terça-feira, 29 de maio de 2012

DESENTENDIMENTOS INTERNOS: AS LEOAS DE NOVO...




Malu escrevendo: E então do alto daquela montanha, em um platô de pedras, era possível avistar o vale. A cena é recorrente, ela pensou.

Maria Luiza: A cena é emblemática, mas já foi tantas vezes utilizada em filmes, em narrativas audiovisuais. Não  há nada de inovador em buscar desfechos observando o vale. Mais uma vez, estás em um lugar comum da existência.

Malu prossegue: Não, o lugar era incomum. Havia ali um pouco de tudo. Era uma espécie de síntese dos melhores momentos, dessas que aparecem quando a gente vai morrer – dizem. Não posso dizer se é assim, eu nunca morri. Não que eu me lembre.

 Maria Luiza: Também isso, eu acho que li em um texto do Veríssimo... Sim, li. Parece que se chama “Toda a vida”. Então, você não consegue escrever 10 linhas sem citar alguém. Bela escritora você é.

Malu: Então tá, já que você resolveu me incomodar. Tudo bem, agora o golpe mortal. Uma do Legião: 

Sei que, às vezes, uso
Palavras repetidas,
Mas quais são as palavras
Que nunca são ditas?

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Confiança amorosa

Assistir Ensaio sobre a Cegueira, o filme baseado no livro de José Saramago, com o grupo de estudantes do Amorcom!, foi uma experiência linda, que fechou a semana com reflexão sobre a vida, sobre a sociedade contemporânea, sobre o amor e as possibilidades de felicidade! No filme, as pessoas começaram a voltar a enxergar, quando se redescobriram como ‘pessoas com valor humano’ (no que isso tem de bom e de ruim), com potencial de amor entre si, pelo que são como seres vivos e não pela aparência, pela função social, pela idade. Amor no sentido pleno, como ‘reconhecimento do outro como legítimo outro na convivência’ (Humberto Maturana). Outro na diferença, com direito de ser outro, outro com quem se quer conviver. A ‘esperança’ surge quando os laços de afeto entre o grupo se consolidam e quando eles se entregam na relação de ‘confiança amorosa’.

A confiança amorosa possibilita a cumplicidade, a amorosidade plena, numa entrega sem exigências apriorísticas, entrega pelo gosto de estar junto, de conviver. Despir-se e viver alegremente o encontro. Nesse tipo de laço, não há regras, nem marcas do mercado de consumo que digam quem você é. Não é a cor da pele, a roupa da moda, o corpo perfeito, a preparação sofisticada que decide a cena. Tudo é mais simples. Simplesmente amoroso.


Possibilidades de paz amorosa, em momentos que ficam emblematicamente reverberando dentro da gente... fazendo mais e mais vida: aconchegar-se, depois de vagar pelas ruas caóticas das cidades e do mundo, inundadas de gentes podres, devoradas por elas mesmas e por animais de todos os tipos... aconchegar-se ‘fora da moda’, numa roupa simples ou em roupa nenhuma, apenas nos braços de alguém que se gosta... fazer nada junto e depois, tudo. Assim, pra mim, é ‘ser feliz’ e parece que também é isso que o filme mostra.

Ser feliz é voltar pra casa, território da gente, aquietar-se na simplicidade no ‘nosso lugar’ no mundo. Ter pra quem olhar, quem tocar, amar ou conseguir olhar para nós mesmos, sem medo, nem autopiedade, nem arrogância egóica de quem ‘se acha o máximo’, de quem acha que ‘se basta’; é conseguir estar humildemente despido, diante de si mesmo e do outro e se ‘des-culpar’ dos tantos erros na vida; também é acreditar na possibilidade seguir a estrada...sozinho ou acompanhado – acompanhado, de preferência.

Quando estivermos junto com pessoas que amamos, o desafio vai ser conseguir partilhar o pouco que ‘nos cabe neste latifúndio vida’ (pra lembrar Chico Buarque, que é sempre uma lembrança linda), sem cobranças, sem exigências premeditadas, pré-fabricadas, pré-concebidas, preconceituosas. Deixar à vontade, construir de modo parceiro o espaço dividido, ainda que seja por tempo passageiro, porque ‘tudo na vida passa, até uva passa!’. Foi o que aconteceu, quando, no final, o grupo foi acolhido generosamente na casa do médico e de sua mulher.

Desafios existenciais de partilha, de instantes-vida compartilhados. Pra isso, não se sabe a medida, há que se construir a vida no jogo marcado pela atrapalhação, pelas diferentes compreensões sobre o que é aproximação e afastamento. Assim, há que se ajeitar, dar jeito, encaixar existências e, diga-se de passagem, o gosto disso é o que vale a ‘coisa’, quando se consegue. Para tanto, cada um vai ter que descobrir a que se predispõe. Situações extremas de sofrimento ensinam a generosidade e desapego. Depois da cegueira branca, da suposta iluminação de superioridade que a humanidade viveu, nomes e valores materiais perdem o sentido... Fica, mesmo, o que vale a pena. Como diz o poeta, na frase exaustivamente repetida aos quatro ventos: “Tudo vale a pena, se a alma não é pequena” (Fernando Pessoa). Pra mim, tudo vale a pena, se a confiança é plena.

Assim estamos construindo o Amorcom! Grupo de Estudos e Produção em Comunicação, Amorosidade e Autopoiese, na Universidade de Caxias do Sul. Assim, tenho orientado minha vida. Assim, o Amorcom! se fez. Sou muito grata por isso.




quinta-feira, 26 de abril de 2012


ESPELHO QUEBRADO. CADÊ O DESEJO?
Reflexões sobre estilhaçamentos especulares da imagem jornalística

Este é o título do texto que vou apresentar no XIV Encontro Nacional de Professores de Jornalismo, no X Ciclo Nacional de Pesquisa em Ensino de Jornalismo, que acontece em Uberlândia, Minas Gerais, de 26 a 30 de abril.

O texto traz o relato da experiência de uma pesquisa realizada na Universidade de Caxias do Sul, intitulada Imagem, Sujeito e Mídia. A reflexão a ser apresentada no sábado, no Encontro nacional de Professores de Jornalismo, volta-se para a discussão da imagem dos sujeitos jornalistas para eles mesmos. Parte de questionamentos como: quem é o jornalista? Quem é esse ‘si mesmo’ que se propõe como jornalista? Qual o valor do profissional do jornalismo para a sociedade? Como essa imagem publicada e internalizada interfere nas produções jornalísticas e no desejo de realizar produções mais cuidadas, de mais qualidade?

Pretendo, com essa discussão, contribuir para a reflexão de como a formação dos jornalistas pode preparar pessoas mais conscientes do seu ofício, como algo essencialmente voltado para a sociedade, para o bem comum. Jornalismo é gênero de primeira necessidade, mas isso não diz respeito a qualquer produção veiculada pela mídia, mas a produções feitas com cuidado, com esmero e com comprometimento social.

Ser jornalista é um contador de histórias boas e ruins, que sejam de interesse social. Histórias do dia, histórias do ‘giorno’ (palavra que significa ‘dia’ em italiano), ‘giornalismo’, jornalismo. Desejo que as nossas histórias sejam contadas cada vez com mais humanidade, amorosidade e consciência de que somos seres a serviço da sociedade.

Como jornalista e educadora de jornalismo, trabalhando numa perspectiva transdisciplinar voltada à amorosidade no ensino, questiono: jornalista, você tem fome de quê? Que imagem você vê de si mesmo e que imagem você quer ver no ‘espelho’? O Ensino do Jornalismo tem que fazer sentido, pra nós e para a sociedade em que estamos inseridos. Se não respondermos essas perguntas, é difícil acionar o envolvimento intenso, desejante e comprometido, para a produção de Jornalismo de qualidade.

domingo, 22 de abril de 2012

Olhos que espelham minh’alma



Por encontrar, nesta vida de meu Deus, olhos que, nos olhos meus, refletem minh’ alma, eu me deparei com a paz amorosa. Paz no coração. Não importam mais desfechos e prazos. Não importa mais tanto o rumo dos acontecimentos. Nem o tempo importa mais.

Aprendi a desapegar dos desfechos premeditados por uma sociedade que ensina a amar, segundo padrões de formalidades e rituais e nomes tantos. Tenho aprendido, também, que só posso investir na busca do controle de mim mesma, mas não no rumo do amor, que não depende de mim. Não dá pra ficar imaginando o devir. Cada um faz o seu caminhar, seu movimento e isso não diz ‘amar ou não amar’, mas resulta de um mundo de outros elos, trama de existências e quereres outros.

Penso que estou aprendendo e sei que sigo tentando consolidar a compreensão e a vivência, nesse sentido. Aprender a amar sem idealizar, sem cobrar de mim e dos outros um desempenho este ou aquele, segundo uma configuração típica da família capitalista ocidental formal. Amor no flerte, no jogo louco da sedução, no namoro, no noivado, no casamento. Desamor na separação. Ódio, tantas vezes. Uma sequência de contratos de relação que, supostamente, definiriam se o amor ‘deu certo’ ou não deu.

Mas, Deus meu Deus, o que é mesmo o amor dar certo? Cumprir os rituais estabelecidos por uma sociedade que agencia o relacionamento, como um empreendimento a ser exibido publicamente como de ‘sucesso’? Às vezes, até mesmo um catálogo estético e econômico (e, pior, político), um perfil de vínculos que se publica nas redes sociais virtuais e não virtuais para dizer: ‘olha quem está comigo!’. O amor como instrumento de união de famílias respeitáveis publicamente, às vezes pela sua condição financeira, pelo seu lugar de poder na sociedade, pelo status, pela tradição. O amor que a ‘família’ aceita e aprova. E o que isso diz do amor? E o que isso tem a ver com ‘os olhos que nos olhos meus refletem minh’alma’? Nada.

O amor não é exibição do amor. O amor está ou não está. Quando a gente sente que está, é porque ele se configurou como um substrato profundo entranhado nesta (e talvez em outras) vida(s). O amor é independente do que pensam do amor que tenho, das razões (racionalistas ocidentais) publicáveis sobre porque amar. Amor independe das aparências públicas do amor. Amar é. Viver o amor é a vivência possível, a partir da possibilidade do encontro emblemático dos ‘olhos que nos olhos meus refletem minh’alma’.

Passei muito tempo da minha vida apegada aos desfechos. O vínculo com as narrativas, com a ficção romântica e amorosa, associado ao jeito ‘libriana’ de ser, fez de mim uma apaixonada exigente, desejosa de que os enredos imaginados se cumprissem. Eu sempre quis atender às expectativas, cumprir as normas, obedecer, para obter aprovação em tudo e, de preferência, reconhecimento. Fico às vezes pensando que fui errando, no sentido de querer que se cumprissem os modos de amor apresentados em catálogos sociais, divulgados através das gerações, de forma sub-reptícia, e configurados nos sujeitos ‘nós mesmos’. Aos poucos, no entanto, fui reduzindo o nível de exigências comigo e com os outros, mas sempre, o tempo todo, errando e acertando, mantive a intenção: a tremenda ousadia(?) da vontade de ser feliz.

Isso. Ser feliz no amor. Amar e ser amada. O básico. Trivial simples. Eu e a torcida do Flamengo queremos isso. Aqui no Sul, do Inter, do Grêmio... agora do Caxias e do Juventude... enfim, todo mundo, ao que eu saiba. A questão é que ser feliz no amor implica, de fato, em ser feliz ‘estando no amor’, em amorosidade, em condição de amar e realizar-se, quando isso se produz também no outro. Raro, realmente experiência rara a de que, encontrando o olhar do outro, exista ali não uma imagem carcaça de um corpo que, vivo agora, se exibe como resultado do tempo marcado, mas uma alma amorosamente afetada pela(s) existência(s) (com)partilhada(s). Isso, na maioria das vezes, não é percebido pelas pessoas. Conscientemente menos ainda.

O amor na sociedade contemporânea tem sido ‘vendido’ e alardeado como um produto amadurecido à força, como as frutas que nós compramos na feira, e que deve ser consumido às pressas, por gente ansiosa por ter prazer imediato. O amor que se resume à estética, à aparência. A proposta do ‘mercado amoroso’ então é amor com consumo que resulta em ‘gozo rapidinho’, fast food. O amor em tempos de ‘ficar’ não fica, ele literalmente desaparece no momento de consumo, transformando-se em ‘bem verdadeiramente não durável’. Amor capitalista amor.

A essas alturas da vida, vivo a alegria de me reconhecer aprendiz, humildemente aprendiz, no que diz respeito ao amor. Não sou sabedora, mas ‘aprendente’. Questiono o amor capitalista, mas alegremente reconheço a potência do amor dos ’olhos que nos meus olhos refletem minh’alma’. O devir, o que deve vir a ser, será um dia, mas eu não tenho a menor ideia desse eventual desfecho. A importância mesma está no encontro vivido, simples, terno, na cumplicidade da partilha e da amorosidade, que tem a base na força e intensidade da amizade amorosa. Este é outro dado. Pra mim, o substrato consistente do amor é a amizade e não a paixão. A amizade tece laços de confiança que a paixão nem de longe aciona.
A paixão sem amizade tem componentes de egoísmo e idealização que, por si, só envenenam (ou podem vir a envenenar) a relação.

Bem, o resto é o futuro. E o futuro a Deus pertence. A escrita desse texto futuro não está nas minhas mãos. Certamente não está... sou apenas sujeito do meu passo e dona dos meus olhos que amorosamente amam os olhos que refletem minh’alma.






domingo, 1 de janeiro de 2012

DESMAIOS E ABRAÇOS...




Sou uma pessoa particularmente interessada em narrativas. Isso vem de muito tempo. Talvez tenha a ver com o fato de que nasci numa pequenina cidade do interior de São Paulo, quase uma cidade cenográfica. Sempre penso que Guarantã, cidade do interior no noroeste paulista, mais parece um cenário, onde se desenvolvem narrativas folhetinescas. Romances, traições, nascimentos, reencontros, desencontros, namoros, separações, crimes, nascimentos... mistérios. Guarantã tem de tudo... ainda vou escrever mais sobre isso.

Ali mesmo, desde criança, eu levantava de madrugada para ler histórias. Lembro que as bibliotecárias do Grupo Escolar de Guarantã, queridas dona Leonor e Nadir, ficavam encantadas com a pequena Maria Luiza, que vivia querendo retirar mais e mais livros...numa espécie de de ‘fome’ de palavras, traço que não era tão comum entre os seus colegas. Não com tanto desejo, ao menos. Nem bem eu levava um livro pra casa, devolvia e queria outro, e mais outro, e mais outros... Elas acabavam sempre abrindo exceção, para mim, emprestando mais livros de uma vez.... nas férias, eu sempre ia carregada... afinal, como ia ficar sem ler histórias?

Eu também comecei a querer escrever histórias. Mergulhada no cotidiano e perfis dos personagens com os quais ia entrando em contato, via brotar, em mim, a ‘criação’...eu sentia vidas de remexendo em histórias que um dia brotariam. Não sabia exatamente quando. Havia cenas medievais (que, na época, eu não sabia serem medievais). Algumas eu vislumbrei olhando uma colcha da cama da minha avó. Os desenhos lembravam um castelo, com seus muitos aposentos e corredores, com pé direito altíssimo, adornos delicados e jardins... sim muitos jardins. Lembro que eu passava tempos sentada, na cama, imaginando as histórias.

Uma coisa patética desse período é que eu sempre imaginava desmaios... minhas personagens femininas desmaiavam e todos se preocupavam. Hilário é que, na vida, eu só desmaiei uma vez, o que, na adolescência, me fazia pensar: “Nossa, minhas amigas todas já desmaiaram. Eu nunca!”. O máximo que tinha conseguido, na infância, tinha sido um ‘quase desmaio’, uma vez, quando caí da jabuticabeira. Quando me dei conta que, ao cair da árvore, tinha quase desmaiado, fiquei frustrada. Não por ter caído, mas, por ‘não ter desmaiado’. Pode? Eu tinha, no imaginário, a cena do desmaio, com um certo encantamento. Um momento em que todos se preocupavam com a ... ‘desmaiada’...

Depois, na época da faculdade, quando fui morar sozinha, me lembrei da história do ‘não desmaio’ e pensei: “Ah.. só o que falta, agora que moro sozinha, um dia desmaiar sem que ninguém veja.... ‘sem público’”, risos.. só eu mesma... Muitos anos mais tarde, digamos, ‘consegui’ desmaiar... Eu fazia doutorado em São Paulo, na USP, e viajava todas as semanas de Porto Alegre, pra lá. Saía, de ônibus, nos domingos, a uma da tarde, chegava em São Paulo no outro dia, às seis da manhã. Passava segunda e terça e, depois, à noite, voltava de avião, para o restante da semana coordenar o Curso de Comunicação da ULBRA e dirigir o Telecentro, além de atender aos clientes de supervisão de texto. Nas madrugadas, fazia os trabalhos das disciplinas... lia os textos... junto com meu ex-marido e grande parceiro, naquele período, que também fazia a mesma maratona. Então, eu vivia exausta... aí um dia acabei desmaiando dentro de uma loja, no bairro Pinheiros, em São Paulo. Foi uma cena bonita. Acordei rodeada de pessoas. Lembro que, quando recobrei os sentidos, meu ex-marido estava com cara de apavorado e que achei a ‘maior graça’...estava realizada. “Ah.... assim sim, sim. Desmaiar, mas com público! Era teatral!”. Na verdade, rídiculo... patético, sob um certo aspecto, uma pessoa querer desmaiar, mas eu sei que isso tem a ver com o vínculo com as narrativas, com a poética, com a construção de cenas e personagens....

Claro, também tem a ver com um certo nível de loucura, mas ninguém que me conhece, de fato, acha estranha a associação... loucura-Malu... ao contrário. Por favor, vivendo a vida que vivi até agora... na intensidade com que vivo as cenas e os relacionamentos, em meio a tramas pra mais que folhetinescas e surreais, não me peçam sanidade. O máximo que consigo é, vez por outra, o acionamento do vetor racional, para dar conta do ‘dia’, do cotidiano de afazeres e... seguir em frente... poetizando... romanceando... criando personagens... sem desmaiar.

Refletindo, hoje, penso que o encantamento com a cena do desmaio tem a ver com o desejo de ser acolhida nos braços, cuidada, deixar-me desfalecer e soltar-me nos braços do outro. Fantasia de menina romântica. Certo, mas, pra isso, não é preciso desmaiar. É muito melhor soltar-se nos braços de alguém, sem desmaios...só pro abraço, e pro depois do abraço... O contato do limite de si com o limite do outro, pelo gosto de viver o encontro. Mistura de cheiros. Ser acolhida nos braços do ser amado. Os braços do (meu) bem-querer. Lugar pleno de afeto. Assim é, tanto que a novidade passa a ser uma obviedade: ao descobrir esse lugar, não quero desmaiar, nem morrer, só ‘estar’ e ficar... assim, sem tempo, nem hora, sem pressa, uma feliz vida.


Desejo um mundo de felicidade, a todos os que visitam o Margaridas Brancas, com muitos abraços, sem desmaios! Beijo. Malu

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011


Que lugar é esse ‘eu’?
Lugares, territórios, cantos existenciais

Nesses dias, em Porto Alegre, tenho vivido o estranhamento de voltar pra casa. Sim, moro nesta cidade, mas agora também moro em Caxias do Sul. Desde março, comecei a estruturar um apartamento lá, um lugar, um canto, uma morada, um novo território existencial. No começo, foi tudo muito difícil. Consegui um apartamento em um lugar ótimo da cidade, bem localizado, com boa iluminação, mas sem n a d a dentro, nem pia na cozinha... nem tanque, na área de serviço. Tudo a fazer, tudo a ajeitar. Tarefa árdua, pra uma mulher femininamente incompetente para fazeres domésticos ligados à eletricidade, instalação de móveis e eletrodomésticos... varaus... tudo... absolutamente tudo tem que ser pago. Contratar ‘homens’ para fazer os serviços, para os quais sou assumidamente incompetente. Sei que há mulheres que conseguem fazer também esses serviços... eu não. Meu universo de competências é outro.

“Tudo aconteceu muito rápido”, me disse, uma vez, uma pessoa especial pra mim. Sim, muito rápido. Tive que ir vivendo, sozinha, o turbilhão do concurso, a aprovação, a ‘comemoração’, as decisões que precisavam ser tomadas, a conquista do apartamento, primeiros momentos dormindo no chão, mas já com um território existencial em construção. No apartamento, acima da porta, uma pista importante, de que a mudança era pra melhor: uma fotinho, um xerox da imagem de Jesus Cristo tinha sido deixada lá, pela dona do apartamento, a antiga moradora. Olhei pra ele. Sorri e disse: “Tá, entendi que você escolheu! Entendi que você está comigo. Não vou ter medo!”. Na verdade, eu queria não ter medo, mas eu tenho que admitir. Tive muito medo. Não há como ser chefe de família, com quatro filhos, sozinha pra dirigir uma família e uma empresa e não ter medo de fazer mudança. Eu chorei muito, sendo que, depois disso, todas as vezes tive que me levantar e seguir adiante. Acionar o motor prático operacional e fazer o que tem que ser feito. Cheguei jornalista, com as aulas da UCS iniciando, cinco turmas novas, disciplinas novas: computador com internet, rádio, televisão, celulares, duas malas e... colchonetes. Assim, podia trabalhar. Nos primeiros dias, o único lugar pra sentar era o vaso do banheiro. Patético. Engraçado, quando vira história.

Em muitos momentos, malucamente, eu me desorientava na cidade nova. Não sabia direito as ruas, a parada de ônibus pra descer, à noite, na volta da UCS. Perguntava quinhentas vezes. A resposta era sempre a mesma: uma parada depois do hospital Pompeia. “Mas, Meu Deus, onde está o tal de hospital?”, eu pensava. Eu sequer conseguia ver o hospital, porque a frente dele é na avenida Júlio e o ônibus circula na Pinheiro. Então, não me dava conta que a tal de referência era, na verdade, ‘os fundos’ do hospital. Pensava: Que incrível isso, eu não enxergar um hospital. Literalmente, ficava com medo que estivesse valendo a máxima popular: “Você não enxerga nem um palmo, diante do seu nariz!”. Pra algumas coisas, acho que demoro um pouco mais a enxergar mesmo. O lado bom é que fiz amizade com a cobradora e o motorista – já que eu sempre pegava o ônibus no mesmo horário. Uma noite, distraída, esqueci de descer e, quando me dei conta, sentada no fundo do ônibus, comecei a escutar o motorista dizendo: “Mas ela não vai descer? Essa é a parada dela!” A cobradora respondeu: “Não sei, vou perguntar”. Em resumo: eles já me conheciam. “A professora jornalista!”. Já tinha me inserido no lugar, ônibus Cinquentenário, que me deixa em frente de casa, a Casa de Caxias.

Miopia elevada à potência ‘n’. Miopia emocionada. Putz.. aí não há Maria Luiza que me defenda. Eu me mobilizei, em função do amor. Amor por uma pessoa. Amor pelos meus filhos e minha profissão. Amor e desejo de construir uma nova realidade profissional e pessoal. Sim, depois de quase um ano, eu consegui isso. Consegui como foi possível. Consegui, cuidada por novos amigos, por pessoas lindas e carinhosas, que foram me acolhendo. Pessoas que olhavam pra mim e foram compreensivas com minhas (tantas) limitações de novata no lugar, no novo território existencial. Pessoas que se ofereceram para ajudar. Pessoas que foram se tornando minhas cúmplices, no cotidiano. Filhos, alunos, amigos, colegas, queridos amados funcionários da UCS, gente da melhor qualidade. Em momentos extremos, nem sempre a ajuda vem de onde se espera, mas se existe uma determinação justa, do bem, amorosa, acredito que é possível avançar. Foi assim que segui.

Assim fui construindo a ‘casa de Caxias’. Ela é diferente da de Porto Alegre. A de Porto Alegre é mais bem estruturada, é maior e tem mais cantos e recantos. Tem mais história também. Histórias alegres e tristes. Algumas muito tristes. Tremendamente tristes. A casa não tem culpa. Nada e ninguém tem culpa. Eu tento, há anos, também, me ‘des-culpar’... em parte aprendi, ao menos em parte. Mas, acostumada à sensibilidade extrema, ao encantamento do mundo e a esse olhar que se entrega enamoramente para cada lugar e pessoa, eu reconheço narrativas existenciais de outros tempos, revejo-as, relembro, ‘re-avivo’ algumas que gostaria que retornassem e outras que... nem pensar! Talvez a Maria Luiza tenha razão. Estou bêbada de afeto e poesia. Sim, o que ela mais tem é razão! Mas nem só de razão vive a Malu, a racionalidade me completa, mas, certamente, não é minha única substância constitutiva... eu vivo mais do amor imenso!

A Casa de Caxias é um sopro de vida nova. Montada em parte com coisas que levei de Porto Alegre, escolhidas, selecionadas, para romper com a condição de ‘acampamento inicial. Depois, chegaram coisas novas, móveis novos...também tudo escolhido com cuidado, de migrante, de quem chega em uma cidade nova, para ‘fazer a vida nova’, ou seja, economicamente. Na minha italianidade, pensava no que teria sido a imigração dos meus ancestrais... Meu Deus... começar vida nova em um lugar tão perto de Porto Alegre, voltando pra lá todas as semanas, mantendo a casa montada já estava sendo tão difícil... mas imagina o que teria sido deixar a ‘nostra Itália’... o porto de Napoli... a família toda. Eu tenho vontade de chorar, só de pensar nisso.

Giuseppe e Chiara foram morar comigo, depois de maio. Novos desafios. A sensação de vê-los chegando na escola nova. Olhares curiosos. Ansiedade estampada no rosto. Ao mesmo tempo, desejo de que tudo começasse logo e o medo de que não gostassem. Eu sabia que era uma mega mudança, para eles também. Amigos novos, professores novos. Novos territórios subjetivos. Pela proporção das minhas dores, temia pelo que sentiriam e pela insegurança de não conseguir acalmá-los, quando a saudade viesse, as diferenças entre um lugar e outro se sobressaíssem. “Em uma mudança, filha, a gente ganha e perde, ao mesmo tempo. É preciso aprender a valorizar mais o que se ganha e ter paciência com o que se perde. É assim”, foi o que eu disse, um tempo depois, para a Chiara, minha filha caçula. É o que eu aprendi, com as mudanças, na vida. Espero seguir consolidando esse aprendizado, em mim, nesse território existencial nômade, em trânsito...cuja casa, neste ano, foi também a estrada Caxias-Porto Alegre, as árvores, as curvas, o movimento, a busca, o encontro, o desencontro, a despedida, o riso, o choro, a noite, o dia, o vento.... o amor, sempre o amor!.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Encontro de leoas 6




Maria Luiza: Ahhhhhhh! Então quer dizer que você vai querer terminar o ano de onde começou? Nada aconteceu? Você enlouqueceu ou está só fazendo de conta?

Malu: Calma. Calma. Para tudo existe uma explicação. Risos. Foi só um descuido, me distraí.

Maria Luiza: Certo. Certo. Um pequeno descuido e você quer se deixar soltar no mar de afeto aquele... Me diz: onde você se doutorou em tonta? Qual é a universidade que tem doutorado nisso?

Malu: Mas criatura, você está cansada de saber que me doutorei em Ciências da Comunicação, pela USP. Quase me matei estudando pra isso.

Maria Luiza: Tá, mas não é o que parece. Estou cansada é de te ver derrapando e caindo sempre na mesma armadilha, sempre o mesmo tipo de afeto te pega, te toma, te mobiliza e te põe maluca de verdade.

Malu: Não. É que o afeto esse é... lindo! Moreno. Risos. Mas você tem que admitir. Estou mais madura. Passei o ano todo na minha. Quieta. Quase quieta. Tá. Não muito quieta, é verdade. Na minha condição de pessoa livre, solteira. Amorosamente apaixonada pelas pessoas. Sem compromisso. Não sozinha. Mais recentemente é que as coisas têm se transformado... Também, olhos verdes são irresistíveis. E não são olhos quaisquer... são olhos do.. bem, você sabe.

Maria Luiza: Pois então, segue o baile da transformação das coisas. Não empaca, não recua.

Malu: Mas quem diz que tô empacando? O que eu preciso que você entenda é que há alguns amores que constroem, na gente, o que eu chamo de ‘substrato amoroso’. Não há nada que abale. Não importa tempo. Não importa nada. Quando se remexe nele... tudo volta. Tudo brota, sempre com o mesmo viço. Às vezes mais...

Maria Luiza: Ah, mas, como diria, meu filho, tu tá tirando onda com minha cara? Sempre com a mesma idiotice, você quer dizer?

Malu: Onda, onda... mar.. risos... isso me fez pensar em algo... bem..não, quero dizer, não é isso. Sou fiel aos meus sentimentos. Sempre fui. Às vezes, me vem um surto de sinceridade e digo as coisas... Já passei da idade de me importar com picuinhas e não me toques. Se um mar de afeto se remexe.. eu deixo vir... se não é suficiente, não é por isso que ele deixa de existir. Como sou, posso produzir outros mares, mas eles não se substituem, só se acumulam... camadas e camadas de substrato amoroso. Assim, são meus amores que se foram....

Maria Luiza: E que não se foram também?

Malu: Ei, ei, cada coisa no seu tempo. Cada amor no seu momento. Cada um tem seu canto, sua possibilidade e duração. Atualmente só tenho ‘um’ amor. Os outros são de outro tipo. Bem... vale o que disse o poeta sobre a finitude da paixão; a infinitude do que se vive, quando se está junto. A condição eterna do substrato amoroso construído a dois.

Maria Luiza: Ihh.. grave, muito grave. Ela está bêbada de afeto e poesia. Melhor deixar quieta, ver se passa...

Malu: Passa, pode ter certeza que passa, mas demora. Você leva tudo muito a sério...