sábado, 9 de junho de 2018

Abobrinhas Recheadas: Rei Roberto



No palco, entre os excelentes bailarinos amorosos, afetivamente afetados, de olhos brilhantes e movimentos e gestos precisos, está uma ruiva crespa, de cabelos desalinhados encaracolados: minha filha Giulia Baptista Vieira. Eu já imaginava a emoção do espetáculo. Pressentia, pelos ‘cacos de fala’ de nossas conversas sobre a produção, pelos momentos ‘aperitivos’ do espetáculo, divulgados nas redes sociais, e também, claro, porque Roberto é Roberto, um conceito em música amorosa, singular, intenso, pela singeleza com que expressa, diretamente, alguns dos mais profundos sentimentos do amor, de amizade, irreverência e humor. O espetáculo foi tudo isso e mais um pouco: resgatou o melhor da tradição ‘Abobrinhas Recheadas’, com brincalhonices saborosas, em diálogos muitos, com as músicas de Roberto Carlos, mas também com a arte em geral.

Fiquei pensando que estava onde gosto de estar: na comissão de frente, primeira fila de cadeiras (no caso de hoje), embevecida com a maturidade da minha filha, em cena, e também com o refinamento do espetáculo. Movimentos precisos, sujeitos entrelaçados em alegria e intensidade, em situações de constante desabar e levantar-se, metáfora plena de situações na vida, em que ‘se você cair, do chão não passa!’. Em muitos momentos, lembrei-me da fala de Fernando Sabino: “De tudo, ficaram três coisas: a certeza de que ele estava sempre começando, a certeza de que era preciso continuar e a certeza de que seria interrompido antes de terminar. Fazer da interrupção um caminho novo. Fazer da queda um passo de dança, do medo uma escada, do sono uma ponte, da procura um encontro”.

No espetáculo, é encantatória a habilidade de transitar com graça e maestria entre a queda e o salto, as palavras e os silêncios, os abraços e os afastamentos. No jogo de contrastes, a solidão e os encontros marcam também diversas situações das ‘abobrinhas de hoje’. Você  pisca e um bailarino salta, outro rasteja, outro dá cambalhotas. Um grita, outro emudece. Eles se alinham, desalinham. Como estrelas do universo, vão se movimentando em combinações várias, em meio à névoa do Universo cênico. No canto da cena, um que outro deixa rolar lágrimas emocionadas, de quem andou muito para estar ali, de quem fez e faz força, para reinventar o passo, o ‘movimento afetivo nosso de cada dia’. Eu penso: esse choro engasgado me fala de engasgos de histórias pessoais, que eles sabiamente transformam em arte da melhor qualidade. Meus olhos vagueiam na cena, encontrando-os, nos seus traços e gestos singulares, como quem quer acarinhá-los, em retribuição a tal proporção de entrega para a plateia.

Minha filha é uma entre os artistas profissionais em cena. Eu não me canso de repetir: Dance Giulia! E a cada espetáculo, a cada momento que a vejo exuberante e feliz em cena, eu penso que tenho orgulho por sua escolha pela dança, orgulho de ter uma filha que escolhe ser feliz profissionalmente, fazendo o que mais ama! Nesse sentido, eu também estou ali, na sua emoção em cena. O Amor em Cena! O Amorendança! Que ela faça da profissão a sua maior vibração, a sua melhor performance. Talvez por isso mesmo, um mar de pulsações me invadiu, quando eles dançaram a canção que eu tantas vezes cantei para ela dormir, falando que ‘debaixo dos caracóis dos seus cabelos há uma história para contar’. Olhei para seus cachos ruivos em cena, seu corpo altivo, senti sua emoção no peito. Eu estava bem próxima, não hesitei e, com as mãos, formei a representação do coração que entreguei para ela há quase 22 anos. Ela não viu, mas eu sei, nossos corações batem no mesmo ritmo, o ritmo da dança do amor entre mãe e filha!

Antes do espetáculo, eu estava curiosa! Sim, porque é delicado ‘mexer com Roberto Carlos’, personagem midiático emblemático e consolidado no imaginário brasileiro. Ele tem a marca de quem consegue falar simples e profundamente de amor, em um texto ‘rasgado’ de sofrimento e intensidade, ou de singelezas poéticas, que nem são somente dele. A emoção vem das vivências tantas, que foram compartilhadas aos sons daqueles versos e da sonoridade de suas canções. A marca do espetáculo de Natal, veiculado todo ano, talvez tenha a ver com isso... a ‘força tanta’ de melodias e letras, que atravessaram o tempo de muitas famílias brasileiras, acompanhando os encontros, namoros e perdas, os reencontros, casamentos e as novas desilusões, separações, os nascimentos, crescimentos, renascimentos. Nesse sentido, o espetáculo foi fiel ao Rei Roberto. É uma homenagem que, na metalinguagem do ‘abobrês recheado’, mistura a singularidade bem humorada e crítica, das abobrinhas, aos traços marcantes das canções que (parece!) ele fez pra mim, ops, para nós, para cada um de nós.

O espetáculo Abobrinhas Recheadas é mais uma das produções da Macarenando Dance Concept, sempre sob a direção de Diego Mac e Gui Malgarizi, com produção da querida Sandra Santos. Os trabalhos do grupo são sempre impecáveis e avassaladores. São plurais e sem preconceito de estilos, desmontando a arrogância da (suposta) arte que não se encontra com o complexo e diversificado universo que compõe o tecido social, a ambiência ecossistêmica  onde brota a vida e, nesse sentido, onde brota também a dança, uma das mais belas expressões da vida que pulsa!



sábado, 12 de maio de 2018

Lembrando do meu filho Rafael!




Há dias, meu filho Rafael não me sai da cabeça. Tenho pensado muito nele, imaginando onde ele pode estar, o que estará fazendo, como será que está sua vida. Será que se alimentou bem? Está agasalhado? E a escola? Os projetos de vida? Como serão seus projetos de vida? Eu gostaria tanto que ele tivesse projetos de vida...

Quem me conhece, quem me acompanha, de alguma maneira, na vida, sabe que eu não tenho um filho chamado Rafael. Então, de quem estou falando? Falo de um menino que um dia me mandou um cartão de Dia das Mães, sem nunca ter me conhecido. Foi um cartão muito especial, muito emocionante, impactante mesmo. Isso já faz vários anos, não sei ao certo, mas penso que já vão mais de 10 anos do acontecimento do ‘cartão’ do Rafael. Eu vou contar aqui.

Naquele ano, o Dia das Mães se aproximava e meu filho Pietro estava hospitalizado. Eu fiquei sabendo que ele teria visita somente aos sábados e não aceitei. Pensei: “Não, Dia das Mães é domingo! Quero ver meu filho Pietro no Dia das Mães!”. Fui falar com a direção da clínica e parecia não haver jeito... me disseram: “Não podemos liberar somente para a senhora! As outras mães também iriam querer”. Argumentei que então liberassem para todas as mães, que não havia sentido impedir que crianças hospitalizadas vissem suas mães nesse dia, que seria um absurdo, que eu não aceitava de jeito nenhum. Bem, falei tanto que eles concordaram e liberaram a visita para todas as crianças. Eu fiquei muito feliz.

Cheguei cedo, antes mesmo do horário de visitas. Quando liberaram a entrada, logo o Pietro desceu e me trouxe uma cartolina ‘de presente’, com desenhos em homenagem pelo Dia das Mães. Chamou muito a atenção que a cartolina estava dividida pela metade, com um risco, um traço bem no meio. Em uma parte, o desenho era bem nítido, com traços de criança, mas que demonstravam a figura de uma mãe e um filho. Do outro lado, o desenho era totalmente abstrato, eram riscos não agrupados em uma expressão figurativa clara, riscos em desalinho. Não era possível compreender o que expressavam claramente. Com a maior delicadeza do mundo, perguntei para o Pietro porque havia aquela divisão e porque ele havia feito desenhos tão diferentes, o que ele quis dizer. A surpresa veio daí.

Pietro me olhou e respondeu naturalmente, sem se dar conta da proporção do significado do que me contaria. Ele me disse: “Não mãe, eu só desenhei desse lado [o que estava mais organizado]. Desse outro lado aqui [e mostrou, apontando, os desenhos com rabiscos desalinhados, desordenados] quem desenhou foi o Rafael. Ele me pediu emprestado, me pediu para fazer, porque ele não tem mãe e nunca fez desenho para uma mãe. Ele estava triste, porque não tinha para quem fazer desenho e eu emprestei metade do meu papel para ele fazer um desenho para você”. Eu fiquei imobilizada, emocionada pelo gesto do Pietro e pela condição do Rafael. Fiquei tentando não chorar... bem difícil.

A situação complicou um tanto, para mim, quando Pietro olhou para o alto e viu um menino ao lado de um atendente. O menino olhava fixamente para a gente. Pietro, então, me disse: “Mãe, aquele lá é o Rafael!”. Imediatamente me levantei, olhei para ele e disse: “Rafael, eu adorei o desenho! Muito obrigada! Muito obrigada mesmo!”. Ele abriu um sorriso imenso, arregalou os olhos e começou a saltitar, alegre, dizendo para o atendente: “Viu tio, ela é uma mãe de verdade e gostou do meu desenho. Uma mãe de verdade gostou do meu desenho. Eu fiz o desenho e ela gostou. Um mãe de verdade”. Meu Deus, eu não tenho como esquecer aquela cena. Um menino sem mãe me chamando de ‘mãe de verdade’, imensamente feliz porque pôde fazer o desenho para mim! As regras da clínica não permitiam, mas eu queria muito ter dado um abraço nele. Como faço tantas vezes, diante de situações que não posso mudar, que estão longe do meu alcance, escrevo e peço ao Moço da Parede que ajude!

Deixo aqui meu abraço para o filho Rafael que me adotou sem me conhecer e, em nome dele, meu abraço a todas as crianças que não conheceram suas mães biológicas ou adotivas. Que a história do Rafael seja um incentivo a todos quantos puderem acolher crianças em suas famílias, fazê-los ‘filhos de verdade’ com ‘amor de verdade’, que é o que mais importa nesta vida. Por experiência própria, eu recomendo muito a adoção como possibilidade de viver a imensidão de alegria que é ser mãe! É uma experiência tão linda e tão maravilhosa quanto à maternagem biológica! Sou testemunha disso!




domingo, 14 de janeiro de 2018

Sobre silêncios e a escuta de si (de mim)


A escuta interior nos direciona. Quando conseguimos paz e tranquilidade para produzir essa escuta, na simplicidade e serenidade dessa paz, podemos nos conectar com boas energias, com nossos grandes mestres espirituais. Então, os caminhos se abrem, como vislumbres e indicações claras. Nem sempre o que vemos é o que desejamos, é o que gostaríamos, enquanto estamos tomados pelos ímpetos e amarras do cotidiano (ou do tempo!). Nem tudo o que se mostra indicado, nesse silêncio interno, é o que gostaríamos de ouvir, mas o que emerge nessa condição é sempre algo crucial, como recurso necessário à 'sobre-vivência', em sentido amplo!

Mesmo que contrarie nossos desejos imediatos, alguns indicadores brotam como óbvios, podem ser encarados como aqueles trechos do percurso em que temos que respirar profundamente, sentir o ar circulando e seguir, seguir, seguir... caminhar, avançar, compreendendo que a estrada é assim mesmo. Ela tem suas nuanças, suas manhas e peculiaridades. Eu sinto que tenho sido uma boa aluna da estrada. tenho aprendido a ceder, a aceitar e a renovar a disposição de seguir adiante, independentemente das intempéries, das agruras, do conjunto de ações a serem reinventadas, de trilhas a serem abandonadas e de novos rumos a serem empreendidos.

Nesse sentido, como viajantes do tempo, peregrinos do cosmo, penso que é preciso reconhecer nossa pequenez, nossa condição de elementos cósmicos ínfimos, em interação com uma Teia Maior, que nos conecta com outros seres e ecossistemas, com outros universos. A teia da vida, diria Fritjof Capra. O resultado de nossos passos interfere no todo e é por ele direcionado, porque esse todo nos perpassa constantemente, já que a ele estamos entrelaçados como 'seres-existência'. Nessa confluência de entrelaçamentos tantos, nossa tarefa é seguir, procurando semear amorosidade e bem-querer-bem, procurando praticar o autocuidado, no percurso, ao mesmo tempo em que ajudamos quem nos procura, quem nos rodeia. Isso foi sempre o que tentei, é sempre o que pretendo, apesar de todas as minhas limitações. 


Pelo que percebo, nada é sem sentido, ainda que, às vezes, não reconheçamos o sentido, no momento em que vivemos. Em muitas situações complexas vividas, eu me deparei com uma lógica maior, parece escrita num grande texto cósmico, no qual minha condição de autoria se viu sempre limitada. Alguns chamam isso destino. Eu chamo de texto teia trama da vida. Sigo tentando escrever a minha (ínfima) parte, dando a minha melhor contribuição possível. Então, vamos! Como sempre, é preciso força e coragem, cor-ação! 

domingo, 10 de dezembro de 2017

Matriz coração! ‘En-a-morada!’

Gosto de samba, gosto da Marrom (a Alcione)! Dia desses, o refrão de uma canção que ela canta me ‘brotou por dentro’ e eu fui atrás da música! Coração de Porcelana! E eu fiquei refletindo sobre a ideia... coração de porcelana! Durante muito tempo, eu mesma pensei que meu coração fosse de porcelana, delicado, frágil, fácil de quebrar. Pra minha alegria, a vida me ensinou que meu coração está bem longe de ser porcelana! É um coração grande e forte! Coração composto de fibra italiana com densos entrelaçamentos de amorosidade e brotações constantes, de mais e mais amor, mas isso não tem nada de fragilidade e tampouco representa risco de se (me) quebrar!

Em meu coração mescla-se o fluxo de sangue quente, a pulsação de gente que se reinventa a cada instante, a cada respiração, a cada pulsação. Gente que sobreviveu à guerra e atravessou oceanos, em busca de sonhos e de uma vida melhor. Há densidade e intensidade, nas batidas e nos modos de ‘dar passagem’ para novos fluxos, novos processos de reinvenção de vida. Assim, sinto hoje no peito um coração que sabe ser sereno e intenso ao mesmo tempo. Ele se nutre todos os dias da confiança amorosa, dos amores conquistados com o tempo, com laços profundos e entrelaços abstratos de energia! Eu sei o que fomos, eu sei o que somos e, assim, mesclados e entrelaçados no peito, sei que vidas se entrecruzaram e semearam devires. Cumpriram a sina de vidas 'en-a-mor'!

Fiquei pensando que a música é bonita, sensível, amorosa, mas romântica demais, no sentido do sofrimento amoroso, que não é minha opção no cultivo do amor. O refrão diz: “Onde andará?/ Que paixões terá?/ Quando voltará?/ Ou me esquecerá”, com uma deliciosa e dengosa melodia da Marrom. Esse chamamento, acredito, brotou em mim, pela lembrança de um amor antigo, que permanece na lembrança e vez por outra surge como uma nuvem de intensidade amorosa, que transita em mim, que se mistura com a imagem da cena cotidiana! Numa dança de memória, o encontro com essa ‘névoa amorosa’, me traz a sensação de graça e emoção alegre. É bom que tudo tenha sido vivido! Resta em mim o agradecimento pelo bem da vida, pelo que pôde e pode ser vivido. Se, como nos ensina Emmanuel, tudo é impermanência, que os instantes de amor vividos sejam a nossa constante, na lembrança, na vivência, no sentimento! Assim tem sido comigo, assim tenho vivido amorosamente!


Hoje reconheço meu coração como um feixe-trama de entrelaçamentos amorosos de grande consistência. São florações entrelaçadas, em um substrato fértil e pleno de húmus da vida! Deste coração, florescem sempre (até quando o Moço da Parede permitir!), com viço, novas possibilidades. Aqui são cultivados os floresceres que se tornaram possíveis e se mantêm plenos, também cultivados por outros seres que me amaram (que me amam!). Sou realmente muito grata, especialmente porque nessa complexa teia-trama da vida, a amorosidade se renova, longe da idealização. O amor é cultivo compartilhado, como quem cuida da floração e das sementes semeadas para gerar o fruto mais saboroso que existe! É bom se saber ‘en-a-morada’! Este, literalmente, é o meu território e a minha matriz existencial!

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

‘Segredos de liquidificador’ em sala de aula

Na minha frente, apresentando a análise de peças gráficas, um aluno treme, em sala de aula. Mais correto seria dizer: o aluno vibra, seu corpo estremece e se mostra em uma emoção alterada. O jornal, em sua mão, objeto empírico da análise, vai mostrando, ‘traidor’, que esse ser estudante tem a emoção à flor da pele. Ao mesmo tempo, ao falar, ele esboça um riso de quem se sente satisfeito pelas ‘descobertas’, pelo que pode enunciar de saber construído. Ele tem a emoção de aprender, assim, ali, visível aos nossos olhos, com um corpo que vibra, independentemente de sua vontade consciente. Eu me lembrei da canção "Codinome Beija-flor", de Cazuza, especialmente pela expressão "Segredos de liquidificador"!

Fiquei pensando que também a educação, o conhecimento, quando vividos com amorosidade e intensidade podem emocionar e nos desafiar como seres inteiros, com nosso ‘corpo vibrátil’, para lembrar um conceito da Esquizoanálise, uma das teorias que estudo. A emoção é diferente, da referida pelo poeta Cazuza, mas também é avassaladora e mobilizadora do conjunto do ser, feito corpo, alma e mundaréu de afetos. Somos seres complexos, em corpos que vibram e entram em sintonias com energiais circundantes e transversalizantes. E essa vibração não segue ou serve ao intelecto, nem se limita à materialidade do corpo, em si, mas diz respeito ao que nos emociona, o que nos põe vivos, o que nos transversaliza de emoção ‘derramante’, que nos mobiliza como seres inteiros e nos põe prontos para nos mostrar, nos entregar, de alguma forma. 

Nesse sentido, o encontro amoroso, com a emoção de quem encontra o outro e se emociona por isso, assim como a apresentação de um trabalho, a aula, a palestra, são situações que podem nos colocar em condição de estremecimento, de alteração nas vibrações emocionais e físicas, a tal ponto que isso transpareça, se faça visível. Isso ocorre em cada momento em que nos ‘enviamos’ para o outro, nos expomos, nos dispomos para, na entregar, sermos tocados pelo corpo ou pelo olhar do outro. Quando a situação nos emociona grandemente, nosso corpo vibra e, às vezes, essa vibração se expressa em tremor, em vida que jorra, nas suas variações, em riso, em choro, enfim...

Eu me lembrei também de outra canção, essa de Caetano Veloso, intitulada Força Estranha. Na letra da música, ele diz: “Eu vi um menino correndo/ Eu vi o tempo brincando ao redor/ Do caminho daquele menino”. E nesse momento, eu também vi o tempo, o tempo de docência, outros tantos meninos-moços, como aquele que, emocionado, apresentavam seu trabalho, com esforço e alegria. Lembrei-me de alguns, em especial, preparando-se para as primeiras apresentações de pesquisa, esforçando-se para se mostrarem corajosos e, com a voz embargada e certo estremecimento, mostrando a mim e a si mesmos a emoção de crescer e aprender, de se mostrar em cenas mais desafiadoras. Emociona-me o fato de que, sendo educadora, eu acompanho seres em processo de construção de projetos de vida, seres que investem muito mais que dinheiro e tempo; investem sua emoção, sua esperança e a si mesmos, inteiros, na construção de um devir vida, que os sustente existencialmente, em sentidos vários.

Fico pensando no compromisso e nas marcas que, como educadores, deixamos nessas estradas existenciais singulares e no quanto é necessário investir em amorosidade, acolhimento, bons afetos, nos processos de aprendizagens para que eles sejam geradores de alegria e potência de vida, pautada pela confiança amorosa, pela construção de autoestima e humildade, ao mesmo tempo. Fazer pontes entre as trajetórias que os trouxeram até nós e as novas estradas que se abrem. Ao mesmo tempo, compreender que é tudo construção conjunta, que a produção é resultado dos entrelaçamentos de saberes, das histórias de vidas todas que se encontram e que a transformação é ecossistêmica. Assim, também sinto que sou eu também que estremeço e umedeço o olhar com meu aluno que treme, com o jornal nas mãos.

Assim, nessa condição emocionada, lembrei-me também de Rubem Alves e do lindo livro Variações sobre o Prazer. Entre tantas bonitezas, ele afirma que o corpo sabe sem saber, e resgata o personagem Riobaldo, de Guimarães Rosa: “O corpo não traslada, mas muito sabe, advinha, se não entende” (p.77). Gosto também quando ele nos desafia a encontrar as crianças em cada um, pois a crianças sabem lidar melhor com as “caixas de brinquedos” enquanto os adultos, tantas vezes, ficam restritos às “caixas de ferramentas”. Assim, vale igualmente o pensamento do poeta Manoel de Barros, quando diz que “a palavra poética tem que chegar ao grau de brinquedo para ser séria”. Penso que isso é pertinente para a educação também, que precisa mobilizar afetos profundos. Para tanto, precisa fazer com que o sujeito se sinta em processos de brincadeira séria e, assim, se permita emocionar-se, revolucionar-se, crescer, ameninando-se, vibrando e, se preciso for, estremecendo com as experiências de se entregar, de se mostrar, de ser fazer seres em processos de autopoiese, de reinvenção de si mesmos.


segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Casa de floresceres!

A energia da casa precisa ser trabalhada com entrelaços de amorosidade e firmeza. Há laços a serem revisados, ajustados, laços que enlaçam, que envolvem os sujeitos, ao mesmo tempo que são agenciados por esses próprios sujeitos, numa energia que emana e se autoproduz constantemente. Campo de floresceres, campo de usinagem de vida. Habitat de seres-alma entrelaçados por uma razão sensível cósmica. Leva-se muito tempo para entender o que se sente todos os dias, o que vai tranversalizando a nós mesmos, construindo liames, em cenas compartilhadas, frases, olhares, risos, gestos, carícias trocadas. Momentos de aprendizado imenso...em que se aprende a compartilhar, conviver, dividir o alimento, o sustento, os sabores e amores.

A casa da gente é uma matriz ecossistêmica de força, de onde florescem projetos de vida, de seres-flores, seres que, em determinado momento, se vão, pelo mundo afora, para construir outras casas-matrizes de florescimentos. O que acontece é que a casa é uma roupa grande, uma outra pele, maior, mais densa, que reveste a vida da gente, na usina de produção, em entrelaços com os seres que o Universo escolheu para serem nossos, nessa vida, nessa passagem-viagem! Cada um constitui uma parte de um texto maior, textura, tessitura de vidas em brotação.

Eu gosto das minhas casas. Gosto de cada coisa, das minúcias. Em cada detalhe, há vestígios de mim mesma, ali, inscrita no tempo e nas minhas tantas limitações e algumas potencialidades.  Gosto do que venho construindo e tenho respeito pelo que pude (e também pelo que não pude!) fazer. Fui vivendo sempre no meu máximo, fazendo sempre o que podia, como tentativa imensa, me esforçando para conseguir manter a família, manter os projetos seres filhos, como seres de amor e bem-querer-bem. Há também sinais de muitas dores vividas, muitos momentos sofridos, desgastes da vida, momentos impensados, violência existencial. Nem tudo são flores, mas das dores também floresceu um ser Malu mais forte, sensivelmente mais forte. Fui o que precisava ser, em cada momento.

“De tudo ficou um pouco”, como diz Drummond, em um dos meus poemas preferidos, lindamente intitulado Resíduo. Também há nas minhas casas meus melhores momentos, os momentos cúmplices, os momentos de paixão, momentos de impetuosidade e italianidade, momentos ardentes. Foram todos momentos de amor profundo. É esse amor que sinto, ainda hoje, me sustenta e mantém viva a orientação para trabalhar a energia das casas, para tentar fazê-las mais acolhedoras, mais floridas, mais amorosas. São casas simples, sem cadeiras na calçada, porque minha condição de vida não me permite morar em ‘casa, casa’ mesmo... Meus espaços de vida são ‘casa’, porque fiz ‘casa’ dos apartamentos que tenho... casa, morada, toca da leoa, Solar Cardinale, onde transitam pessoas que amo ou por quem tenho amoramizade! Assim como tem que ser!


terça-feira, 1 de agosto de 2017

Um filho é uma alma da gente!

A frase me veio hoje à cabeça, em uma situação importante. Um filho é uma alma da gente! Eu sei, alma não tem dono, não faz sentido, mas eu penso que a frase veio, porque eu senti e pensei que um filho é uma alma que o cosmo escolheu para estar sob os nossos cuidados. Cuidados imensos, entrelaços na mesma proporção. Uma alma que nos desafia, nos alegra, nos preocupa, às vezes também nos cuida... Uma alma ‘nossa’! Uma alma amada, com quem se cultiva o amor e se aprende a amar e estabelecer e reconhecer limites! Uma alma que nos faz humildes, profundamente humildes, compreendemos que sabemos pouco da vida e que nada está decidido nunca, nada que sabemos de nós mesmos vale para o outro que vive outra vida, em outro tempo, com outras tramas existenciais. Tudo tem que ser construído na vivência e na trama de entrelaçamentos e acontecimentos.

Ao mesmo tempo, parece que somos nós mesmos do lado ‘de fora’. É como se fosse o desdobramento da nossa própria alma, um desdobramento do nosso corpo físico espiritual emocional. Eu já tinha ouvido falar que um filho é o coração da gente multiplicado. Não, não é só isso. É muito mais que o coração. Sinto que há entre nós uma ligação de natureza meio mágica, um filamento espiritual que nos une e nos faz conectados, para muito além do que é visível, para muito além do corpo físico, para muito além do que eu um dia pude imaginar. Eu sempre tive isso especialmente com minha mãe, mas não entendia bem. Só sabia que era uma conexão profunda. Ainda hoje temos conexões sem explicação no mundo físico, material. Coisas de mãe-filha.

Agora, nesse outro tempo da minha vida, todas as vezes que meu olhar encontra os olhos dos meus filhos parece que o mundo, a vida, faz sentido e eu vislumbro meu sentido de vida. E que o sentido mesmo é um texto que não pode ser dito na sua completude, até porque é um texto que eu não sei completo.  Eu só pressinto, porque é um texto sempre em construção, um texto que se constrói junto, na relação. Percebo que há uma matriz de desejo do que eu quero dizer, em síntese, para essas almas minhas. Sim, porque parece que viemos para nos colocar em situações de desafios de construção de potência, situações que são acionadas pelo motor gerador do próprio sujeito. E, assim, o que eu mais quero dizer é: acredita, você pode! Não há modelo, não há um jeito pronto, mas há o que 'você pode fazer' com seu jeito, com sua marca, descobrindo sempre ‘o que te importa?’. Eu não te quero do ‘meu jeito’, eu te quero ‘seu’, autônomo, ser por você mesmo. Meu modelo é insignificante para quem tem uma vida inteira pela frente. Minha vida e meu jeito não são modelos para ninguém. Eu me considero uma pessoa esforçada, totalmente voltada para o bem-querer-bem, mas isso não quer dizer que eu tenha respostas... que eu saiba muita coisa.

Fico pensando que apesar de lidar tanto com as palavras, com meus filhos eu falo mais intensa e adequadamente de outras maneiras. Produzimos interações e significações, muitas vezes, sem texto verbal. Produzimos textos intensidades abstratas, que nos conectam e fazem com que o rumo da prosa seja amoroso, intenso, até mesmo quando discordamos. É uma vida inteira, talvez mais que isso, é um tempo intensidade que, pelo que entendo, não se limita a esse tempo que estou por aqui. Bem, por óbvio, este texto aqui não termina... deixo, no entanto, a frase em resposta à pergunta de um dos meus filhos, quando pequeno. Ele chegava perto de mim e me perguntava: “Mãe, você nunca vai me esquecer?”.  E eu que digo frequentemente que ‘nunca’ é muito tempo, neste caso, posso afirmar: “Nunca! Não posso esquecer, desistir e não acreditar em transformações, para melhor, de seres que estão conectados à minha própria alma. São minha própria vida prolongada, meu fluxo de vida, minha respiração, minha pulsação existencial! Sou muito agradecida pelos filhos que tenho, pela almas que recebi para cuidar! Assim como sou muito grata pelas almas com as quais pude me (re)encontrar! Muito! Lembro-me do poeta  Fernando Pessoa, que disse: "Tudo vale a pena quando a alma não é pequena." No nosso caso, somos almas entrelaçadas e, por isso, fortes! Tudo vale muito a pena!