sábado, 25 de março de 2017

‘Encontro-abraço’ e a palavra!




Eu trabalho com a palavra. Em grande parte do tempo, meu trabalho, minha vida, envolve o trato com as palavras. As palavras e o pensamento. Falo, escrevo, reviso textos, analiso falas, converso com as pessoas, nas mais diversas situações, e penso, reflito, procuro entender... Todos os dias, dedico-me a aprimorar a lida com as palavras, a ajudar as pessoas a se expressarem, oralmente e por escrito. Há muitos anos, estou voltada a ajudar as pessoas a se autorizarem a serem autores. Esse é um dos meus sustentos existenciais. Inscre’ver-me’ e ajudar outros a se inscre’verem-se’!
Eu também penso muito na vida e nas palavras. Penso sempre nas palavras que disse, que escrevi e, claro, nas palavras que li e que ouvi. Fico, às vezes, refletindo sobre a composição das palavras, com essa misturas de sons e, no caso escrito, letras, que vão se juntando, meio que se entrelaçando e que, depois disso, produzem sentido para os iniciados, para aqueles que aprenderam os traços básicos da significação, da palavra falada ou escrita em determinada língua.

Se formos pensar bem, é sempre uma espécie de mágica, que eu escreva uma palavra como ‘flor’ e o meu leitor imagine uma flor. Uma mágica da relação, do processo de aproximação entre os seres que vão compartilhando experiências de significação, até a mágica situação de alguém, como eu, escrever ‘flor’ e outra pessoa imaginar ‘flor’. Ainda que haja variações entre a flor proferida, dita, escrita e a flor imaginada, haverá confluência, encontro, em termos de significação, e o ser leitor receberá do escritor traços básicos de flor e, por isso, também, a comunicação, o encontro complexo de seres em significação, florescerá! Sim, mágica!

Também penso muito na quantidade de palavras circulantes contemporaneamente, que não têm alma. Palavras desalmadas, sem substrato de significação. Por alguma aberração da natureza humana e das relações, muitas pessoas desenvolveram uma falha do processo mágico e produzem palavras sem substância significacional. Quer dizer, as palavras são ditas, escritas, as pessoas que as ouvem ou leem tendem a produzir interpretações, guiadas pela lógica inerente à construção  da palavra, e depois, deparam-se com abismos existenciais ou relacionais. Algo se interrompe na mágica da palavra que existiu. Seria algo da ordem da ‘traição das palavras’. As palavras traem a significação da cena, porque não tinham substrato significacional suficiente que as mantivessem como ‘palavras ditas’ (ou escritas!).

Então, tantas vezes, paramos, olhamos para trás e pensamos: “Mas e o que foi dito? E as palavras tantas ditas, trocadas? E as combinações feitas?”. Surge, então, um natural estranhamento, porque, no momento da enunciação da palavra proferida, tudo parecia tão verdadeiro: o momento, o som das palavras, o aninhamento dos sons e, depois, das palavras, elas mesmas, aninhadas em frases. Tudo parecia fazer um sentido alinhado com cenário, personagens, enredo, energias. Por isso, talvez, seja tão estranho depararmo-nos com o despenhadeiro de sentidos... descobrir que, apesar de cena ser verdadeira, a profunda intensidade de significação da palavra não era. Desfez-se em nada, como se fosse uma cena de novela, que apesar da aparência de verdade, rompe-se drasticamente, no momento em que alguém grita: “Corta”.

Talvez seja um pouco esse o motivo! Inebriadas com o envolvimento das produções audiovisuais e a midiatização das relações, as pessoas talvez tenham se acostumado com o fato de que a cena não é a cena vivida, mas a cena representada. A cena criada para gerar tal envolvimento emocionado e produzir tais resultados, segundo os interesses do roteirista e diretor. Assim, tantas vezes, me pego perguntando: “Quem escreveu essa cena? Que texto é esse que aparenta tanta verdade e que, depois, se mostra tão sem significado, na continuidade dos acontecimentos?”.


Difíceis tempos de esvaziamento das palavras. Ainda mais para mim, intensa e amorosa por natureza, com as pessoas, com a vida, com as palavras. Cada palavra, para mim, é uma oração à vida. Carrega minha singela e intensa verdade. Nas minhas palavras, acredite, você vai encontrar meu corpo, minha alma, meu espírito, minha transposição em ser intenso, em verdade, que permanece em coerência à cena da palavra proferida. Quem recebe meu texto, em alguma circunstância da vida, me tem, de alguma forma, e para sempre, na minha melhor forma possível, daquele momento. Em cada letra ou ínfimo som produzido, estou eu mesma inscrita, entregue, aninhada, buscando repetir a mágica do encontro com o outro, encontro-abraço! Encontro-abraço-comunicação!

domingo, 12 de março de 2017

Sob o rugir das tempestades

Acordo em Porto Alegre, ouvindo rajadas de vento, chuva forte, trovões que aliam a relâmpagos. Tempo turbulento, pensei. Tempos turbulentos, renovei o pensamento. Muita coisa acontecendo, nesses tempos, muita coisa inacreditável. Desafios cotidianos, no sentido de levantar e seguir adiante, sem pestanejar, sem melodramatizar, sem reclamar nem nada. Só levantar, respirar profundamente e seguir.

Sinto-me, às vezes, peregrina, viajante nessa ‘longa estrada da vida’, para lembrar a música aquela. Apesar da condição de força, que fui adquirindo com o tempo, algumas coisas me doem mais, eu sinto mais, eu sinto muito, literalmente. Inspirada nos treinos de karatê, quando isso acontece, recolho-me, volto pra ‘base’, firmo o eixo de mim mesma, respiro e me preparo para o que vier. Atenta, ali, aqui, doendo mesmo, eu sei que a dor faz parte e que o mais importante é serenidade e estratégia, para acionar energia e força, orientada pelos princípios de vida que me regem: amorosidade e bem-querer-bem, sempre! Eu tenho uma matriz de força potente, forjada ao longo dos anos, na dureza, no enfrentamento de muitas situações adversas. Doce e dura, como eu costumo me definir.

A questão é que, nesses tempos, como eu tenho dito, vivemos em uma guerra em sentido amplo, infelizmente. Para lembrar uma expressão dos jovens contemporâneos... ‘não está sendo fácil’, no plano coletivo e pessoal.  No plano coletivo, vivemos sob rajadas de narrativas e sob o bombardeio de frases de efeito, frases pensadas por políticos inescrupulosos, para causar efeito de impacto e distrair a atenção das pessoas de suas ações. São frases disparadas com rigor de absurdidades e que, estrategicamente, agendam o pensamento, as falas, as postagens, as conversas, enfim, ocupam o tempo das pessoas, especialmente, as que compreendem que são frases absurdas. A questão é que essas frases são rajadas de narrativas que servem para distrair a atenção do que, efetivamente, interessa. A pauta, então, é deslocada das ‘ações’ para as ‘declarações’. A discussão e o tempo de produção de comentários, debates, reflexões passam a ser tomados pelo efeito das declarações, propositalmente absurdas, deploráveis, mas cujas consequências são infinitamente menores do que as ações que seguem feito um câncer, destruindo um corpo social construído, a duras penas.

Nesse sentido, eu chamo a atenção para o fato de que o texto tem que ser lido compreendendo quem é o autor do texto. O texto de fala, também. Quer dizer, que lugar é esse de onde esse ser fala? Seria possível a produção de outro texto? Eu deveria esperar outro  tipo de texto? Ou, o que está por trás dessa fala, propositalmente agressiva, para a sociedade ou para o grupo ou para mim mesma? O básico a se compreender, nesse sentido, é que há o texto dito e há a intenção do texto. Às vezes, há até mesmo o texto que não é dito, mas que tem que ser lido como texto, como informação, justamente produzida pelo silêncio.

No plano das relações pessoais, observo frequentemente a emergência de frases impensadas, resultado, muitas vezes, de um estado de perder-se em si mesmo e de dificuldade de enxergar o outro. Há um aumento da ansiedade e da sensação de que estamos numa nau à deriva, em certos momentos, sob o efeito das tais rajadas de ventos e tempestades.  Uma nau que vai sendo jogada contra os rochedos. Os rochedos podem ser, até mesmo, as próprias pessoas próximas, que perdem a condição de ‘porto seguro’ e se mostram insensíveis às necessidades mínimas de atenção e cuidado, paciência, empatia. Vejo-me, tantas vezes, como nos exercícios de karatê, tentando, tentando, fazendo de novo, renovando a atenção e dedicando-me a fazer o movimento ‘mais limpo’, mais preciso, mais firme, mais flexível ao mesmo tempo. Dou-me conta que sou sempre iniciante, em tudo na vida. Sou aprendiz eterna, ainda que essa eternidade vá se transformando, pelo modo como essa minha existência se expressa. Como eu tenho dito, recentemente, brincando e falando sério ao mesmo tempo, eu já estou treinando para ser alma.

Entre as minhas reflexões tantas (até porque, afinal, esse é um dos meus sustentos existenciais), nesses tempos de “Meu Deus!”, fico pensando: em que porto perdemos nosso coração? Em que momento soltou-se o fio de humanidade entrelaçada? Como acionar, em cada um, o olhar mais atento, a escuta mais apurada, a sensibilidade na pele, para que a preparação cotidiana seja de acolhimento, seja no sentido de ajuda mútua, de preservação e respeito pelo que recebemos?
Na minha condição viajante-peregrina, eu sei que vou sempre embora, em algum momento vou... mas enquanto estou por aqui, sigo tentando encontrar caminhos... com o olhar atento e os braços abertos para o bem-querer-bem. Igualmente, sigo revendo as bases de mim mesma, com o corpo e espírito prontos, para o que vier, em condições de defesa, para não ser abatida pelas rajadas de ventos e tempestades e pelas agressões cotidianas. A vida também tem seus revezes, e não são poucos. Eu também me preparei para eles. Em síntese, no plano pessoal e coletivo, respiro fundo e procuro ler os acontecimentos na sua complexidade. Não me detenho em declarações apenas... procuro ler o texto maior, da sequência de acontecimentos, ações, e da autoria do texto. Isso, às vezes, dói mais que o texto expresso, em si.


quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Poeira nos Olhos



Há uma tendência importante na fala dos políticos contemporâneos. São tantos absurdos, de tamanha magnitude, sendo verbalizados ao mesmo tempo, que eu começo a pensar que é de propósito. Como se fosse uma estratégia narrativa de produção de absurdidades, para, através das rajadas disparadas diariamente, ir estonteando a população, que se debate comentando nas redes sociais, repercutindo, argumentando que isso é mais absurdo que aquilo, e ainda mais que aquilo outro. Vejo muita gente com ‘poeira nos olhos’ e com os ouvidos entupidos, com um zumbido constante, que, ao que parece, vai demorar a passar.

Fico pensando: assim fica difícil, a gente não dá conta de analisar, comentar, discutir, tantas e tamanhas são as aberrações. E talvez essa seja a intenção. Enquanto nos ‘distraímos’ com o bombardeio de destemperos verbais, frases inimagináveis, impublicáveis em princípio (mas que acabam ocupando grande espaço midiático exatamente por isso), são tomadas decisões diariamente, que estão transformando tudo no pais e no mundo. Para pior, para muito pior.

Preocupa-me, então, a possibilidade de estarmos diante de uma usina de barbaridades discursivas, ‘de caso pensado’, para chamar a atenção, para fazer barulho, enquanto se produzem outras, ainda mais importantes, narrativas. Eu costumo dizer: decisões também são texto. E texto de caráter também gravíssimo, com consequências também dramáticas. Assim, interessa-me saber e ver publicizado, também nas redes sociais, na internet, quais documentos foram assinados, que decisões foram tomadas, quais as ações efetivas a curto, médio e longo prazo. Percebam, há um mar de asneiras ocupando um espaço gigantesco de discussão, enquanto a vida vai se transformando drasticamente diante dos nossos olhos, aqui, na prática, no dia a dia. Olhos cobertos de poeira; de lama, talvez fosse mais correto dizer.


Grandes mudanças vão ficando submersas diante de frases de efeito tão grandioso, capazes de suplantar ações também gigantescas, mas que se fazem encobrir pela lama narrativa que predomina atualmente. Muito lixo, ao que me parece, muito lixo narrativo provocado, para ocupar majestosos espaços midiáticos, enquanto na prática ações e mais ações vão nos fazendo afundar em uma lama ainda mais profunda. Que ninguém se engane, o mais dramático não é o que os políticos dizem, mas o que eles não dizem, mas fazem, o que eles negam e continuam fazendo, o que eles justificam com os absurdos que vão sendo impostos goela abaixo, de um país envolto em narrativas, meio bêbado com personagens midiáticos aqui e ali, que mais parecem arcaicos seres saídos de folhetins de épocas passadas. Tempos realmente difíceis. 

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Viagem é sempre uma ‘viaaagem’!

Viagem é uma viagem. E a redundância aqui é proposital. Sim, porque a viagem acontece como acontece, e não do jeito que a gente idealiza. É preciso, então, aproveitar a viagem como ela se faz. No mais, o que completa a viagem são nossos passos, nosso olhar para tudo e nossa capacidade de viver o que se fez, independente de nossa expectativa. Defendo a atitude de viver a viagem como ela vem, assim com seu jeito próprio, sua dimensão de inusitado, de imprevisto. Isto já é uma grande Graça! Caso contrário, você pode se condenar à frustração, antecipadamente, porque idealiza o resultado de algo sobre o que não tem nenhum controle, o devir viagem, o acontecimento seguinte e o seguinte e o seguinte e o seguinte... e isso vale para muitos tipos de viagens.

Quem me conhece sabe que amo viajar. Hoje, sou até mesmo uma estudiosa do Turismo e, nessa área, minhas pesquisas envolvem a interface Turismo, Comunicação e Subjetividade. Assim, venho estudando, especialmente, algo que pode ser denominado como desterritorialização, ou seja, o processo em que o sujeito ‘perde o chão de si mesmo’, sai do seu território, no movimento de deslocamento do Turismo, nas práticas da Comunicação e, mesmo, na ‘viagem’ que se estabelece na produção do conhecimento. Na prática, como eu tenho dito, em todas essas áreas que me interessam, está em jogo uma ‘viaagem’, para usar uma expressão bem humorada, que é dita tantas vezes, alongando o som da palavra, em forma de brincadeira. “Isso é uma viaaaagem!”. Só que, no caso aqui, estou falando sério.

Lembro-me de uma vez que fui viajar para São Paulo, com meus quatro filhos. Na época, já era divorciada. Decidi ir para a casa da minha mãe, no interior de São Paulo. Então, comprei uma passagem mais barata, com embarque previsto para cinco para meia-noite. Bem, eram muitas passagens, eu precisava economizar. Era um período particularmente complicado, na aviação, os voos sempre atrasavam (agora só atrasam quase sempre). Enfim, cheguei ao aeroporto com as crianças ávidas de vontade de viajar, animadas, mas já cansadas. Elas eram pequenas. E eu, doida, claro. Viajar sozinha com quatro crianças, à noite. Enfim, era o que podia. Viajar para mim, é uma viaaagem! Eu topo! Faço esforço, crio condições e vou, como posso. Nunca reclamo, sempre agradeço. Assim tem sido sempre.

Então, chegamos ao aeroporto, e a moça do guichê da companhia (que não me lembro mais qual era) me disse: “Senhora, o voo de vocês está atrasado, sem nenhuma previsão de embarque!”. Hum, as alternativas eram poucas. Praticamente nenhuma. Voltar para casa naquela hora, com as quatro crianças, tentar remarcar as passagens ou esperar no aeroporto.   Sim, decidi esperar no aeroporto. Juntei bagagens de mão (quem tem filho pequeno sabe quantas são!) e os filhos. Fomos para a área de alimentação. Conversar qualquer assunto com filhos italianinhos é mais fácil diante da mesa, com comida.

Assim, ali, lanchando, disse: “Olha, vou contar uma coisa para vocês. Nós vamos viver uma noite de aventuras no aeroporto!”. Lembro até hoje, enquanto comiam, eles me olhavam curiosos: “Noite de aventuras? Como assim?  O que foi? Aventura como? A gente não vai mais viajar? Que foi?”, disparavam perguntas, como metralhadoras. Eu, em meio às rajadas de perguntas, respondi do alto da minha calma de mãe (não me sobrava alternativa!): “Calma. Eu explico. A moça disse que nosso voo está atrasado, sem previsão, quer dizer, ninguém sabe quando vamos embarcar. Então, enquanto isso, vamos comer e passear, passear bastante pelo aeroporto. Vai ser muito divertido!”.

Naquele momento, eles acreditaram e, claro, toparam a noite de aventuras. Fizemos isso o quanto aguentamos. Até que, não podendo mais caminhar de um lado para outro, fomos para a área de embarque, onde havia mais uma centena, sim, uma centena de pessoas que lotavam poltronas dispostas no saguão, como se fosse o próprio avião em maquete. Giulia e Pietro, os mais velhos, tinham na época em torno de nove e oito anos, adormeceram logo. Giuseppe e Chiara, cinco e quatro anos (se bem me lembro!), no entanto, permaneceram agitados. Já era madrugada. Corriam de um lado para outro, especialmente quando viam um funcionário da tal companhia aérea. Iam ‘buscar informações’. Depois, diante da multidão das pessoas sonolentas, eles transmitiam o último boletim: “Ele disse que ainda não tem previsão!” e davam boas risadas. Pareciam estar brincando de repórteres de tevê.

Enfim, a noite seguiu dessa maneira, até por volta de quatro e meia da manhã, quando embarcamos para São Paulo. A viagem nunca mais saiu da minha memória. Estar ali, sozinha com os quatro, preocupada com o que sentiam, com o modo como suportariam o cansaço, com o que eu faria no momento que nos chamassem para embarcar, se os quatro estivessem dormindo e eu não conseguisse acordá-los. Esforço também para não ter sono, preocupada com o ambiente de aeroporto, que, sei bem, exige sempre atenção especial, quando se trata de crianças por perto. Os olhos pesavam, o cansaço era imenso, mas eu entendia que tudo isso fazia um sentido maior, que a vida mesma é assim, quando se viaja, quando se tem filhos, quando se tem ‘pessoas sob a nossa responsabilidade’. É preciso lidar com os imprevistos, ter paciência, acalmar e acomodar os passageiros, os nossos acompanhantes de viagem, ter cuidado com cada um e atenção às suas necessidades.

Gostei do desfecho, do modo como lidei com a situação, apesar do cansaço, da exaustão que sentia naquela madrugada. Percebo que ela não é diferente de muitas que senti, em outros diferentes momentos da vida, uma mistura de exaustão e calma estratégica, entendendo que só a calma pode me ajudar a sobreviver o momento. Na verdade, quando falo de viagem, falo também da Grande Viagem, a vida. Essa é uma das minhas temáticas preferidas, para pensar e escrever...há sempre muitos imprevistos a enfrentar, intempéries, há também lindos visuais depois de curvas nas estradas ou mesmo no céu, durante os voos. Há encontros e desencontros. Pessoas que conhecemos, reconhecemos e reencontramos nas viagens. Há companheirismos consolidados em viagens e amores que podem ser (re)conhecidos. Assim tem sido comigo, venho acumulando histórias e parcerias de viagens, lidando com o caráter de mutação inerente, com a desterritorialização também em mim... a mutação constante, a necessidade de me reinventar, de também de me reencontrar nas viagens, na Viagem, também na viagem de escrever-me!




domingo, 1 de janeiro de 2017

Sobre inícios... e (re)inícios...

Gosto bastante de pensar em inícios, reinícios, desfechos, em finais que não terminam e em inícios que surgem do que já existia. Sim, porque nada começa do nada. Há sempre algo que antecede, ainda que esse ‘anterior’ seja de outra matéria, substância, jeito. Assim, penso que é preciso atenção aos processos, aos sinais de brotação e, também, paciência com o devir, o que deve vir a ser, porque ele decorre do que nós produzimos (ou foi produzido em nós) antes.

Em cada tempo, percebo sinais de entrelaçamentos com os tempos anteriores. Gosto de seguir as pistas, as trilhas do tempo e ver a vida de enredando, entrelaçando, assim, tecida pelas deusas internas, nossas ‘moiras’. A compreensão da roda da fortuna, que conheci no Tarô Mitológico, uma espécie de roda do destino, que vai sendo tecida pelas Moiras. Essa roda é responsável pelas grandes guinadas da vida. Com o contato com as Moiras, fiandeiras sábias que vão costurando os fios do destino com os das nossas ações vamos entendendo que é disso que resulta o devir, o futuro, o que virá a ser de nossos dias.

Assim, isso me lembra de uma de minhas falas clássicas, quase um ‘bordão’, em que digo que, apesar da beleza da infância, é preciso aprender a abrir mão de algo desse mundo: o fatalismo! Sim, porque a criança não tem noção do tempo. A relação entre tempo e espaço é algo que vai se construindo aos poucos. Desse modo, ela não compreende o ir e vir, as voltas que vida dá. Não sabe ainda a sequência de amanhãs e o quanto tudo é transitório e passível de ser alterado com gestos, movimentos, atitude (ato no todo).

A criança quer ir ao supermercado com a mãe e isso é uma questão existencial. Não ir, significa uma tragédia, uma perda aparentemente fatal. Agora, como lembrança, rio às vezes da cena, em que algum dos meus filhos se definhava em lágrimas, diante da negativa. Era como se eu partisse para sempre. Era como se o estivesse condenando à infelicidade perpétua. Eu sabia que não era, mas a cena era dura de viver, assim mesmo. Só o tempo me ensinou a respirar fundo, ver um filho ou filha se definhando em lágrimas e entender que, aquilo, aquela cena é que o(a) ajudaria a viver os devires, a compreender a ‘vida como ela é!’, nas suas nuanças, na sua mutação inerente.

Então, diferente da criança, o adulto (em geral) já aprendeu que a vida tem idas e vindas. A roda da vida gira, gira, gira, faz voltas e a gente reencontra, revive, repensa, reescreve a nossa própria história, aprendendo novos traços, acumulando saberes e sentimentos e compreendo que nada, absolutamente nada, é pra sempre. Uma das graças desse meu momento de vida é entender que uma variação nessa ideia é o amor. Sim, porque, se o amor também não é pra sempre no seu jeito, no seu modo de existir, quando ele floresce em nós é porque camadas profundas de afetividade foram acionadas. Essas camadas acionadas produziram um substrato denso, que jorra continuamente uma seiva que, ao mesmo tempo, realimenta e germina, gera substâncias que resultam intensidades abstratas, que desencadeiam todo o processo de novo. Assim, o amor se realimenta, se reinventa, de autopoietiza.

Gosto de saber isso. Gosto de compreender os entrelaçamentos do amor e que, feito bem feito, acionado o amor, ele permanece, ainda que não permaneça no mesmo estado. Vez por outra, o amor dá sinais claros que sempre esteve ali, mesmo que a vida mude, mesmo que a vida passe, mesmo que existam oceanos de distância entre seres e mundos de amores. O amor segue exalando sua potência e, na confiança amorosa, é sempre mais fácil ‘seguir viagem’, em amor, enamorada!

Assim, começo o ano sendo grata pelos amores na minha vida e me comprometendo a seguir viagem ‘a-mando’ do meu coração! 

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

As leoas nas tramas da engrenagem maquínica



A pessoa trabalha ‘um mundo’, correndo o tempo todo, para dar conta de uma avalanche de demandas, todas fundamentais. Há ainda um mar de outros 'a-fazeres', lindos, acionados pelo bel prazer de produzir umas invencionices na vida, que ninguém é de ferro. Depois de tudo, passa uma imensidão de tempos, produzindo relatórios da produção, em plataformas variadas, para que ninguém pense que é improdutiva. Enquanto vai cuidando, milimetricamente, o registro dos dados, vai pensando que isso não é o mais importante. O mais importante é o tempo vivido, as produções todas, os acontecimentos produzidos nos encontros tantos, no dia a dia da vida de uma criatura que vive alegremente o que produz e se esmera para produzir alegrias nos diversos níveis e materializações. Certo, certo, na verdade, é isso, mas, há ainda outra verdade, essa publicizada, metrificada das produções acadêmicas, que diz que é preciso registrar, alimentar bancos de dados.... Enfim, é a típica situação em que as leoas entram em ebulição e, desassossegadas, praticam seu esporte favorito: o embate!

Malu: Olha só! Estou cansada! Entendi que a gente vive a barbárie, também no meio acadêmico. A cada dado que eu registro no tal relatório, fico pensando “por que trabalhei tanto? Se tivesse trabalhado menos, já teria terminado”. Agora passo dias cuidando milimetricamente, se estão todos os dados aí. Conferindo... Que beeeeleeezaaa!

Maria Luiza: Não adianta, Malu. A vida é assim mesmo. Não há como escapar. Ao contrário. Não queremos escapar. Amamos a vida acadêmica, a lida. Preparamo-nos muito tempo para esse lugar, para estar formando pesquisadores, mestres e doutores.

Malu: É, é lindo mesmo, mas nem tudo é lindo. Essa métrica a que estamos submetidos todos, a engrenagem maquínica que nos conta, nos matematiza, nos transforma em dados frios, não combina com o ‘mundo da vida da Ciência’.

Maria Luiza: Compreenda, criatura, de uma vez por todas: o mundo da vida em geral, e também o da Ciência, é mais amplo que a tua dimensão sentimentalóide poetizante. Isso é uma síndrome, eu acho... não é possível! Você deveria vir com manual, pra eu saber como acionar o dispositivo racional. Não adianta. Tem que fazer, faz. Pronto. Não reclama, não te entedia. Abaixa a cabeça e avança.

Malu: Bem, cada um com suas síndromes. A senhora se acha muito normal, abaixando a cabeça e produzindo dados para alimentar uma tal coleta, que vai depois alimentar uma coisa chamada sucupira, junto com um mar de gente que faz isso também, numa subserviência ao sistema maquínico...

Maria Luiza: Pára! Em que mundo você vive? A engrenagem existe e, para fazer o que amamos, estamos nela e aí queremos ficar. Então, racionaliza, criatura. Faz parte, está no ‘pacote’. É uma espécie de ‘combo’ da vida acadêmica. Você quer viver as graças e alegrias do Amorcomtur, mas se incomoda de ficar conferindo os dados, postando em três, quatro plataformas...

Malu: Três, quatro, oito, novecentos e cinquenta plataformas a senhora quer dizer. Cada lugar é de um jeito. Depois, nesse mundo parece que não há como viver sem um formulariozinho, uma planilha, um relatoriozinho básico, com dados, claro, conferidos em outras trezentos e cinquenta plataformas, algumas que não funcionam direito ou que não são ‘amigáveis’, para usar a linguagem da informática. Sim, porque de amigáveis não têm nada os espaços que você demora um tempo para abrir... e daqui a pouco se fecham... e outros que você tem que clicar em um mundo de lugares para se achar o que procura... bah!

Maria Luiza: Você me obriga a me repetir! Não seja dramática! A vida é o que está! Enfrenta ou, como dizem os jovens: “Aceita que dói menos!”.

Malu: Que engraçadinha! Agora a senhora resolveu fazer graça... Que beleza! A pessoa se esgualepando em meio a turbilhão de coisas para fazer, e a outra brincando...

Maria Luiza: Você já deveria me conhecer e saber que brinco bem pouco na vida. Sou prática operacional. Não faço drama, nem comédia. Só vivo. Cada dia de uma vez. Só isso.

Malu: Uff... prática operacional. Claro, não há nada mais conveniente à engrenagem maquínica. Um ser prático operacional. Parabéns! Que orgulho! Você não se irrita, não se abala, tem esse tom majestoso, de que acha que sabe tudo, acha que sempre sabe o que fazer.

Maria Luiza: Criatura, não delira! Estou muito longe de ser assim. Se fosse, já teria arrumado um jeito de me libertar de você e da tal Luiza. Vocês me atrapalham. São cheias de sentimentos, de amorosidade, de poesia. Ao contrário, com essa imensidão de afeto de bem-querer-bem, diante da impossibilidade de me livrar de vocês... acabei concordando em fazer da vida... Amorcomtur! Penso que agora é tarde para ser diferente. Quando vejo, eu mesma ando postando por aí: #souAmorcomturemtodaparte.




segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Semana do meio


Iniciamos a semana do meio. A semana entre Natal e Ano Novo. É uma semana meio preguiçosa, com a gente meio zonza ainda da pressa de dezembro e os acontecimentos do Natal. Dezembro é um mês intenso, que prepara as celebrações do aniversário de Jesus e, talvez por isso mesmo, atice emoções diversas, como se ‘todos’ os irmãos se agitassem com a aproximação dos festejos do irmão mais célebre, ao mesmo tempo mais simples, aquele que nos aproxima do Pai. Eu sigo, no meu jeito, pra variar, refletindo...

Há tempos eu tento entender dezembro. É sempre um mês com tragédias e com um desassossego imenso, com as pessoas correndo, em busca de uma busca que busca e tal. A celebração do Natal deveria nos acionar paz, serenidade, tranquilidade, como mundo, em um resgate do que foi e é o Moço da Parede (Jesus!). Parece, no entanto, que ainda temos muito o que aprender. O que mais tenho visto, ao longo do muitos dezembros que vivi, são pessoas aceleradas, agitadas, nervosas, descontentes, muitas deprimidas.

Por sorte, convivo também com gente que tenta inventar jeitos de sobreviver dezembro. Gente que ri de si mesmo, que opta por modos simples de estar em ‘tempo de Natal’, mais em sintonia com o aniversariante. Não é fácil, há muitos apelos em sentido contrário. Como tenho dito, dezembro não é um mês, mas um exercício de sobrevivência diária. Rajadas de narrativas mercadológicas, do reino do consumo, que nos apelam para ‘o amor’, enquanto vendem celulares, carros, computadores, perfumes e tudo o mais. Às vezes, parece que o texto é que se você ama, você compra. De tudo o que aprendi sobre o amor, no entanto, um dos aspectos mais importantes é que ele não tem nada a ver com posse, propriedade, com acúmulo de capital.

O amor se constitui em singelezas, nas intensidades plenas de uma espécie de substrato amoroso, que surge na convivência e no estremecimento do si mesmo, no encontro com sujeitos e seres vários, com ambientes, com os diferentes ecossistemas. O Amor tem várias naturezas e se nutre, especialmente, dos entrelaçamentos vários dessas naturezas diversas. O amor também é subversivo, porque não segue regras, nem mesmo as que pareciam consagradas. Para o amor, por exemplo, não há tempo e espaço. Não há limites, não há fronteiras e, ao mesmo tempo, ele mesmo, em si, em sua singularidade, delineia possíveis e impossíveis, ainda que, mesmo assim continue ‘sendo’ amor.


Como normalmente acontece, na ‘semana do meio’, eu aproveito para ajeitar algumas coisas em casa, sistematizar papéis e lembranças, organizar um pouco o ecossistema da leoa essa aqui e sua tribo de leõezinhos. Enquanto remexo papéis e os cantos da casa, também tento remexer e organizar um pouco do mundo interno, que também precisa de ‘arrumações’ às vezes. Mais que nunca, procuro serenar. Aprendi que ter paz é algo também de imenso valor. Lembro a frase de um grande amigo, que vez por outra, ecoa em mim: “Devagar, que tenho pressa!”