quinta-feira, 31 de março de 2011

Quando os tempos se misturam...


Noite. Auditório da Universidade de Caxias do Sul. No palco, os alunos se apresentavam no Show de Talentos, do Curso de Comunicação Social. De vez em quando, alguém passava por mim e dizia o clássico: “E aí profe?”. Eu, então, pensei: eles já me reconhecem. Eu também os reconheço. Percebo que estou me integrando à paisagem, como alguém do lugar. Estou feliz com isso. MUITO. Naquele momento, me emocionei com a lembrança do período do Intercom, quando estive no mesmo auditório e ‘sonhei’ vir dar aula na UCS. Olhei em volta e me dei conta que os tempos se juntaram, como num passe de mágica.

Há alguns meses, eu estava no mesmo lugar e me imaginei como professora da UCS. Eu desejei isso. Eu desejei muito. Havia vários motivos. Não há como relatar aqui todos eles. Pra ser sincera, há ‘razões’ que nem eu mesma sei enunciar. Sei que há muito tempo uma substância desejante, em mim, se constituiu em direção ao interior – não só ao ‘meu interior’, mas a um lugar do interior do País. Foi se formando uma certeza de que seria necessário um deslocamento. Uma mudança física ‘de lugar’, para que mudassem, também, em mim, territórios cristalizados e que me faziam percorrer sempre os mesmos caminhos, me faziam buscar sempre as mesmas soluções. Chorar sempre as mesmas dores, esperar sempre as mesmas ‘alegrias’... repetir-me e não ‘reinventar-me’, como eu sabia, teoricamente, ser necessário. Pensava: “Isso não pode ser assim. Se não me traz alegria, não está certo’. Eu sabia que não podia, mas não conseguia sair do círculo vicioso, que me aprisionava. Estava ‘encaixada’ numa vida. Era difícil deslocar, desacomodar-me, ainda que houvesse uma sensação de incômodo, por estar tanto tempo no mesmo lugar. Em geral, não sou de me acomodar, me debato, luto, esperneio, até que consigo sair...

Sei que a sensação de que viria, um dia, dar aulas em Caxias do Sul não foi um ‘sonho’, foi um DESEJO. Nos 20 anos lecionando Comunicação e Psicologia, tenho dito que, se a pessoa ‘deseja um desejo bem desejado’, com consistência, ele tende a se realizar. Campos morfogenéticos (vale a pena procurar essa teoria...). Ocorreu, então, que havia em mim uma identificação com o lugar, uma vontade de ficar. Também naquela época, as condições eram desafiadoras. Eu não tinha do meu lado tudo o que eu queria, para estar ali. Era preciso ter paciência, lidar com a saudade, com as condições oferecidas pelo Universo. Eu sei desejar (ah... como eu sei!), mas há muita coisa na vida que não depende só do meu desejo... Mesmo sendo uma ‘doutora desejante’, preciso ser humilde e resignar-me ao que é maior: o Universo, Deus, os desejos e possibilidades das outras pessoas. Nesse sentido, eu também sei mudar o rumo da metralhadora de desejos. Assim faço, quando entendo ser necessário.

De qualquer forma, eu pressentia, como agora, que um território subjetivo se abria, pra mim. Havia a sinalização da potência, no sentido de mostrar o que eu mais sei fazer... para o que me preparei a vida inteira... para essa ‘lida cotidiana’ com os alunos, em busca de produção de momentos alegres, no processo de desencadear conhecimento vivido, intensa e amorosamente. É preciso deixar claro. Eu sempre amei os alunos. Eu amei também os alunos das outras universidades (penso que eles sabem disso), mas a diferença é que, por alguma razão, há uma energia, um conjunto de fatores que aqui sinalizam aberturas para a expressão, para a produção do meu jeito Malu(Ca)rdinale. Sou grata a todas as instituições que me acolheram, cada tempo vivido, cada história que vivi com alunos e colegas.. tudo me constituiu.. tudo me fez ser quem sou... mas agradeço a Deus e a tudo que me deu coragem para o movimento... para a mudança. Talvez sejam os sinais da roda tecida pelas moiras, descritas como espécie de deusas internas, que vão tecendo o destino e regendo as grandes guinadas da vida. Eu sinto que a vida mudou... pra melhor. Há brotação nas plantas de casa... assim como renasceram em mim alegrias passadas e há potência agenciada para o devir... o que deve vir... felicidade! Desejo isso para cada pessoa que amo e para você que lê este texto. Um beijo.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Era uma vez, uma Ritella! Margherita! Margarida!




Ritella era uma menina ativa. Muito ativa. Dessas em que a vida pulsa o tempo todo e que têm a mente acionada sempre, veloz. Sempre inventando moda. A história da Ritella é uma das mais lindas que conheço. Eu vou contá-la aos poucos. Não há como contar tudo de uma vez. Muita história. Muita vida. Tudo intenso. Ritella vivia na Itália, no Sul da Itália, no século passado, nos anos de 1940. Ritella, então, viu a guerra, a triste e dura Segunda Guerra Mundial. Ela nasceu em 1941.

Na época, sua família foi se esconder nas montanhas. Nas terras do pai de Ritella. Foi lá que ela viveu os primeiros anos, em meio aos bombardeios, à correria de desespero, quando os alemães começavam a bombardear. Ritella uma vez escapou do esconderijo e saiu engatinhando. Quando sua mãe se deu por conta, ela já estava fora do alcance. E os aviões alemães começaram a baixar... barulhentos, para reiniciar o bombardeio. Ritella não sabia o que estava acontecendo. Mostrava apenas um traço seu, forte, esse de ir buscar o que quer, de não esperar.. de sair em busca de outros lugares. Ritella já era forte, decidida e ousada. Ritella também já era abençoada.

Vejam só o que aconteceu: os alemães jogaram uma bomba. A mãe de Ritella, desesperada, ajoelhou-se imediatamente e implorou a Santa Rita, que salvasse sua filha. Até então, ela se chamaria “Margherita!” (Margarida!). Não havia sido registrada ainda, por causa da guerra. Em tempo de guerra, as burocracias são postergadas. Todo mundo trata de tentar salvar a vida, ter alimento, literalmente, ‘sobreviver’. A mãe de Ritella prometeu que, se ela não morresse, ela se chamaria Rita, em homenagem à Santa Rita. A bomba não explodiu. Ritella esteve bem perto. Ela foi jogada perto de Ritella, mas não explodiu. Quando os alemães foram embora, no entanto, antes que a mãe de Ritella pudesse buscá-la, ela bateu a testa em algo e fez um pequeno machucado, que sangrou, de modo semelhante ao que as imagens de Santa Rita apresentam. Era como uma marca. Ritella ficou com o sinal, para sempre. Um sinal na testa, que parece confirmar que ela foi salva por Santa Rita. Praticamente nasceu de novo, a menina Ritella.

A menina foi crescendo ali, onde viu muitas, mas muitas cenas tristes. Guardou para sempre, por exemplo, a cena de uma senhora de idade, que decidiu ir buscar água para a família. A água do esconderijo havia terminado. Todos estavam com muita sede. Não havia água para nada. A senhora então disse que iria, que ela já era velha, que já tinha vivido muito. Ninguém queria que fosse. Mas ela decidiu ir, para o bem de todos. Foi, chegou a pegar a água, colocar na cabeça. Ritella lembra, com tristeza, de cena em que a senhora caminhava com dificuldade, mas feliz, por estar conseguindo. Enquanto isso, os aviões alemães sobrevoavam o lugar... era uma tensão muito grande. Todos acompanhavam apreensivos. Por alguns momentos, parecia que iam deixar a senhora voltar com a água. Quando ela estava se aproximando do local em que estavam protegidos, os alemães mataram a mulher, sob os olhos aterrorizados de todos, adultos e crianças. A guerra não poupa ninguém. A guerra tem requintes de crueldade que se imprimem nas memórias de todos, em níveis conscientes e inconscientes, a tal ponto que, mesmo depois de muitos anos, as cenas, as vivências voltam e doem.

Ritella sobreviveu, com a experiência da guerra servindo de alerta para que produzisse o amor ao próximo. Com o fim da guerra, ela voltou para sua cidade e ali vivia com sua família. A vida recomeçando em uma Itália pobre, mas criativa. Ritella muitas vezes fugia para as montanhas para apanhar cerejas, fruta pela qual ela se manteve sempre apaixonada. Nessas escapadas, vez por outra chegava em casa se esgueirando... se escondendo da mãe, porque voltava sem ‘alguma’ peça de roupa. Ritella sempre apanhava, quando isso acontecia. Sua mãe não levava em conta o seu argumento. Ela contava pra mãe que tinha dado a roupa de presente para uma outra menina que encontrara na montanha. Dizia (em italiano): “Mas mãe, eu tenho outras roupas aqui. A menina não tinha nada...”. A mãe dela não relevava... ficava furiosa. A mãe dela era muito brava...Não aceitava.

Bem, como eu disse, a história de Ritella vai longe. Hoje vou ficar por aqui. Só quero dizer mais uma coisa..Ritella era Margherita. Margherita significa Margarida, porque Margaridas Brancas eram as preferidas do pai de Ritella. Ritella é uma pessoa MUITO especial pra mim. A ela, eu devo nada mais, nada menos que minha vida. Ritella é Rita Cardinale, a adorável senhora minha mãe. Ela é a grande homenageada aqui, neste espaço Margaridas Brancas!, que tem este nome, por causa da Ritella, Margherita, Rita Cardinale!

terça-feira, 8 de março de 2011

Sebastião, para quem conhece...


Sempre que ele chega é uma alegria. É uma pessoa forte. De personalidade forte. Amigo, até debaixo d’água, sem meias palavras, desses que não poupam a gente, quando é necessário não poupar. Ele tem o que eu chamo de ‘o texto inteiro’. Abre a boca e diz. Sofre junto, eu vejo que sofre junto, quando as notícias não são boas, quando o que tem que dizer não é o que eu gostaria de ouvir. Os seus conselhos, contudo, são preciosos. Ele tem a visão de mundo mais ampla, é sábio, enxerga longe, literalmente. Por isso, eu sempre me alegro tanto quando ele diz: “Vai, tenta!” e, na mesma proporção, me entristeço, resignada, quando ele sinaliza algo que contraria a minha vontade: “Cai fora! Não vale a pena!”. Eu sei que não vale a pena insistir. Sua amizade incondicional, no entanto, é um bem imenso, uma graça divina.

Sebastião é uma pessoa rara. De fala simples e sábia. Eu me sinto verdadeiramente privilegiada por ser sua amiga. Apesar do jeito, ele nunca ‘manda’, mas ‘dá o texto’, você faz o que quiser. “O que eu vejo é isso, mas você é dona do seu nariz!”. Eu fico em dúvida, às vezes, acho que nem dona do meu nariz eu sou, mas isso não é culpa do Sebastião, mas do fato de que a vida não se faz sozinha. A vida é sempre entrelaçada em muitas outras vidas e, nesse sentido, a decisão que tomamos sempre tem implicações e depende do movimento de outras pessoas. Quando se tem filhos, então, isso é ainda mais complexo... porque são pessoas em ‘criação’, nossas maiores e mais delicadas ‘obras-primas’, que partilhamos humildemente com Deus. Meu Deus, como as coisas são difíceis às vezes! Não fosse a existência de amigos, como o Sebastião, seriam mais.

Outro dia, ele veio me visitar. Chegou como sempre, parecendo um trovão, com sua voz grossa. Eu vi que ele chegou meio contrariado. Parecia cansado. Meu amigo Sebastião também trabalha muito. Ele coordena uma equipe grande de pessoas que têm muita responsabilidade. Pela experiência que ele demonstra ter com os assuntos da vida, sua idade é incalculável. O mesmo não acontece com a aparência. Sebastião é um homem bonito, encantador, que não denota a idade que tem. Ao longo dos anos, tem suavizado a personalidade, demonstra cada vez mais sensibilidade com as coisas da vida, as emoções. Eu o conheço há mais de 30 anos.. não sei, já perdi as contas.. e vejo que ele melhorou como pessoa, como ser humano, também na sua dimensão espiritual. Antes, quando falava, parecia que estava sempre dando bronca. Bom, eu também era muito jovem... hoje, não é muito fácil me assustar.

De qualquer modo, a fala de Sebastião está mudada, embora talvez só quem o conheça entenda o que eu digo. Não, a fala dele não é morna. Ele é uma pessoa intensa e que não faz rodeios. Eu acho bom. Apesar da minha emocionalidade exagerada, já me dei conta que os homens que mais me encantam são os ‘brutos’, no sentido existencial. Homem com configuração ‘leão’. Já tentei me corrigir, mas, quando vejo, me apaixono pelo mesmo perfil... Certo, há uns que exageram e eu, mesmo leoa, acabo me distanciando, mas não é o jeito que incomoda, é o não trânsito entre situações, a falta de dosagem. Sebastião, não. Se tem que brigar, briga. Se tem que falar, fala. Se tem que elogiar, elogia. Mas, sempre, eu sempre sei que ele vai estar ali. Sebastião não abandona.

Sebastião é amigo de fé. Nossa amizade de anos, de muitos anos, permanece inalterada. Representa aquilo para o que eu venho chamando atenção, no sentido de que as pessoas precisam valorizar mais a amizade plena.... a amizade como laço que dá sustento à vida. A amizade incondicional. A amizade como entrelaçamento de vidas que transpõe existências... encarnações.. .a amizade que vai se constituindo na certeza de que o outro não rejeita, não quer mal, não abandona. Penso que uma amizade assim tem que estar na base no amor apaixonado, embora não seja necessariamente a mesma coisa. Sem essa base de amizade, o amor não vinga, porque não consegue sobreviver às intempéries tantas, que são inerentes à paixão, à convivência e ao medo (mesmo) de amar. Sebastião é meu amigo. E eu sou muito agradecida a Deus por isso.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Vida Pazza Comunicazione!



Que a vida nos leve, onde o coração estremece e, como uma prece, que possamos repetir a adoração e a confiança de que não estamos sozinhos. Seguimos o roteiro para o qual fomos chamados. Amor sem conta, Acolhimento mútuo. Produções de qualidade. Contribuir para aumentar a ternura e amorosidade no “Grande Ambiente Cósmico”....peço que todos se aliem nessa Rede de Afeto para o Bem Comum. Mais e mais amigos e Bem-Querer! Pazza Comunicazione (www.pazza.com.br) Beijos.

Amorosidades e investimentos desejantes

Meu tempo e minha intensidade eu dedico àqueles que me tocam de maneira especial, na ternura do abraço, na doçura do laço de afeto que nos une. Eu não gasto tempo, mas faço investimentos desejantes em pessoas que, pra mim, valem a pena. Gente que sabe rir, gente que sabe beijar, gente em que posso confiar e para quem me entrego como pessoa amorosa.

São diferentes os laços de afeto que me unem às pessoas. Todas têm um lugar especial, cada uma do seu jeito. Especiais dos especiais são alguns com quem minha alma se estremeceu, como se não fosse a primeira vez... como se a vida se reinventasse em potência mágica de um devir amoroso pleno e intenso mais duradouro, um substrato amoroso desses ‘tomara’ que a vida dure mais tempo, para eu ser feliz também por longa data.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

SAMBA QUE TE QUERO SEMPRE MAIS!

Compromisso com o samba! Com essa expressão eu fui ensinando meus filhos que, nós, brasileiros, sujeitos vivos e alegres, temos compromissos com o samba. O samba é, na verdade, uma filosofia de vida. Não fui eu que inventei isso. O samba é o movimento do corpo, regido pela pulsão interna do ritmo marcado pela percussão. Bah.. forte, atiçador de dentro. Samba é como tesão. Nas suas variações, vai existindo e mexendo com a gente e o resultado, se nos soltarmos, é gozo, prazer, alegria. Assim também é o samba! Por isso, sambar é muito bom!

“Quem não gosta de samba bom sujeito não é. É ruim da cabeça, ou doente do pé”. Penso que a frase é forte. Lida rapidamente, analisada como fala isolada talvez soe mal. Acredito, no entanto, que existem bons sujeitos que não sabem sambar. Sambar não é pra todo mundo, exige capacidade de requebrar e ousadia de mexer o quadril e coordenar o corpo na cadência ritmada do samba. Além disso, ainda há a coordenação entre as pernas que vibram, a respiração que oscila, a ginga que atiça, atiça...o samba provoca a sensação de vontade de sambar mais, mais e mais...Samba é, sem dúvida, sensual, muito sensual. Mas de uma sensualidade mestiça...de qualidade ímpar. Eu diria que saber sambar ...já é meio caminho andado, se é que me entendem.. risos.

Assim, gostar de samba faz diferença. Mesmo que o sujeito seja tímido, ainda não tenha desenvolvido o ‘molejo’ de sambista, ao ouvir o samba, ele sorri, altera os humores internos, consegue sentir a pulsação da percussão. Pulsa diferente, porque o samba ferve a gente, excita e relaxa ao mesmo tempo, produz alegria pela própria pulsação, pelo ‘processo’, eu diria (risos).. da ‘coisa’ em si...

Uma vez, numa praia italiana chamada Cesenático, ao ouvir o som da música brasileira em um bar, decidimos parar ali e acabamos começando a sambar. O bar começou a encher, porque os italianos ficaram encantados com o grupo sambando. Éramos dois adultos e duas crianças... Observei que eles ficavam encantandos com o movimento e a tranquilidade com que fazíamos isso. Sorriam... também atiçados...Em um determinado momento, um italiano mais ousado (quase uma redundância, porque, em geral, eles são ousados, deliciosamente ousados) veio conversar comigo. Elogiou, elogiou meus dotes de sambista e, depois, me perguntou quantos filhos eu já tinha...insinuando a relação entre samba e sexo... eu queria matar o italiano (na verdade não valia a pena, era um italiano lindo.. esse também é um traço do homem italiano.. há muuuuiitttooos homens lindos. Chega a ser um problema... risos...). Bom, mas na época eu estava casada.. meu marido ali sambando comigo e o tal italiano lindo me perguntando aquelas coisas...
Por fim.. eu entendi a relação... a lógica... a situação é que foi estranha.

Bom.. agora estamos em um tempo de samba à flor da pele. .em função da proximidade do carnaval.. eu continuo sambista.. com compromisso com samba... Vamos sambar???

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Encontro das Leoas Maiores


Maria Luiza: Olha só! Quanta honra! Dra Cardinale em pessoa, em carne e osso. Achei que ia voltar a dialogar com a Malu.

Dra Cardinale: Ela não está muito disposta para conversar com a senhora, nas atuais circunstâncias. Sabe bem que vem por aí um derrame de ironia e discurso, tipo: “Eu te disse! Eu te avisei!”. Outra coisa, a senhora sabe bem que sou a mais completa, minha constituição é a mistura de vocês. Então, vai cuidando a fala, porque estou com pouca paciência.

Maria Luiza: Leoa furiosa, de novo?!

Dra Cardinale: Não, pelo contrário. Estou ‘serena’, firme, determinada, focada, eu diria. Eu sinto tudo, tenho a intensidade da Malu, a emocionalidade da Luiza, mas sei bem o que fazer. Um tanto de racionalidade herdei da senhora, mas racionalidade retrabalhada, com inteligência emocional. Então, me poupa o sermão, porque não é o caso. Nem pra Malu seria...

Maria Luiza: Então, em que ponto estamos?

Dra Cardinale: No ponto de a senhora reconhecer que não sabe nada de Mitologia ou esqueceu, por conveniência, porque não gosta de alguns mitos, se apega sempre aos de luta, de conquistas, de vencer batalhas, como o do Jasão e o Velocino de Ouro, que é o seu preferido. O que se esquece é que a vida se constitui a partir dos quatro elementos e, portanto, a Malu está sendo coerente com uma de nossas forças motrizes, talvez a mais marcante, o nosso diferencial, o que é a nossa marca existencial.

Maria Luiza: Muito bonito discurso, mas esse traço de Psiquê em nós tem trazido mais problemas do que qualquer outra coisa. E a Malu é mais fogo do que água...

Dra Cardinale: A senhora sabe que não é assim. Os encontros com Eros sempre valeram uma vida, porque produziram uma intensidade que ecoa e permanece no tempo. Agora, cada ser humano é o resultado de sua dosagem dos quatro elementos: água, fogo, terra e ar. Somos o que somos, porque assim fomos forjadas. Por sorte, hoje, a descompensação do elemento água, na associação com o ar, dentro de nós, amenizou-se um pouco. Ter nascido libra, com lua em libra é uma complicação. Ainda é pouco, eu sei, mas a predominância do ascendente sagitário já resolveu alguma coisa. Aos poucos, chegamos lá. Estamos aqui para isso: aprender, amadurecer, com cada vivência, cada dia, cada relacionamento. O que vivemos até agora já o suficiente para a Malu entender que ela não está perdendo nada, porque, na verdade, não tinha, de fato. Tinha apenas o querer. Apesar do tempo, da intensidade, foi tudo sempre ‘quase’....

Malu: Peraí, deixa eu me meter. Dá licença. Prometi que não ia falar, mas assim não dá. Eu não inventei nada. Sei o que vivi. Sei no que me baseei para fazer meus ‘investimentos desejantes em busca da felicidade’. Tá.. entendi.. sei.. não se pode perder o que não se tem, de fato.. entendi.. sim Dra.. entendi...

Dra Cardinale: Sim, querida. Tal como Psiquê, você foi fiel aos seus sentimentos. Sua busca, seus investimentos são legítimos. Mas já é tempo de serenar.. de saber com quem se está vivendo, de viver amores de forma mais madura. Você sempre foi verdadeiramente intensa, mas somente em momentos especiais, com parceiros especiais consegue o que tem conseguido agora, saber o que está fazendo, o que pretende, porque pretende... saber ir adiante e recuar... até mesmo ir embora, como é o caso. Vejo que você está madura na expressão dos desejos e isso é raro e importante. Aprender a não desistir à toa, mas também não insistir mais que é recomendável. Saber finalizar com doçura, sem mágoa, sem nada, só amorosidade... esquecer a diferença..os dissabores.. só seguir em frente.

Malu: É. Eu só fiz amar!

Dra Cardinale: Isso não termina. Você sabe que não termina. Temos uma cristaleira da memória repleta de amores lindos, especiais, que nos fizeram felizes, enquanto estiveram conosco. Só mudamos o rumo, o jeito, a flexibilidade exagerada no laço amoroso, que mais entrega do que pede. Investimento desejante tem que ser cuidado, nesse sentido. Se não... descompensa.. não compensa...o mercado precisa de resultados.

Maria Luiza: Mas voltando à Mitologia.. estava achando interessante a análise da doutora...só que, que eu me lembre, Psiquê não segue adiante com essa tranquilidade toda. Ela sofre muito, pela reação de Eros.

Dra Cardinale: Em parte a senhora está certa. O que acontece é que Eros é lindo, é o Deus do Amor, é assediado e adorado pelas mulheres e envaidecido por tê-las assim, tão desejosas...Ele sente prazer em encantá-las com suas palavras doces e seu desempenho inigualável. Eros encanta as mulheres. Não é apenas um sedutor. Mas ele tem fortes laços com a mãe Afrodite, a Deusa da Beleza. Afrodite é apegada a Eros e, por isso, é tão complicada a aproximação de qualquer mulher mortal. Afrodite não aprovaria...ciúme de mãe. Eros não quer decepcionar a mãe. Ele não conseguiu matar Psiquê, que foi a recomendação dela. Apaixonou-se por Psiquê, mas isso não foi suficiente... pelo menos não até essa parte do mito. Eros fugiu, culpando Psiquê, pelo (parcial) desfecho. Nesse ponto do mito, não se sabe o que acontecerá. Psiquê fez o que lhe era de direito na sua condição de fêmea. Agora Psiquê segue sua viagem...

Maria Luiza: Segue triste, para os trabalhos aqueles...

Dra Cardinale: Olha, por isso eu digo que a senhora não compreende a Mitologia. Os mitos são matrizes narrativas existenciais. Praticamente tudo está ali, mas na lógica quântica dos tempos múltiplos, da espiral do tempo, existem atualizações. Psiquê não é mais a mesma, eu diria, pra ficar mais fácil de entender, embora tenha repetido matrizes narrativas. É do texto.. está no roteiro, mas ela vive agora sendo Psiquê contemporânea... ou Julieta...a Julieta dos dias atuais não optaria pela morte.. certamente não.

Maria Luiza: Mas então o quê? Segue como?

Dra Cardinale: Segue ‘pós-moderna’, se isto lhe diz alguma coisa, coerente com a mutação cósmica, atenta ao rumo e ao poder do Universo. Você viu a Malu hoje, em Caxias? Nada de tristeza. Ela comemorou em grande estilo a conquista, o fato de estar ali. É uma conquista profissional. Há muito ela queria isso. Depois, uma coisa é uma coisa. Outra coisa é outra coisa. Bem.. o mito não termina aí, embora este seja um ponto de finalização. Psiquê encara a sua verdade. Malu também.

Malu: Acho graça as duas filosofando sobre Psiquê, sobre os traços de Psiquê em Malu. Analisando, analisando... eu sigo vivendo, fazendo graça até mesmo da minha atrapalhação... quando ela surge...estratégia de sobrevivência básica: o humor. Conseguir rir de mim mesma já é um grande passo. Viram hoje? Vou me dar muito bem em Caxias. Me preparei para isso. Vou fazer o meu melhor! Me aguardem. Estou livre, leve e solta...estou feliz com a oportunidade.

Maria Luiza: Então não está triste?

Malu: Mas que obsessão! Pode ter certeza que não. Sou jornalista. A realidade é minha matéria. Gosto de enxergar claro o rumo do texto, os sujeitos das frases.. vivo aninhando as palavras para as pessoas. Preciso fazer isso pra mim também. “Cada um no seu cada qual’... como se diz. Quando faço uma pergunta, em uma entrevista ou na vida, estou preparada para a resposta. Antes de tudo, o que mais desejo é a resposta. Aí, apreendo os detalhes, os silêncios. Silêncio também é resposta, também é informação. Como eu sempre digo. A informação orienta, dá rumo, dá direção para as pessoas. E eu vivo disso, da informação inteira. Como vocês viram, meu primeiro dia de Caxias do Sul foi muito feliz! E vou fazer o possível para tornar felizes as pessoas a minha volta, com a qualidade do meu trabalho, a amorosidade pelo ser humano, com minha italianice a toda prova. Vou me dar bem, vocês vão ver....vou me dar bem!

Maria Luiza: Mas essa criatura, quando eu penso que ela vai desabar, ela salta como quem gira num samba, na ginga da brasilidade que também carrega, com orgulho, na força e graça italiana di ballare la tarantela.. e agora... ainda inventou de dançar flamenco! Durma com um barulho desses por dentro... risos....