, um texto que se constrói junto, na relação. Percebo que há uma matriz de desejo do que eu quero dizer, em síntese, para essas almas minhas. Sim, porque parece que viemos para nos colocar em situações de desafios de construção de potência, situações que são acionadas pelo motor gerador do próprio sujeito. E, assim, o que eu mais quero dizer é: acredita, você pode! Não há modelo, não há um jeito pronto, mas há o que 'você pode fazer' com seu jeito, com sua marca, descobrindo sempre ‘o que te importa?’. Eu não te quero do ‘meu jeito’, eu te quero ‘seu’, autônomo, ser por você mesmo. Meu modelo é insignificante para quem tem uma vida inteira pela frente. Minha vida e meu jeito não são modelos para ninguém. Eu me considero uma pessoa esforçada, totalmente voltada para o bem-querer-bem, mas isso não quer dizer que eu tenha respostas... que eu saiba muita coisa.

Fico pensando que apesar de lidar tanto com as palavras, com meus filhos eu falo mais intensa e adequadamente de outras maneiras. Produzimos interações e significações, muitas vezes, sem texto verbal. Produzimos textos intensidades abstratas, que nos conectam e fazem com que o rumo da prosa seja amoroso, intenso, até mesmo quando discordamos. É uma vida inteira, talvez mais que isso, é um tempo intensidade que, pelo que entendo, não se limita a esse tempo que estou por aqui. Bem, por óbvio, este texto aqui não termina... deixo, no entanto, a frase em resposta à pergunta de um dos meus filhos, quando pequeno. Ele chegava perto de mim e me perguntava: “Mãe, você nunca vai me esquecer?”.  E eu que digo frequentemente que ‘nunca’ é muito tempo, neste caso, posso afirmar: “Nunca! Não posso esquecer, desistir e não acreditar em transformações, para melhor, de seres que estão conectados à minha própria alma. São minha própria vida prolongada, meu fluxo de vida, minha respiração, minha pulsação existencial! Sou muito agradecida pelos filhos que tenho, pela almas que recebi para cuidar! Assim como sou muito grata pelas almas com as quais pude me (re)encontrar! Muito! Lembro-me do poeta  Fernando Pessoa, que disse: "Tudo vale a pena quando a alma não é pequena." No nosso caso, somos almas entrelaçadas e, por isso, fortes! Tudo vale muito a pena!







domingo, 30 de julho de 2017

Malu Jardineira



O encontro com a natureza tem me ensinado muito. Tanto ou mais que o encontro com os livros. Na verdade, são saberes complementares, entrelaçados. Gosto das abstrações e da poética da teoria, assim como gosto do ‘con-tato’ direto com a natureza, também a natureza em mim. Assim, na lógica dos floresceres, do amor pela floresta, pelas árvores todas, vou cultivando, eu mesma, como posso, flores, floresceres em minha casa, em minhas casas, de Caxias do Sul e de Porto Alegre.

Elas me dizem coisas da vida, da vida que brota e que demanda cuidados. Também me contam sobre o tempo que passa e do ciclo da vida, o que brota, ganha viço, depois enruga, enrijece, retorce, seca e morre. As plantas ensinam também sobre relacionamentos, sobre o que faz o entrelaçamento perdurar, sobre o que garante o laço, o entrelaço, a convivência e respeito ao espaço de cada folha, de cada pétala, de cada liame, dos fios que se soltam e se enredam, entrelaçam.


O trato com as plantas tem que ser delicado e firme, assim como com as pessoas. Delicado, para atender à condição da natureza mesma, às singularidades de cada planta, o seu jeito, seu trejeito, o modo como brota, como ganha viço e se mostra ‘exibida’. Tem que ser firme, porque às vezes envolve cortar, impedir que invada o espaço de outra planta, ou, mesmo, que vá se direcionando para cantos onde se coloca em risco (no apartamento).


Como no caso das pessoas, eu gosto de observar as diferenças das plantas, de perceber, em cada qual, sua beleza e sua força, no traço singular da sua existência. Gosto de interagir com elas e me colocar humilde, buscando compreendê-las. Muitas vezes, entendo que não brotam porque a terra não é fértil, e, neste caso, é preciso também agir, trocar de terra, buscar outros nutrientes, entender que não adianta insistir em substrato que é estéril de substâncias que ajudem a florescer, a renascer autopoieticamente, a planta, a flor, a gente!

Deixo, então, aqui, uma das lindas canções do Toquinho, nesse sentido. “Natureza Distraída”
“Como as plantas somos seres vivos,
Como as plantas temos que crescer.
Como elas, precisamos de muito carinho,
De sol, de amor, de ar pra sobreviver.

Quando a natureza distraída
Fere a flor ou um embrião,
O ser humano, mais que as flores,
Precisa na vida
De muito afeto e toda compreensão”.

https://www.letras.mus.br/toquinho/87302/

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Chiara e a Orquestra da UCS!




Aquele momento em que você está com a filha, de 16 anos, assistindo a um espetáculo interativo da Orquestra da UCS, chamado Orquestrando Organizações, oferecido aos professores da UCS, no Encontro de início do semestre. O maestro desafia o público, para que algum voluntário vá reger a orquestra no ‘lugar dele’ (com a ajuda dele, no início!), depois de ter ensinado alguns ‘movimentos básicos’! Nenhum professor se candidatou, em um primeiro momento, e quem levantou a mão? Sim... a Chiara Baptista Vieira! 

O espetáculo foi apresentado hoje duas vezes para o grupo de professores da UCS, como parte do encontro dos professores com a reitoria. De manhã, fiquei impressionada com a ‘aula mágica’, que recebemos sobre a composição e o funcionamento da orquestra, com suas várias ‘famílias’ de instrumentos, a beleza e singularidade de cada um. A importância da união de todos os instrumentos. Lembrei da minha filha Chiara, também apaixonada por música e pela Orquestra da UCS! Pensei: “ela vai amar assistir e aprender um pouco mais sobre cada instrumento, não pode perder essa oportunidade de assistir ao ‘nosso maestro’, Manfredo Schmiedt, explicando tão bem humoradamente como se produz a mágica da orquestra”.

Quando a convidei, não imaginei que ela subiria ao palco; apenas pensei que ficaria encantada, como eu, com as explicações. Lembrei de vários momentos da vida em que Chiara ficou hipnotizada com apresentações musicais, dos mais diferentes ritmos, desde pequena, desde muito pequena. Até mesmo em situações em que todas as outras pessoas do ambiente dançavam, a Chiara estava lá, olhando fixamente para os músicos, encantada, observando cada movimento. Pensem, por exemplo, em um baile de carnaval... sim a Chiara, pequenina, se parava diante da banda, em meio à confusão de foliões, e observava atentamente aos músicos e ao seu trabalho. Olhava detidamente, séria, só observava. Tá, outro exemplo: show do Exalta Samba, em Caxias do Sul, há alguns anos. Fomos em família. No camarote, eu me deliciava sambando e a Chiara, na minha frente, parada, olhando, só observando os músicos. Bom, houve também as apresentações com o irmão Giuseppe, para a família toda, com as composições próprias. Eles se divertiam criando música, quando eram muito pequenos.

Lembro de uma vez que fui buscá-la na aula de música e o professor a elogiou! Eu agradeci, pensei que era simpático da parte dele elogiar minha filha. Ele percebeu e reforçou: “Olha, a senhora não está entendendo. Ela realmente tem uma sensibilidade e habilidade que se destacam! Ela se destaca muito!”. Chiara tem cultivado a música intensamente, durante a sua vida (16 anos!, como eu já disse). Na escola, já tocou vários instrumentos, participou da Banda Escocesa, coral, fez aula de violão, escaleta e caixa. Tem em casa guitarra, teclado e violão, e decidiu que vai comprar um ukulele (que eu ainda nem sei como é!).  Nesse momento faz aula de canto e de teatro.


O mais importante de tudo: eu vi minha filha viver um momento absolutamente mágico, em que demonstrou coragem de ir viver seu sonho! Durante o período em que esteve no palco, Chiara sorria muito, embevecida com a cena, com o momento. Ajudou, claro, o fato de ser aluna do CETEC e de ter participado recentemente do CETEC Festival, com apresentações teatrais, em que ela também ousou interpretar uma personagem, de uma peça que ajudou a escrever, sobre os refugiados. A informação de hoje é: vivemos um momento em que se consolida a informação de que temos mais uma artista na família!





domingo, 14 de maio de 2017

"Filho Rafael': menino do 'desenho no cartaz'


Hoje foi mais um Dia das Mães. Vivi, como é de costume, emocionada e reflexiva. Houve um tempo, na minha história de vida, em que decidi que seria uma mamma italiana. Entendi isso, como uma verdade, em mim, mesmo antes de conseguir ser mãe, de conseguir ser mãe adotiva e mãe biológica. Vivi também muitos Dias das mães sem filho, antes disso. Passei dez anos, tentando engravidar, lutando com um diagnóstico, ou vários... vários, até chegar em um deles, que se interpôs como se fosse uma fatalidade, para alguém tão amorosamente decidida a viver a maternagem...

Depois de dez anos de tentativas e exames e alarmes falsos, o médico me disse: “Não adianta, não adianta insistir. Você tem endometriose em grau severo. Não há como engravidar com esse quadro!” . Eu disse: “Dá.”. Ele respondeu: “Não dá, impossível. No teu caso, só um milagre!”. Eu retruquei: “Que seja, o senhor pode esperar. Eu vou engravidar, pelo ‘método tradicional’, pode acreditar. E, enquanto isso não acontecer, vou adotar crianças”. Foi assim que resolvi partir para adoção e tive os meus primeiros três filhos, até que um dia engravidei, biologicamente, da quarta filha.  O ‘milagre’ se fez e hoje tem 15 anos. Linda.

O traço de maternagem em mim tem sido uma imensidão de amor, uma avalanche de afeto de bem-querer-bem, que me mobiliza desde criança a ser cuidadora, amorosa, afetiva. Como eu disse uma vez, amor derramado, sem meias medidas. Talvez também por isso, até hoje, eu me lembre tanto do Rafael, um menino de uns seis sete anos, no máximo, que conheci de longe, numa situação muito forte. Vou contar agora.

Um dos meus filhos estava hospitalizado, o Dia das Mães se aproximava e eu pensava como seria difícil que ele não estivesse em casa. Para piorar a situação, a Clínica em que ele estava internado não permitia visita aos domingos, somente aos  sábados. Eu não me detive. Fui falar com um, com outro, até chegar no diretor e pedir a liberação da visita no Dia das Mães. Insisti, disse que não ia passar sem ver meu filho, que isso seria importante para ele também. Então me disseram que não poderia liberar a visita só pra mim. Aí eu disse: “Mas é claro! Liberem pra todas as mães! Não faz sentido!”. Bom, de tanto eu insistir, eles concordaram.

Chegou o domingo à tarde. Quando fui fazer a visita, havia uma fila, muitas outras mães felizes pela ‘decisão’ da clínica de liberar a visita no domingo. Era um acontecimento raro ali. Meu filho ficou muito feliz também e veio me encontrar com um cartaz na mão. Ele tinha feito um desenho para me homenagear, para expressar seu amor. Quando peguei a cartolina branca nas mãos, olhei e percebi que a folha estava dividida ao meio. Em uma parte havia um desenho, sim, de criança, em que podia perceber que eu havia sido desenhada com os outros manos. Na outra parte, havia alguns riscos dispersos. Não era possível identificar o que estava desenhado, mas se percebia que havia ali um esboço, não nítido. Não havia uma figura nítida....fiquei intrigada.

Perguntei, então, ao meu filho, o que significava aquela divisão. E por que, de um lado da folha, ele tinha feito aquele desenhos ‘diferentes’. Ele respondeu que aquela parte da folha não era dele, mas do Rafael, um outro menino que estava hospitalizado e que, ao saber da vinda das mães, como ele não tinha mãe, pediu emprestado ‘a mãe do meu filho’, no caso, eu, e um pedaço da folha de cartolina para ele fazer, pela primeira vez, um desenho para ‘uma mãe’. Meu filho disse: “Ele é meu amigo. Não tem mãe. Então me pediu para também fazer um desenho pra você!”. Bem, eu fiquei sem poder falar... emocionada, até o momento em que meu filho olhou para cima e viu o Rafael. Ele estava na parte superior da clínica, em uma mureta, acompanhado de um atendente. Olhava fixamente para nós, acompanhando o ‘momento da entrega do desenho’. Meu filho o apontou e disse: “É aquele, aquele é o Rafael!”. Eu me levantei, mostrei o cartaz e disse pra ele: “Rafael, querido. Muito obrigada. Eu adorei o desenho, é muito bonito! Adorei mesmo!”.

Bom, pensem  em um momento dramático. Lindo emocionante, de chorar. Os olhos do menino se iluminaram, ele abriu um sorriso imenso e dizia insistentemente para o atendente: “Tio, viu, ela é uma mãe, uma mãe de verdade. Ela gostou do meu desenho. Viu tio? Uma mãe de verdade gostou do meu desenho. Ela é uma mãe. Uma mãe de verdade”. Meu Deus, ainda hoje a expressão do rosto dele está na minha retina, nos meus olhos, no meu coração. Pensei muito no ‘meu filho Rafael’, o do desenho no cartaz, pensei também em todas as crianças que, como ele, vivem o Dia das Mães, em meio a toda a parafernália midiática, sem ter para quem doar um abraço, um traço, um desenho um afago e ter isso retribuído de alguma maneira. Pensei também nas mulheres que desejam viver a maternagem e não puderam, pelo aprisionamento de diagnósticos que sentenciam a impossibilidade.

Mais que nunca, entendo hoje que, apesar de todos os desafios imensos que a maternagem nos impõe, a opção vale muito a pena, quando é resultado de decisão profundamente sedimentada em afetos de bem-querer-bem consolidados. Nesse sentido, a adoção é uma linda possibilidade, tanto quanto a gravidez biológica. No cotidiano, não faz diferença, filho é filho, adotivo ou biológico. Eles vão se entrelaçando com a gente, tanto e imensamente, a tal ponto que vamos entendendo que sua presença nas nossas vidas faz parte de uma Escrita Maior.


Eu quero deixar aqui, meu imenso abraço para o ‘menino Rafael’, que, naquele dia, não pude abraçar, impedida pelas regras da clínica. Eu fiz o que eu pude. Tem sido assim, na minha vida. Eu faço o máximo que eu posso... para acolher, adotar e cuidar. Fica aqui o meu desejo de que ele tenha também conseguido uma mãe adotiva e que receba muitos abraços sempre. Que os anjos o protejam, assim como às outras crianças todas, em todos os dias!

domingo, 30 de abril de 2017

CONVOCAÇÃO PARA A PAZ ENTRE AS LEOAS!



A urgência do tempo, em alguns sentidos, tem me conduzido a refletir mais sobre, afinal, o que querem essas leoas em mim? Por que elas brigam tanto? Que tempo é esse que ainda tenho, para viver às turras, internamente, com os desassossegos tantos, entre essas ‘criaturas’ fiandeiras do meu destino. Para quem não sabe, as leoas são minhas versões de garra e luta, em diferentes instâncias da vida, de diferentes modos. Quem me conhece, nem sempre conhece todas as leoas... Costumo dizer que cada um tem a leoa que conquistou. Elas são, em certa medida (sem medida certa!) manhosas, dengosas, birrentas, bravas (no sentido italiano de valentia e no sentido brasileiro de fúria, às vezes. Em suma, melhor não provocar!). Claro, são também ternas, amorosas, sim, muito amorosas. Isso, todas são.  Cada uma a sua maneira.

Há pouco tempo, tive um indicativo de diagnóstico – que não se confirmou, após uma biópsia! – de uma doença grave, lenta e silenciosa, dessas autoimunes. No caso, a explicação da tal doença dizia que, por motivos desconhecidos, algumas células começavam a matar as outras ‘por engano’. Pensei imediatamente nas brigas das leoas internas, a Maria Luiza, a Malu, a Luiza, a italiana, com as tentativas, nem sempre bem sucedidas da Dra Cardinale, no sentido de acalmá-las.

Apesar da situação nada boa, nem alentadora, comecei a achar certa graça da situação. Tantas vezes conversava comigo mesma e com minhas células e dizia... “Olha, vejam só, vocês se conhecem há tanto tempo! Vão começar a se matar agora?”. E, em seguida, imaginava as células ironizando: “ Ops, desculpe, te matei né? Desculpa, tá, fica aí mortinha!”. Com alguns amigos mais preocupados comigo, amigos chegados, que estão mais por perto no cotidiano, eu comentava isso, até como uma forma de descontrair. Não há porque se ‘pré-ocupar’, numa situação dessas. Penso que apenas devemos nos ocupar... fazer o que tem que ser feito, sem dramas, nem nada. Foi o que tentei, depois do impacto inicial da informação.

Enfim, a situação prolongou-se por praticamente um mês, entre receber a informação de indicativo de diagnóstico e esperar o agendamento de biópsia, fazer a biópsia, aguardar o resultado. Uff! Tudo isso fazendo tudo que faço, em meio ao gerenciamento de uma família com cinco filhos, a vida nas universidades UCS-UFAM, os orientandos, aulas, clientes de supervisão de textos da Pazza Comunicazione, tudo urgente, tudo com prazo-lâmina, com eu costumo chamar, tudo pedindo atenção, em um tempo em que eu precisei de tempo de reflexão, para construir calma interna, até mesmo para abrir agendas para consultas, exames, agendamento disso e daquilo. Eu, literalmente, não tenho tempo (nem paciência!) para adoecer, nem para falecer. Lamento.

Foi tempo suficiente para compreender a grandiosidade da vida e da velocidade do tempo em que ela passa. Também foi possível pensar o que quero e o que não quero. Pensar que são verdadeiramente poucas as coisas pelas quais devo brigar, ficar brava. Resolvi, eu mesma, finalmente, aderir à campanha que lancei com meus filhos – também os filhos acadêmicos – brincalhonamente, há tanto tempo, cujo slongan é: “Preserve Malu, antes que acabe!”. Eu sempre argumentei: “Sim, há tantas campanhas ecológicas de preservação de seres em extinção. Por que não eu?!”. Enfim, esse é um dos meus traços, brincar comigo mesma, fazer graça, como alternativa, até porque pelo que vivi, se não tivesse feito isso, não tinha aguentado.

Enfim, tudo isso me fez abrir um chamado interno para a paz,  a paz das leoas. Não. Não é nada fácil. Nenhuma delas é ‘morna’, nenhuma é  simples. Cada uma delas representa um modo meu de levar a vida e todas querem ter voz em mim, sendo que nem sempre suas vozes combinam. Geralmente não combinam. Enfim, todos os acontecimentos recentes, as pressões e transformações do cotidiano, resultaram na fala da doutora, no sentido de que, com o tempo passando, já é tempo dessas leoas serenarem, cultivarem a paz, ainda que sem concordância. Enfim, muita coisa não importa mais. Não vai dar tempo mesmo de fazer tudo o que eu desejo, porque eu sempre desejei muito. É preciso aprender a abrir mão do que desgasta, do que não rende calma, paz e alegria, principalmente confiança amorosa. As leoas são a minha natureza. Com elas convivi todo esse tempo. O encontro com a natureza, para mim, é sempre o encontro com a matriz de força e, ao mesmo tempo, com a minha poética. Respeito isso, sigo buscando respeitá-las, cada uma a sua maneira, fazendo graça com a choraminguice da leoazinha Luiza, tendo paciência com a impetuosidade da Malu e com a ranzinzices perfeccionistas da Maria Luiza, assim como dando espaço para a intensidade vulcânica da italiana. Assim, diante de tudo e depois de tudo, proponho um Tratado de Paz, entre elas... vamos ver quanto tempo dura!

Bem, pra quem não advinhou ainda quem está escrevendo, assino: Dra Cardinale.


sábado, 15 de abril de 2017

PAREDES DE HOSPITAL SÃO TELAS DE MEMÓRIA!

A experiência de ir a um hospital pode significar um episódio existencial curioso, ainda mais se temos o ‘defeito de fabricação’ de sentir, observar, refletir de modo intenso sobre tudo. É o meu caso: tenho a mania de ‘mergulhar na cena’, com a intensidade de quem se investe do personagem de um roteiro construído para ganhar prêmios. A lógica é a seguinte: se é pra viver, entrar em cena, então vamos ‘na base da plenitude’, vamos com tudo. Parabéns, Maria Luiza, em geral, isso é bom, mas, às vezes, também, traz uma avalanche de sentimentos com a qual é preciso lidar. É o caso do que pude entender, quando me veio à mente a tal frase: “Paredes de hospital são telas de memória!”.

Estive recentemente no hospital da Unimed, em Caxias do Sul, para um 'procedimento' relacionado a minha própria saúde. O procedimento é razoavelmente simples, mas envolvia cirurgia, frequentar o centro cirúrgico, portanto, e passar por toda a parafernália de preparação, até usar aquela ridícula camisola aberta atrás, associada a uma touca de cabelos e sapatos de panos. Quer dizer, o quadro da dor, por ficar meio ‘coisificada’, numa espécie de ‘boneco humano’, que vai passar por um ‘procedimento’. Não há como se sentir confortável numa cena dessas.

Pior, me pediram para tirar os óculos. Gente, eu sou muito míope. Sem óculos, fico entregue a um mundo embaçado. Lembro de um professor da USP, Eduardo Peñuela Canizal, da disciplina de Poética das Mensagens Não-Verbais. Ele dizia: “na imagem, as zonas de não nitidez são espaços de encontros com o inconsciente”. Bom, no meu caso, sem óculos, tudo o que eu vejo são zonas de não nitidez, quer dizer, a possibilidade de encontro com o inconsciente é 100%. 

Bom, além disso, há o tempo de espera e, claro, as paredes. Não sei se alguém já pensou nisso, mas as paredes de hospital, nesses tempos de espera ganham vida. Pior que isso: ganham vidas passadas. São telas de memória. Eu tive o ‘privilégio’ de passarem um paciente na minha frente e, em função disso, tive mais tempo para ‘assistir às paredes’. Experiência forte. O tempo de espera me permitiu rever, na tela de memória, muita gente e muitas cenas vividas. Claro que, na brotação de memórias, eu reconheço uma edição dos momentos, pela intensidade de afetivação. Brotaram, na tela parede, momentos bons e ruins. Momentos da batalha da vida, quase constante, e dos hiatos significativos de felicidade plena, os momentos de maior expressão amorosa. Penso que é disso que é nutrida minha passagem por aqui. 

Sim, foram os amores que ganharam mais espaço e desfilaram na tela, nas diversas situações. Amores diversos e de diversos tipos. Fui sentindo, observando e refletindo o quanto o amor se mostra de diferentes maneiras e se associa, nesse sentido, a diferentes pessoas, nos múltiplos momentos da vida. Eu sou profundamente grata por todos os momentos e seres que me ensinaram e possibilitaram a viver o amor, em suas múltiplas expressões. Disso, fiz meu sustento existencial, no que é, para mim, o principal alimento, a confiança amorosa! Claro que, nem tudo são flores, nem mesmo nos episódios amorosos. Nem sempre os desfechos correspondem à proporção do sentimento investido, porque  o amor não segue a lógica do mercado financeiro, amarrado com controles rígidos. Vale dizer, que mesmo esses mercados estão sujeitos a intempéries e tempestades que, tantas vezes, parecem devastar tudo. Com o amor, não é diferente.

Sinto, no entanto, que o amor tem mais a ver com a agricultura, com o aprendizado do cultivo da natureza e poética de semear e ser semeado, com o encanto de sentimentos profundos. O amor parece ir penetrando as camadas mais fundas de nós mesmos, instalando-se, espalhando-se, fazendo-se dono do corpo físico e abstrato. O amor, o amor messsmoo, atinge camadas profundas da alma, do nosso espírito. O amor não fica na superfície. Não é rápido, não é fugaz. Não há tempo, não há acontecimento, não há tempestade que desfaça o que atingiu os substratos profundos. Bah!

Diante da tela da memória, então, fui revendo a vida toda. Emocionada comigo mesma, num tempo raro de parar e deixar-me estar ali, ‘re-vendo’ tudo. Também pude reforçar algumas percepções que já tinha: tudo é muito rápido. A vida passa muito rapidamente. Altera-se, com o tempo, a própria noção de tempo e a constatação de que ‘a vida inteira’ é uma sequência de flashes. Há que se viver mesmo, intensamente, porque, quando se vê... já se foi. Isso reforça, em mim, a valorização do estar junto, da preciosidade que é cada instante de estar junto às pessoas que amo.

Mais que nunca, esse é o meu grande desejo e investimento existencial, sempre que possível, especialmente como desejo compartilhado: conviver, viver com, ‘com-viver’. Como eu disse esses dias, para um dos meus filhos, é preciso saber reconhecer onde estão os portos-seguros, o resto é tudo ‘viagem’! 


domingo, 2 de abril de 2017

Desapego aos ‘parágrafos’, no texto e na vida!

Nesta semana, em uma das orientações, um detalhe me chamou a atenção: um parágrafo insistente, meio que encrustado no texto da minha aluna, desses que se negam a ir embora. Sim, o parágrafo não estava bem ali, era visivelmente algo que atrapalhava o fluxo do texto. Eu tinha tentado sinalizar para a pesquisadora. Cuidadosamente, propus que aquela lógica de escrita fosse aproveitada e que ela iniciasse o texto com sua experiência pessoal, que ali estava inscrita, mas que adaptasse à condição vivida na pesquisa, que seria interessante e tal e tal. Entendi que havia uma força, uma energia naquela ideia. Ela sorriu satisfeita. Na orientação seguinte, trouxe o parágrafo deslocado, mas, quando fui ver, estava ele ali, intacto, ‘imexível’, firme, como quem diz: “daqui não saio, daqui ninguém me tira”. Ele, o parágrafo, ‘em pessoa’, digamos assim. Bem, foi daquelas situações em que se tem que parar tudo e conversar sobre o assunto, no caso, sobre a necessidade de desapego aos parágrafos, no texto e na vida.

Desde minha pesquisa na USP, sobre processos de escrita de jovens adultos, como expressão da subjetividade e da relação com os meios de comunicação, tenho muito claro o quanto o texto é uma trama que expressa outras tramas mais profundas, mais densas, internas e externas. Então, o que está ali, inscrito, não apenas significa pelo conteúdo, mas também representa um processo de inscrição, em que o sujeito vai se marcando, inscriacionando, ins-cria-acionando e se entregando ali, marcado, com suas marcas profundas.

O que me interessa refletir, neste texto, no entanto, é menos o texto da minha orientanda e mais a ousadia dos parágrafos que insistem em não ir embora. Sim, porque, os parágrafos representam núcleos de ideias, blocos de pensamentos. Assim devem ser. Então, acontece, muitas vezes, que temos alguns parágrafos-blocos de pensamentos que se constituem com tanta força, que parece que se grudam em nós mesmos, como se parte de nós fossem e, pronto, se tornam, eles mesmos, parte de nosso corpo, do nosso jeito. Quando vemos, estamos de novo dizendo o mesmo trecho de texto, refazendo o mesmo enredo, revivendo a mesma trama. Culpa de quem? Culpa de quem? Dos parágrafos, que não vão embora de nós. Sim, preciso agradecer minha orientanda que, com seu ‘parágrafo teimoso’, me ajudou a perceber isso tão claramente.

A gente passa a vida tentando seguir Viagem, inventar o próprio destino, ser sujeito do próprio texto e, quando vê, há um parágrafo, um especialmente – há outros encrustados nos meandro internos, mas um deles com mais força – que insiste. Se você resolve fazer outros caminhos narrativos, não adianta, quando vê, ele despenca na sua frente e vai se imiscuindo no texto, meio rindo, se fazendo de desentendido, e pronto. Está ele ali de novo, majestoso, no seu texto cotidiano. Sem constrangimento. Eu já devia ter percebido isso. Não sei como a Madeleine, minha personagem que se diz esperta, não me alertou. Um parágrafo que deve fazer parte de um grupo internacional de parágrafos, que se dedicam especialmente a perseguir pobres escritoras desavisadas e reaparecem frequentemente como fantasmas, como corpos extraterrenos, como espíritos vindos de vidas passadas e se colocam diante de nós em praças, ruas, dentro dos ônibus, na universidade, nos lugares os mais diversos.

Claro, eu reconheço, os ‘parágrafos’ insistentes têm seus encantos. Não fosse assim, não vingariam como parágrafos-grude-na-memória. Esse é verdadeiramente um dos seus problemas (e dos meus!). Mais que nunca, percebo que escrever é como viver; escrever para mim é minha própria vida. Então, vou seguir, por aqui e ali, escrevendo enquanto posso, tentando reconhecer os incidentes dos parágrafos esses, agradecê-los todos, porque têm graça e alegria, mas também seguir inscriacionando-me de outras maneiras e produzindo parágrafo novos.

No mais, recomendo refletir sobre os parágrafos insistentes, sobre as causas disso, sobre o quanto que, de certa forma, contribuímos, para que esses blocos de pensamentos, fiquem ali e aqui dentro de nós.  Entendo que a trama da vida é complexa. O enredo do nosso destino é escrito por um Autor maior, que parece, às vezes, brincar conosco e, quase sempre, nos desafiar, oferecendo situações que nos põem à prova. A volta e revolta e insistência dos parágrafos esses deve estar ‘no pacote’ de experiências previstas, pelas quais devemos passar. Fico pensando: como vamos ‘sobre-viver’ aos parágrafos insistentes, no plano do bloco de pensamentos e nas microssituações cotidianas em que eles reaparecem? Como vimos e vivemos, não há respostas, só texto a ser produzido, de novo, todos os dias, só a Viagem ainda em andamento... é um exercício constante. Vamos adiante, então, que o caminho é longo e vamos de mãos vazias, com os parágrafos já escritos e vividos, no coração e na mente. Uff e que bom, ao mesmo tempo! Sempre é tempo de tentar aprender a lidar com parágrafos cristalizados no substrato profundo de nós mesmos! Eu espero que seja assim, ao menos.

sábado, 25 de março de 2017

‘Encontro-abraço’ e a palavra!




Eu trabalho com a palavra. Em grande parte do tempo, meu trabalho, minha vida, envolve o trato com as palavras. As palavras e o pensamento. Falo, escrevo, reviso textos, analiso falas, converso com as pessoas, nas mais diversas situações, e penso, reflito, procuro entender... Todos os dias, dedico-me a aprimorar a lida com as palavras, a ajudar as pessoas a se expressarem, oralmente e por escrito. Há muitos anos, estou voltada a ajudar as pessoas a se autorizarem a serem autores. Esse é um dos meus sustentos existenciais. Inscre’ver-me’ e ajudar outros a se inscre’verem-se’!
Eu também penso muito na vida e nas palavras. Penso sempre nas palavras que disse, que escrevi e, claro, nas palavras que li e que ouvi. Fico, às vezes, refletindo sobre a composição das palavras, com essa misturas de sons e, no caso escrito, letras, que vão se juntando, meio que se entrelaçando e que, depois disso, produzem sentido para os iniciados, para aqueles que aprenderam os traços básicos da significação, da palavra falada ou escrita em determinada língua.

Se formos pensar bem, é sempre uma espécie de mágica, que eu escreva uma palavra como ‘flor’ e o meu leitor imagine uma flor. Uma mágica da relação, do processo de aproximação entre os seres que vão compartilhando experiências de significação, até a mágica situação de alguém, como eu, escrever ‘flor’ e outra pessoa imaginar ‘flor’. Ainda que haja variações entre a flor proferida, dita, escrita e a flor imaginada, haverá confluência, encontro, em termos de significação, e o ser leitor receberá do escritor traços básicos de flor e, por isso, também, a comunicação, o encontro complexo de seres em significação, florescerá! Sim, mágica!

Também penso muito na quantidade de palavras circulantes contemporaneamente, que não têm alma. Palavras desalmadas, sem substrato de significação. Por alguma aberração da natureza humana e das relações, muitas pessoas desenvolveram uma falha do processo mágico e produzem palavras sem substância significacional. Quer dizer, as palavras são ditas, escritas, as pessoas que as ouvem ou leem tendem a produzir interpretações, guiadas pela lógica inerente à construção  da palavra, e depois, deparam-se com abismos existenciais ou relacionais. Algo se interrompe na mágica da palavra que existiu. Seria algo da ordem da ‘traição das palavras’. As palavras traem a significação da cena, porque não tinham substrato significacional suficiente que as mantivessem como ‘palavras ditas’ (ou escritas!).

Então, tantas vezes, paramos, olhamos para trás e pensamos: “Mas e o que foi dito? E as palavras tantas ditas, trocadas? E as combinações feitas?”. Surge, então, um natural estranhamento, porque, no momento da enunciação da palavra proferida, tudo parecia tão verdadeiro: o momento, o som das palavras, o aninhamento dos sons e, depois, das palavras, elas mesmas, aninhadas em frases. Tudo parecia fazer um sentido alinhado com cenário, personagens, enredo, energias. Por isso, talvez, seja tão estranho depararmo-nos com o despenhadeiro de sentidos... descobrir que, apesar de cena ser verdadeira, a profunda intensidade de significação da palavra não era. Desfez-se em nada, como se fosse uma cena de novela, que apesar da aparência de verdade, rompe-se drasticamente, no momento em que alguém grita: “Corta”.

Talvez seja um pouco esse o motivo! Inebriadas com o envolvimento das produções audiovisuais e a midiatização das relações, as pessoas talvez tenham se acostumado com o fato de que a cena não é a cena vivida, mas a cena representada. A cena criada para gerar tal envolvimento emocionado e produzir tais resultados, segundo os interesses do roteirista e diretor. Assim, tantas vezes, me pego perguntando: “Quem escreveu essa cena? Que texto é esse que aparenta tanta verdade e que, depois, se mostra tão sem significado, na continuidade dos acontecimentos?”.


Difíceis tempos de esvaziamento das palavras. Ainda mais para mim, intensa e amorosa por natureza, com as pessoas, com a vida, com as palavras. Cada palavra, para mim, é uma oração à vida. Carrega minha singela e intensa verdade. Nas minhas palavras, acredite, você vai encontrar meu corpo, minha alma, meu espírito, minha transposição em ser intenso, em verdade, que permanece em coerência à cena da palavra proferida. Quem recebe meu texto, em alguma circunstância da vida, me tem, de alguma forma, e para sempre, na minha melhor forma possível, daquele momento. Em cada letra ou ínfimo som produzido, estou eu mesma inscrita, entregue, aninhada, buscando repetir a mágica do encontro com o outro, encontro-abraço! Encontro-abraço-comunicação!

domingo, 12 de março de 2017

Sob o rugir das tempestades

Acordo em Porto Alegre, ouvindo rajadas de vento, chuva forte, trovões que aliam a relâmpagos. Tempo turbulento, pensei. Tempos turbulentos, renovei o pensamento. Muita coisa acontecendo, nesses tempos, muita coisa inacreditável. Desafios cotidianos, no sentido de levantar e seguir adiante, sem pestanejar, sem melodramatizar, sem reclamar nem nada. Só levantar, respirar profundamente e seguir.

Sinto-me, às vezes, peregrina, viajante nessa ‘longa estrada da vida’, para lembrar a música aquela. Apesar da condição de força, que fui adquirindo com o tempo, algumas coisas me doem mais, eu sinto mais, eu sinto muito, literalmente. Inspirada nos treinos de karatê, quando isso acontece, recolho-me, volto pra ‘base’, firmo o eixo de mim mesma, respiro e me preparo para o que vier. Atenta, ali, aqui, doendo mesmo, eu sei que a dor faz parte e que o mais importante é serenidade e estratégia, para acionar energia e força, orientada pelos princípios de vida que me regem: amorosidade e bem-querer-bem, sempre! Eu tenho uma matriz de força potente, forjada ao longo dos anos, na dureza, no enfrentamento de muitas situações adversas. Doce e dura, como eu costumo me definir.

A questão é que, nesses tempos, como eu tenho dito, vivemos em uma guerra em sentido amplo, infelizmente. Para lembrar uma expressão dos jovens contemporâneos... ‘não está sendo fácil’, no plano coletivo e pessoal.  No plano coletivo, vivemos sob rajadas de narrativas e sob o bombardeio de frases de efeito, frases pensadas por políticos inescrupulosos, para causar efeito de impacto e distrair a atenção das pessoas de suas ações. São frases disparadas com rigor de absurdidades e que, estrategicamente, agendam o pensamento, as falas, as postagens, as conversas, enfim, ocupam o tempo das pessoas, especialmente, as que compreendem que são frases absurdas. A questão é que essas frases são rajadas de narrativas que servem para distrair a atenção do que, efetivamente, interessa. A pauta, então, é deslocada das ‘ações’ para as ‘declarações’. A discussão e o tempo de produção de comentários, debates, reflexões passam a ser tomados pelo efeito das declarações, propositalmente absurdas, deploráveis, mas cujas consequências são infinitamente menores do que as ações que seguem feito um câncer, destruindo um corpo social construído, a duras penas.

Nesse sentido, eu chamo a atenção para o fato de que o texto tem que ser lido compreendendo quem é o autor do texto. O texto de fala, também. Quer dizer, que lugar é esse de onde esse ser fala? Seria possível a produção de outro texto? Eu deveria esperar outro  tipo de texto? Ou, o que está por trás dessa fala, propositalmente agressiva, para a sociedade ou para o grupo ou para mim mesma? O básico a se compreender, nesse sentido, é que há o texto dito e há a intenção do texto. Às vezes, há até mesmo o texto que não é dito, mas que tem que ser lido como texto, como informação, justamente produzida pelo silêncio.

No plano das relações pessoais, observo frequentemente a emergência de frases impensadas, resultado, muitas vezes, de um estado de perder-se em si mesmo e de dificuldade de enxergar o outro. Há um aumento da ansiedade e da sensação de que estamos numa nau à deriva, em certos momentos, sob o efeito das tais rajadas de ventos e tempestades.  Uma nau que vai sendo jogada contra os rochedos. Os rochedos podem ser, até mesmo, as próprias pessoas próximas, que perdem a condição de ‘porto seguro’ e se mostram insensíveis às necessidades mínimas de atenção e cuidado, paciência, empatia. Vejo-me, tantas vezes, como nos exercícios de karatê, tentando, tentando, fazendo de novo, renovando a atenção e dedicando-me a fazer o movimento ‘mais limpo’, mais preciso, mais firme, mais flexível ao mesmo tempo. Dou-me conta que sou sempre iniciante, em tudo na vida. Sou aprendiz eterna, ainda que essa eternidade vá se transformando, pelo modo como essa minha existência se expressa. Como eu tenho dito, recentemente, brincando e falando sério ao mesmo tempo, eu já estou treinando para ser alma.

Entre as minhas reflexões tantas (até porque, afinal, esse é um dos meus sustentos existenciais), nesses tempos de “Meu Deus!”, fico pensando: em que porto perdemos nosso coração? Em que momento soltou-se o fio de humanidade entrelaçada? Como acionar, em cada um, o olhar mais atento, a escuta mais apurada, a sensibilidade na pele, para que a preparação cotidiana seja de acolhimento, seja no sentido de ajuda mútua, de preservação e respeito pelo que recebemos?
Na minha condição viajante-peregrina, eu sei que vou sempre embora, em algum momento vou... mas enquanto estou por aqui, sigo tentando encontrar caminhos... com o olhar atento e os braços abertos para o bem-querer-bem. Igualmente, sigo revendo as bases de mim mesma, com o corpo e espírito prontos, para o que vier, em condições de defesa, para não ser abatida pelas rajadas de ventos e tempestades e pelas agressões cotidianas. A vida também tem seus revezes, e não são poucos. Eu também me preparei para eles. Em síntese, no plano pessoal e coletivo, respiro fundo e procuro ler os acontecimentos na sua complexidade. Não me detenho em declarações apenas... procuro ler o texto maior, da sequência de acontecimentos, ações, e da autoria do texto. Isso, às vezes, dói mais que o texto expresso, em si.


quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Poeira nos Olhos



Há uma tendência importante na fala dos políticos contemporâneos. São tantos absurdos, de tamanha magnitude, sendo verbalizados ao mesmo tempo, que eu começo a pensar que é de propósito. Como se fosse uma estratégia narrativa de produção de absurdidades, para, através das rajadas disparadas diariamente, ir estonteando a população, que se debate comentando nas redes sociais, repercutindo, argumentando que isso é mais absurdo que aquilo, e ainda mais que aquilo outro. Vejo muita gente com ‘poeira nos olhos’ e com os ouvidos entupidos, com um zumbido constante, que, ao que parece, vai demorar a passar.

Fico pensando: assim fica difícil, a gente não dá conta de analisar, comentar, discutir, tantas e tamanhas são as aberrações. E talvez essa seja a intenção. Enquanto nos ‘distraímos’ com o bombardeio de destemperos verbais, frases inimagináveis, impublicáveis em princípio (mas que acabam ocupando grande espaço midiático exatamente por isso), são tomadas decisões diariamente, que estão transformando tudo no pais e no mundo. Para pior, para muito pior.

Preocupa-me, então, a possibilidade de estarmos diante de uma usina de barbaridades discursivas, ‘de caso pensado’, para chamar a atenção, para fazer barulho, enquanto se produzem outras, ainda mais importantes, narrativas. Eu costumo dizer: decisões também são texto. E texto de caráter também gravíssimo, com consequências também dramáticas. Assim, interessa-me saber e ver publicizado, também nas redes sociais, na internet, quais documentos foram assinados, que decisões foram tomadas, quais as ações efetivas a curto, médio e longo prazo. Percebam, há um mar de asneiras ocupando um espaço gigantesco de discussão, enquanto a vida vai se transformando drasticamente diante dos nossos olhos, aqui, na prática, no dia a dia. Olhos cobertos de poeira; de lama, talvez fosse mais correto dizer.


Grandes mudanças vão ficando submersas diante de frases de efeito tão grandioso, capazes de suplantar ações também gigantescas, mas que se fazem encobrir pela lama narrativa que predomina atualmente. Muito lixo, ao que me parece, muito lixo narrativo provocado, para ocupar majestosos espaços midiáticos, enquanto na prática ações e mais ações vão nos fazendo afundar em uma lama ainda mais profunda. Que ninguém se engane, o mais dramático não é o que os políticos dizem, mas o que eles não dizem, mas fazem, o que eles negam e continuam fazendo, o que eles justificam com os absurdos que vão sendo impostos goela abaixo, de um país envolto em narrativas, meio bêbado com personagens midiáticos aqui e ali, que mais parecem arcaicos seres saídos de folhetins de épocas passadas. Tempos realmente difíceis. 

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Viagem é sempre uma ‘viaaagem’!

Viagem é uma viagem. E a redundância aqui é proposital. Sim, porque a viagem acontece como acontece, e não do jeito que a gente idealiza. É preciso, então, aproveitar a viagem como ela se faz. No mais, o que completa a viagem são nossos passos, nosso olhar para tudo e nossa capacidade de viver o que se fez, independente de nossa expectativa. Defendo a atitude de viver a viagem como ela vem, assim com seu jeito próprio, sua dimensão de inusitado, de imprevisto. Isto já é uma grande Graça! Caso contrário, você pode se condenar à frustração, antecipadamente, porque idealiza o resultado de algo sobre o que não tem nenhum controle, o devir viagem, o acontecimento seguinte e o seguinte e o seguinte e o seguinte... e isso vale para muitos tipos de viagens.

Quem me conhece sabe que amo viajar. Hoje, sou até mesmo uma estudiosa do Turismo e, nessa área, minhas pesquisas envolvem a interface Turismo, Comunicação e Subjetividade. Assim, venho estudando, especialmente, algo que pode ser denominado como desterritorialização, ou seja, o processo em que o sujeito ‘perde o chão de si mesmo’, sai do seu território, no movimento de deslocamento do Turismo, nas práticas da Comunicação e, mesmo, na ‘viagem’ que se estabelece na produção do conhecimento. Na prática, como eu tenho dito, em todas essas áreas que me interessam, está em jogo uma ‘viaagem’, para usar uma expressão bem humorada, que é dita tantas vezes, alongando o som da palavra, em forma de brincadeira. “Isso é uma viaaaagem!”. Só que, no caso aqui, estou falando sério.

Lembro-me de uma vez que fui viajar para São Paulo, com meus quatro filhos. Na época, já era divorciada. Decidi ir para a casa da minha mãe, no interior de São Paulo. Então, comprei uma passagem mais barata, com embarque previsto para cinco para meia-noite. Bem, eram muitas passagens, eu precisava economizar. Era um período particularmente complicado, na aviação, os voos sempre atrasavam (agora só atrasam quase sempre). Enfim, cheguei ao aeroporto com as crianças ávidas de vontade de viajar, animadas, mas já cansadas. Elas eram pequenas. E eu, doida, claro. Viajar sozinha com quatro crianças, à noite. Enfim, era o que podia. Viajar para mim, é uma viaaagem! Eu topo! Faço esforço, crio condições e vou, como posso. Nunca reclamo, sempre agradeço. Assim tem sido sempre.

Então, chegamos ao aeroporto, e a moça do guichê da companhia (que não me lembro mais qual era) me disse: “Senhora, o voo de vocês está atrasado, sem nenhuma previsão de embarque!”. Hum, as alternativas eram poucas. Praticamente nenhuma. Voltar para casa naquela hora, com as quatro crianças, tentar remarcar as passagens ou esperar no aeroporto.   Sim, decidi esperar no aeroporto. Juntei bagagens de mão (quem tem filho pequeno sabe quantas são!) e os filhos. Fomos para a área de alimentação. Conversar qualquer assunto com filhos italianinhos é mais fácil diante da mesa, com comida.

Assim, ali, lanchando, disse: “Olha, vou contar uma coisa para vocês. Nós vamos viver uma noite de aventuras no aeroporto!”. Lembro até hoje, enquanto comiam, eles me olhavam curiosos: “Noite de aventuras? Como assim?  O que foi? Aventura como? A gente não vai mais viajar? Que foi?”, disparavam perguntas, como metralhadoras. Eu, em meio às rajadas de perguntas, respondi do alto da minha calma de mãe (não me sobrava alternativa!): “Calma. Eu explico. A moça disse que nosso voo está atrasado, sem previsão, quer dizer, ninguém sabe quando vamos embarcar. Então, enquanto isso, vamos comer e passear, passear bastante pelo aeroporto. Vai ser muito divertido!”.

Naquele momento, eles acreditaram e, claro, toparam a noite de aventuras. Fizemos isso o quanto aguentamos. Até que, não podendo mais caminhar de um lado para outro, fomos para a área de embarque, onde havia mais uma centena, sim, uma centena de pessoas que lotavam poltronas dispostas no saguão, como se fosse o próprio avião em maquete. Giulia e Pietro, os mais velhos, tinham na época em torno de nove e oito anos, adormeceram logo. Giuseppe e Chiara, cinco e quatro anos (se bem me lembro!), no entanto, permaneceram agitados. Já era madrugada. Corriam de um lado para outro, especialmente quando viam um funcionário da tal companhia aérea. Iam ‘buscar informações’. Depois, diante da multidão das pessoas sonolentas, eles transmitiam o último boletim: “Ele disse que ainda não tem previsão!” e davam boas risadas. Pareciam estar brincando de repórteres de tevê.

Enfim, a noite seguiu dessa maneira, até por volta de quatro e meia da manhã, quando embarcamos para São Paulo. A viagem nunca mais saiu da minha memória. Estar ali, sozinha com os quatro, preocupada com o que sentiam, com o modo como suportariam o cansaço, com o que eu faria no momento que nos chamassem para embarcar, se os quatro estivessem dormindo e eu não conseguisse acordá-los. Esforço também para não ter sono, preocupada com o ambiente de aeroporto, que, sei bem, exige sempre atenção especial, quando se trata de crianças por perto. Os olhos pesavam, o cansaço era imenso, mas eu entendia que tudo isso fazia um sentido maior, que a vida mesma é assim, quando se viaja, quando se tem filhos, quando se tem ‘pessoas sob a nossa responsabilidade’. É preciso lidar com os imprevistos, ter paciência, acalmar e acomodar os passageiros, os nossos acompanhantes de viagem, ter cuidado com cada um e atenção às suas necessidades.

Gostei do desfecho, do modo como lidei com a situação, apesar do cansaço, da exaustão que sentia naquela madrugada. Percebo que ela não é diferente de muitas que senti, em outros diferentes momentos da vida, uma mistura de exaustão e calma estratégica, entendendo que só a calma pode me ajudar a sobreviver o momento. Na verdade, quando falo de viagem, falo também da Grande Viagem, a vida. Essa é uma das minhas temáticas preferidas, para pensar e escrever...há sempre muitos imprevistos a enfrentar, intempéries, há também lindos visuais depois de curvas nas estradas ou mesmo no céu, durante os voos. Há encontros e desencontros. Pessoas que conhecemos, reconhecemos e reencontramos nas viagens. Há companheirismos consolidados em viagens e amores que podem ser (re)conhecidos. Assim tem sido comigo, venho acumulando histórias e parcerias de viagens, lidando com o caráter de mutação inerente, com a desterritorialização também em mim... a mutação constante, a necessidade de me reinventar, de também de me reencontrar nas viagens, na Viagem, também na viagem de escrever-me!




domingo, 1 de janeiro de 2017

Sobre inícios... e (re)inícios...

Gosto bastante de pensar em inícios, reinícios, desfechos, em finais que não terminam e em inícios que surgem do que já existia. Sim, porque nada começa do nada. Há sempre algo que antecede, ainda que esse ‘anterior’ seja de outra matéria, substância, jeito. Assim, penso que é preciso atenção aos processos, aos sinais de brotação e, também, paciência com o devir, o que deve vir a ser, porque ele decorre do que nós produzimos (ou foi produzido em nós) antes.

Em cada tempo, percebo sinais de entrelaçamentos com os tempos anteriores. Gosto de seguir as pistas, as trilhas do tempo e ver a vida de enredando, entrelaçando, assim, tecida pelas deusas internas, nossas ‘moiras’. A compreensão da roda da fortuna, que conheci no Tarô Mitológico, uma espécie de roda do destino, que vai sendo tecida pelas Moiras. Essa roda é responsável pelas grandes guinadas da vida. Com o contato com as Moiras, fiandeiras sábias que vão costurando os fios do destino com os das nossas ações vamos entendendo que é disso que resulta o devir, o futuro, o que virá a ser de nossos dias.

Assim, isso me lembra de uma de minhas falas clássicas, quase um ‘bordão’, em que digo que, apesar da beleza da infância, é preciso aprender a abrir mão de algo desse mundo: o fatalismo! Sim, porque a criança não tem noção do tempo. A relação entre tempo e espaço é algo que vai se construindo aos poucos. Desse modo, ela não compreende o ir e vir, as voltas que vida dá. Não sabe ainda a sequência de amanhãs e o quanto tudo é transitório e passível de ser alterado com gestos, movimentos, atitude (ato no todo).

A criança quer ir ao supermercado com a mãe e isso é uma questão existencial. Não ir, significa uma tragédia, uma perda aparentemente fatal. Agora, como lembrança, rio às vezes da cena, em que algum dos meus filhos se definhava em lágrimas, diante da negativa. Era como se eu partisse para sempre. Era como se o estivesse condenando à infelicidade perpétua. Eu sabia que não era, mas a cena era dura de viver, assim mesmo. Só o tempo me ensinou a respirar fundo, ver um filho ou filha se definhando em lágrimas e entender que, aquilo, aquela cena é que o(a) ajudaria a viver os devires, a compreender a ‘vida como ela é!’, nas suas nuanças, na sua mutação inerente.

Então, diferente da criança, o adulto (em geral) já aprendeu que a vida tem idas e vindas. A roda da vida gira, gira, gira, faz voltas e a gente reencontra, revive, repensa, reescreve a nossa própria história, aprendendo novos traços, acumulando saberes e sentimentos e compreendo que nada, absolutamente nada, é pra sempre. Uma das graças desse meu momento de vida é entender que uma variação nessa ideia é o amor. Sim, porque, se o amor também não é pra sempre no seu jeito, no seu modo de existir, quando ele floresce em nós é porque camadas profundas de afetividade foram acionadas. Essas camadas acionadas produziram um substrato denso, que jorra continuamente uma seiva que, ao mesmo tempo, realimenta e germina, gera substâncias que resultam intensidades abstratas, que desencadeiam todo o processo de novo. Assim, o amor se realimenta, se reinventa, de autopoietiza.

Gosto de saber isso. Gosto de compreender os entrelaçamentos do amor e que, feito bem feito, acionado o amor, ele permanece, ainda que não permaneça no mesmo estado. Vez por outra, o amor dá sinais claros que sempre esteve ali, mesmo que a vida mude, mesmo que a vida passe, mesmo que existam oceanos de distância entre seres e mundos de amores. O amor segue exalando sua potência e, na confiança amorosa, é sempre mais fácil ‘seguir viagem’, em amor, enamorada!

Assim, começo o ano sendo grata pelos amores na minha vida e me comprometendo a seguir viagem ‘a-mando’ do meu coração!