quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

As leoas nas tramas da engrenagem maquínica



A pessoa trabalha ‘um mundo’, correndo o tempo todo, para dar conta de uma avalanche de demandas, todas fundamentais. Há ainda um mar de outros 'a-fazeres', lindos, acionados pelo bel prazer de produzir umas invencionices na vida, que ninguém é de ferro. Depois de tudo, passa uma imensidão de tempos, produzindo relatórios da produção, em plataformas variadas, para que ninguém pense que é improdutiva. Enquanto vai cuidando, milimetricamente, o registro dos dados, vai pensando que isso não é o mais importante. O mais importante é o tempo vivido, as produções todas, os acontecimentos produzidos nos encontros tantos, no dia a dia da vida de uma criatura que vive alegremente o que produz e se esmera para produzir alegrias nos diversos níveis e materializações. Certo, certo, na verdade, é isso, mas, há ainda outra verdade, essa publicizada, metrificada das produções acadêmicas, que diz que é preciso registrar, alimentar bancos de dados.... Enfim, é a típica situação em que as leoas entram em ebulição e, desassossegadas, praticam seu esporte favorito: o embate!

Malu: Olha só! Estou cansada! Entendi que a gente vive a barbárie, também no meio acadêmico. A cada dado que eu registro no tal relatório, fico pensando “por que trabalhei tanto? Se tivesse trabalhado menos, já teria terminado”. Agora passo dias cuidando milimetricamente, se estão todos os dados aí. Conferindo... Que beeeeleeezaaa!

Maria Luiza: Não adianta, Malu. A vida é assim mesmo. Não há como escapar. Ao contrário. Não queremos escapar. Amamos a vida acadêmica, a lida. Preparamo-nos muito tempo para esse lugar, para estar formando pesquisadores, mestres e doutores.

Malu: É, é lindo mesmo, mas nem tudo é lindo. Essa métrica a que estamos submetidos todos, a engrenagem maquínica que nos conta, nos matematiza, nos transforma em dados frios, não combina com o ‘mundo da vida da Ciência’.

Maria Luiza: Compreenda, criatura, de uma vez por todas: o mundo da vida em geral, e também o da Ciência, é mais amplo que a tua dimensão sentimentalóide poetizante. Isso é uma síndrome, eu acho... não é possível! Você deveria vir com manual, pra eu saber como acionar o dispositivo racional. Não adianta. Tem que fazer, faz. Pronto. Não reclama, não te entedia. Abaixa a cabeça e avança.

Malu: Bem, cada um com suas síndromes. A senhora se acha muito normal, abaixando a cabeça e produzindo dados para alimentar uma tal coleta, que vai depois alimentar uma coisa chamada sucupira, junto com um mar de gente que faz isso também, numa subserviência ao sistema maquínico...

Maria Luiza: Pára! Em que mundo você vive? A engrenagem existe e, para fazer o que amamos, estamos nela e aí queremos ficar. Então, racionaliza, criatura. Faz parte, está no ‘pacote’. É uma espécie de ‘combo’ da vida acadêmica. Você quer viver as graças e alegrias do Amorcomtur, mas se incomoda de ficar conferindo os dados, postando em três, quatro plataformas...

Malu: Três, quatro, oito, novecentos e cinquenta plataformas a senhora quer dizer. Cada lugar é de um jeito. Depois, nesse mundo parece que não há como viver sem um formulariozinho, uma planilha, um relatoriozinho básico, com dados, claro, conferidos em outras trezentos e cinquenta plataformas, algumas que não funcionam direito ou que não são ‘amigáveis’, para usar a linguagem da informática. Sim, porque de amigáveis não têm nada os espaços que você demora um tempo para abrir... e daqui a pouco se fecham... e outros que você tem que clicar em um mundo de lugares para se achar o que procura... bah!

Maria Luiza: Você me obriga a me repetir! Não seja dramática! A vida é o que está! Enfrenta ou, como dizem os jovens: “Aceita que dói menos!”.

Malu: Que engraçadinha! Agora a senhora resolveu fazer graça... Que beleza! A pessoa se esgualepando em meio a turbilhão de coisas para fazer, e a outra brincando...

Maria Luiza: Você já deveria me conhecer e saber que brinco bem pouco na vida. Sou prática operacional. Não faço drama, nem comédia. Só vivo. Cada dia de uma vez. Só isso.

Malu: Uff... prática operacional. Claro, não há nada mais conveniente à engrenagem maquínica. Um ser prático operacional. Parabéns! Que orgulho! Você não se irrita, não se abala, tem esse tom majestoso, de que acha que sabe tudo, acha que sempre sabe o que fazer.

Maria Luiza: Criatura, não delira! Estou muito longe de ser assim. Se fosse, já teria arrumado um jeito de me libertar de você e da tal Luiza. Vocês me atrapalham. São cheias de sentimentos, de amorosidade, de poesia. Ao contrário, com essa imensidão de afeto de bem-querer-bem, diante da impossibilidade de me livrar de vocês... acabei concordando em fazer da vida... Amorcomtur! Penso que agora é tarde para ser diferente. Quando vejo, eu mesma ando postando por aí: #souAmorcomturemtodaparte.




segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Semana do meio


Iniciamos a semana do meio. A semana entre Natal e Ano Novo. É uma semana meio preguiçosa, com a gente meio zonza ainda da pressa de dezembro e os acontecimentos do Natal. Dezembro é um mês intenso, que prepara as celebrações do aniversário de Jesus e, talvez por isso mesmo, atice emoções diversas, como se ‘todos’ os irmãos se agitassem com a aproximação dos festejos do irmão mais célebre, ao mesmo tempo mais simples, aquele que nos aproxima do Pai. Eu sigo, no meu jeito, pra variar, refletindo...

Há tempos eu tento entender dezembro. É sempre um mês com tragédias e com um desassossego imenso, com as pessoas correndo, em busca de uma busca que busca e tal. A celebração do Natal deveria nos acionar paz, serenidade, tranquilidade, como mundo, em um resgate do que foi e é o Moço da Parede (Jesus!). Parece, no entanto, que ainda temos muito o que aprender. O que mais tenho visto, ao longo do muitos dezembros que vivi, são pessoas aceleradas, agitadas, nervosas, descontentes, muitas deprimidas.

Por sorte, convivo também com gente que tenta inventar jeitos de sobreviver dezembro. Gente que ri de si mesmo, que opta por modos simples de estar em ‘tempo de Natal’, mais em sintonia com o aniversariante. Não é fácil, há muitos apelos em sentido contrário. Como tenho dito, dezembro não é um mês, mas um exercício de sobrevivência diária. Rajadas de narrativas mercadológicas, do reino do consumo, que nos apelam para ‘o amor’, enquanto vendem celulares, carros, computadores, perfumes e tudo o mais. Às vezes, parece que o texto é que se você ama, você compra. De tudo o que aprendi sobre o amor, no entanto, um dos aspectos mais importantes é que ele não tem nada a ver com posse, propriedade, com acúmulo de capital.

O amor se constitui em singelezas, nas intensidades plenas de uma espécie de substrato amoroso, que surge na convivência e no estremecimento do si mesmo, no encontro com sujeitos e seres vários, com ambientes, com os diferentes ecossistemas. O Amor tem várias naturezas e se nutre, especialmente, dos entrelaçamentos vários dessas naturezas diversas. O amor também é subversivo, porque não segue regras, nem mesmo as que pareciam consagradas. Para o amor, por exemplo, não há tempo e espaço. Não há limites, não há fronteiras e, ao mesmo tempo, ele mesmo, em si, em sua singularidade, delineia possíveis e impossíveis, ainda que, mesmo assim continue ‘sendo’ amor.


Como normalmente acontece, na ‘semana do meio’, eu aproveito para ajeitar algumas coisas em casa, sistematizar papéis e lembranças, organizar um pouco o ecossistema da leoa essa aqui e sua tribo de leõezinhos. Enquanto remexo papéis e os cantos da casa, também tento remexer e organizar um pouco do mundo interno, que também precisa de ‘arrumações’ às vezes. Mais que nunca, procuro serenar. Aprendi que ter paz é algo também de imenso valor. Lembro a frase de um grande amigo, que vez por outra, ecoa em mim: “Devagar, que tenho pressa!”

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Preliminares da escrita...

Os textos também têm um tempo de fervura, as ‘preliminares’, as afetiv(ações). Às vezes também têm sua urgência, seu desassossego! Assim, o autor vai sendo ‘afetivamente afetado’ pelo texto, em um processo semelhante ao embriagar-se, perder-se de si mesmo.  Simultaneamente, busca a si próprio e ao outro, a quem vai se entregar inscrito, ‘inscriacionado’. São muitas provocações, muitos atiçamentos, em um jogo de insinuações, em que o texto se mostra e se esconde, assim, meio como quem ri do nosso desejo de escrever... Até que essa ‘fervura’ chega a um ponto do soltar-se ... e o texto... jorra!  Gosto de deixar jorrar... floresceres em palavras!


segunda-feira, 26 de agosto de 2013

As estrelas e a imaginação


Às vezes, percebemos que passamos grande tempo da vida dependurados em uma estrela imaginária. Linda, intensa, aparentemente perfeita. Perfeitamente imaginada! Depois, aos poucos, vamos percebendo que ela, a estrela imaginada, nos escapa, à medida que vivemos. Vai se denunciando, na sua condição imaginada, se mostrando mais etérea do que deveria. Escapa-nos aqui e ali. Não, ela não estava sempre ali, como esperávamos e supúnhamos. Não, ela não tinha tanto brilho quanto era necessário, quanto necessitávamos. Mas, então, o que foi feito da estrela perfeita, que por tanto tempo se nos apresentou? Então era tudo mentira? E as vozes que ouvíamos do oráculo, dizendo que tudo estava escrito nas estrelas? E a certeza que tínhamos no coração de que a estrela, aquela, era a mais linda e certa inscrição das nossas vidas e que nos levaria para o mundo que sonhamos, onde haveria sempre amor, onde as amizades fossem sempre verdadeiras, onde o abraço fosse sempre sincero, onde poderíamos suportar a todos os desafios, porque tínhamos cada ponta da estrela, como segurança, como porto seguro?

Chego à conclusão que não havia nenhum problema com a estrela, com o que existia dela, de fato. A estrela era verdade, mas não como a víamos. Nós víamos a imaginação, a estrela imaginada. Essa, sim, inspira cuidados, porque era idealizada, porque era sonhada e construída dentro de nós. Não há como buscar fora a estrela que temos dentro. Ela existe como referência de brilho, de intensidade, como condição amorosa e orientação da vida. Ela existe, mas não no Outro ou em um projeto específico. Ela existe como nossa potência de construir estrelas. Isso não é ruim, a menos que esperemos que o ‘fora’, o Outro, o projeto dê conta da idealização. As coisas são como são, não como imaginamos. As pessoas também. Depois de constatar isso, você só tem que decidir se continua ou não na estrada que tinha escolhido, com base na idealização da estrela imaginada. Você tem que decidir se ama, assim mesmo, conhecendo a estrela nas suas imperfeições e incompletudes, na sua humana e real condição imperfeita, como de resto é tudo e qualquer coisa e somos todos nós.E também tem que se contentar com o fato de que a estrela se movimenta por conta própria, independente da sua vontade.


Outro desafio imenso, nesse sentido, pra quem tem o hábito de imaginar estrelas perfeitas é compreender o giro do Universo, o fato de que nada permanece no mesmo lugar muito tempo. Tudo está, o tempo todo, em processo de mutação. Tudo se movimenta. O encantamento com a estrela imaginada faz com que o sujeito tenha desejo de que nada mude, de que tudo permaneça onde e como está. Ao contrário disso, nada permanece. Tudo está em transformação em cada instante. Isso não significa que se modifica pra pior ou pra melhor, mas que se movimenta o tempo todo. Não adianta espernear. O instante passado é passado e  somos chamados a fazer nossa parte para garantir o devir, o instante que deve vir a ser. Isso só é possível valorizando o instante presente, o que temos. A sabedoria oriental valoriza o conceito de ‘presença plena’, que aprendi a partir do chileno Francisco Varela, no livro De corpo presente e depois amadureci treinando karatê e aprendendo as orientações do Caminho. É preciso aprender estar plenamente presente onde se está e reconhecer as condições reais para que possamos agir, intervir no mundo, no universo, no nosso universo existencial. Um pouco de vetor prático operacional ajuda a conviver com estrelas reais e imaginárias. Assim, é fácil não se decepcionar com estrelas. É só não esperar delas o que temos dentro de nós, como imaginação.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Leoazinha Luiza na foto


Malu: Ali, ali!.

Maria Luiza: O que foi criatura? O que você quer agora? Está quase gritando, pra chamar atenção.

Malu: Você não vê? Ela está ali? Atrás do bule. Sentada.

Maria Luiza: Ah... agora a coisa degringolou... sobram poucas opções. Você enlouqueceu de vez, criatura? Do que está falando? Quem está sentada atrás do bule? Eu não entendo mais nada do que você fala. A situação está ficando dramática...

Malu: Arrrhhh.. a senhora não enxerga nada além do nítido, do visível concreto. Que ódio isso me dá! Não vê, na foto, a leoazinha Luiza? A foto, está vendo agora? Nessa foto do Centro Holístico Arte e Vida?

Maria Luiza: Senhor, protetor das leoas de uma certa idade e sem paciência pra gente doida, peço misericórdia. A Malu agora saiu dos trilhos. Está olhando uma foto e vendo a si mesma pequena, atrás de um bule, em uma imagem que, juro, não há sequer uma menina, que dirá a derretida da leoazinha Luiza... assim fica difícil...

Malu: Mas eu não to acreditando... falta mesmo muita sensibilidade na senhora. Seu senso prático exagerado, sua racionalidade exacerbada, sua lógica preconfigurada de vetor prático operacional vai mantê-la assim, pra o resto da vida, enxergando o que todo mundo enxerga, apenas o que todo mundo enxerga... isso é muito pouco.

Maria Luiza: Você quer dizer... enxergar o que existe de fato, apenas o que há para ser visto, sem delírios imaginativos.

Malu: Não são delírios. A senhora não entende que uma imagem é um texto, uma narrativa, maior, bem maior do que os traços visuais, o composto de características visuais que a compõem. Se fosse só pra ver isso... a vida não faria sentido. Não teria a emoção que tem!

Maria Luiza: Hum.. sei... emoção e loucura, pra você, agora são a mesma coisa?

Malu: Não. Veja bem, olha bem pra foto, mas olha bem mesmo! Firme. Sente. Não vê a menina Luiza atrás do bule, sentada, rindo?

Maria Luiza: Olha, eu uso óculos. Já olhei essa foto muitas vezes, desde que você começou a delirar...

Malu: Não é delírio. A imagem tem a Luiza pequena. Só que a senhora, assim como a maioria das pessoas não vai ver. Ela está nos detalhes, no substrato de afeto visual que se expressa ali... na conexão narrativa com o Coqueirão, fazenda onde a Luiza viveu e onde aprendeu a brincar, remexendo o chão, achando graça em tudo, nos gravetos, nas plantas, nos pedaços de brinquedos, flores do campo, no cheiro das coisas, no barulho do ‘silêncio’, os sussurros de seres invisíveis, esses mesmos que a senhora nunca viu e nunca vai ver...

Maria Luiza: Nunca vi seres invisíveis... me ocupo com coisas palpáveis, lógicas. O que existe já é muito para me ocupar com imaginação.

Menina Luiza: Mas tudo isso que ela diz existiu, sim. Não é imaginação. Era tudo lindo, muito simples e muito lindo. Eu sonhava muito, brincava com tudo. Brincava principalmente em cima do pé de jabuticaba. Dormia e acordava. A árvore era tão grande que as galhas eram os cômodos da casa... lembro do meu avô, da risada dele, as bitelas, as grandes jabuticabas, como ele chamava. Depois ele me deu um pé de jabuticaba em Guarantã... maravilhoso, a árvore da minha vida.

Maria Luiza: Ah... tá... reminiscências de infância. Que lindo! Agora a Malu foi desencavar essa guria choramingas, daqui a pouco ela tá aos prantos, lembrando, lembrando....

Malu: Uff.. a senhora é impossível. Eu não desencavei a Luiza. Ela estava lá na foto, na poética..

Maria Luiza: Tava demorando, a palavra... a poética...se não falasse a poética não seria você...pra mim, já deu por hoje. Estou satisfeita... valeu mesmo. Fotos, delírios e poética... claro.. como eu não poderia imaginar.. a poética da foto com a poética da Luiza... uff...



domingo, 21 de julho de 2013

Leoas e acordar cedo


Maria Luiza: Muito tarde.

Malu: Bom dia, pra senhora também.

Maria Luiza: Você não entende. Acordar tarde não faz sentido, na nossa idade. Não combina. Temos um milhão de coisas pra fazer, sempre, de segunda a segunda.

Malu: Pois então, eu me canso. Preciso descansar às vezes.

Maria Luiza: Mas você nunca ouviu falar que Deus ajuda quem cedo madruga?

Malu: Então, ouvi, mas acho injusto.

Maria Luiza: Coméqueé? Você agora, na sua arrogância adolescente juvenil tardia, vai querer julgar .... Deus?

Malu: Não, não é Deus. Não foi Deus quem disse isso. Foram as pessoas. Quem me garante que isso não é apenas uma estratégia do capitalismo mundial integrado, para fazer as pessoas produzirem, produzirem, produzirem o tempo todo? Eu preciso dormir, às vezes.

Maria Luiza: Lá vem você e suas teorias. Capitalismo Mundial Integrado... Criatura. Você não reparou que, quando levanta cedo, o dia rende mais, você consegue fazer mais coisas...?

Malu: E fico com mais sono. Sim, reparei sim... Quanto às minhas teorias, eu gosto delas. Falam de fluxos abstratos, desejo, espelho, amor... teorias da melhor qualidade...

Maria Luiza: Pra justificar seu jeito... maluca..né?

Malu: Ah... o próprio Umberto Eco disse que a gente cita os autores com os quais concorda ou cita pra discordar. Então, meu referencial teórico é todo de gente doida, que ama, que brinca, que vive o prazer, que quer viver alegrias enquanto produz Ciência, que entende que tudo é a mesma coisa, que somos poeira do universo, que estamos todos juntos....

Maria Luiza: Eu sei, já as conheço todas. Até porque você vive declamando esses conceitos como se poemas fossem...

Malu: Há uma poética nessas teorias...

Maria Luiza: Mas lá vem você de novo com a poética... você é reencarnação do Aristóteles?

Malu: Não sei, acho que não. Mas gosto muito de algumas coisas que ele disse.. ou que disseram que ele disse... coisas que ficaram expressas como sendo dele: “O ser é expresso de muitos modos”, por exemplo. Até usei na minha tese. É uma das orientações da minha teoria.

Maria Luiza: Pode parar. Não sou tua aluna, nem tenho tempo pra isso. Estávamos conversando sobre acordar mais cedo.

Malu: Então, acho injusto, se Deus reaaalmente só ajuda quem cedo madruga. Por que não ajudar os outros? Eu, por exemplo. Quando levanto tarde é porque fiquei até de madrugada fazendo algumas coisas sempre interessantes. Escrevendo artigos, por exemplo.

Maria Luiza: Sei, escrevendo artigos.

Malu: Sim, escrevendo artigos também, lendo, conversando, assistindo tevê, planejando, namorando... gosto da noite, gosto da madrugada, de ficar até mais tarde...à noite parece que os sentimentos afloram, o inconsciente brota mais fácil, tudo é melhor.

Maria Luiza: Sei, mas no outro dia, acordar tarde também faz uma diferença grande. O dia não rende ... o tempo parece que encurta. Eu não sei. Deve haver uma explicação física para isso. Nós devemos ter uma relação com o tempo diferente, dependendo do horário que acordamos. Eu sinto isso. Por isso, gostaria que você acordasse sempre às cinco.

Malu: Oooo quê?! Às cinco? Mas na maioria das noites vou dormir às duas, três? Como vou acordar às cinco? A senhora está com tendências suicidas. Se eu acordar às cinco, não podemos fazer muita coisa durante o dia, dirigir, por exemplo, nem pensar. Vou estar como uma sonâmbula.

Maria Luiza: Você é uma exagerada. Dramática. Mas sobre acordar cedo...

Malu: Então, acho injusto. Veja bem, cada pessoa tem seu ritmo, há funções diferentes na sociedade. Deus é Deus de todos. Penso que deveria ajudar também quem tarde madruga. Seria mais democrático.

Maria Luiza: Pelo amor de Deus, não misture Deus com democracia, nem com nada parecido. Também não fale em igreja ou religiões... Deus é maior, Deus é literalmente todo poderoso.

Malu: Nossa, falou boniiito. Tá inspirada. Viu como a noite valeu a pena? Acordar tarde também faz bem, às vezes. Então, Deus, como todo poderoso, não deveria discriminar seus filhos, pelo horário que acordam. Não sei, eu penso isso ao menos.

Maria Luiza: Olha Malu, contigo, até Deus tem que ter paciência. Vamos parar porque tenho que trabalhar pra sustentar tuas loucuras....



sábado, 20 de julho de 2013

Leoas, casas e romances....

Malu: Em cada canto da casa de Porto Alegre, pedaços meus, amontados nas lembranças dos objetos e lugares. São cenas e cenas que passam de novo à mente, trazendo passado. Cada coisa ali tem uma história. Muita coisa ali. A casa é muito grande. Na verdade é um apartamento grandalhão, daqueles de prédio antigo. Um prédio antigo em pleno Bom Fim (bairro Bom Fim, pra quem não é de Porto Alegre). O apartamento é tão grande que são dois. Sim, 201 e 202. Comprei  ‘um’ apartamento que são dois, há muitos anos, em outros tempos da vida. Estava grávida de seis meses da Chiara,  minha quarta filha. Lamentava a constatação de que teria que mudar de casa. Na época, era casada e já tinha três filhos. Não cabíamos no outro apartamento, que também era muito bem localizado. Não gosto de me mudar de casa. Eu me apego aos lugares que vivo, faço-os meus. Sempre fui assim, desde a casa da minha avó. Sempre reparei em tudo e me senti me misturando ao lugar. Cada buraco da parede, cada imperfeição, era também minha e assim formava uma poética da minha relação com a ‘casa’. Os enfeites, os adereços, detalhes... coisas de menina. Da Menina Luiza.

Maria Luiza: Isso, coisas de menina. Você fala, com se ainda fosse menina. Não é mais. Lamento informar. Tem que olhar pras suas casas com o olhar prático operacional de quem provê sustento, de quem garante a existência ali e no lugar. É chefe de família, de uma grande família, com quatro filhos adolescentes e um jovem adulto. Não é mais tempo de poetizar, de se embevecer com os detalhes do tempo, do vento e do raio que te parta inteira....

Malu: Nossa, que amargura! Como diria uma nossa conhecida: “Quaaanta grosseria!”. A senhora interrompe um fluxo de pensamento, em que estou refletindo sobre a relação das pessoas com as casas, com o lugar de vida, falando da nossa relação com o ambiente cuidadosamente produzido. Interrompe como lâmina, como sempre.

Maria Luiza: Alguém de nós precisa ter a cabeça no lugar. Se eu deixar por você, seguimos apegadas a tudo o que é passado. Você é uma criatura impossível. Impetuosa e apegada. Não se desfaz de casas, não se desfaz de romances...

Malu: Hum... não muda de assunto. Esse é outro desentendimento nosso...

Maria Luiza: Engano seu. É tudo a mesma coisa. Você constrói as histórias, vive as histórias do mesmo jeito que ajeita os lugares de vida. Constrói os espaços das casas como narrativas de você mesma: uma boneca aqui, uma lembrancinha de viagem, uma gravura, uma esculturinha de Barcelona, panelinhas de cobre do Chile, azulejos de Portugal.. bom, bonecas não vou nem contar... você romantiza tudo. Acredita que tudo é verdade como poética da existência.

Malu: Ah, não. Há poética na existência. Tudo o que eu vivi foi verdade, foi vivido intensamente.

Maria Luiza: Criatura, criatura, veja bem. A verdade é um conceito complexo. Pergunta pra doutora Cardinale. Você faz a verdade intensidade poética. Nem sempre as coisas a tua volta são assim. Elas são assim dentro de você. Tudo imenso. Tudo verdadeiro. Tudo imensamente poético. Aí você se apaixona por porta, parede, sofá, banheira. Você viveu tudo com uma poética construída com o mar de afeto que a caracteriza.

Malu: Não. Não vivi minha vida sozinha. Antes pelo contrário. As melhores histórias são histórias partilhadas. As melhores lembranças, as mais intensas, as mais alegres e mais tristes também são as cenas em que há pessoas importantes da minha vida, ali, junto de mim.

Maria Luiza: ‘Queriida’, você é escritora. Você escreve a parte que lhe interessa das histórias e das lembranças. Você lembra o que mais gostou, as cenas que achou bonitas, as alegres e as tristes. Eu venho tentando te dizer: ‘saudade é sentimento ligado ao passado. O passado não alimenta presente e muito menos futuro’. A regra, então, é: esquece! Você tem que aprender a viver o presente, aprender a viver o que sobrou do passado, o que, de fato, conseguimos construir depois das vivências tantas, em Porto Alegre, Caxias, somando tudo... Às vezes, você esquece momentos importantes. Momentos que significaram rupturas e maltratos. Você esquece alguns momentos, mas não esquece o que deveria esquecer. Fica assim meio que aprisionada na lembrança. Chega a me dar raiva da tal música que diz: “Você é a saudade que eu gosto de ter!”... isso é masoquismo, sandice...

Malu: Lembro tudo. Sei bem o que a senhora lembra, quando diz isso. Uma determinada madrugada, uma madrugada específica. Uma ‘madrugada texto’. Eu sei. Deveria ter ‘lido ali’, deveria ter ido embora, sem falar nada. A relação com a casa. A dificuldade de me sentir em casa. O mal-estar. O desfecho estava claro. Eu sei o que deveria ter feito. Não fiz. Eu respeito meus tempos. Era outro tempo. Outro momento. Não fico me lamuriando pelo que não fiz. Com o tempo, eu aprendi a me ‘des-culpar’, a tirar a culpa pelo que não consegui fazer no passado. Fiz o possível.

Maria Luiza: O possível é pouco, querida doida maluca parceira de vida minha. Temos que fazer o impossível. Você não só se desculpa, você tira a gravidade da cena. Passa por cima. Tanto é que demora a tomar uma decisão, quando ela realmente importa. Sua amorosidade derramada é um descalabro. Uma insensatez.  Em outros casos, é impetuosa e decide rápido demais. Falta reflexão. Realmente, assim não dá pra ser feliz.

Malu: Parabeeeéens! Espetáculo de frases! Uma beleza.  A senhora gosta de frases de impacto. Gosto de refletir, mas realmente esse não é meu ‘dom principal’. Sou a parte de nós que aciona o movimento, que põe o barco em ação, o motor pra trabalhar, nas invencionices, nos movimentos desejantes... vou criando coisas, amorosidades, sim, romances com a vida, romances que escrevo, que vivo... porque isso me põe viva. É o que faço agora... é o que faço sempre. Desse modo, também reinvento as madrugadas. Não fosse assim, não haveria ‘madrugadas de olhos imensos e intensos’, a senhora sabe.... risos...

Maria Luiza:  Tá criatura... sem detalhes...  Melhor frases de impacto que bordões folhetinescos. Você assistiu muita novela na vida. Isso afetou seu cérebro.

Malu: Nosso cérebro, a senhora quer dizer.

Maria Luiza: Não me lembre isso. Sim, nosso cérebro. E eu passo o tempo todo tentando consertar, minimanente. Em vão. Quando estou tentando planejar, pensar sobriamente sobre as possibilidades, vem você ou a menina Luiza e desandam tudo... parecem bêbadas... da vida.

Malu: Oooh... nem tudo está perdido. A senhora está fazendo poesia... risos.

Maria Luiza: Poesia é o escambau! Estou aqui preocupada, pensando em providências necessárias para as nossas casas, de Porto Alegre e Caxias, tanta coisa para organizar envolvendo as crianças, ops.. os filhos, eles não são mais crianças e isso dá ainda mais trabalho, mais todo o planejamento da Universidade e... claro... as novidades da Pazza Comunicazione... os novos projetos...

Malu: Bah.. chega.. já estou cansada... só de pensar nisso.

Maria Luiza: Eu sei. Eu sei... eu também. Acho que vou ver um pouco de novela, pra ver se fico tonta, feito você, e não me preocupo tanto. Até a próxima.