domingo, 1 de janeiro de 2012

DESMAIOS E ABRAÇOS...




Sou uma pessoa particularmente interessada em narrativas. Isso vem de muito tempo. Talvez tenha a ver com o fato de que nasci numa pequenina cidade do interior de São Paulo, quase uma cidade cenográfica. Sempre penso que Guarantã, cidade do interior no noroeste paulista, mais parece um cenário, onde se desenvolvem narrativas folhetinescas. Romances, traições, nascimentos, reencontros, desencontros, namoros, separações, crimes, nascimentos... mistérios. Guarantã tem de tudo... ainda vou escrever mais sobre isso.

Ali mesmo, desde criança, eu levantava de madrugada para ler histórias. Lembro que as bibliotecárias do Grupo Escolar de Guarantã, queridas dona Leonor e Nadir, ficavam encantadas com a pequena Maria Luiza, que vivia querendo retirar mais e mais livros...numa espécie de de ‘fome’ de palavras, traço que não era tão comum entre os seus colegas. Não com tanto desejo, ao menos. Nem bem eu levava um livro pra casa, devolvia e queria outro, e mais outro, e mais outros... Elas acabavam sempre abrindo exceção, para mim, emprestando mais livros de uma vez.... nas férias, eu sempre ia carregada... afinal, como ia ficar sem ler histórias?

Eu também comecei a querer escrever histórias. Mergulhada no cotidiano e perfis dos personagens com os quais ia entrando em contato, via brotar, em mim, a ‘criação’...eu sentia vidas de remexendo em histórias que um dia brotariam. Não sabia exatamente quando. Havia cenas medievais (que, na época, eu não sabia serem medievais). Algumas eu vislumbrei olhando uma colcha da cama da minha avó. Os desenhos lembravam um castelo, com seus muitos aposentos e corredores, com pé direito altíssimo, adornos delicados e jardins... sim muitos jardins. Lembro que eu passava tempos sentada, na cama, imaginando as histórias.

Uma coisa patética desse período é que eu sempre imaginava desmaios... minhas personagens femininas desmaiavam e todos se preocupavam. Hilário é que, na vida, eu só desmaiei uma vez, o que, na adolescência, me fazia pensar: “Nossa, minhas amigas todas já desmaiaram. Eu nunca!”. O máximo que tinha conseguido, na infância, tinha sido um ‘quase desmaio’, uma vez, quando caí da jabuticabeira. Quando me dei conta que, ao cair da árvore, tinha quase desmaiado, fiquei frustrada. Não por ter caído, mas, por ‘não ter desmaiado’. Pode? Eu tinha, no imaginário, a cena do desmaio, com um certo encantamento. Um momento em que todos se preocupavam com a ... ‘desmaiada’...

Depois, na época da faculdade, quando fui morar sozinha, me lembrei da história do ‘não desmaio’ e pensei: “Ah.. só o que falta, agora que moro sozinha, um dia desmaiar sem que ninguém veja.... ‘sem público’”, risos.. só eu mesma... Muitos anos mais tarde, digamos, ‘consegui’ desmaiar... Eu fazia doutorado em São Paulo, na USP, e viajava todas as semanas de Porto Alegre, pra lá. Saía, de ônibus, nos domingos, a uma da tarde, chegava em São Paulo no outro dia, às seis da manhã. Passava segunda e terça e, depois, à noite, voltava de avião, para o restante da semana coordenar o Curso de Comunicação da ULBRA e dirigir o Telecentro, além de atender aos clientes de supervisão de texto. Nas madrugadas, fazia os trabalhos das disciplinas... lia os textos... junto com meu ex-marido e grande parceiro, naquele período, que também fazia a mesma maratona. Então, eu vivia exausta... aí um dia acabei desmaiando dentro de uma loja, no bairro Pinheiros, em São Paulo. Foi uma cena bonita. Acordei rodeada de pessoas. Lembro que, quando recobrei os sentidos, meu ex-marido estava com cara de apavorado e que achei a ‘maior graça’...estava realizada. “Ah.... assim sim, sim. Desmaiar, mas com público! Era teatral!”. Na verdade, rídiculo... patético, sob um certo aspecto, uma pessoa querer desmaiar, mas eu sei que isso tem a ver com o vínculo com as narrativas, com a poética, com a construção de cenas e personagens....

Claro, também tem a ver com um certo nível de loucura, mas ninguém que me conhece, de fato, acha estranha a associação... loucura-Malu... ao contrário. Por favor, vivendo a vida que vivi até agora... na intensidade com que vivo as cenas e os relacionamentos, em meio a tramas pra mais que folhetinescas e surreais, não me peçam sanidade. O máximo que consigo é, vez por outra, o acionamento do vetor racional, para dar conta do ‘dia’, do cotidiano de afazeres e... seguir em frente... poetizando... romanceando... criando personagens... sem desmaiar.

Refletindo, hoje, penso que o encantamento com a cena do desmaio tem a ver com o desejo de ser acolhida nos braços, cuidada, deixar-me desfalecer e soltar-me nos braços do outro. Fantasia de menina romântica. Certo, mas, pra isso, não é preciso desmaiar. É muito melhor soltar-se nos braços de alguém, sem desmaios...só pro abraço, e pro depois do abraço... O contato do limite de si com o limite do outro, pelo gosto de viver o encontro. Mistura de cheiros. Ser acolhida nos braços do ser amado. Os braços do (meu) bem-querer. Lugar pleno de afeto. Assim é, tanto que a novidade passa a ser uma obviedade: ao descobrir esse lugar, não quero desmaiar, nem morrer, só ‘estar’ e ficar... assim, sem tempo, nem hora, sem pressa, uma feliz vida.


Desejo um mundo de felicidade, a todos os que visitam o Margaridas Brancas, com muitos abraços, sem desmaios! Beijo. Malu

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011


Que lugar é esse ‘eu’?
Lugares, territórios, cantos existenciais

Nesses dias, em Porto Alegre, tenho vivido o estranhamento de voltar pra casa. Sim, moro nesta cidade, mas agora também moro em Caxias do Sul. Desde março, comecei a estruturar um apartamento lá, um lugar, um canto, uma morada, um novo território existencial. No começo, foi tudo muito difícil. Consegui um apartamento em um lugar ótimo da cidade, bem localizado, com boa iluminação, mas sem n a d a dentro, nem pia na cozinha... nem tanque, na área de serviço. Tudo a fazer, tudo a ajeitar. Tarefa árdua, pra uma mulher femininamente incompetente para fazeres domésticos ligados à eletricidade, instalação de móveis e eletrodomésticos... varaus... tudo... absolutamente tudo tem que ser pago. Contratar ‘homens’ para fazer os serviços, para os quais sou assumidamente incompetente. Sei que há mulheres que conseguem fazer também esses serviços... eu não. Meu universo de competências é outro.

“Tudo aconteceu muito rápido”, me disse, uma vez, uma pessoa especial pra mim. Sim, muito rápido. Tive que ir vivendo, sozinha, o turbilhão do concurso, a aprovação, a ‘comemoração’, as decisões que precisavam ser tomadas, a conquista do apartamento, primeiros momentos dormindo no chão, mas já com um território existencial em construção. No apartamento, acima da porta, uma pista importante, de que a mudança era pra melhor: uma fotinho, um xerox da imagem de Jesus Cristo tinha sido deixada lá, pela dona do apartamento, a antiga moradora. Olhei pra ele. Sorri e disse: “Tá, entendi que você escolheu! Entendi que você está comigo. Não vou ter medo!”. Na verdade, eu queria não ter medo, mas eu tenho que admitir. Tive muito medo. Não há como ser chefe de família, com quatro filhos, sozinha pra dirigir uma família e uma empresa e não ter medo de fazer mudança. Eu chorei muito, sendo que, depois disso, todas as vezes tive que me levantar e seguir adiante. Acionar o motor prático operacional e fazer o que tem que ser feito. Cheguei jornalista, com as aulas da UCS iniciando, cinco turmas novas, disciplinas novas: computador com internet, rádio, televisão, celulares, duas malas e... colchonetes. Assim, podia trabalhar. Nos primeiros dias, o único lugar pra sentar era o vaso do banheiro. Patético. Engraçado, quando vira história.

Em muitos momentos, malucamente, eu me desorientava na cidade nova. Não sabia direito as ruas, a parada de ônibus pra descer, à noite, na volta da UCS. Perguntava quinhentas vezes. A resposta era sempre a mesma: uma parada depois do hospital Pompeia. “Mas, Meu Deus, onde está o tal de hospital?”, eu pensava. Eu sequer conseguia ver o hospital, porque a frente dele é na avenida Júlio e o ônibus circula na Pinheiro. Então, não me dava conta que a tal de referência era, na verdade, ‘os fundos’ do hospital. Pensava: Que incrível isso, eu não enxergar um hospital. Literalmente, ficava com medo que estivesse valendo a máxima popular: “Você não enxerga nem um palmo, diante do seu nariz!”. Pra algumas coisas, acho que demoro um pouco mais a enxergar mesmo. O lado bom é que fiz amizade com a cobradora e o motorista – já que eu sempre pegava o ônibus no mesmo horário. Uma noite, distraída, esqueci de descer e, quando me dei conta, sentada no fundo do ônibus, comecei a escutar o motorista dizendo: “Mas ela não vai descer? Essa é a parada dela!” A cobradora respondeu: “Não sei, vou perguntar”. Em resumo: eles já me conheciam. “A professora jornalista!”. Já tinha me inserido no lugar, ônibus Cinquentenário, que me deixa em frente de casa, a Casa de Caxias.

Miopia elevada à potência ‘n’. Miopia emocionada. Putz.. aí não há Maria Luiza que me defenda. Eu me mobilizei, em função do amor. Amor por uma pessoa. Amor pelos meus filhos e minha profissão. Amor e desejo de construir uma nova realidade profissional e pessoal. Sim, depois de quase um ano, eu consegui isso. Consegui como foi possível. Consegui, cuidada por novos amigos, por pessoas lindas e carinhosas, que foram me acolhendo. Pessoas que olhavam pra mim e foram compreensivas com minhas (tantas) limitações de novata no lugar, no novo território existencial. Pessoas que se ofereceram para ajudar. Pessoas que foram se tornando minhas cúmplices, no cotidiano. Filhos, alunos, amigos, colegas, queridos amados funcionários da UCS, gente da melhor qualidade. Em momentos extremos, nem sempre a ajuda vem de onde se espera, mas se existe uma determinação justa, do bem, amorosa, acredito que é possível avançar. Foi assim que segui.

Assim fui construindo a ‘casa de Caxias’. Ela é diferente da de Porto Alegre. A de Porto Alegre é mais bem estruturada, é maior e tem mais cantos e recantos. Tem mais história também. Histórias alegres e tristes. Algumas muito tristes. Tremendamente tristes. A casa não tem culpa. Nada e ninguém tem culpa. Eu tento, há anos, também, me ‘des-culpar’... em parte aprendi, ao menos em parte. Mas, acostumada à sensibilidade extrema, ao encantamento do mundo e a esse olhar que se entrega enamoramente para cada lugar e pessoa, eu reconheço narrativas existenciais de outros tempos, revejo-as, relembro, ‘re-avivo’ algumas que gostaria que retornassem e outras que... nem pensar! Talvez a Maria Luiza tenha razão. Estou bêbada de afeto e poesia. Sim, o que ela mais tem é razão! Mas nem só de razão vive a Malu, a racionalidade me completa, mas, certamente, não é minha única substância constitutiva... eu vivo mais do amor imenso!

A Casa de Caxias é um sopro de vida nova. Montada em parte com coisas que levei de Porto Alegre, escolhidas, selecionadas, para romper com a condição de ‘acampamento inicial. Depois, chegaram coisas novas, móveis novos...também tudo escolhido com cuidado, de migrante, de quem chega em uma cidade nova, para ‘fazer a vida nova’, ou seja, economicamente. Na minha italianidade, pensava no que teria sido a imigração dos meus ancestrais... Meu Deus... começar vida nova em um lugar tão perto de Porto Alegre, voltando pra lá todas as semanas, mantendo a casa montada já estava sendo tão difícil... mas imagina o que teria sido deixar a ‘nostra Itália’... o porto de Napoli... a família toda. Eu tenho vontade de chorar, só de pensar nisso.

Giuseppe e Chiara foram morar comigo, depois de maio. Novos desafios. A sensação de vê-los chegando na escola nova. Olhares curiosos. Ansiedade estampada no rosto. Ao mesmo tempo, desejo de que tudo começasse logo e o medo de que não gostassem. Eu sabia que era uma mega mudança, para eles também. Amigos novos, professores novos. Novos territórios subjetivos. Pela proporção das minhas dores, temia pelo que sentiriam e pela insegurança de não conseguir acalmá-los, quando a saudade viesse, as diferenças entre um lugar e outro se sobressaíssem. “Em uma mudança, filha, a gente ganha e perde, ao mesmo tempo. É preciso aprender a valorizar mais o que se ganha e ter paciência com o que se perde. É assim”, foi o que eu disse, um tempo depois, para a Chiara, minha filha caçula. É o que eu aprendi, com as mudanças, na vida. Espero seguir consolidando esse aprendizado, em mim, nesse território existencial nômade, em trânsito...cuja casa, neste ano, foi também a estrada Caxias-Porto Alegre, as árvores, as curvas, o movimento, a busca, o encontro, o desencontro, a despedida, o riso, o choro, a noite, o dia, o vento.... o amor, sempre o amor!.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Encontro de leoas 6




Maria Luiza: Ahhhhhhh! Então quer dizer que você vai querer terminar o ano de onde começou? Nada aconteceu? Você enlouqueceu ou está só fazendo de conta?

Malu: Calma. Calma. Para tudo existe uma explicação. Risos. Foi só um descuido, me distraí.

Maria Luiza: Certo. Certo. Um pequeno descuido e você quer se deixar soltar no mar de afeto aquele... Me diz: onde você se doutorou em tonta? Qual é a universidade que tem doutorado nisso?

Malu: Mas criatura, você está cansada de saber que me doutorei em Ciências da Comunicação, pela USP. Quase me matei estudando pra isso.

Maria Luiza: Tá, mas não é o que parece. Estou cansada é de te ver derrapando e caindo sempre na mesma armadilha, sempre o mesmo tipo de afeto te pega, te toma, te mobiliza e te põe maluca de verdade.

Malu: Não. É que o afeto esse é... lindo! Moreno. Risos. Mas você tem que admitir. Estou mais madura. Passei o ano todo na minha. Quieta. Quase quieta. Tá. Não muito quieta, é verdade. Na minha condição de pessoa livre, solteira. Amorosamente apaixonada pelas pessoas. Sem compromisso. Não sozinha. Mais recentemente é que as coisas têm se transformado... Também, olhos verdes são irresistíveis. E não são olhos quaisquer... são olhos do.. bem, você sabe.

Maria Luiza: Pois então, segue o baile da transformação das coisas. Não empaca, não recua.

Malu: Mas quem diz que tô empacando? O que eu preciso que você entenda é que há alguns amores que constroem, na gente, o que eu chamo de ‘substrato amoroso’. Não há nada que abale. Não importa tempo. Não importa nada. Quando se remexe nele... tudo volta. Tudo brota, sempre com o mesmo viço. Às vezes mais...

Maria Luiza: Ah, mas, como diria, meu filho, tu tá tirando onda com minha cara? Sempre com a mesma idiotice, você quer dizer?

Malu: Onda, onda... mar.. risos... isso me fez pensar em algo... bem..não, quero dizer, não é isso. Sou fiel aos meus sentimentos. Sempre fui. Às vezes, me vem um surto de sinceridade e digo as coisas... Já passei da idade de me importar com picuinhas e não me toques. Se um mar de afeto se remexe.. eu deixo vir... se não é suficiente, não é por isso que ele deixa de existir. Como sou, posso produzir outros mares, mas eles não se substituem, só se acumulam... camadas e camadas de substrato amoroso. Assim, são meus amores que se foram....

Maria Luiza: E que não se foram também?

Malu: Ei, ei, cada coisa no seu tempo. Cada amor no seu momento. Cada um tem seu canto, sua possibilidade e duração. Atualmente só tenho ‘um’ amor. Os outros são de outro tipo. Bem... vale o que disse o poeta sobre a finitude da paixão; a infinitude do que se vive, quando se está junto. A condição eterna do substrato amoroso construído a dois.

Maria Luiza: Ihh.. grave, muito grave. Ela está bêbada de afeto e poesia. Melhor deixar quieta, ver se passa...

Malu: Passa, pode ter certeza que passa, mas demora. Você leva tudo muito a sério...

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Vestido de flores miúdas... e a Madeleine!




Tecido macio, fundo cor de vinho, com flores miúdas, cujos tons variam entre o amarelo queimado e o marrom. Os detalhes das flores são da mesma cor vinho da maior parte do tecido. Há também algumas figuras geométricas, de outras cores, predominando o azul e o verde. Essas mais parecem aquelas imagens, que surgem quando fechamos os olhos com as mãos e ficamos aguardando ... bem, eu sempre fazia isso, quando criança. Agora não tenho feito, porque quase não tenho tempo. O atropelo cotidiano me rouba de práticas prosaicas, como essa e, também, o gosto de usar um vestido de flores miúdas que tenho já há algum tempo. Comprei em Recife, sabe Deus em que ano... era outro tempo na minha vida. Agora gosto mais do vestido. O tecido parece que se acomoda no meu corpo... ‘eles’ se entendem. Meu corpo gosta de quem o conhece. Sempre foi assim.

As flores são imagens que me acompanham, desde sempre. Sou filha de florista, minha família teve uma fábrica de flores no interior de São Paulo, como eu contei em outro texto. As margaridas brancas seguem minha história e até dão nome a esse blog. São imagens singelas... ternas. Outras flores são insinuantes. Têm ternura e sensualidade, ao mesmo tempo. Até hoje, meus arroubos de desenhista se resumem a desenhar flores. Quando vou dar um exemplo, em sala de aula, para falar da construção da significação... vira e mexe acabo desenhando... flores. As flores também expressam bem minha condição feminina. Fêmea e menina.

Às vezes me incomoda a fragilidade, essa ternura e amorosidade exageradas, jeito de menina, mulherzinha... mas, logo depois, percebo que é uma incomodação sem futuro. Não há como mudar a matriz da criatura, a essência da ‘coisa’, sendo que, no caso, a ‘coisa’, sou eu, a coisa Malu. Pra sobreviver e não viver me machucando... dá pra brincar um pouco, apelar para o humor e deixar vir à tona alguns personagens que brotam em mim, como exercício prático de sobrevivência. Foi assim que surgiu a Madeleine.

Eu ainda sei pouco sobre ela, porque seu traço mais forte é a paranóia. Madeleine é uma criatura que passa o tempo todo imaginando conspirações internacionais contra ela. Tanto que não me disse ainda o seu sobrenome e sua cidade de origem. Há coisas que ela não conta nem pra mim mesma. De certo, porque imagina que eu sou a grande conspiradora contra ela, porque a criei. Pelo sotaque, já se sabe que é francesa de nascença, mas vive há algum tempo no Brasil. Olhar arregalado para tudo e todos e sempre pronta a desmascarar um... “plaaaanu”... “uma conspirración internacional”...enfim.. só vendo mesmo.

Certamente, ela passou o dia indignada com o tal vestido de flores miúdas. Deve estar pensando que é um plano meu, para que ela seja vista assim, pelas pessoas, com um vestido envelhecido . Certamente me diria que isso faz parte de uma vontade interna de que ninguém a queira ver. Não... o vestido é bonito, Madeleine. Eu responderia.. mas ela... francesa... acostumada à moda de Paris, certamente se incomodaria com esse singelo vestido de flores miúdas comprado em Recife. Eu gosto. Ele ‘me tem’ hoje... bem confortável, à vontade. Vestido longo, tecido macio.

Eu me diverti muito com a Madeleine esse ano. Seu surgimento ocorreu dentro de um ônibus em Porto Alegre, na volta de uma visita à Casa de Cultura Mário Quintana, quando fui assistir a uma apresentação de dança da minha filha mais velha, a Giulia. Lindo espetáculo. Eu voltei emocionada. Estava com o Pietro, meu segundo filho. Era de noite. Chegamos em frente ao mercado e estava estacionado um ônibus, da linha Santana, com o motor ligado. Bem.. a lógica, quando você chega à parada e tem um ônibus com o motor ligado o que você pensa? Que ele vai sair em seguida. Pois é. Este foi o problema. Entramos e depois de um tempo, a Madeleine apareceu indignada, dizendo que era um ‘plano’ do motorista e do cobrador... para sequestrar uma pobre mãe, com seu filho, na noite de Porto Alegre. Na sua loucura indignada, na sua verborragia despejava uma linguagem afrancesada, marcada pela indignação, por já estar há mais de 10 minutos presa dentro do ônibus. Ela dizia insistentemente ao filho que o motorista e o cobrador faziam parte de uma conspiração internacional contra ela... Daí não parou mais, Madeleine foi aparecendo e brincando com situações do cotidiano que tornam a vida ao mesmo tempo ridícula e mínima...mas que, se não forem tratadas com humor, podem levar a pessoa à irritação, ao estresse.

Um momento marcante foi o encontro de Madeleine e um quero-quero (o pássaro). Eu tinha terminado de dar uma aula no CETEL, um dos prédios da UCS e tinha que ir até o Bloco M, para outra aula. Na ‘subida’, Madeleine se depara com o tal pássaro, ali parado, meio em dúvida, se atravessava ou não a rua. Paramos, eu e ela – que só pra esclarecimento do leitor, somos quase a mesma pessoa... ao menos vivemos no mesmo corpo... puxa... esse suposto esclarecimento talvez o esteja confundindo.. não importa.. não se preocupe... siga o texto que a vida também é assim.. confusa. Enfim, diante do quero-quero (hum, o nome da criatura é sugestivo), Madeleine e eu paralisamos. Eu trazia a lembrança (trágica) da infância de um ganso que me atacou e bicou... bem, não importa onde. Quer dizer, coragem mesmo para enfrentar a tal ave... eu não tinha. Aí...ele, o quero-quero, em dúvida.. ia pro meio da rua e voltava pra calçada.... Palhaçada...Madeleine começa a disparar um discurso afrancesado pro tal pássaro.. na sua linha de que ele também fazia parte de uma conspiração internacional de “quero-queros”, que queriam acabar com a reputação dela... o que os alunos iriam pensar se a vissem com medo de um pássaro e tal... esbravejou que se negava a dar um passo sequer enquanto ele não saísse da frente...O pássaro, lógico, ficou insensível ao desespero da Madeleine – e meu, que tinha um grupo de alunos me esperando e também não queria que alguém me visse falando sozinha. Afinal, o que pensaria????

Bem... o impasse se resolveu com a Madeleine recuando e resolvendo atravessar a rua, aos brados, solta na sua ‘reclamonice’ tradicional. O encontro emblemático com o ‘quero-quero’ acionou a Madeleine. Singela cena e hilária, pra quem viveu. Patética, ao mesmo tempo, se considerarmos a poética. Por que será que o encontro com um ‘quero-quero’, para Madeleine era tão ameaçador....hum....ela vai se debater de raiva...agora. Vamos aguardar ...

domingo, 24 de julho de 2011

Qual é o nome dessa criatura????




Meu problema hoje não é a vida, mas uma personagem sem nome que teima em se ‘aprontar pra sair’. Eu me preocupo, porque penso que uma personagem sem nome é uma personagem sem rumo... e acredito que deixar vir uma criatura assim é uma insensatez... é dispêndio de energia à toa. Certo, alguns me dirão que não, que eu posso deixar brotar e que a energia dela, no desenrolar dos fatos, na brotação das cenas, vai achar o rumo. Mas eu fico pensando que assim já é a vida e que me basta ter as minhas cenas e o meu caminhar assim... meio “andar de bêbado” – ah.. o livro indicado pelo Sensei Alfredo -.. me provocando à dedicação extrema, para reconhecer as probabilidades, a indicação dos rumos que se apresentam nesses movimentos aparentemente desconexos... Não sei... deixar vir uma personagem sem nome me parece uma irresponsabilidade...

Nesse sentido, eu sou um pouco lacaniana – referência ao senhor Jacques Lacan, pra quem não conhece. Entre tantas coisas interessantes, ele falava da importância do nome, que o nome já carregava um sentido, uma espera, eu diria, um destino. Claro que ele dizia isso de forma diferente, muito difícil, como era próprio para alguém que enaltecia o tempo todo o significante.. Tá. Não vou eu também falar difícil agora, que não é o caso aqui. Lembrei-me do Lacan só por causa da personagem sem nome... Não acho certo. Ela tem que ter um nome, mas ainda não sei qual. Eu a pressinto, tenho pistas da narrativa... sei os traços da sua personalidade, mas nome, nome mesmo... ainda não sei. Em algum momento, ela vai ter que me dizer. Assim que disser, escrevo a história dela. Antes, não. Ela que tenha paciência. É pegar ou largar. Diz o nome, eu escrevo a história; enquanto não diz, fica quieta. Não vive nada.

Tá, supondo que eu concordasse começar a escrever a história dela. Como eu a chamaria? Eu diria... apenas “ela”... não sei.. “ela” é muito vago, impreciso. Concordo com o Luís Fernando Veríssimo, que me disse uma vez, em uma entrevista que eu fiz com ele, na época da faculdade: “Personagem tem que ter R.G, C.P.F. e tudo. Tem que ter identidade, tem que existir de fato. Meus personagens são assim”. Claro, quem sou eu... aqui... lembrando o Veríssimo, há tantos anos... eu que nem consigo dar um nome pra personagem. Certo, mas não consigo porque ela existe e, por isso, não é qualquer nome que serve. “Ela” tem o nome dela. Eu só não sei qual é.

Talvez eu não saiba, porque entre as coisas que andei espiando que ela vai aprontar... estão várias com as quais não concordo. Não concordo mais, digamos assim. Sim, porque eu sou um ser de matriz folhetinesca. Então, meus personagens são dessa estirpe, brotam ‘sem medidas’, se soltam nas tramas... pois não é que essa aí nem o nome quer dizer? Que petulância. Se eu sou o ser que vai escrever a história, “ela” não tem nada que ficar lá dentro se debatendo.. inventando moda... e, ao mesmo tempo, se negando a me dizer o nome.

A questão é que o nome tem indicação de desfecho...e ela ainda está caminhando no escuro. É selva ainda na construção do romance, esse de que falo... brotação de personagem em estado bruto. Dá pra ver pouca coisa... mas será a floresta? Não, não pode ser... eu não vou escrever um romance na floresta, a menos que volte pra Amazônia e passe um tempo lá.. pra, aí sim, conseguir.. Não seria má ideia. Só a lembrança da Floresta Amazônica me enche de alegria, mas isso é inviável neste momento... Estou com a vida focada no Sul do Brasil, entre Caxias e Porto Alegre. Mas então, que raio de lugar é esse.. de onde ela vem?.. Ahhh.. parece que vejo um pouco mais claro.. simmmm.. pode ser..

Se ela me disser o nome.. em breve começo a contar...vamos ter que esperar...paciência. Assim como na vida, nas narrativas da ficção, as personagens também têm seus caprichos...ou seria que caprichosamente elas preparam as emoções... futuras? Pode ser.

sábado, 23 de julho de 2011

O homem que pode mexer nos meus cabelos....


Um dia, um dos meus filhos começou a bagunçar os meus cabelos (como se isso fosse preciso ou possível.. eles já são bagunçados por natureza) e eu o repreendi. Disse: “Não.. só quem pode bagunçar meus cabelos é Fulano”. Tá, não posso dizer o nome. O Fulano não foi consultado. Também não faz muita diferença pra você saber quem é Fulano. Fulano é uma incógnita, como “x”, lembra? Veja bem, eu disse “x”, que é um número preciso, específico, e não “n”... isso faz uma diferença, pra quem conhece um pouco da regra das incógnitas. Isso quer dizer que Fulano é alguém que existe, tem R.G., C.P.F., até passaporte... Sim, Fulano também tem passaporte. Não fiz nenhuma viagem internacional com ele, mas sei que tem passaporte. Fulano, claro, é alguém muito especial pra mim.

Eu conheço Fulano há muitos anos. Fulano é um espetáculo. Adquiriu a prerrogativa de mexer nos meus cabelos, porque adora meus cabelos, meus cachos. Penso que meus cabelos também o adoram. Eu adoro que ele adore. Sim, acho simpático que ele goste de algo que é tão característico meu. Costumo dizer que as pessoas que não gostam do meu cabelo dificilmente me entendem... Sou cacheada. Crespa. Às vezes mais cachos; às vezes mais crespos. Depende o dia. Na menina Luiza enamorada por tudo e todos.. os cachos contornavam o rosto, eram delineados pela mãe ou avó. Cachos, cachos, enroladinhos, formando espécies de túneis de segredos, de sonhos... Depois, a Malu adolescente encrespou de vez...deixou os cabelos crescerem... se rebelou, numa rebeldia ingênua, que só se soltou mesmo, mais tarde...na época da faculdade. Aí, sim, os cabelos cresceram e escresparam de vez.

Eu conheci o Fulano bem mais tarde... Meus cabelos ainda eram bem compridos, revoltadamente crespos... eram bem mais longos. Fulano é um homem especial. O jeito de olhar, de sorrir... Sério, do jeito que eu gosto. Justamente por isso, quando brinca, a brincadeira fica mais saborosa. Jeito de homem, homem, não de moleque! Fulano não é um qualquer. Fulano é o homem que pode mexer nos meus cabelos. E faz isso com maestria, desalinha, descabela.. acaricia...enrola...depois.... tudo de novo. Com Fulano, é bom se perder no tempo. Normalmente é o que acontece.

sábado, 16 de julho de 2011

Cinderela! Cinderela! Mas que mundo mesmo é o dela?


Gosto de escrever. Mais ainda de escrever sobre o que me emociona. O Grupo Gaia me emociona. Muito. É um grupo de dança de Porto Alegre, mas não é apenas um grupo de dança, o que já, por si só, significa muito. O Grupo Gaia é um grupo de pessoas densas, intensas, que põem na dança a expressão humana em movimento. O nome do grupo é sugestivo. Um grupo que se chama Gaia teria que ser assim, avassalador, como eles se mostraram, mais uma vez, hoje à noite, no espetáculo Cinderela Fashion Week!

Muitas coisas me encantam nesse grupo: a capacidade de reunir técnica e conceito, a aproximação das diferenças, a grandiosidade da expressão, o contágio de ‘afectos’ que se acionam quando ‘eles’ estão em cena. É sempre um gozo, uma alegria...vê-los voar ou calar...É interessante que, ainda quando ensimesmam e encarnam a densidade emocional tensa dos nossos dias, eles conseguem mobilizar, em nós, o prazer estético e nos fazem entrar em contato com sentimentos doídos ‘em estado de arte’. Então, porque - e só porque - ‘em estado de arte’... tratam até mesmo a substância que os faz existir.

Na passarela do Espetáculo Cinderela Fashion Week, diferentes subjetividades se expressam contrastantes. São ritmos e velocidades, alternando-se a exemplo das cenas contemporâneas das cidades. A convivência dos contrastes. A mutação constante. A fragmentação exacerbada que faz do sujeito ser dançante, convidado, o tempo todo, a ‘dar a volta por cima’. São cenas que também contemplam o sujeito fera, o ser que rasteja, que gira em si mesmo para se reinventar. Cinderela Fashion Week... na memória, cenas se misturam e fazem brotar os múltiplos caminhos internos acionados pelo, literalmente, ‘e-s-p-e-t-á-c-u-l-o’!!!!

Durante a apresentação, desfilam também diferentes humores, na caosmose pos-moderna de rupturas muitas. Humor, graça, riso, choro. O convívio entre o velho e o novo. Em meio à turbulência, a caixinha de música... os conflitos, os diferentes modos de amar, o abandono dos modelos cristalizados, o ato de despir-se, abandonar as máscaras e retomar as máscaras. Na convivência caótica, às vezes, retoma-se a repetição neurótica e, de repente, tudo se transforma em voo existencial, físico, na alma... a dança, em nós, também remexe as cinderelas internas, arcaicas, contemporâneas, na mescla das demandas cotidianas, tantas.

Depois... assim.. agora.. resta agradecer..o espetáculo tem uma potência mobilizadora de afetos que se destaca, nas produções contemporâneas que conheço. Sabedoria e alegria em corpo, movimento e pensamento. Adorei!