quinta-feira, 2 de novembro de 2017

‘Segredos de liquidificador’ em sala de aula

Na minha frente, apresentando a análise de peças gráficas, um aluno treme, em sala de aula. Mais correto seria dizer: o aluno vibra, seu corpo estremece e se mostra em uma emoção alterada. O jornal, em sua mão, objeto empírico da análise, vai mostrando, ‘traidor’, que esse ser estudante tem a emoção à flor da pele. Ao mesmo tempo, ao falar, ele esboça um riso de quem se sente satisfeito pelas ‘descobertas’, pelo que pode enunciar de saber construído. Ele tem a emoção de aprender, assim, ali, visível aos nossos olhos, com um corpo que vibra, independentemente de sua vontade consciente. Eu me lembrei da canção "Codinome Beija-flor", de Cazuza, especialmente pela expressão "Segredos de liquidificador"!

Fiquei pensando que também a educação, o conhecimento, quando vividos com amorosidade e intensidade podem emocionar e nos desafiar como seres inteiros, com nosso ‘corpo vibrátil’, para lembrar um conceito da Esquizoanálise, uma das teorias que estudo. A emoção é diferente, da referida pelo poeta Cazuza, mas também é avassaladora e mobilizadora do conjunto do ser, feito corpo, alma e mundaréu de afetos. Somos seres complexos, em corpos que vibram e entram em sintonias com energiais circundantes e transversalizantes. E essa vibração não segue ou serve ao intelecto, nem se limita à materialidade do corpo, em si, mas diz respeito ao que nos emociona, o que nos põe vivos, o que nos transversaliza de emoção ‘derramante’, que nos mobiliza como seres inteiros e nos põe prontos para nos mostrar, nos entregar, de alguma forma. 

Nesse sentido, o encontro amoroso, com a emoção de quem encontra o outro e se emociona por isso, assim como a apresentação de um trabalho, a aula, a palestra, são situações que podem nos colocar em condição de estremecimento, de alteração nas vibrações emocionais e físicas, a tal ponto que isso transpareça, se faça visível. Isso ocorre em cada momento em que nos ‘enviamos’ para o outro, nos expomos, nos dispomos para, na entregar, sermos tocados pelo corpo ou pelo olhar do outro. Quando a situação nos emociona grandemente, nosso corpo vibra e, às vezes, essa vibração se expressa em tremor, em vida que jorra, nas suas variações, em riso, em choro, enfim...

Eu me lembrei também de outra canção, essa de Caetano Veloso, intitulada Força Estranha. Na letra da música, ele diz: “Eu vi um menino correndo/ Eu vi o tempo brincando ao redor/ Do caminho daquele menino”. E nesse momento, eu também vi o tempo, o tempo de docência, outros tantos meninos-moços, como aquele que, emocionado, apresentavam seu trabalho, com esforço e alegria. Lembrei-me de alguns, em especial, preparando-se para as primeiras apresentações de pesquisa, esforçando-se para se mostrarem corajosos e, com a voz embargada e certo estremecimento, mostrando a mim e a si mesmos a emoção de crescer e aprender, de se mostrar em cenas mais desafiadoras. Emociona-me o fato de que, sendo educadora, eu acompanho seres em processo de construção de projetos de vida, seres que investem muito mais que dinheiro e tempo; investem sua emoção, sua esperança e a si mesmos, inteiros, na construção de um devir vida, que os sustente existencialmente, em sentidos vários.

Fico pensando no compromisso e nas marcas que, como educadores, deixamos nessas estradas existenciais singulares e no quanto é necessário investir em amorosidade, acolhimento, bons afetos, nos processos de aprendizagens para que eles sejam geradores de alegria e potência de vida, pautada pela confiança amorosa, pela construção de autoestima e humildade, ao mesmo tempo. Fazer pontes entre as trajetórias que os trouxeram até nós e as novas estradas que se abrem. Ao mesmo tempo, compreender que é tudo construção conjunta, que a produção é resultado dos entrelaçamentos de saberes, das histórias de vidas todas que se encontram e que a transformação é ecossistêmica. Assim, também sinto que sou eu também que estremeço e umedeço o olhar com meu aluno que treme, com o jornal nas mãos.

Assim, nessa condição emocionada, lembrei-me também de Rubem Alves e do lindo livro Variações sobre o Prazer. Entre tantas bonitezas, ele afirma que o corpo sabe sem saber, e resgata o personagem Riobaldo, de Guimarães Rosa: “O corpo não traslada, mas muito sabe, advinha, se não entende” (p.77). Gosto também quando ele nos desafia a encontrar as crianças em cada um, pois a crianças sabem lidar melhor com as “caixas de brinquedos” enquanto os adultos, tantas vezes, ficam restritos às “caixas de ferramentas”. Assim, vale igualmente o pensamento do poeta Manoel de Barros, quando diz que “a palavra poética tem que chegar ao grau de brinquedo para ser séria”. Penso que isso é pertinente para a educação também, que precisa mobilizar afetos profundos. Para tanto, precisa fazer com que o sujeito se sinta em processos de brincadeira séria e, assim, se permita emocionar-se, revolucionar-se, crescer, ameninando-se, vibrando e, se preciso for, estremecendo com as experiências de se entregar, de se mostrar, de ser fazer seres em processos de autopoiese, de reinvenção de si mesmos.


segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Casa de floresceres!

A energia da casa precisa ser trabalhada com entrelaços de amorosidade e firmeza. Há laços a serem revisados, ajustados, laços que enlaçam, que envolvem os sujeitos, ao mesmo tempo que são agenciados por esses próprios sujeitos, numa energia que emana e se autoproduz constantemente. Campo de floresceres, campo de usinagem de vida. Habitat de seres-alma entrelaçados por uma razão sensível cósmica. Leva-se muito tempo para entender o que se sente todos os dias, o que vai tranversalizando a nós mesmos, construindo liames, em cenas compartilhadas, frases, olhares, risos, gestos, carícias trocadas. Momentos de aprendizado imenso...em que se aprende a compartilhar, conviver, dividir o alimento, o sustento, os sabores e amores.

A casa da gente é uma matriz ecossistêmica de força, de onde florescem projetos de vida, de seres-flores, seres que, em determinado momento, se vão, pelo mundo afora, para construir outras casas-matrizes de florescimentos. O que acontece é que a casa é uma roupa grande, uma outra pele, maior, mais densa, que reveste a vida da gente, na usina de produção, em entrelaços com os seres que o Universo escolheu para serem nossos, nessa vida, nessa passagem-viagem! Cada um constitui uma parte de um texto maior, textura, tessitura de vidas em brotação.

Eu gosto das minhas casas. Gosto de cada coisa, das minúcias. Em cada detalhe, há vestígios de mim mesma, ali, inscrita no tempo e nas minhas tantas limitações e algumas potencialidades.  Gosto do que venho construindo e tenho respeito pelo que pude (e também pelo que não pude!) fazer. Fui vivendo sempre no meu máximo, fazendo sempre o que podia, como tentativa imensa, me esforçando para conseguir manter a família, manter os projetos seres filhos, como seres de amor e bem-querer-bem. Há também sinais de muitas dores vividas, muitos momentos sofridos, desgastes da vida, momentos impensados, violência existencial. Nem tudo são flores, mas das dores também floresceu um ser Malu mais forte, sensivelmente mais forte. Fui o que precisava ser, em cada momento.

“De tudo ficou um pouco”, como diz Drummond, em um dos meus poemas preferidos, lindamente intitulado Resíduo. Também há nas minhas casas meus melhores momentos, os momentos cúmplices, os momentos de paixão, momentos de impetuosidade e italianidade, momentos ardentes. Foram todos momentos de amor profundo. É esse amor que sinto, ainda hoje, me sustenta e mantém viva a orientação para trabalhar a energia das casas, para tentar fazê-las mais acolhedoras, mais floridas, mais amorosas. São casas simples, sem cadeiras na calçada, porque minha condição de vida não me permite morar em ‘casa, casa’ mesmo... Meus espaços de vida são ‘casa’, porque fiz ‘casa’ dos apartamentos que tenho... casa, morada, toca da leoa, Solar Cardinale, onde transitam pessoas que amo ou por quem tenho amoramizade! Assim como tem que ser!


terça-feira, 1 de agosto de 2017

Um filho é uma alma da gente!

A frase me veio hoje à cabeça, em uma situação importante. Um filho é uma alma da gente! Eu sei, alma não tem dono, não faz sentido, mas eu penso que a frase veio, porque eu senti e pensei que um filho é uma alma que o cosmo escolheu para estar sob os nossos cuidados. Cuidados imensos, entrelaços na mesma proporção. Uma alma que nos desafia, nos alegra, nos preocupa, às vezes também nos cuida... Uma alma ‘nossa’! Uma alma amada, com quem se cultiva o amor e se aprende a amar e estabelecer e reconhecer limites! Uma alma que nos faz humildes, profundamente humildes, compreendemos que sabemos pouco da vida e que nada está decidido nunca, nada que sabemos de nós mesmos vale para o outro que vive outra vida, em outro tempo, com outras tramas existenciais. Tudo tem que ser construído na vivência e na trama de entrelaçamentos e acontecimentos.

Ao mesmo tempo, parece que somos nós mesmos do lado ‘de fora’. É como se fosse o desdobramento da nossa própria alma, um desdobramento do nosso corpo físico espiritual emocional. Eu já tinha ouvido falar que um filho é o coração da gente multiplicado. Não, não é só isso. É muito mais que o coração. Sinto que há entre nós uma ligação de natureza meio mágica, um filamento espiritual que nos une e nos faz conectados, para muito além do que é visível, para muito além do corpo físico, para muito além do que eu um dia pude imaginar. Eu sempre tive isso especialmente com minha mãe, mas não entendia bem. Só sabia que era uma conexão profunda. Ainda hoje temos conexões sem explicação no mundo físico, material. Coisas de mãe-filha.

Agora, nesse outro tempo da minha vida, todas as vezes que meu olhar encontra os olhos dos meus filhos parece que o mundo, a vida, faz sentido e eu vislumbro meu sentido de vida. E que o sentido mesmo é um texto que não pode ser dito na sua completude, até porque é um texto que eu não sei completo.  Eu só pressinto, porque é um texto sempre em construção, um texto que se constrói junto, na relação. Percebo que há uma matriz de desejo do que eu quero dizer, em síntese, para essas almas minhas. Sim, porque parece que viemos para nos colocar em situações de desafios de construção de potência, situações que são acionadas pelo motor gerador do próprio sujeito. E, assim, o que eu mais quero dizer é: acredita, você pode! Não há modelo, não há um jeito pronto, mas há o que 'você pode fazer' com seu jeito, com sua marca, descobrindo sempre ‘o que te importa?’. Eu não te quero do ‘meu jeito’, eu te quero ‘seu’, autônomo, ser por você mesmo. Meu modelo é insignificante para quem tem uma vida inteira pela frente. Minha vida e meu jeito não são modelos para ninguém. Eu me considero uma pessoa esforçada, totalmente voltada para o bem-querer-bem, mas isso não quer dizer que eu tenha respostas... que eu saiba muita coisa.

Fico pensando que apesar de lidar tanto com as palavras, com meus filhos eu falo mais intensa e adequadamente de outras maneiras. Produzimos interações e significações, muitas vezes, sem texto verbal. Produzimos textos intensidades abstratas, que nos conectam e fazem com que o rumo da prosa seja amoroso, intenso, até mesmo quando discordamos. É uma vida inteira, talvez mais que isso, é um tempo intensidade que, pelo que entendo, não se limita a esse tempo que estou por aqui. Bem, por óbvio, este texto aqui não termina... deixo, no entanto, a frase em resposta à pergunta de um dos meus filhos, quando pequeno. Ele chegava perto de mim e me perguntava: “Mãe, você nunca vai me esquecer?”.  E eu que digo frequentemente que ‘nunca’ é muito tempo, neste caso, posso afirmar: “Nunca! Não posso esquecer, desistir e não acreditar em transformações, para melhor, de seres que estão conectados à minha própria alma. São minha própria vida prolongada, meu fluxo de vida, minha respiração, minha pulsação existencial! Sou muito agradecida pelos filhos que tenho, pela almas que recebi para cuidar! Assim como sou muito grata pelas almas com as quais pude me (re)encontrar! Muito! Lembro-me do poeta  Fernando Pessoa, que disse: "Tudo vale a pena quando a alma não é pequena." No nosso caso, somos almas entrelaçadas e, por isso, fortes! Tudo vale muito a pena!







domingo, 30 de julho de 2017

Malu Jardineira



O encontro com a natureza tem me ensinado muito. Tanto ou mais que o encontro com os livros. Na verdade, são saberes complementares, entrelaçados. Gosto das abstrações e da poética da teoria, assim como gosto do ‘con-tato’ direto com a natureza, também a natureza em mim. Assim, na lógica dos floresceres, do amor pela floresta, pelas árvores todas, vou cultivando, eu mesma, como posso, flores, floresceres em minha casa, em minhas casas, de Caxias do Sul e de Porto Alegre.

Elas me dizem coisas da vida, da vida que brota e que demanda cuidados. Também me contam sobre o tempo que passa e do ciclo da vida, o que brota, ganha viço, depois enruga, enrijece, retorce, seca e morre. As plantas ensinam também sobre relacionamentos, sobre o que faz o entrelaçamento perdurar, sobre o que garante o laço, o entrelaço, a convivência e respeito ao espaço de cada folha, de cada pétala, de cada liame, dos fios que se soltam e se enredam, entrelaçam.


O trato com as plantas tem que ser delicado e firme, assim como com as pessoas. Delicado, para atender à condição da natureza mesma, às singularidades de cada planta, o seu jeito, seu trejeito, o modo como brota, como ganha viço e se mostra ‘exibida’. Tem que ser firme, porque às vezes envolve cortar, impedir que invada o espaço de outra planta, ou, mesmo, que vá se direcionando para cantos onde se coloca em risco (no apartamento).


Como no caso das pessoas, eu gosto de observar as diferenças das plantas, de perceber, em cada qual, sua beleza e sua força, no traço singular da sua existência. Gosto de interagir com elas e me colocar humilde, buscando compreendê-las. Muitas vezes, entendo que não brotam porque a terra não é fértil, e, neste caso, é preciso também agir, trocar de terra, buscar outros nutrientes, entender que não adianta insistir em substrato que é estéril de substâncias que ajudem a florescer, a renascer autopoieticamente, a planta, a flor, a gente!

Deixo, então, aqui, uma das lindas canções do Toquinho, nesse sentido. “Natureza Distraída”
“Como as plantas somos seres vivos,
Como as plantas temos que crescer.
Como elas, precisamos de muito carinho,
De sol, de amor, de ar pra sobreviver.

Quando a natureza distraída
Fere a flor ou um embrião,
O ser humano, mais que as flores,
Precisa na vida
De muito afeto e toda compreensão”.

https://www.letras.mus.br/toquinho/87302/

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Chiara e a Orquestra da UCS!




Aquele momento em que você está com a filha, de 16 anos, assistindo a um espetáculo interativo da Orquestra da UCS, chamado Orquestrando Organizações, oferecido aos professores da UCS, no Encontro de início do semestre. O maestro desafia o público, para que algum voluntário vá reger a orquestra no ‘lugar dele’ (com a ajuda dele, no início!), depois de ter ensinado alguns ‘movimentos básicos’! Nenhum professor se candidatou, em um primeiro momento, e quem levantou a mão? Sim... a Chiara Baptista Vieira! 

O espetáculo foi apresentado hoje duas vezes para o grupo de professores da UCS, como parte do encontro dos professores com a reitoria. De manhã, fiquei impressionada com a ‘aula mágica’, que recebemos sobre a composição e o funcionamento da orquestra, com suas várias ‘famílias’ de instrumentos, a beleza e singularidade de cada um. A importância da união de todos os instrumentos. Lembrei da minha filha Chiara, também apaixonada por música e pela Orquestra da UCS! Pensei: “ela vai amar assistir e aprender um pouco mais sobre cada instrumento, não pode perder essa oportunidade de assistir ao ‘nosso maestro’, Manfredo Schmiedt, explicando tão bem humoradamente como se produz a mágica da orquestra”.

Quando a convidei, não imaginei que ela subiria ao palco; apenas pensei que ficaria encantada, como eu, com as explicações. Lembrei de vários momentos da vida em que Chiara ficou hipnotizada com apresentações musicais, dos mais diferentes ritmos, desde pequena, desde muito pequena. Até mesmo em situações em que todas as outras pessoas do ambiente dançavam, a Chiara estava lá, olhando fixamente para os músicos, encantada, observando cada movimento. Pensem, por exemplo, em um baile de carnaval... sim a Chiara, pequenina, se parava diante da banda, em meio à confusão de foliões, e observava atentamente aos músicos e ao seu trabalho. Olhava detidamente, séria, só observava. Tá, outro exemplo: show do Exalta Samba, em Caxias do Sul, há alguns anos. Fomos em família. No camarote, eu me deliciava sambando e a Chiara, na minha frente, parada, olhando, só observando os músicos. Bom, houve também as apresentações com o irmão Giuseppe, para a família toda, com as composições próprias. Eles se divertiam criando música, quando eram muito pequenos.

Lembro de uma vez que fui buscá-la na aula de música e o professor a elogiou! Eu agradeci, pensei que era simpático da parte dele elogiar minha filha. Ele percebeu e reforçou: “Olha, a senhora não está entendendo. Ela realmente tem uma sensibilidade e habilidade que se destacam! Ela se destaca muito!”. Chiara tem cultivado a música intensamente, durante a sua vida (16 anos!, como eu já disse). Na escola, já tocou vários instrumentos, participou da Banda Escocesa, coral, fez aula de violão, escaleta e caixa. Tem em casa guitarra, teclado e violão, e decidiu que vai comprar um ukulele (que eu ainda nem sei como é!).  Nesse momento faz aula de canto e de teatro.


O mais importante de tudo: eu vi minha filha viver um momento absolutamente mágico, em que demonstrou coragem de ir viver seu sonho! Durante o período em que esteve no palco, Chiara sorria muito, embevecida com a cena, com o momento. Ajudou, claro, o fato de ser aluna do CETEC e de ter participado recentemente do CETEC Festival, com apresentações teatrais, em que ela também ousou interpretar uma personagem, de uma peça que ajudou a escrever, sobre os refugiados. A informação de hoje é: vivemos um momento em que se consolida a informação de que temos mais uma artista na família!





domingo, 14 de maio de 2017

"Filho Rafael': menino do 'desenho no cartaz'


Hoje foi mais um Dia das Mães. Vivi, como é de costume, emocionada e reflexiva. Houve um tempo, na minha história de vida, em que decidi que seria uma mamma italiana. Entendi isso, como uma verdade, em mim, mesmo antes de conseguir ser mãe, de conseguir ser mãe adotiva e mãe biológica. Vivi também muitos Dias das mães sem filho, antes disso. Passei dez anos, tentando engravidar, lutando com um diagnóstico, ou vários... vários, até chegar em um deles, que se interpôs como se fosse uma fatalidade, para alguém tão amorosamente decidida a viver a maternagem...

Depois de dez anos de tentativas e exames e alarmes falsos, o médico me disse: “Não adianta, não adianta insistir. Você tem endometriose em grau severo. Não há como engravidar com esse quadro!” . Eu disse: “Dá.”. Ele respondeu: “Não dá, impossível. No teu caso, só um milagre!”. Eu retruquei: “Que seja, o senhor pode esperar. Eu vou engravidar, pelo ‘método tradicional’, pode acreditar. E, enquanto isso não acontecer, vou adotar crianças”. Foi assim que resolvi partir para adoção e tive os meus primeiros três filhos, até que um dia engravidei, biologicamente, da quarta filha.  O ‘milagre’ se fez e hoje tem 15 anos. Linda.

O traço de maternagem em mim tem sido uma imensidão de amor, uma avalanche de afeto de bem-querer-bem, que me mobiliza desde criança a ser cuidadora, amorosa, afetiva. Como eu disse uma vez, amor derramado, sem meias medidas. Talvez também por isso, até hoje, eu me lembre tanto do Rafael, um menino de uns seis sete anos, no máximo, que conheci de longe, numa situação muito forte. Vou contar agora.

Um dos meus filhos estava hospitalizado, o Dia das Mães se aproximava e eu pensava como seria difícil que ele não estivesse em casa. Para piorar a situação, a Clínica em que ele estava internado não permitia visita aos domingos, somente aos  sábados. Eu não me detive. Fui falar com um, com outro, até chegar no diretor e pedir a liberação da visita no Dia das Mães. Insisti, disse que não ia passar sem ver meu filho, que isso seria importante para ele também. Então me disseram que não poderia liberar a visita só pra mim. Aí eu disse: “Mas é claro! Liberem pra todas as mães! Não faz sentido!”. Bom, de tanto eu insistir, eles concordaram.

Chegou o domingo à tarde. Quando fui fazer a visita, havia uma fila, muitas outras mães felizes pela ‘decisão’ da clínica de liberar a visita no domingo. Era um acontecimento raro ali. Meu filho ficou muito feliz também e veio me encontrar com um cartaz na mão. Ele tinha feito um desenho para me homenagear, para expressar seu amor. Quando peguei a cartolina branca nas mãos, olhei e percebi que a folha estava dividida ao meio. Em uma parte havia um desenho, sim, de criança, em que podia perceber que eu havia sido desenhada com os outros manos. Na outra parte, havia alguns riscos dispersos. Não era possível identificar o que estava desenhado, mas se percebia que havia ali um esboço, não nítido. Não havia uma figura nítida....fiquei intrigada.

Perguntei, então, ao meu filho, o que significava aquela divisão. E por que, de um lado da folha, ele tinha feito aquele desenhos ‘diferentes’. Ele respondeu que aquela parte da folha não era dele, mas do Rafael, um outro menino que estava hospitalizado e que, ao saber da vinda das mães, como ele não tinha mãe, pediu emprestado ‘a mãe do meu filho’, no caso, eu, e um pedaço da folha de cartolina para ele fazer, pela primeira vez, um desenho para ‘uma mãe’. Meu filho disse: “Ele é meu amigo. Não tem mãe. Então me pediu para também fazer um desenho pra você!”. Bem, eu fiquei sem poder falar... emocionada, até o momento em que meu filho olhou para cima e viu o Rafael. Ele estava na parte superior da clínica, em uma mureta, acompanhado de um atendente. Olhava fixamente para nós, acompanhando o ‘momento da entrega do desenho’. Meu filho o apontou e disse: “É aquele, aquele é o Rafael!”. Eu me levantei, mostrei o cartaz e disse pra ele: “Rafael, querido. Muito obrigada. Eu adorei o desenho, é muito bonito! Adorei mesmo!”.

Bom, pensem  em um momento dramático. Lindo emocionante, de chorar. Os olhos do menino se iluminaram, ele abriu um sorriso imenso e dizia insistentemente para o atendente: “Tio, viu, ela é uma mãe, uma mãe de verdade. Ela gostou do meu desenho. Viu tio? Uma mãe de verdade gostou do meu desenho. Ela é uma mãe. Uma mãe de verdade”. Meu Deus, ainda hoje a expressão do rosto dele está na minha retina, nos meus olhos, no meu coração. Pensei muito no ‘meu filho Rafael’, o do desenho no cartaz, pensei também em todas as crianças que, como ele, vivem o Dia das Mães, em meio a toda a parafernália midiática, sem ter para quem doar um abraço, um traço, um desenho um afago e ter isso retribuído de alguma maneira. Pensei também nas mulheres que desejam viver a maternagem e não puderam, pelo aprisionamento de diagnósticos que sentenciam a impossibilidade.

Mais que nunca, entendo hoje que, apesar de todos os desafios imensos que a maternagem nos impõe, a opção vale muito a pena, quando é resultado de decisão profundamente sedimentada em afetos de bem-querer-bem consolidados. Nesse sentido, a adoção é uma linda possibilidade, tanto quanto a gravidez biológica. No cotidiano, não faz diferença, filho é filho, adotivo ou biológico. Eles vão se entrelaçando com a gente, tanto e imensamente, a tal ponto que vamos entendendo que sua presença nas nossas vidas faz parte de uma Escrita Maior.


Eu quero deixar aqui, meu imenso abraço para o ‘menino Rafael’, que, naquele dia, não pude abraçar, impedida pelas regras da clínica. Eu fiz o que eu pude. Tem sido assim, na minha vida. Eu faço o máximo que eu posso... para acolher, adotar e cuidar. Fica aqui o meu desejo de que ele tenha também conseguido uma mãe adotiva e que receba muitos abraços sempre. Que os anjos o protejam, assim como às outras crianças todas, em todos os dias!

domingo, 30 de abril de 2017

CONVOCAÇÃO PARA A PAZ ENTRE AS LEOAS!



A urgência do tempo, em alguns sentidos, tem me conduzido a refletir mais sobre, afinal, o que querem essas leoas em mim? Por que elas brigam tanto? Que tempo é esse que ainda tenho, para viver às turras, internamente, com os desassossegos tantos, entre essas ‘criaturas’ fiandeiras do meu destino. Para quem não sabe, as leoas são minhas versões de garra e luta, em diferentes instâncias da vida, de diferentes modos. Quem me conhece, nem sempre conhece todas as leoas... Costumo dizer que cada um tem a leoa que conquistou. Elas são, em certa medida (sem medida certa!) manhosas, dengosas, birrentas, bravas (no sentido italiano de valentia e no sentido brasileiro de fúria, às vezes. Em suma, melhor não provocar!). Claro, são também ternas, amorosas, sim, muito amorosas. Isso, todas são.  Cada uma a sua maneira.

Há pouco tempo, tive um indicativo de diagnóstico – que não se confirmou, após uma biópsia! – de uma doença grave, lenta e silenciosa, dessas autoimunes. No caso, a explicação da tal doença dizia que, por motivos desconhecidos, algumas células começavam a matar as outras ‘por engano’. Pensei imediatamente nas brigas das leoas internas, a Maria Luiza, a Malu, a Luiza, a italiana, com as tentativas, nem sempre bem sucedidas da Dra Cardinale, no sentido de acalmá-las.

Apesar da situação nada boa, nem alentadora, comecei a achar certa graça da situação. Tantas vezes conversava comigo mesma e com minhas células e dizia... “Olha, vejam só, vocês se conhecem há tanto tempo! Vão começar a se matar agora?”. E, em seguida, imaginava as células ironizando: “ Ops, desculpe, te matei né? Desculpa, tá, fica aí mortinha!”. Com alguns amigos mais preocupados comigo, amigos chegados, que estão mais por perto no cotidiano, eu comentava isso, até como uma forma de descontrair. Não há porque se ‘pré-ocupar’, numa situação dessas. Penso que apenas devemos nos ocupar... fazer o que tem que ser feito, sem dramas, nem nada. Foi o que tentei, depois do impacto inicial da informação.

Enfim, a situação prolongou-se por praticamente um mês, entre receber a informação de indicativo de diagnóstico e esperar o agendamento de biópsia, fazer a biópsia, aguardar o resultado. Uff! Tudo isso fazendo tudo que faço, em meio ao gerenciamento de uma família com cinco filhos, a vida nas universidades UCS-UFAM, os orientandos, aulas, clientes de supervisão de textos da Pazza Comunicazione, tudo urgente, tudo com prazo-lâmina, com eu costumo chamar, tudo pedindo atenção, em um tempo em que eu precisei de tempo de reflexão, para construir calma interna, até mesmo para abrir agendas para consultas, exames, agendamento disso e daquilo. Eu, literalmente, não tenho tempo (nem paciência!) para adoecer, nem para falecer. Lamento.

Foi tempo suficiente para compreender a grandiosidade da vida e da velocidade do tempo em que ela passa. Também foi possível pensar o que quero e o que não quero. Pensar que são verdadeiramente poucas as coisas pelas quais devo brigar, ficar brava. Resolvi, eu mesma, finalmente, aderir à campanha que lancei com meus filhos – também os filhos acadêmicos – brincalhonamente, há tanto tempo, cujo slongan é: “Preserve Malu, antes que acabe!”. Eu sempre argumentei: “Sim, há tantas campanhas ecológicas de preservação de seres em extinção. Por que não eu?!”. Enfim, esse é um dos meus traços, brincar comigo mesma, fazer graça, como alternativa, até porque pelo que vivi, se não tivesse feito isso, não tinha aguentado.

Enfim, tudo isso me fez abrir um chamado interno para a paz,  a paz das leoas. Não. Não é nada fácil. Nenhuma delas é ‘morna’, nenhuma é  simples. Cada uma delas representa um modo meu de levar a vida e todas querem ter voz em mim, sendo que nem sempre suas vozes combinam. Geralmente não combinam. Enfim, todos os acontecimentos recentes, as pressões e transformações do cotidiano, resultaram na fala da doutora, no sentido de que, com o tempo passando, já é tempo dessas leoas serenarem, cultivarem a paz, ainda que sem concordância. Enfim, muita coisa não importa mais. Não vai dar tempo mesmo de fazer tudo o que eu desejo, porque eu sempre desejei muito. É preciso aprender a abrir mão do que desgasta, do que não rende calma, paz e alegria, principalmente confiança amorosa. As leoas são a minha natureza. Com elas convivi todo esse tempo. O encontro com a natureza, para mim, é sempre o encontro com a matriz de força e, ao mesmo tempo, com a minha poética. Respeito isso, sigo buscando respeitá-las, cada uma a sua maneira, fazendo graça com a choraminguice da leoazinha Luiza, tendo paciência com a impetuosidade da Malu e com a ranzinzices perfeccionistas da Maria Luiza, assim como dando espaço para a intensidade vulcânica da italiana. Assim, diante de tudo e depois de tudo, proponho um Tratado de Paz, entre elas... vamos ver quanto tempo dura!

Bem, pra quem não advinhou ainda quem está escrevendo, assino: Dra Cardinale.