sábado, 29 de setembro de 2012

Leoazinha Luiza cresceu....

Das Leoas... a Luiza sempre foi a leoazinha, a menina em mim. Ao longo da vida, as outras leoas foram ficando indignadas com a meninice da Luiza, com seu romantismo, seu sentimentalismo exacerbado. “Coisa de libriana”, sempre pensava a Malu, um tantinho mais paciente que a Maria Luiza, a mais racional das três. Esta, sim, bah... revoltada com o jeito ‘amor derramado’ da menina, nunca poupava adjetivos pejorativos...depreciativos. Só que o tempo tem mostrado que cada uma, do seu jeito, tem sua sabedoria... a Luiza também. Além disso, também é possível avançar no jeito, aprender com a experiência, reescrever a própria história, também (e talvez, principalmente) a própria história amorosa. Assim, um belo dia desses, me dei conta... a Luiza cresceu.



Luiza: Elas brigam tanto e, quando veem, o que mais querem é simples e está nas coisas que eu cultivei, que eu aprendi desde menina.

Malu: Ah.. tá. Vamos com calma. Você é a menina em nós. Eu quero muito mais coisas. Ainda tenho sonhos, projetos. Sigo planejando e produzindo. Sem minha disposição e força de ‘arranque’ pra batalhar pelas coisas... não seríamos nada.

Luiza: Planejando e produzindo. Aí é que está. Não vê que há graça em coisas que nunca foram planejadas? Coisas que são da natureza. Coisas sobre as quais não se fala, coisas que acontecem, singelas, simples.

Malu: Sim, eu sei do que você está falando. Tenho pensando muito nisso. As coisas simples...

Luiza: De tudo o que se viveu, eu ainda quero a simplicidade das toalhas de crochê, das flores ajeitadas na casa, a simplicidade da conversa na hora do almoço, do olhar de um homem ‘simples amado’, suas histórias, seus jeitos, seu riso, seu jeito de ficar indignado com injustiças sociais, às vezes. Quero também o riso dos filhos, almoço aos domingos ou, mesmo, como agora, quero estar um pouco sozinha, pra serenar por dentro... quieta, no ‘mim mesma’. É pouca coisa, mas é uma imensidão de alegria. Assim como foi uma das últimas viagens.

Maria Luiza: Foi marcante mesmo. Foi um retorno às origens, reencontrar o lugar, amigos, o pai, tudo.

Luiza: A senhora, pra variar, está racionalizando. Essa viagem me trouxe de volta, porque sinto que tudo o que sinto é o que verdadeiramente faz sentido, pra todas nós. Detalhes. Detalhes. Cada coisa, cada cena foi compondo informações de um estar bem, que faz muita diferença. A ‘cena da janela’ me contou isso. Outras cenas também... eu não digo aqui, porque, depois, este texto vai pro “Margaridas”.. bem.. mas todas vocês sabem...

Dra Cardinale: Vamos falar em sentido geral. A questão é que as viagens provocam uma desacomodação, uma desterritorialização, saída do território conhecido e habitual, que não é só física. É também interna, também psíquica. Quando viajamos, nós viajamos dentro de nós mesmas e encontramos ‘outros lugares’.

Luiza: Desta vez, encontraram a mim...(rindo).

Dra Cardinale: Sim, Luiza, a encontramos porque as vivências todas foram mostrando o que mais valorizamos na vida, uma poética do simples e um gosto de estar ali, na segurança de se sentir do lugar, de ser aceita e querida. Há outras lembranças contrárias a isso, quando nos sentimos ‘fora do lugar’, incomodadas pelas evidências de não desfrutar do direito de pertença, por não sermos autorizadas a ficar. Esta é a diferença.

Luiza: Talvez o choro na rodoviária tenha sido por isso.

Maria Luiza: Como disse a nossa irmã, você é mesmo uma ‘molenga’. Chora por qualquer coisa. Isso nem mais é levado em conta.

Luiza: Não é o caso. Ali o derrame de lágrimas era pela intensidade e singeleza do que se viveu. Simples. Tudo simples e mostrando como tem que ser.

Malu: Ah.. ótimo.. como tem que ser, só que o lugar é algo que está lá e você está aqui. Que lindo isso! É uma síndrome romântica, tendência de valorizar o ideal, o que não tem.

Luiza: Não. O sentimento está em mim. A vivência trouxe informação e, como sabemos, informação é sempre um bem. O querer e o bem-querer-bem têm que ser assim, simples e tranquilos. Essa é a novidade que veio dar à praia... ou à região caipira em nós. Amar tem que ser simples e intenso! Tá bom pra vocês???





sábado, 4 de agosto de 2012

Leoas, quase amigas?





Maria Luiza: E aí?

Malu: E aí o quê? Não falei nada.

Maria Luiza: Não falou, mas pensou. Está pensando que é tempo de conversarmos.

Malu: É, mas não tinha decidiiiidooo, ainda.

Maria Luiza: Mas eu decidi. Vamos aos fatos?

Malu: Fatos? Você vai relatar fatos no blog? Você está bem? Está com febre?

Maria Luiza: Não preciso relatar, você sabe os fatos.

Malu: Até onde eu sei está tudo bem. Na verdade, não tinha decidido conversar, porque estou numa fase de certo modo nova pra mim... a mente parece mais esvaziada. Há textos, há acontecimentos cotidianos, mas há outra condição que me parece mais lenta e densa, dentro de mim, mais de sentir, ir sentindo, viver, ir vivendo, diferente.

Maria Luiza: Você sabe, isso tem a ver com o Caminho.

Malu: Sim, sei, com o Caminho e com outras orientações, que se entrecruzam.

Maria Luiza: Então, se fosse em outros tempos, as orientações que você recebeu te descabelariam.

Malu: Não brinque. Descabeladas, não vamos deixar de ser, em qualquer circunstância. Risos. Até quando lisas. Lembra aquela vez que a cabeleireira insistiu pra fazer escova, chapinha? Bah.. cabelo liso não combina com a ‘nossa’ personalidade. Lembro como se fosse hoje. Saí do salão, em plena avenida Osvaldo Aranha, em Porto Alegre. Ventava. Foi um horror. Cabelo liso desgovernado ao vento é uma loucura. Crespo, não. A pessoa já é descabelada de nascença. É mais coerente. É um descabelamento existencial, cristalizado ao longo do tempo. A pessoa se acostuma a ser descabelada crespa. Ninguém estranha mais... ‘Está descabelada? Ah.. tá, normal. É o meu normal’. Lembrei da expressão de um amor meu, aquele que é o ‘único’ que pode mexer nos meus cabelos... bom, mas isso é outra conversa.

Maria Luiza: É, não muda de assunto. Você é especialista em tergiversar. Sair pela tangente, quando o assunto não está favorecendo.

Malu: Eu e a torcida do Flamengo , né querida?

Maria Luiza: Você adora esta expressão! Vive repetindo.

Malu: Eu adoro expressões. Adoro escrever. Adoro as palavras. Você esqueceu que, literalmente, ‘vivemos disso’?

Maria Luiza: Não, mas você não precisava ser tão repetitiva. E o pior é que não se repete só nas palavras, nas expressões. Você se repete também nas atitudes, em algumas atitudes. Já é tempo de mudar algumas práticas. Estou vendo que vamos desencarnar e você vai levar junto alguns, digamos, procedimentos com ‘defeito’.

Malu: Tava demoraaaando. Começou a desfiar o rosário de críticas. Pra você eu sou toda errada. Estou sempre metendo os pés pelas mãos. Tá certo que me confundo às vezes, risos, mas não é sempre. Eu me confundo mais com os lados. Lado direito, lado esquerdo, risos.. tudo bem, é muita informação, pra quem já tem muita informação circulando no cérebro.

Maria Luiza: Mas vamos voltar ao que interessa. Diz pra mim, criatura de meu Deus, você entende quando falo na repetição?

Malu: Sim, claro que entendo. Mas a senhora entende que também estou aprendendo a mudar? Que as transformações recentes sinalizam para outro jeito de caminhar? Para outras estradas?

Maria Luiza: Não sei, não sei. Eu tenho cá minhas dúvidas sobre a profundidade dessas mudanças. Não sei se são consistentes, se já atingiram um nível de consistência que garanta permanecer na decisão.

Malu: Bem, claro, eu não posso e nem pretendo garantir nada. Aprendi que uma mudança, uma decisão, não pode existir apenas no discurso. Muitas vezes, nem precisa discurso. Ela tem que ir existindo de fato, na realidade. Estou avançando, aos poucos.

Maria Luiza: Beeeem aos poucos, você quer dizer. Risos.

Malu: Mas você não vê que não dá pra mudar do dia pra noite?

Maria Luiza: Do dia pra noite? Você sabe, estamos falando de coisas que você passou a vida inteira repetindo, procedimentos operacionais existenciais sobre os quais eu venho chamando a tua atenção e você não ‘habilita’ o corretor interno pra mudar de rumo. Parece mais uma mula empacada, quando se tratam de sentimentos.

Malu: Desempaquei. Desempaquei. Lembra? Ponto final? Ou melhor: lembra dos pontos finais? Do mais recente? Do novo início?

Maria Luiza: Sim, querida outro eu de plantão e mais frequente, lembro e te parabenizo. PelamordeDeus, o problema é quanto tempo você demora para fazer isso. Não vê que a vida pode ser mais fácil, mais leve, se você aciona o motor prático operacional. Lê o que está ocorrendo no cotidiano com clareza. Isso nós aprendemos bem e muito. Ler texto visível e invisível. Textos abstratos, subjacentes, nas entrelinhas. Você não precisa ficar fazendo de conta que não entendeu. Basta! Sai andando, vai embora. Não te prende. Já te disse, a estrada é grande. Olha o que está acontecendo agora? Não aconteceria, se você ficasse trancada, empacada.

Malu: É, mas você sabe, sou obstinada e intensa. Quando gosto de uma pessoa ou um projeto, eu invisto, eu acredito, está matriz do conceito de amorosidade, de desejo, a crença no devir, a esperança de conseguir. Já conseguimos muitas coisas sabendo desejar, também. Não é verdade?

Maria Luiza: É, está na matriz do conceito de idiotice também.

Malu: Este é um dos seus problemas. Você é incrédula. Você não acredita nas pessoas. Desconfia. Fica sempre me chamando atenção, pra não ser assim tão derramadamente afetiva e tal.

Maria Luiza: Calma. Não é que não acredito nas pessoas. Não acredito em tudo o que dizem, só porque dizem. Falar é muito fácil. Eu acredito no texto maior, que se constitui de frases, substrato informacional abstrato e, principalmente, atitudes. O resto é expressão sem consistência.

Malu: Ai meu Deus, resolveu me dar aula agora. Tô perdida.

Maria Luiza: Não adianta, você entende só o que quer... parece que existimos em canais diferentes... falamos mais outra hora. Quem sabe a Doutora aparece e junta de novo.

Malu: Ufa! Pensei que você não fosse mais desistir, que ia passar falando o resto da noite. Discursando. Até.



















segunda-feira, 16 de julho de 2012

Leoas em tempo de mudanças!



Maria Luiza: Hum... começou o texto escrevendo o título, essa é nova. Você sempre põe o título depois... define o título à medida em que vamos conversando.

Malu: Mas a senhora é implicante mesmo! Quando estou tranquila, resolve se implicar com um título, um adereço existencial qualquer, já que não tem do que reclamar. Os tempos estão calmos.

Maria Luiza: Os tempos estão calmos? Jura? Só se for pra você! Quer dizer: como assim calmos? Você tem noção o que está dizendo, ainda mais depois dos últimos acontecimentos?

Malu: Calma, dona Maria Luiza. Não estou falando de calma externa. Nesse sentido, não há calma. Há muita coisa acontecendo, muita turbulência, sinalizando mudanças. Por isso, inclusive, o título já estava claro. Estou falando de calma interior. Calma em mim. Lá dentro. É uma calma... serena...em meio à confusão, entende?

Maria Luiza: Em tese, entendo. Só não vejo calma em muitas situações do dia a dia. Às vezes, você parece mais Maluca que nunca. Exaspera. Fica furiosa. Briga, sapateia. Atrapalha-se com coisas pequenas, até pra sair de casa, às vezes fica se debatendo, feito borboleta presa na vidraça.

Malu: Sou uma pessoa comum, simples, bem longe da perfeição, como a senhora faz tanta questão de frisar. É verdade. Sou atrapalhada, três vezes por dia, pelo menos. Mas estou falando de uma calma maior, nas grandes orientações da vida.

Maria Luiza: Hum, as grandes orientações da vida! Que bonito isso! Agora você está se achando uma filósofa da existência, que humilde!

Malu: Ai, meu Deus! Olha a ironia... eu já estou rodeada de gente irônica.

Maria Luiza: Não estou ironizando, eu sei o que você está falando, claro, mas pode parecer pedante, pode parecer presunção. Tem que se cuidar.

Malu: Mas por quê? É exatamente isso que estou falando... as grandes orientações da vida. A essas alturas da vida, eu tenho que ter encontrado pistas nesse sentido; se não, estaria perdida. Sou uma pessoa quase idosa. Somos. Não há como ser sozinha, enfrentando o que enfrento... sem orientações internas. Mas por quem me tomas, Senhora Meu Eu Senhora? Ah.. tá, lembrei, a senhora acha que sou uma louca desvairada, sem limites, nem consideração com as consequências.... entendi.

Maria Luiza: Você sabe, não estamos mais sozinhas.

Malu: Bem, isso é uma questão semântica, do significado de ‘sozinha’.

Maria Luiza: Não, não é. Fez-se uma rede de afeto. Há substrato amoroso em laços, em vínculos que são, sim, duradouros...vivemos o gosto da transformação do amor, de uma compreensão do amor, em sua plenitude. Isso não tem nada a ver com arroubos de adolescência, mas com um bem-querer-bem nosso bem-querer. Isso, por si só, já é companhia, isso já é sentir-se em sintonia...

Malu: Não vamos falar disso. A senhora não entende.

Maria Luiza: Percebe que estamos trocando os discursos?

Malu: Sim, percebo. Ainda não entendo bem como pode, mas percebo.

Maria Luiza: Pode, porque o que vivemos é algo amadurecido em nós. Ainda não sabemos o destino dessa ‘prosa’. Não sabemos o que exatamente está sendo escrito, narrado ou vivido. Apenas sabemos que é algo diferente de uma condição anterior. É um jeito de amar dos tempos de agora.

Dra Cardinale: Talvez esteja exatamente aí a tal da calma a que a Malu se refere. Essa orientação maior para a vida. O que acontece é o amadurecimento da condição amorosa, em nós. Aprender a saborear a amorosidade, sem exasperação, sem desespero apaixonado e exigente disso e aquilo, sem atropelo, sem cobrança de desfecho, sem urgência. O bom do amor consolidado em nós. Assim também é com a compreensão dos desfechos da vida, das decisões que precisam ser tomadas. Elas vão surgindo, como clareiras que se abrem à nossa frente, sem que precisemos fazer grande alarde, nem nos envolver com ‘pré-ocupações’. Quando vemos, elas se mostram, se insinuam, como quem diz: “vamos, é só dar o passo”. Assim o caminho e a decisão se fizeram... evidentes, marcados pela obviedade.

Malu: Bem, eu de minha parte já desisti de tomar as rédeas. Passei muito tempo pensando que podia decidir, que podia interferir, que podia isso ou aquilo.Depois, passei muito tempo me culpando pelo que não consegui. Hoje vejo que tudo isso é em vão. Não seria mais correto chamar isso de ‘des-ilusão’?

Dra Cardinale: Pode ser, se for entendido no sentido de não se iludir, não idealizar, não ficar mirabolando isso ou aquilo. Nesse sentido, ‘des-ilusão’ não é ruim. Ao contrário: é um grande ganho. Um grande aprendizado. Na prática, Malu, temos que compreender que tentar controlar demais, prever demais, é algo inócuo, sem sentido. Não adianta espernear. Temos que procurar sentir e fazer nossa parte. Fazer o possível. Usar também o que eu chamo de vetor racional. É fundamental mesclar. Vai vivendo. Deixa que cada um faça o que tem que ser feito. O Universo também tem que fazer a dele. Quando vemos, Ele vai ajeitando as coisas, como elas têm que ser. O bom disso tudo é que estamos juntas, numa ‘recostura’ de eus. Juntou-se desejo, emoção, razão, conhecimento. Há mais serenidade em nossa fala, em nosso coração, porque o amor ganhou outra dimensão. Já era tempo.



















domingo, 8 de julho de 2012

Poética da existência e (des)ilusão


Eu me emociono com os textos que reviso, com as pessoas com as quais convivo, com quem trabalho, compartilho gargalhadas, tensões, risos, amizade, produção. Vou assim, sentindo as pessoas, tentando compreender e conviver, sempre e sempre mais. Desse modo, emocionadamente derramada, ‘afetivamente afetada’ pelos outros, eu vibro com suas conquistas e me enterneço com a poética das suas existências.

Foi assim essa semana, enquanto acompanhava a apresentação de orientandos meus de pesquisa, nas bancas. Eu sabia o que significava aquele momento, para cada um deles: o fechamento de um ciclo, o enfrentamento dos seus leões internos, os dramas familiares, a superação de sentenças condenatórias, proferidas por professores perversos, na infância, ou a sensação de impossibilidades, em função de uma origem humilde. Cada um deles, enfrentava, ali, seus maiores medos, em rituais aparentemente racionais, de apresentação de suas pesquisas 'científicas'.

E eu sempre, sempre, me sinto alguém muito privilegiada por acompanhar processos e momentos tão importantes para as pessoas. Estar ali, ter sido escolhida, por eles ou pela vida (a indicação de orientação às vezes é feita pelo aluno, às vezes pela circunstância), é algo que sinaliza uma história conjunta, partilhada, vivida e que vai marcar para sempre nossas existências. Estar junto na banca, não é pra qualquer um. Estar junto na banca é uma eleição pra vida toda. Estar junto na banca, como orientadora, é um laço que não se desfaz mais, permanece. Fica aqui minha declaração de amor profundo por todos os meus orientandos.

Ao mesmo tempo, acompanhar processos de aprendizagem tem me ajudado a ser mais paciente comigo e com minhas imperfeições (tantas!), tem me ajudado a me (des)culpar pelos meus erros (tantos); por algumas coisas que sei que não tenho como conseguir, as minhas impossibilidades (tantas!); pelas decisões que eu não tomei sozinha, mas que foram se mostrando, elas mesmas, como estrada já construída; decisões em tempo de solidão, mas que eu esperei que amadurecessem e, de alguma forma, elas se mostraram minhas companheiras. Quando vi, estavam ali, diante de mim, como opção única. Eu só tinha que seguir adiante. Eu vejo as pistas da sequência da ‘minha estrada’. Não são exatamente as que eu queria encontrar, mas isso também não importa mais. Vejo que estou aprendendo, com sofrimento e alegria, a ler os sinais e a aprimorar o olhar, assim como a não me debater contra o que tem que ser. Não adianta lutar contra o Universo. Ele soberanamente ESTÁ.

Em meio às decisões ‘que se decidiram por si’, eu vivo também as alegrias das emoções partilhadas, dos amores possíveis, dos afetos intensos com os seres que Deus se incumbiu de me presentear, tornar presentes no meu dia, na minha vida. Só que tudo, cada encontro, cada vivência, tem sido sob a ruína da idealização, sob a morte das fantasias de outro tempo. Meu olhar de hoje tem poética, tem encantamento, mas também tem (des)ilusão, no que isso pode ser compreendido como um bem. Da série, vivo ‘a vida como ela é’, as pessoas como são, os acontecimentos como eles verdadeiramente ocorrem... enfim.. o possível. Então, sigo, amorosamente... assim, um dia, também vou embora.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Leoas e as emoções de sianinha

Maria Luiza: Ah... começou a semana bem! Emocionada com o trançado de flores de sianinha. Você não tem como ser admirada, dessa maneira! Emoções de flores de sianinha. Só você mesma!


Malu: Nossa, que mau humor! Não vejo nada de mais. Vejo, vejo o encanto das flores de sianinha. É um encanto múltiplo. De flores, que me lembram a fábrica de flores Santa Rita, onde cresci, aprendendo a trabalhar, lindamente produzindo flores. Você sabe, a fábrica da minha mãe. De trançados que aprendi com a minha avó, a costura, o cuidado com os panos de prato, as toalhas de crochê.

Maria Luiza: Sim, é óbvio que conheço a história! É a ‘nossa’ história, lembra? Você não é dona de todas as lembranças, nem das mais belas.

Malu: Meu Deus, mas o que foi? Está irritada assim por quê? As flores de sianinha te fizeram tão mal?

Maria Luiza: As flores de sianinha, o rosa degradê dos tons, tua pieguice derramada, até poemas declamou no evento da UCS. Assim, a semana começa no derramamento amoroso. Assim não é possível produzir em paz. Depois, tantas lembranças adiantam o quê? Temos uma vida imersa em um motor produtivo, que mais parece um moedor de carne, sendo que a carne...é a nossa. Produção é que precisamos. Dar conta do dia, dos ‘a-fazeres’. Olha aí que esse negócio de poesia é contagioso. Já estou, eu mesma, me lembrando dos teus poemas.

Malu: De que produção a senhora fala? Textos, artigos, revisões, orientações. Se observar bem o dia, vai ver que fiz tudo o que tinha que fazer e com qualidade. A questão é que, como sempre, acabei encontrando um tempo para o amor, para demonstrar o amor. O amor para com o homem dos olhos que nos meus olhos refletem minh’alma, para a amorosidade expressa no texto terno sobre as flores de sianinha e, depois, nas poesias declamadas no saguão do CETEL. Não necessariamente nesta ordem, risos. Tá, confesso que fiquei meio tímida, para declamar meus poemas.

Maria Luiza: Tímida nada. Ainda não vi tamanha habilidade para se expor, assim amorosamente derramada, ‘afetivamente afetada’, como dissemos na abertura da tese.

Malu: Prefiro a definição do Julinho da Adelaide. Ele disse que sou uma ‘cachoeira de poesia’. Gostei da definição. Uma cachoeira de poesia é um espetáculo. Quem dera eu fosse! Quem sabe um dia eu seja! E aí, então, em algum momento, minha escrita vai fazer sentido para as pessoas, vou levar mais amorosidade, ternura, substrato amoroso para as pessoas, o que parece ser minha ‘grande tarefa’.

Maria Luiza: Hum, a situação complicou. O Julinho deveria ter pensado no que poderia produzir. Você já é derramada por natureza. Se alguém apoiar, então, estamos perdidas. Vai passar o resto dos dias fazendo poesias.

Malu: Poesia só, não. Poiese. Autopoiese. Com o conceito esse, de autoprodução, eu encontrei uma ‘pista’, um caminho de reinvenção, aprendi a reconhecer a potência de fazer emergir de dentro de mim mesma, uma nova Malu, sempre que for preciso. Vivo às turras com a realidade, sofro, me emociono, amo intensamente, mas, independente do que aconteça, eu sigo.

Maria Luiza: Sim, eu sei como você segue. Segue, quando não empaca em alguma coisa, pela qual se apaixona.

Malu: Eu me apaixono, sim, mas estou mais na fase do amor do que da paixão. O amor, sim, este sim não passa. A paixão é vento. O amor é sustento, substrato amoroso. Eu não vivo de vento. O amor tem que ser alimentado, para sobreviver. Eu alimento o amor em que acredito, que me interessa, mas minha atitude pode mudar, mesmo diante de seres amados. Você sabe disso.

Dra Cardinale: Certo, certo, Malu. Também não precisa escavar feridas. Nós sabemos que você também sabe ser ‘pedreira’, se precisar lidar com ‘pedreiras’. Aprendeu na vivência com os filhos, em situações extremas na vida, mas sabe que a orientação é geral: ninguém pode te machucar. Nem o amor pode te machucar. Se tentar, está errado. Deve ficar longe. Precisa se afastar.

Malu: Pois então, doutora, é o que eu penso, mas é que a Maria Luiza adora me tomar para tonta. É como seu eu não soubesse o que faço, só porque sou amorosa, cuidadora, ternamente afetiva com as pessoas que me rodeiam e, principalmente, com quem amo.

Maria Luiza: Não é isso. Só acho que as pessoas que te conhecem, já conhecem o teu texto. Você não precisa ficar repetindo.

Malu: Meu texto não é retórica. Não é texto vazio. Meu texto é pleno de intensidade e verdade. Se alguém não acreditar, ironizar, esnobar, não ligar... meu texto não muda. Minha atitude pode mudar, mas o meu texto é escrito de dentro, de dentro de mim, de dentro do meu coração. Meu coração não vai mudar, minha pulsação não vai mudar. Eu posso calar, eu posso silenciar, eu posso me afastar, eu posso direcionar o texto para outros seres amorosos, mas não vou deixar de amar...

Maria Luiza: Mas é enjoada essa ‘discurseira’ sobre o amor... as pessoas se enjoam, se cansam...imagino que torcem o nariz, dizendo: lá vem aquela criatura falar de amor de novo.

Malu: Ah.. mas essa é impossível. Vou responder com um poema, pra tua indignação. Só que, no caso, é do nosso grande Drummond: “Que pode uma criatura, entre outras criaturas, senão, amar?”. De desamor, o mundo já está cheio. O que mais existe são atrapalhações, pessoas que se afastam, que não conseguem ficar juntas, se aproximar, mesmo diante de sentimentos fortes. Pessoas que ‘optam’ pelo afastamento, para não viverem complicações da vida amorosa quando as vidas se juntam. Então, decidem pelas complicações das vidas amorosas que não se realizam no laço, na convivência. Parece mais seguro. É mais seguro, mas, ao mesmo tempo, é uma condenação ao auto-abandono, às mares desejantes fúteis do cotidiano.

Dra Cardinale: Você não pode julgar. Cada um, cada um. Cada um decide o que é melhor pra si mesmo. Não há modelos, nem fórmulas prontas de felicidade. Cada pessoa tem que saber o que é melhor para si mesmo. É uma relação de custo-benefício. A vida está muito difícil. Todo mundo está tentando encontrar a sua maneira de ser feliz.

Malu: Bem, a senhora desculpe, mas os consultórios psiquiátricos estão cheios de gente tentando encontrar a maneira de ser feliz. Eles também movimentam a indústria farmacêutica, as seitas religiosas sem Deus, o mercado de consumo, com suas ‘satisfações substitutivas’. O desejo, na contemporaneidade, é amadurecido à força, como as frutas, que nós compramos na feira. Vem sem gosto. Desejo fast-food, forçado pelos instintos básicos ou pelo mercado de relações. Isso, pra mim, não serve. Eu já escrevi isso em outro lugar. Eu tenho dito que cheguei em um momento da vida em que vale a máxima: É tempo de errar menos. Penso que as pessoas têm que decidir que tipo de felicidade estão buscando. Eu sei o que busco.

Dra Cardinale: Neste exato momento, precisamos buscar a felicidade do sonho, ou melhor, dos sonhos. Precisamos ir dormir. É madrugada, mais uma vez. Em outra hora, conversamos mais.









sábado, 16 de junho de 2012

LEOAS E A INUNDAÇÃO ...


Maria Luiza: E aí moça, resolveu inundar Caxias do Sul?

Malu: Hum, se vai começar com ironia, é melhor não conversarmos. Não estou com humor suficiente pra aguentar você tripudiando.

Maria Luiza: Não é isso. Estou tentando te chamar a atenção para esse derrame de lágrimas. Você parece uma cachoeira. Daqui a pouco, alguém vai te indicar para resolver o problema da falta d’água do mundo. De onde você tira tanta água?

Malu: Tô dizendo, agora você resolveu ficar engraçadinha. Isso é típica fala minha. Acho que estamos nos misturando: eu ficando mais séria e você mais brincalhona.

Dra Cardinale: Essa é a grande transformação necessária. Achar o meio tom, a mistura dessas diferenças. Encontrar a dosagem.

Maria Luiza: Bom, mas aí já é pedir demais, doutora. Meio tom. Dosagem... são palavras que não combinam com a moça aí...essa maluquinha de plantão o tempo todo.

Malu: Nem tão maluca mais.. nem tão eu mesma, na matriz. Não sei. Algo parece que trincou.

Dra Cardinale: Você já sabe o que é. Nós já sabemos.

Malu: Sim, eu sei.

Maria Luiza: Como você mesma diz: “pedreira”. Os acontecimentos não são fáceis, mas o ensinamento é grandioso.

Malu: Beleza. Uma beleeeza ouvir isso: “o ensinamento é grandioso!”. Isso muda o quê mesmo, no que eu tô sentindo? A minha parte eu quero em outra ‘moeda’. Ensinamentos grandiosos não estão me ajudando agora....

Dra Cardinale: Não faz assim, Malu. Não fala bobagem que agora já é madrugada. Falar bobagem de madrugada é começar o dia ‘bobageando’... Tenho certeza que você sabe que, se não fossem os ensinamentos que temos em nós, seria tudo mais difícil. Faz muita falta compreender o que vivemos. Lembra há alguns anos, quando você se debatia, sofria imensamente, por não dar conta de compreender a cena... Lembra do sonho da cegueira parcial, que ia se modificando? Lembra?

Malu: Lembro, claro que lembro. Sonhei que tinha ficado cega parcialmente. Andava na casa, enxergando pedaços da cena; às vezes uma coisa, às vezes outra... a cegueira essa ia se modificando... como se fossem sendo apagados trechos da cena...com uma lógica que eu não entendia. Na época, eu só conseguia entender que a cegueira não era física... era uma cegueira emocional, considerando coisas que eu não conseguia enxergar.

Dra Cardinale: Pois é. Só que, como diz Saramago, "Cada um de nós vê o mundo com os olhos que tem, e os olhos veem o que querem, os olhos fazem a diversidade do mundo e fabricam as maravilhas, ainda que sejam de pedra, e altas proas."

Malu: Só pra lembrar...eu tenho os olhos míopes...em 'sentido amplo'.

Dra Cardinale: Sim, eu sei, mas hoje você enxerga muito mais, apesar do aumento da miopia dos olhos. Conseguimos viver as cenas e compreender o que estamos vivendo, como se fosse outra cena. É melhor, apesar de sofrermos em função do quanto compreendermos, é melhor.

Malu: Melhor pra quem, cara pálida? Eu vejo coisas que não quero ver. Entendo outras que não gostaria de entender. Leio textos subjacentes, compreendo discursos não ditos, substâncias informacionais ainda sem forma, como a senhora explica.

Dra Cardinale: Então. Isso é bom. Compreende dimensões sutis da comunicação. Isso é ótimo.

Malu: Bah, um espetáculo mesmo. A senhora tem razão. É só fazer uma lista das informações recentes que eu obtive que vamos ter que discutir o seu conceito de ‘ótimo’, já que a senhora adora tanto... conceitos e teorias.

Maria Luiza: Olha, a questão não é essa. A questão de hoje é que você tem se desmanchado em lágrimas, mais que o normal. Normal, eu digo para um ser humano assim... normal, digamos. Teu caso já é excepcional, mas na excepcionalidade você tem extrapolado. Então, tem que parar de ficar parecendo a menininha fragilzinha, porque não é essa a nossa matéria. Não é disso que somos feitas. Odeio que você fique se derramando em lágrimas...

Malu: Muito bem, a senhora que quer mandar em tudo. É cheia de proibições, então faça alguma coisa e proíba essa maré dentro de mim. Quem sabe dá certo.

Maria Luiza: Mas criatura, as coisas não funcionam assim. Não somos seres isolados. Somos uma só. Temos que estar em sintonia, ainda que existam – e existem – algumas peculiaridades que nos diferenciam. Na prática, esses diálogos e a percepção das nossas diferenças servem para que nos aproximemos, para enxergar melhor de onde brotam as dificuldades e pensar, em conjunto, como resolver.

Malu: E, mas pra senhora, as dificuldades brotam sempre do mesmo lugar, ou seja, de mim e desse meu jeito amoroso.

Maria Luiza: Tá bom, acabou minha paciênia, que já não é muita. Então, vamos lá. De que serve esse teu jeito? A quem serve? Quem se beneficia com ele? Quem valoriza?

Dra Cardinale: Calma, Maria Luiza. Também não seja dramática. Não adianta você atacar o que é a matriz do ser. Isso é chover no molhado, é inócuo. É possível suavizar, misturar mais adequadamente com o que eu chamo de vetores de racionalidade, mas desmontar a forma... aí não vai dar, a essas alturas.

Maria Luiza: Tá. Eu sei, mas não é verdade o que eu questiono? Enquanto essa criatura amar tanto, se importar tanto com os outros... me diz, de que adiantou tudo? De que adianta, se a própria matriz condena? Dá indignação, olhar pra trás e onde deveria haver estrada há ... buraco, fosso, abismo... é isso que ela tem construído com o seu imenso jeito de amar. Eu estou revoltada, não suporto injustiças, nem descaso, nem maltrato. Fico furiosa. A “Dona Malu”, não. Ela chora. Que beleezaaa! Chorar resolve muito.

Dra Cardinale: Eu venho dizendo... radicalizar não adianta. A senhora sabe que não é verdade tudo o que diz. A vida tem demonstrado que amar é a única opção. Não há outra. Os amores são múltiplos e de variados tipos. Não devem ser idealizados, mas vividos no cotidiano, em situações simples e comemorados pelo que é possível, não lamentados pelo que é impossível. É bom lembrar que, no mesmo dia, essa dona moça consegue chorar por motivos bem diferentes e isso, se é ruim, também é bom. O choro dos contrastes da vida. Diferentes resultados, mas que mostram, também, que as redes de afeto se formam, sim, fortes. Há ‘nós’ já construídos com substrato amoroso de qualidade e que dão suporte e força, para seguir adiante, mesmo quando em situação de feridas remexidas. Na verdade, se olharmos bem, não estamos mais sozinhas, essa é a grande mudança.









domingo, 10 de junho de 2012

A SEQUÊNCIA...AS LEOAS...


Dra Cardinale: O que vocês não entendem é que as duas estão certas e erradas... a questão é a medida. A medida da paixão, como diria Lenine, na linda música, a intensidade das coisas vividas, da entrega, do amor, na contenção, da obstinação...a dificuldade de saber ir embora, quando se quer ficar... de ser dura com quem se ama... de saber ‘ler palavras duras’ com o dicionário do outro. Os filhos talvez ajudem também nesse sentido.. a aprender que o amor tem que ter limites, porque o não limite é abandono ... de si e do outro. O não limite é o maltrato. O não limite leva à destruição mútua e da própria relação. O não limite é a barbárie, como eu tenho ressaltado. Esse limite tem que ir sendo construído, com ternura e firmeza, ao mesmo tempo, pra não fazer arrebentar o substrato amoroso.

http://www.youtube.com/watch?v=YLkEDVoGz7M

Malu: Agora estou perdida.. muito lindo, vocês duas... cheias de teorias e racionalizações. Limites, limites, limites, paciência, paciência, paciência... isso meus alunos têm razão: na prática, a teoria é muito outra. A construção do limite essa, às vezes, é que é uma absurdidade e destempera, desencanta, desalenta, desatina... tudo ‘des’..desmancha também o que demora pra ser construído dentro da gente. Se eu for por aí.. eu desisto.. ‘ des-existo’ .. é isso o que vocês querem, imagino. Se o limite for exagerado, tudo trava, abruptamente.

Dra Cardinale: Você é a jovem adulta, em nós. Realmente, não faz mais muito sentido continuar agindo ‘como se não houvesse amanhã’. Não há mais tempo para isso.

Malu: Como se não houvesse amanhã? Agora não sou eu mais a doida. Vocês é que enlouqueceram. O que eu mais tenho feito é ser paciente.. é aguardar.. fazer tudo na direção que quero, mas também esperar que o Universo me dê respostas, que sinalize para onde vai a vida, até porque já sei que não mando nada mesmo.

Maria Luiza: E nem tem que mandar. Só tem que se controlar, conter, fazer o que tem que ser feito e pronto. O resto é perfumaria e delírio de adolescente tardia... Você tem que, finalmente, se despedir, desistir, sim, do que tem que ser deixado. Não desistir do essencial.

Malu: Ah.. ótimo. E quem decide o que é essencial? A senhora ou a Dra?

Maria Luiza: Você é que não é. Pelo menos não decide sozinha. Olha em volta. Para e pensa. Relembra, mas não só o que te dá alegria lembrar. Lembra tudo. As coisas estão se decidindo por conta. Você só tem que aceitar.

Malu: mas é isso que eu digo. Quando eu aceito, me aquieto, sossego, alguma coisa acontece e tudo se revira, tudo muda, parece que volta.. parece que brota dentro de mim...

Maria Luiza: você é um poço de amor a céu aberto! Nasceu assim. Pra isso mudar, tem que morrer. Não há racionalidade que aplaque. Você não se aquieta, não arrefece, o amor em você não passa, só permanece. O que acontece é que, em alguns momentos, você me deixa tomar a frente. Aí seguimos fazendo o que tem que ser feito... o básico, tipo tubinho preto da existência que, no nosso caso, já é gigantesco, em função do tsunami de tarefas.

Malu: É isso que não aceito: o básico. O básico é morno. Morno é pouco. Já esgotei a paciência!

Maria Luiza: Paciência, se esgotou. Esse é um dos seus problemas. Você vê o tempo passando e pensa que ainda não fez tudo o que gostaria... vê que daqui a um tempo vamos pra outra dimensão. Não compreende que não temos controle sobre isso, nem sobre muitas outras coisas. Só podemos fazer o que precisa ser feito. Serenar e pensar na ‘grande tarefa’.

Malu: Vai me desculpar, mas a senhora não tem sentimento. Se não compreende o que eu sinto eu não sei de que matéria é feita. Sei que não é a minha.

Maria Luiza: Tenho. Tenho sentimento. Sentimento de autopreservação.

Malu: Isso não basta. Estou cansada de olhar em volta e ver as pessoas infelizes, porque têm feito o básico. Eu não tenho vocação para depressão, nem para o básico. O básico é pouco. Não vou cruzar os braços e ligar o piloto automático. Não me acostumo com a pasmaceira de uma vida morna.

Maria Luiza: Morna ou não, tem que se voltar para o possível. Para o que tem que ser. É só isso que você pode, que eu posso, que a Dra também e... a torcida do Flamengo, todo mundo.

Malu: Mas não mesmo! Pode esquecer que vou me sentar dentro de mim mesma e ver a vida passar... navegar, sem assumir meu lugar no ‘eixo’ que me faz viva...

Maria Luiza: O teu lugar, pode; não pode é assumir o dos outros. Faz a tua parte e pronto. Cada um entra em cena com seu texto e faz o seu melhor.

Malu: Droga! Tudo é muito lento...

Dra Cardinale: O Universo, Malu, o Universo.. ele tem seu tempo.. o tempo cósmico. É sabedoria compreender que ele se movimenta como tem que ser... o vento... o sol...a gestação de novas vidas, de novos projetos, acontecimentos...de devires outros... não há como acelerar, nem interferir.

Malu: Meu Deus, a senhora fala... faz sentido, mas tantas vezes parece insuportável esperar...deixa... porcaria!

Maria Luiza: Não adianta, doutora. Passei a vida dando discurso pra essa criatura. Ela é empacada, teimosa, insistente... resistente....impaciente, impossível, insaciável, inconstante, impulsiva....

Malu: Sou a parte realmente viva dentro de vocês. Só isso. Vocês são couraças de defesas, distantes do que efetivamente nos faz feliz. Parece que vivem para me paralisar, quando eu quero saltar.

Dra Cardinale: Não é assim, Malu. A felicidade não é um salto no escuro, em direção ao mar alto. Você sempre corre o risco de encontrar os rochedos, antes de tudo. Diga-se de passagem, em geral, é o que tem acontecido. Pedreiras, geleiras, ferro e fogo. Já é tempo de aprender a saltar, metaforicamente, intelectualmente, já que fisicamente penso que não vamos saltar mais... Para isso, passou o tempo de aprender, e a coragem, neste caso, parece ser matéria inexistente em nós. Arriscar, ter coragem de ir adiante, avançar em direção aos desejos, aos sonhos, tudo isso é saudável, se não for feito de uma maneira suicida. Somos seres que acumulamos muitas dores, medos, sofrimentos. Temos marcas de abandono e pouco caso. Justamente por isso, seguimos nos quebrando na vida. De onde você está, tão perto de sentimentos profundos, tão embriagada deles, há a vontade de não sentir mais nada disso, mas, ao mesmo tempo, você se perde, buscando sempre a confirmação do que conhece. Precisa aprender a não aceitar maltrato, seja de filho, de mãe, pai, homem amado, seja lá de quem for. Precisa aprender a desapegar-se a despedir-se, quando tem que ser. Eu venho te dizendo: o mundo é grande. Tua matriz é amorosa e generosa. Como escrevemos, esses dias: e haverá, então, um mundo de flores, de margaridas brancas, mostrando que a ternura, a união entre as pessoas é possível, mesmo e por causa das suas imperfeições e, ainda assim, haverá beleza, porque a felicidade e a beleza são simples, singelas, ternas e, deste modo, podem ser duradouras, ainda que não eternas.