quinta-feira, 27 de julho de 2017

Chiara e a Orquestra da UCS!




Aquele momento em que você está com a filha, de 16 anos, assistindo a um espetáculo interativo da Orquestra da UCS, chamado Orquestrando Organizações, oferecido aos professores da UCS, no Encontro de início do semestre. O maestro desafia o público, para que algum voluntário vá reger a orquestra no ‘lugar dele’ (com a ajuda dele, no início!), depois de ter ensinado alguns ‘movimentos básicos’! Nenhum professor se candidatou, em um primeiro momento, e quem levantou a mão? Sim... a Chiara Baptista Vieira! 

O espetáculo foi apresentado hoje duas vezes para o grupo de professores da UCS, como parte do encontro dos professores com a reitoria. De manhã, fiquei impressionada com a ‘aula mágica’, que recebemos sobre a composição e o funcionamento da orquestra, com suas várias ‘famílias’ de instrumentos, a beleza e singularidade de cada um. A importância da união de todos os instrumentos. Lembrei da minha filha Chiara, também apaixonada por música e pela Orquestra da UCS! Pensei: “ela vai amar assistir e aprender um pouco mais sobre cada instrumento, não pode perder essa oportunidade de assistir ao ‘nosso maestro’, Manfredo Schmiedt, explicando tão bem humoradamente como se produz a mágica da orquestra”.

Quando a convidei, não imaginei que ela subiria ao palco; apenas pensei que ficaria encantada, como eu, com as explicações. Lembrei de vários momentos da vida em que Chiara ficou hipnotizada com apresentações musicais, dos mais diferentes ritmos, desde pequena, desde muito pequena. Até mesmo em situações em que todas as outras pessoas do ambiente dançavam, a Chiara estava lá, olhando fixamente para os músicos, encantada, observando cada movimento. Pensem, por exemplo, em um baile de carnaval... sim a Chiara, pequenina, se parava diante da banda, em meio à confusão de foliões, e observava atentamente aos músicos e ao seu trabalho. Olhava detidamente, séria, só observava. Tá, outro exemplo: show do Exalta Samba, em Caxias do Sul, há alguns anos. Fomos em família. No camarote, eu me deliciava sambando e a Chiara, na minha frente, parada, olhando, só observando os músicos. Bom, houve também as apresentações com o irmão Giuseppe, para a família toda, com as composições próprias. Eles se divertiam criando música, quando eram muito pequenos.

Lembro de uma vez que fui buscá-la na aula de música e o professor a elogiou! Eu agradeci, pensei que era simpático da parte dele elogiar minha filha. Ele percebeu e reforçou: “Olha, a senhora não está entendendo. Ela realmente tem uma sensibilidade e habilidade que se destacam! Ela se destaca muito!”. Chiara tem cultivado a música intensamente, durante a sua vida (16 anos!, como eu já disse). Na escola, já tocou vários instrumentos, participou da Banda Escocesa, coral, fez aula de violão, escaleta e caixa. Tem em casa guitarra, teclado e violão, e decidiu que vai comprar um ukulele (que eu ainda nem sei como é!).  Nesse momento faz aula de canto e de teatro.


O mais importante de tudo: eu vi minha filha viver um momento absolutamente mágico, em que demonstrou coragem de ir viver seu sonho! Durante o período em que esteve no palco, Chiara sorria muito, embevecida com a cena, com o momento. Ajudou, claro, o fato de ser aluna do CETEC e de ter participado recentemente do CETEC Festival, com apresentações teatrais, em que ela também ousou interpretar uma personagem, de uma peça que ajudou a escrever, sobre os refugiados. A informação de hoje é: vivemos um momento em que se consolida a informação de que temos mais uma artista na família!





domingo, 14 de maio de 2017

"Filho Rafael': menino do 'desenho no cartaz'


Hoje foi mais um Dia das Mães. Vivi, como é de costume, emocionada e reflexiva. Houve um tempo, na minha história de vida, em que decidi que seria uma mamma italiana. Entendi isso, como uma verdade, em mim, mesmo antes de conseguir ser mãe, de conseguir ser mãe adotiva e mãe biológica. Vivi também muitos Dias das mães sem filho, antes disso. Passei dez anos, tentando engravidar, lutando com um diagnóstico, ou vários... vários, até chegar em um deles, que se interpôs como se fosse uma fatalidade, para alguém tão amorosamente decidida a viver a maternagem...

Depois de dez anos de tentativas e exames e alarmes falsos, o médico me disse: “Não adianta, não adianta insistir. Você tem endometriose em grau severo. Não há como engravidar com esse quadro!” . Eu disse: “Dá.”. Ele respondeu: “Não dá, impossível. No teu caso, só um milagre!”. Eu retruquei: “Que seja, o senhor pode esperar. Eu vou engravidar, pelo ‘método tradicional’, pode acreditar. E, enquanto isso não acontecer, vou adotar crianças”. Foi assim que resolvi partir para adoção e tive os meus primeiros três filhos, até que um dia engravidei, biologicamente, da quarta filha.  O ‘milagre’ se fez e hoje tem 15 anos. Linda.

O traço de maternagem em mim tem sido uma imensidão de amor, uma avalanche de afeto de bem-querer-bem, que me mobiliza desde criança a ser cuidadora, amorosa, afetiva. Como eu disse uma vez, amor derramado, sem meias medidas. Talvez também por isso, até hoje, eu me lembre tanto do Rafael, um menino de uns seis sete anos, no máximo, que conheci de longe, numa situação muito forte. Vou contar agora.

Um dos meus filhos estava hospitalizado, o Dia das Mães se aproximava e eu pensava como seria difícil que ele não estivesse em casa. Para piorar a situação, a Clínica em que ele estava internado não permitia visita aos domingos, somente aos  sábados. Eu não me detive. Fui falar com um, com outro, até chegar no diretor e pedir a liberação da visita no Dia das Mães. Insisti, disse que não ia passar sem ver meu filho, que isso seria importante para ele também. Então me disseram que não poderia liberar a visita só pra mim. Aí eu disse: “Mas é claro! Liberem pra todas as mães! Não faz sentido!”. Bom, de tanto eu insistir, eles concordaram.

Chegou o domingo à tarde. Quando fui fazer a visita, havia uma fila, muitas outras mães felizes pela ‘decisão’ da clínica de liberar a visita no domingo. Era um acontecimento raro ali. Meu filho ficou muito feliz também e veio me encontrar com um cartaz na mão. Ele tinha feito um desenho para me homenagear, para expressar seu amor. Quando peguei a cartolina branca nas mãos, olhei e percebi que a folha estava dividida ao meio. Em uma parte havia um desenho, sim, de criança, em que podia perceber que eu havia sido desenhada com os outros manos. Na outra parte, havia alguns riscos dispersos. Não era possível identificar o que estava desenhado, mas se percebia que havia ali um esboço, não nítido. Não havia uma figura nítida....fiquei intrigada.

Perguntei, então, ao meu filho, o que significava aquela divisão. E por que, de um lado da folha, ele tinha feito aquele desenhos ‘diferentes’. Ele respondeu que aquela parte da folha não era dele, mas do Rafael, um outro menino que estava hospitalizado e que, ao saber da vinda das mães, como ele não tinha mãe, pediu emprestado ‘a mãe do meu filho’, no caso, eu, e um pedaço da folha de cartolina para ele fazer, pela primeira vez, um desenho para ‘uma mãe’. Meu filho disse: “Ele é meu amigo. Não tem mãe. Então me pediu para também fazer um desenho pra você!”. Bem, eu fiquei sem poder falar... emocionada, até o momento em que meu filho olhou para cima e viu o Rafael. Ele estava na parte superior da clínica, em uma mureta, acompanhado de um atendente. Olhava fixamente para nós, acompanhando o ‘momento da entrega do desenho’. Meu filho o apontou e disse: “É aquele, aquele é o Rafael!”. Eu me levantei, mostrei o cartaz e disse pra ele: “Rafael, querido. Muito obrigada. Eu adorei o desenho, é muito bonito! Adorei mesmo!”.

Bom, pensem  em um momento dramático. Lindo emocionante, de chorar. Os olhos do menino se iluminaram, ele abriu um sorriso imenso e dizia insistentemente para o atendente: “Tio, viu, ela é uma mãe, uma mãe de verdade. Ela gostou do meu desenho. Viu tio? Uma mãe de verdade gostou do meu desenho. Ela é uma mãe. Uma mãe de verdade”. Meu Deus, ainda hoje a expressão do rosto dele está na minha retina, nos meus olhos, no meu coração. Pensei muito no ‘meu filho Rafael’, o do desenho no cartaz, pensei também em todas as crianças que, como ele, vivem o Dia das Mães, em meio a toda a parafernália midiática, sem ter para quem doar um abraço, um traço, um desenho um afago e ter isso retribuído de alguma maneira. Pensei também nas mulheres que desejam viver a maternagem e não puderam, pelo aprisionamento de diagnósticos que sentenciam a impossibilidade.

Mais que nunca, entendo hoje que, apesar de todos os desafios imensos que a maternagem nos impõe, a opção vale muito a pena, quando é resultado de decisão profundamente sedimentada em afetos de bem-querer-bem consolidados. Nesse sentido, a adoção é uma linda possibilidade, tanto quanto a gravidez biológica. No cotidiano, não faz diferença, filho é filho, adotivo ou biológico. Eles vão se entrelaçando com a gente, tanto e imensamente, a tal ponto que vamos entendendo que sua presença nas nossas vidas faz parte de uma Escrita Maior.


Eu quero deixar aqui, meu imenso abraço para o ‘menino Rafael’, que, naquele dia, não pude abraçar, impedida pelas regras da clínica. Eu fiz o que eu pude. Tem sido assim, na minha vida. Eu faço o máximo que eu posso... para acolher, adotar e cuidar. Fica aqui o meu desejo de que ele tenha também conseguido uma mãe adotiva e que receba muitos abraços sempre. Que os anjos o protejam, assim como às outras crianças todas, em todos os dias!

domingo, 30 de abril de 2017

CONVOCAÇÃO PARA A PAZ ENTRE AS LEOAS!



A urgência do tempo, em alguns sentidos, tem me conduzido a refletir mais sobre, afinal, o que querem essas leoas em mim? Por que elas brigam tanto? Que tempo é esse que ainda tenho, para viver às turras, internamente, com os desassossegos tantos, entre essas ‘criaturas’ fiandeiras do meu destino. Para quem não sabe, as leoas são minhas versões de garra e luta, em diferentes instâncias da vida, de diferentes modos. Quem me conhece, nem sempre conhece todas as leoas... Costumo dizer que cada um tem a leoa que conquistou. Elas são, em certa medida (sem medida certa!) manhosas, dengosas, birrentas, bravas (no sentido italiano de valentia e no sentido brasileiro de fúria, às vezes. Em suma, melhor não provocar!). Claro, são também ternas, amorosas, sim, muito amorosas. Isso, todas são.  Cada uma a sua maneira.

Há pouco tempo, tive um indicativo de diagnóstico – que não se confirmou, após uma biópsia! – de uma doença grave, lenta e silenciosa, dessas autoimunes. No caso, a explicação da tal doença dizia que, por motivos desconhecidos, algumas células começavam a matar as outras ‘por engano’. Pensei imediatamente nas brigas das leoas internas, a Maria Luiza, a Malu, a Luiza, a italiana, com as tentativas, nem sempre bem sucedidas da Dra Cardinale, no sentido de acalmá-las.

Apesar da situação nada boa, nem alentadora, comecei a achar certa graça da situação. Tantas vezes conversava comigo mesma e com minhas células e dizia... “Olha, vejam só, vocês se conhecem há tanto tempo! Vão começar a se matar agora?”. E, em seguida, imaginava as células ironizando: “ Ops, desculpe, te matei né? Desculpa, tá, fica aí mortinha!”. Com alguns amigos mais preocupados comigo, amigos chegados, que estão mais por perto no cotidiano, eu comentava isso, até como uma forma de descontrair. Não há porque se ‘pré-ocupar’, numa situação dessas. Penso que apenas devemos nos ocupar... fazer o que tem que ser feito, sem dramas, nem nada. Foi o que tentei, depois do impacto inicial da informação.

Enfim, a situação prolongou-se por praticamente um mês, entre receber a informação de indicativo de diagnóstico e esperar o agendamento de biópsia, fazer a biópsia, aguardar o resultado. Uff! Tudo isso fazendo tudo que faço, em meio ao gerenciamento de uma família com cinco filhos, a vida nas universidades UCS-UFAM, os orientandos, aulas, clientes de supervisão de textos da Pazza Comunicazione, tudo urgente, tudo com prazo-lâmina, com eu costumo chamar, tudo pedindo atenção, em um tempo em que eu precisei de tempo de reflexão, para construir calma interna, até mesmo para abrir agendas para consultas, exames, agendamento disso e daquilo. Eu, literalmente, não tenho tempo (nem paciência!) para adoecer, nem para falecer. Lamento.

Foi tempo suficiente para compreender a grandiosidade da vida e da velocidade do tempo em que ela passa. Também foi possível pensar o que quero e o que não quero. Pensar que são verdadeiramente poucas as coisas pelas quais devo brigar, ficar brava. Resolvi, eu mesma, finalmente, aderir à campanha que lancei com meus filhos – também os filhos acadêmicos – brincalhonamente, há tanto tempo, cujo slongan é: “Preserve Malu, antes que acabe!”. Eu sempre argumentei: “Sim, há tantas campanhas ecológicas de preservação de seres em extinção. Por que não eu?!”. Enfim, esse é um dos meus traços, brincar comigo mesma, fazer graça, como alternativa, até porque pelo que vivi, se não tivesse feito isso, não tinha aguentado.

Enfim, tudo isso me fez abrir um chamado interno para a paz,  a paz das leoas. Não. Não é nada fácil. Nenhuma delas é ‘morna’, nenhuma é  simples. Cada uma delas representa um modo meu de levar a vida e todas querem ter voz em mim, sendo que nem sempre suas vozes combinam. Geralmente não combinam. Enfim, todos os acontecimentos recentes, as pressões e transformações do cotidiano, resultaram na fala da doutora, no sentido de que, com o tempo passando, já é tempo dessas leoas serenarem, cultivarem a paz, ainda que sem concordância. Enfim, muita coisa não importa mais. Não vai dar tempo mesmo de fazer tudo o que eu desejo, porque eu sempre desejei muito. É preciso aprender a abrir mão do que desgasta, do que não rende calma, paz e alegria, principalmente confiança amorosa. As leoas são a minha natureza. Com elas convivi todo esse tempo. O encontro com a natureza, para mim, é sempre o encontro com a matriz de força e, ao mesmo tempo, com a minha poética. Respeito isso, sigo buscando respeitá-las, cada uma a sua maneira, fazendo graça com a choraminguice da leoazinha Luiza, tendo paciência com a impetuosidade da Malu e com a ranzinzices perfeccionistas da Maria Luiza, assim como dando espaço para a intensidade vulcânica da italiana. Assim, diante de tudo e depois de tudo, proponho um Tratado de Paz, entre elas... vamos ver quanto tempo dura!

Bem, pra quem não advinhou ainda quem está escrevendo, assino: Dra Cardinale.


sábado, 15 de abril de 2017

PAREDES DE HOSPITAL SÃO TELAS DE MEMÓRIA!

A experiência de ir a um hospital pode significar um episódio existencial curioso, ainda mais se temos o ‘defeito de fabricação’ de sentir, observar, refletir de modo intenso sobre tudo. É o meu caso: tenho a mania de ‘mergulhar na cena’, com a intensidade de quem se investe do personagem de um roteiro construído para ganhar prêmios. A lógica é a seguinte: se é pra viver, entrar em cena, então vamos ‘na base da plenitude’, vamos com tudo. Parabéns, Maria Luiza, em geral, isso é bom, mas, às vezes, também, traz uma avalanche de sentimentos com a qual é preciso lidar. É o caso do que pude entender, quando me veio à mente a tal frase: “Paredes de hospital são telas de memória!”.

Estive recentemente no hospital da Unimed, em Caxias do Sul, para um 'procedimento' relacionado a minha própria saúde. O procedimento é razoavelmente simples, mas envolvia cirurgia, frequentar o centro cirúrgico, portanto, e passar por toda a parafernália de preparação, até usar aquela ridícula camisola aberta atrás, associada a uma touca de cabelos e sapatos de panos. Quer dizer, o quadro da dor, por ficar meio ‘coisificada’, numa espécie de ‘boneco humano’, que vai passar por um ‘procedimento’. Não há como se sentir confortável numa cena dessas.

Pior, me pediram para tirar os óculos. Gente, eu sou muito míope. Sem óculos, fico entregue a um mundo embaçado. Lembro de um professor da USP, Eduardo Peñuela Canizal, da disciplina de Poética das Mensagens Não-Verbais. Ele dizia: “na imagem, as zonas de não nitidez são espaços de encontros com o inconsciente”. Bom, no meu caso, sem óculos, tudo o que eu vejo são zonas de não nitidez, quer dizer, a possibilidade de encontro com o inconsciente é 100%. 

Bom, além disso, há o tempo de espera e, claro, as paredes. Não sei se alguém já pensou nisso, mas as paredes de hospital, nesses tempos de espera ganham vida. Pior que isso: ganham vidas passadas. São telas de memória. Eu tive o ‘privilégio’ de passarem um paciente na minha frente e, em função disso, tive mais tempo para ‘assistir às paredes’. Experiência forte. O tempo de espera me permitiu rever, na tela de memória, muita gente e muitas cenas vividas. Claro que, na brotação de memórias, eu reconheço uma edição dos momentos, pela intensidade de afetivação. Brotaram, na tela parede, momentos bons e ruins. Momentos da batalha da vida, quase constante, e dos hiatos significativos de felicidade plena, os momentos de maior expressão amorosa. Penso que é disso que é nutrida minha passagem por aqui. 

Sim, foram os amores que ganharam mais espaço e desfilaram na tela, nas diversas situações. Amores diversos e de diversos tipos. Fui sentindo, observando e refletindo o quanto o amor se mostra de diferentes maneiras e se associa, nesse sentido, a diferentes pessoas, nos múltiplos momentos da vida. Eu sou profundamente grata por todos os momentos e seres que me ensinaram e possibilitaram a viver o amor, em suas múltiplas expressões. Disso, fiz meu sustento existencial, no que é, para mim, o principal alimento, a confiança amorosa! Claro que, nem tudo são flores, nem mesmo nos episódios amorosos. Nem sempre os desfechos correspondem à proporção do sentimento investido, porque  o amor não segue a lógica do mercado financeiro, amarrado com controles rígidos. Vale dizer, que mesmo esses mercados estão sujeitos a intempéries e tempestades que, tantas vezes, parecem devastar tudo. Com o amor, não é diferente.

Sinto, no entanto, que o amor tem mais a ver com a agricultura, com o aprendizado do cultivo da natureza e poética de semear e ser semeado, com o encanto de sentimentos profundos. O amor parece ir penetrando as camadas mais fundas de nós mesmos, instalando-se, espalhando-se, fazendo-se dono do corpo físico e abstrato. O amor, o amor messsmoo, atinge camadas profundas da alma, do nosso espírito. O amor não fica na superfície. Não é rápido, não é fugaz. Não há tempo, não há acontecimento, não há tempestade que desfaça o que atingiu os substratos profundos. Bah!

Diante da tela da memória, então, fui revendo a vida toda. Emocionada comigo mesma, num tempo raro de parar e deixar-me estar ali, ‘re-vendo’ tudo. Também pude reforçar algumas percepções que já tinha: tudo é muito rápido. A vida passa muito rapidamente. Altera-se, com o tempo, a própria noção de tempo e a constatação de que ‘a vida inteira’ é uma sequência de flashes. Há que se viver mesmo, intensamente, porque, quando se vê... já se foi. Isso reforça, em mim, a valorização do estar junto, da preciosidade que é cada instante de estar junto às pessoas que amo.

Mais que nunca, esse é o meu grande desejo e investimento existencial, sempre que possível, especialmente como desejo compartilhado: conviver, viver com, ‘com-viver’. Como eu disse esses dias, para um dos meus filhos, é preciso saber reconhecer onde estão os portos-seguros, o resto é tudo ‘viagem’! 


domingo, 2 de abril de 2017

Desapego aos ‘parágrafos’, no texto e na vida!

Nesta semana, em uma das orientações, um detalhe me chamou a atenção: um parágrafo insistente, meio que encrustado no texto da minha aluna, desses que se negam a ir embora. Sim, o parágrafo não estava bem ali, era visivelmente algo que atrapalhava o fluxo do texto. Eu tinha tentado sinalizar para a pesquisadora. Cuidadosamente, propus que aquela lógica de escrita fosse aproveitada e que ela iniciasse o texto com sua experiência pessoal, que ali estava inscrita, mas que adaptasse à condição vivida na pesquisa, que seria interessante e tal e tal. Entendi que havia uma força, uma energia naquela ideia. Ela sorriu satisfeita. Na orientação seguinte, trouxe o parágrafo deslocado, mas, quando fui ver, estava ele ali, intacto, ‘imexível’, firme, como quem diz: “daqui não saio, daqui ninguém me tira”. Ele, o parágrafo, ‘em pessoa’, digamos assim. Bem, foi daquelas situações em que se tem que parar tudo e conversar sobre o assunto, no caso, sobre a necessidade de desapego aos parágrafos, no texto e na vida.

Desde minha pesquisa na USP, sobre processos de escrita de jovens adultos, como expressão da subjetividade e da relação com os meios de comunicação, tenho muito claro o quanto o texto é uma trama que expressa outras tramas mais profundas, mais densas, internas e externas. Então, o que está ali, inscrito, não apenas significa pelo conteúdo, mas também representa um processo de inscrição, em que o sujeito vai se marcando, inscriacionando, ins-cria-acionando e se entregando ali, marcado, com suas marcas profundas.

O que me interessa refletir, neste texto, no entanto, é menos o texto da minha orientanda e mais a ousadia dos parágrafos que insistem em não ir embora. Sim, porque, os parágrafos representam núcleos de ideias, blocos de pensamentos. Assim devem ser. Então, acontece, muitas vezes, que temos alguns parágrafos-blocos de pensamentos que se constituem com tanta força, que parece que se grudam em nós mesmos, como se parte de nós fossem e, pronto, se tornam, eles mesmos, parte de nosso corpo, do nosso jeito. Quando vemos, estamos de novo dizendo o mesmo trecho de texto, refazendo o mesmo enredo, revivendo a mesma trama. Culpa de quem? Culpa de quem? Dos parágrafos, que não vão embora de nós. Sim, preciso agradecer minha orientanda que, com seu ‘parágrafo teimoso’, me ajudou a perceber isso tão claramente.

A gente passa a vida tentando seguir Viagem, inventar o próprio destino, ser sujeito do próprio texto e, quando vê, há um parágrafo, um especialmente – há outros encrustados nos meandro internos, mas um deles com mais força – que insiste. Se você resolve fazer outros caminhos narrativos, não adianta, quando vê, ele despenca na sua frente e vai se imiscuindo no texto, meio rindo, se fazendo de desentendido, e pronto. Está ele ali de novo, majestoso, no seu texto cotidiano. Sem constrangimento. Eu já devia ter percebido isso. Não sei como a Madeleine, minha personagem que se diz esperta, não me alertou. Um parágrafo que deve fazer parte de um grupo internacional de parágrafos, que se dedicam especialmente a perseguir pobres escritoras desavisadas e reaparecem frequentemente como fantasmas, como corpos extraterrenos, como espíritos vindos de vidas passadas e se colocam diante de nós em praças, ruas, dentro dos ônibus, na universidade, nos lugares os mais diversos.

Claro, eu reconheço, os ‘parágrafos’ insistentes têm seus encantos. Não fosse assim, não vingariam como parágrafos-grude-na-memória. Esse é verdadeiramente um dos seus problemas (e dos meus!). Mais que nunca, percebo que escrever é como viver; escrever para mim é minha própria vida. Então, vou seguir, por aqui e ali, escrevendo enquanto posso, tentando reconhecer os incidentes dos parágrafos esses, agradecê-los todos, porque têm graça e alegria, mas também seguir inscriacionando-me de outras maneiras e produzindo parágrafo novos.

No mais, recomendo refletir sobre os parágrafos insistentes, sobre as causas disso, sobre o quanto que, de certa forma, contribuímos, para que esses blocos de pensamentos, fiquem ali e aqui dentro de nós.  Entendo que a trama da vida é complexa. O enredo do nosso destino é escrito por um Autor maior, que parece, às vezes, brincar conosco e, quase sempre, nos desafiar, oferecendo situações que nos põem à prova. A volta e revolta e insistência dos parágrafos esses deve estar ‘no pacote’ de experiências previstas, pelas quais devemos passar. Fico pensando: como vamos ‘sobre-viver’ aos parágrafos insistentes, no plano do bloco de pensamentos e nas microssituações cotidianas em que eles reaparecem? Como vimos e vivemos, não há respostas, só texto a ser produzido, de novo, todos os dias, só a Viagem ainda em andamento... é um exercício constante. Vamos adiante, então, que o caminho é longo e vamos de mãos vazias, com os parágrafos já escritos e vividos, no coração e na mente. Uff e que bom, ao mesmo tempo! Sempre é tempo de tentar aprender a lidar com parágrafos cristalizados no substrato profundo de nós mesmos! Eu espero que seja assim, ao menos.

sábado, 25 de março de 2017

‘Encontro-abraço’ e a palavra!




Eu trabalho com a palavra. Em grande parte do tempo, meu trabalho, minha vida, envolve o trato com as palavras. As palavras e o pensamento. Falo, escrevo, reviso textos, analiso falas, converso com as pessoas, nas mais diversas situações, e penso, reflito, procuro entender... Todos os dias, dedico-me a aprimorar a lida com as palavras, a ajudar as pessoas a se expressarem, oralmente e por escrito. Há muitos anos, estou voltada a ajudar as pessoas a se autorizarem a serem autores. Esse é um dos meus sustentos existenciais. Inscre’ver-me’ e ajudar outros a se inscre’verem-se’!
Eu também penso muito na vida e nas palavras. Penso sempre nas palavras que disse, que escrevi e, claro, nas palavras que li e que ouvi. Fico, às vezes, refletindo sobre a composição das palavras, com essa misturas de sons e, no caso escrito, letras, que vão se juntando, meio que se entrelaçando e que, depois disso, produzem sentido para os iniciados, para aqueles que aprenderam os traços básicos da significação, da palavra falada ou escrita em determinada língua.

Se formos pensar bem, é sempre uma espécie de mágica, que eu escreva uma palavra como ‘flor’ e o meu leitor imagine uma flor. Uma mágica da relação, do processo de aproximação entre os seres que vão compartilhando experiências de significação, até a mágica situação de alguém, como eu, escrever ‘flor’ e outra pessoa imaginar ‘flor’. Ainda que haja variações entre a flor proferida, dita, escrita e a flor imaginada, haverá confluência, encontro, em termos de significação, e o ser leitor receberá do escritor traços básicos de flor e, por isso, também, a comunicação, o encontro complexo de seres em significação, florescerá! Sim, mágica!

Também penso muito na quantidade de palavras circulantes contemporaneamente, que não têm alma. Palavras desalmadas, sem substrato de significação. Por alguma aberração da natureza humana e das relações, muitas pessoas desenvolveram uma falha do processo mágico e produzem palavras sem substância significacional. Quer dizer, as palavras são ditas, escritas, as pessoas que as ouvem ou leem tendem a produzir interpretações, guiadas pela lógica inerente à construção  da palavra, e depois, deparam-se com abismos existenciais ou relacionais. Algo se interrompe na mágica da palavra que existiu. Seria algo da ordem da ‘traição das palavras’. As palavras traem a significação da cena, porque não tinham substrato significacional suficiente que as mantivessem como ‘palavras ditas’ (ou escritas!).

Então, tantas vezes, paramos, olhamos para trás e pensamos: “Mas e o que foi dito? E as palavras tantas ditas, trocadas? E as combinações feitas?”. Surge, então, um natural estranhamento, porque, no momento da enunciação da palavra proferida, tudo parecia tão verdadeiro: o momento, o som das palavras, o aninhamento dos sons e, depois, das palavras, elas mesmas, aninhadas em frases. Tudo parecia fazer um sentido alinhado com cenário, personagens, enredo, energias. Por isso, talvez, seja tão estranho depararmo-nos com o despenhadeiro de sentidos... descobrir que, apesar de cena ser verdadeira, a profunda intensidade de significação da palavra não era. Desfez-se em nada, como se fosse uma cena de novela, que apesar da aparência de verdade, rompe-se drasticamente, no momento em que alguém grita: “Corta”.

Talvez seja um pouco esse o motivo! Inebriadas com o envolvimento das produções audiovisuais e a midiatização das relações, as pessoas talvez tenham se acostumado com o fato de que a cena não é a cena vivida, mas a cena representada. A cena criada para gerar tal envolvimento emocionado e produzir tais resultados, segundo os interesses do roteirista e diretor. Assim, tantas vezes, me pego perguntando: “Quem escreveu essa cena? Que texto é esse que aparenta tanta verdade e que, depois, se mostra tão sem significado, na continuidade dos acontecimentos?”.


Difíceis tempos de esvaziamento das palavras. Ainda mais para mim, intensa e amorosa por natureza, com as pessoas, com a vida, com as palavras. Cada palavra, para mim, é uma oração à vida. Carrega minha singela e intensa verdade. Nas minhas palavras, acredite, você vai encontrar meu corpo, minha alma, meu espírito, minha transposição em ser intenso, em verdade, que permanece em coerência à cena da palavra proferida. Quem recebe meu texto, em alguma circunstância da vida, me tem, de alguma forma, e para sempre, na minha melhor forma possível, daquele momento. Em cada letra ou ínfimo som produzido, estou eu mesma inscrita, entregue, aninhada, buscando repetir a mágica do encontro com o outro, encontro-abraço! Encontro-abraço-comunicação!

domingo, 12 de março de 2017

Sob o rugir das tempestades

Acordo em Porto Alegre, ouvindo rajadas de vento, chuva forte, trovões que aliam a relâmpagos. Tempo turbulento, pensei. Tempos turbulentos, renovei o pensamento. Muita coisa acontecendo, nesses tempos, muita coisa inacreditável. Desafios cotidianos, no sentido de levantar e seguir adiante, sem pestanejar, sem melodramatizar, sem reclamar nem nada. Só levantar, respirar profundamente e seguir.

Sinto-me, às vezes, peregrina, viajante nessa ‘longa estrada da vida’, para lembrar a música aquela. Apesar da condição de força, que fui adquirindo com o tempo, algumas coisas me doem mais, eu sinto mais, eu sinto muito, literalmente. Inspirada nos treinos de karatê, quando isso acontece, recolho-me, volto pra ‘base’, firmo o eixo de mim mesma, respiro e me preparo para o que vier. Atenta, ali, aqui, doendo mesmo, eu sei que a dor faz parte e que o mais importante é serenidade e estratégia, para acionar energia e força, orientada pelos princípios de vida que me regem: amorosidade e bem-querer-bem, sempre! Eu tenho uma matriz de força potente, forjada ao longo dos anos, na dureza, no enfrentamento de muitas situações adversas. Doce e dura, como eu costumo me definir.

A questão é que, nesses tempos, como eu tenho dito, vivemos em uma guerra em sentido amplo, infelizmente. Para lembrar uma expressão dos jovens contemporâneos... ‘não está sendo fácil’, no plano coletivo e pessoal.  No plano coletivo, vivemos sob rajadas de narrativas e sob o bombardeio de frases de efeito, frases pensadas por políticos inescrupulosos, para causar efeito de impacto e distrair a atenção das pessoas de suas ações. São frases disparadas com rigor de absurdidades e que, estrategicamente, agendam o pensamento, as falas, as postagens, as conversas, enfim, ocupam o tempo das pessoas, especialmente, as que compreendem que são frases absurdas. A questão é que essas frases são rajadas de narrativas que servem para distrair a atenção do que, efetivamente, interessa. A pauta, então, é deslocada das ‘ações’ para as ‘declarações’. A discussão e o tempo de produção de comentários, debates, reflexões passam a ser tomados pelo efeito das declarações, propositalmente absurdas, deploráveis, mas cujas consequências são infinitamente menores do que as ações que seguem feito um câncer, destruindo um corpo social construído, a duras penas.

Nesse sentido, eu chamo a atenção para o fato de que o texto tem que ser lido compreendendo quem é o autor do texto. O texto de fala, também. Quer dizer, que lugar é esse de onde esse ser fala? Seria possível a produção de outro texto? Eu deveria esperar outro  tipo de texto? Ou, o que está por trás dessa fala, propositalmente agressiva, para a sociedade ou para o grupo ou para mim mesma? O básico a se compreender, nesse sentido, é que há o texto dito e há a intenção do texto. Às vezes, há até mesmo o texto que não é dito, mas que tem que ser lido como texto, como informação, justamente produzida pelo silêncio.

No plano das relações pessoais, observo frequentemente a emergência de frases impensadas, resultado, muitas vezes, de um estado de perder-se em si mesmo e de dificuldade de enxergar o outro. Há um aumento da ansiedade e da sensação de que estamos numa nau à deriva, em certos momentos, sob o efeito das tais rajadas de ventos e tempestades.  Uma nau que vai sendo jogada contra os rochedos. Os rochedos podem ser, até mesmo, as próprias pessoas próximas, que perdem a condição de ‘porto seguro’ e se mostram insensíveis às necessidades mínimas de atenção e cuidado, paciência, empatia. Vejo-me, tantas vezes, como nos exercícios de karatê, tentando, tentando, fazendo de novo, renovando a atenção e dedicando-me a fazer o movimento ‘mais limpo’, mais preciso, mais firme, mais flexível ao mesmo tempo. Dou-me conta que sou sempre iniciante, em tudo na vida. Sou aprendiz eterna, ainda que essa eternidade vá se transformando, pelo modo como essa minha existência se expressa. Como eu tenho dito, recentemente, brincando e falando sério ao mesmo tempo, eu já estou treinando para ser alma.

Entre as minhas reflexões tantas (até porque, afinal, esse é um dos meus sustentos existenciais), nesses tempos de “Meu Deus!”, fico pensando: em que porto perdemos nosso coração? Em que momento soltou-se o fio de humanidade entrelaçada? Como acionar, em cada um, o olhar mais atento, a escuta mais apurada, a sensibilidade na pele, para que a preparação cotidiana seja de acolhimento, seja no sentido de ajuda mútua, de preservação e respeito pelo que recebemos?
Na minha condição viajante-peregrina, eu sei que vou sempre embora, em algum momento vou... mas enquanto estou por aqui, sigo tentando encontrar caminhos... com o olhar atento e os braços abertos para o bem-querer-bem. Igualmente, sigo revendo as bases de mim mesma, com o corpo e espírito prontos, para o que vier, em condições de defesa, para não ser abatida pelas rajadas de ventos e tempestades e pelas agressões cotidianas. A vida também tem seus revezes, e não são poucos. Eu também me preparei para eles. Em síntese, no plano pessoal e coletivo, respiro fundo e procuro ler os acontecimentos na sua complexidade. Não me detenho em declarações apenas... procuro ler o texto maior, da sequência de acontecimentos, ações, e da autoria do texto. Isso, às vezes, dói mais que o texto expresso, em si.