Os textos também têm um tempo
de fervura, as ‘preliminares’, as afetiv(ações). Às vezes também têm sua urgência, seu desassossego! Assim, o
autor vai sendo ‘afetivamente afetado’ pelo texto, em um processo semelhante ao
embriagar-se, perder-se de si mesmo. Simultaneamente,
busca a si próprio e ao outro, a quem vai se entregar inscrito, ‘inscriacionado’. São muitas provocações, muitos atiçamentos, em um jogo de
insinuações, em que o texto se mostra e se esconde, assim, meio como quem ri do
nosso desejo de escrever... Até que essa ‘fervura’ chega a um ponto do
soltar-se ... e o texto... jorra! Gosto de deixar jorrar... floresceres em palavras!
Usina de narrativas semeadas por Maria Luiza Cardinale Baptista! Seja bem-vindo!
sexta-feira, 23 de dezembro de 2016
segunda-feira, 26 de agosto de 2013
As estrelas e a imaginação
Às vezes, percebemos que passamos grande tempo da vida
dependurados em uma estrela imaginária. Linda, intensa, aparentemente perfeita.
Perfeitamente imaginada! Depois, aos poucos, vamos percebendo que ela, a
estrela imaginada, nos escapa, à medida que vivemos. Vai se denunciando, na sua
condição imaginada, se mostrando mais etérea do que deveria. Escapa-nos aqui e
ali. Não, ela não estava sempre ali, como esperávamos e supúnhamos. Não, ela
não tinha tanto brilho quanto era necessário, quanto necessitávamos. Mas,
então, o que foi feito da estrela perfeita, que por tanto tempo se nos
apresentou? Então era tudo mentira? E as vozes que ouvíamos do oráculo, dizendo
que tudo estava escrito nas estrelas? E a certeza que tínhamos no coração de
que a estrela, aquela, era a mais linda e certa inscrição das nossas vidas e
que nos levaria para o mundo que sonhamos, onde haveria sempre amor, onde as
amizades fossem sempre verdadeiras, onde o abraço fosse sempre sincero, onde poderíamos
suportar a todos os desafios, porque tínhamos cada ponta da estrela, como
segurança, como porto seguro?
Chego à conclusão que não havia nenhum problema com a
estrela, com o que existia dela, de fato. A estrela era verdade, mas não como a
víamos. Nós víamos a imaginação, a estrela imaginada. Essa, sim, inspira
cuidados, porque era idealizada, porque era sonhada e construída dentro de nós.
Não há como buscar fora a estrela que temos dentro. Ela existe como referência
de brilho, de intensidade, como condição amorosa e orientação da vida. Ela
existe, mas não no Outro ou em um projeto específico. Ela existe como nossa
potência de construir estrelas. Isso não é ruim, a menos que esperemos que o ‘fora’,
o Outro, o projeto dê conta da idealização. As coisas são como são, não como
imaginamos. As pessoas também. Depois de constatar isso, você só tem que decidir
se continua ou não na estrada que tinha escolhido, com base na idealização da
estrela imaginada. Você tem que decidir se ama, assim mesmo, conhecendo a
estrela nas suas imperfeições e incompletudes, na sua humana e real condição
imperfeita, como de resto é tudo e qualquer coisa e somos todos nós.E também
tem que se contentar com o fato de que a estrela se movimenta por conta
própria, independente da sua vontade.
Outro desafio imenso, nesse sentido, pra quem tem o hábito
de imaginar estrelas perfeitas é compreender o giro do Universo, o fato de que
nada permanece no mesmo lugar muito tempo. Tudo está, o tempo todo, em processo
de mutação. Tudo se movimenta. O encantamento com a estrela imaginada faz com
que o sujeito tenha desejo de que nada mude, de que tudo permaneça onde e como
está. Ao contrário disso, nada permanece. Tudo está em transformação em cada
instante. Isso não significa que se modifica pra pior ou pra melhor, mas que se
movimenta o tempo todo. Não adianta espernear. O instante passado é passado
e somos chamados a fazer nossa parte
para garantir o devir, o instante que deve vir a ser. Isso só é possível
valorizando o instante presente, o que temos. A sabedoria oriental valoriza o
conceito de ‘presença plena’, que aprendi a partir do chileno Francisco Varela,
no livro De corpo presente e depois amadureci treinando karatê e aprendendo as
orientações do Caminho. É preciso aprender estar plenamente presente onde se
está e reconhecer as condições reais para que possamos agir, intervir no mundo,
no universo, no nosso universo existencial. Um pouco de vetor prático
operacional ajuda a conviver com estrelas reais e imaginárias. Assim, é fácil não
se decepcionar com estrelas. É só não esperar delas o que temos dentro de nós,
como imaginação.
segunda-feira, 29 de julho de 2013
Leoazinha Luiza na foto
Maria Luiza: O que foi criatura? O que você quer agora? Está quase gritando, pra chamar atenção.
Malu: Você não vê? Ela está ali? Atrás do bule. Sentada.
Maria Luiza: Ah... agora a coisa degringolou... sobram
poucas opções. Você enlouqueceu de vez, criatura? Do que está falando? Quem está
sentada atrás do bule? Eu não entendo mais nada do que você fala. A situação
está ficando dramática...
Malu: Arrrhhh.. a senhora não enxerga nada além do nítido, do
visível concreto. Que ódio isso me dá! Não vê, na foto, a leoazinha Luiza? A
foto, está vendo agora? Nessa foto do Centro Holístico Arte e Vida?
Maria Luiza: Senhor, protetor das leoas de uma certa idade e sem
paciência pra gente doida, peço misericórdia. A Malu agora saiu dos trilhos.
Está olhando uma foto e vendo a si mesma pequena, atrás de um bule, em uma
imagem que, juro, não há sequer uma menina, que dirá a derretida da leoazinha
Luiza... assim fica difícil...
Malu: Mas eu não to acreditando... falta mesmo muita
sensibilidade na senhora. Seu senso prático exagerado, sua racionalidade
exacerbada, sua lógica preconfigurada de vetor prático operacional vai mantê-la
assim, pra o resto da vida, enxergando o que todo mundo enxerga, apenas o que
todo mundo enxerga... isso é muito pouco.
Maria Luiza: Você quer dizer... enxergar o que existe de
fato, apenas o que há para ser visto, sem delírios imaginativos.
Malu: Não são delírios. A senhora não entende que uma imagem
é um texto, uma narrativa, maior, bem maior do que os traços visuais, o
composto de características visuais que a compõem. Se fosse só pra ver isso... a
vida não faria sentido. Não teria a emoção que tem!
Maria Luiza: Hum.. sei... emoção e loucura, pra você, agora
são a mesma coisa?
Malu: Não. Veja bem, olha bem pra foto, mas olha bem mesmo!
Firme. Sente. Não vê a menina Luiza atrás do bule, sentada, rindo?
Maria Luiza: Olha, eu uso óculos. Já olhei essa foto muitas
vezes, desde que você começou a delirar...
Malu: Não é delírio. A imagem tem a Luiza pequena. Só que a
senhora, assim como a maioria das pessoas não vai ver. Ela está nos detalhes,
no substrato de afeto visual que se expressa ali... na conexão narrativa com o
Coqueirão, fazenda onde a Luiza viveu e onde aprendeu a brincar, remexendo o
chão, achando graça em tudo, nos gravetos, nas plantas, nos pedaços de
brinquedos, flores do campo, no cheiro das coisas, no barulho do ‘silêncio’, os
sussurros de seres invisíveis, esses mesmos que a senhora nunca viu e nunca vai
ver...
Maria Luiza: Nunca vi seres invisíveis... me ocupo com coisas
palpáveis, lógicas. O que existe já é muito para me ocupar com imaginação.
Menina Luiza: Mas tudo isso que ela diz existiu, sim. Não é imaginação.
Era tudo lindo, muito simples e muito lindo. Eu sonhava muito, brincava com
tudo. Brincava principalmente em cima do pé de jabuticaba. Dormia e acordava. A
árvore era tão grande que as galhas eram os cômodos da casa... lembro do meu
avô, da risada dele, as bitelas, as grandes jabuticabas, como ele chamava.
Depois ele me deu um pé de jabuticaba em Guarantã... maravilhoso, a árvore da
minha vida.
Maria Luiza: Ah... tá... reminiscências de infância. Que
lindo! Agora a Malu foi desencavar essa guria choramingas, daqui a pouco ela tá
aos prantos, lembrando, lembrando....
Malu: Uff.. a senhora é impossível. Eu não desencavei a
Luiza. Ela estava lá na foto, na poética..
Maria Luiza: Tava demorando, a palavra... a poética...se não
falasse a poética não seria você...pra mim, já deu por hoje. Estou satisfeita...
valeu mesmo. Fotos, delírios e poética... claro.. como eu não poderia
imaginar.. a poética da foto com a poética da Luiza... uff...
domingo, 21 de julho de 2013
Leoas e acordar cedo
Maria Luiza: Muito tarde.
Malu: Bom dia, pra senhora também.
Maria Luiza: Você não entende. Acordar tarde não faz
sentido, na nossa idade. Não combina. Temos um milhão de coisas pra fazer,
sempre, de segunda a segunda.
Malu: Pois então, eu me canso. Preciso descansar às vezes.
Maria Luiza: Mas você nunca ouviu falar que Deus ajuda quem
cedo madruga?
Malu: Então, ouvi, mas acho injusto.
Maria Luiza: Coméqueé? Você agora, na sua arrogância
adolescente juvenil tardia, vai querer julgar .... Deus?
Malu: Não, não é Deus. Não foi Deus quem disse isso. Foram
as pessoas. Quem me garante que isso não é apenas uma estratégia do capitalismo
mundial integrado, para fazer as pessoas produzirem, produzirem, produzirem o
tempo todo? Eu preciso dormir, às vezes.
Maria Luiza: Lá vem você e suas teorias. Capitalismo Mundial Integrado... Criatura. Você não
reparou que, quando levanta cedo, o dia rende mais, você consegue fazer mais
coisas...?
Malu: E fico com mais sono. Sim, reparei sim... Quanto às
minhas teorias, eu gosto delas. Falam de fluxos abstratos, desejo, espelho,
amor... teorias da melhor qualidade...
Maria Luiza: Pra justificar seu jeito... maluca..né?
Malu: Ah... o próprio Umberto Eco disse que a gente cita os
autores com os quais concorda ou cita pra discordar. Então, meu referencial
teórico é todo de gente doida, que ama, que brinca, que vive o prazer, que quer
viver alegrias enquanto produz Ciência, que entende que tudo é a mesma coisa,
que somos poeira do universo, que estamos todos juntos....
Maria Luiza: Eu sei, já as conheço todas. Até porque você
vive declamando esses conceitos como se poemas fossem...
Malu: Há uma poética nessas teorias...
Maria Luiza: Mas lá vem você de novo com a poética... você é
reencarnação do Aristóteles?
Malu: Não sei, acho que não. Mas gosto muito de algumas
coisas que ele disse.. ou que disseram que ele disse... coisas que ficaram
expressas como sendo dele: “O ser é expresso de muitos modos”, por exemplo. Até
usei na minha tese. É uma das orientações da minha teoria.
Maria Luiza: Pode parar. Não sou tua aluna, nem tenho tempo
pra isso. Estávamos conversando sobre acordar mais cedo.
Malu: Então, acho injusto, se Deus reaaalmente só ajuda quem
cedo madruga. Por que não ajudar os outros? Eu, por exemplo. Quando levanto
tarde é porque fiquei até de madrugada fazendo algumas coisas sempre
interessantes. Escrevendo artigos, por exemplo.
Maria Luiza: Sei, escrevendo artigos.
Malu: Sim, escrevendo artigos também, lendo, conversando,
assistindo tevê, planejando, namorando... gosto da noite, gosto da madrugada,
de ficar até mais tarde...à noite parece que os sentimentos afloram, o inconsciente
brota mais fácil, tudo é melhor.
Maria Luiza: Sei, mas no outro dia, acordar tarde também faz
uma diferença grande. O dia não rende ... o tempo parece que encurta. Eu não
sei. Deve haver uma explicação física para isso. Nós devemos ter uma relação
com o tempo diferente, dependendo do horário que acordamos. Eu sinto isso. Por
isso, gostaria que você acordasse sempre às cinco.
Malu: Oooo quê?! Às cinco? Mas na maioria das noites vou
dormir às duas, três? Como vou acordar às cinco? A senhora está com tendências
suicidas. Se eu acordar às cinco, não podemos fazer muita coisa durante o dia,
dirigir, por exemplo, nem pensar. Vou estar como uma sonâmbula.
Maria Luiza: Você é uma exagerada. Dramática. Mas sobre
acordar cedo...
Malu: Então, acho injusto. Veja bem, cada pessoa tem seu
ritmo, há funções diferentes na sociedade. Deus é Deus de todos. Penso que
deveria ajudar também quem tarde madruga. Seria mais democrático.
Maria Luiza: Pelo amor de Deus, não misture Deus com
democracia, nem com nada parecido. Também não fale em igreja ou religiões... Deus
é maior, Deus é literalmente todo poderoso.
Malu: Nossa, falou boniiito. Tá inspirada. Viu como a noite
valeu a pena? Acordar tarde também faz bem, às vezes. Então, Deus, como todo
poderoso, não deveria discriminar seus filhos, pelo horário que acordam. Não
sei, eu penso isso ao menos.
Maria Luiza: Olha Malu, contigo, até Deus tem que ter
paciência. Vamos parar porque tenho que trabalhar pra sustentar tuas
loucuras....
sábado, 20 de julho de 2013
Leoas, casas e romances....
Malu: Em cada canto da casa de Porto Alegre, pedaços meus,
amontados nas lembranças dos objetos e lugares. São cenas e cenas que passam de
novo à mente, trazendo passado. Cada coisa ali tem uma história. Muita coisa
ali. A casa é muito grande. Na verdade é um apartamento grandalhão, daqueles de
prédio antigo. Um prédio antigo em pleno Bom Fim (bairro Bom Fim, pra quem não
é de Porto Alegre). O apartamento é tão grande que são dois. Sim, 201 e 202.
Comprei ‘um’ apartamento que são dois,
há muitos anos, em outros tempos da vida. Estava grávida de seis meses da
Chiara, minha quarta filha. Lamentava a
constatação de que teria que mudar de casa. Na época, era casada e já tinha
três filhos. Não cabíamos no outro apartamento, que também era muito bem
localizado. Não gosto de me mudar de casa. Eu me apego aos lugares que vivo, faço-os
meus. Sempre fui assim, desde a casa da minha avó. Sempre reparei em tudo e me
senti me misturando ao lugar. Cada buraco da parede, cada imperfeição, era
também minha e assim formava uma poética da minha relação com a ‘casa’. Os
enfeites, os adereços, detalhes... coisas de menina. Da Menina Luiza.
Maria Luiza: Isso, coisas de menina. Você fala, com se ainda
fosse menina. Não é mais. Lamento informar. Tem que olhar pras suas casas com o
olhar prático operacional de quem provê sustento, de quem garante a existência
ali e no lugar. É chefe de família, de uma grande família, com quatro filhos
adolescentes e um jovem adulto. Não é mais tempo de poetizar, de se embevecer
com os detalhes do tempo, do vento e do raio que te parta inteira....
Malu: Nossa, que amargura! Como diria uma nossa conhecida: “Quaaanta
grosseria!”. A senhora interrompe um fluxo de pensamento, em que estou
refletindo sobre a relação das pessoas com as casas, com o lugar de vida,
falando da nossa relação com o ambiente cuidadosamente produzido. Interrompe
como lâmina, como sempre.
Maria Luiza: Alguém de nós precisa ter a cabeça no lugar. Se
eu deixar por você, seguimos apegadas a tudo o que é passado. Você é uma
criatura impossível. Impetuosa e apegada. Não se desfaz de casas, não se desfaz
de romances...
Malu: Hum... não muda de assunto. Esse é outro
desentendimento nosso...
Maria Luiza: Engano seu. É tudo a mesma coisa. Você constrói
as histórias, vive as histórias do mesmo jeito que ajeita os lugares de vida.
Constrói os espaços das casas como narrativas de você mesma: uma boneca aqui,
uma lembrancinha de viagem, uma gravura, uma esculturinha de Barcelona,
panelinhas de cobre do Chile, azulejos de Portugal.. bom, bonecas não vou nem
contar... você romantiza tudo. Acredita que tudo é verdade como poética da
existência.
Malu: Ah, não. Há poética na existência. Tudo o que eu vivi
foi verdade, foi vivido intensamente.
Maria Luiza: Criatura, criatura, veja bem. A verdade é um
conceito complexo. Pergunta pra doutora Cardinale. Você faz a verdade
intensidade poética. Nem sempre as coisas a tua volta são assim. Elas são assim
dentro de você. Tudo imenso. Tudo verdadeiro. Tudo imensamente poético. Aí você
se apaixona por porta, parede, sofá, banheira. Você viveu tudo com uma poética
construída com o mar de afeto que a caracteriza.
Malu: Não. Não vivi minha vida sozinha. Antes pelo
contrário. As melhores histórias são histórias partilhadas. As melhores
lembranças, as mais intensas, as mais alegres e mais tristes também são as cenas
em que há pessoas importantes da minha vida, ali, junto de mim.
Maria Luiza: ‘Queriida’, você é escritora. Você escreve a
parte que lhe interessa das histórias e das lembranças. Você lembra o que mais
gostou, as cenas que achou bonitas, as alegres e as tristes. Eu venho tentando
te dizer: ‘saudade é sentimento ligado
ao passado. O passado não alimenta presente e muito menos futuro’. A regra,
então, é: esquece! Você tem que aprender a viver o presente, aprender a viver o
que sobrou do passado, o que, de fato, conseguimos construir depois das
vivências tantas, em Porto Alegre, Caxias, somando tudo... Às vezes, você
esquece momentos importantes. Momentos que significaram rupturas e maltratos.
Você esquece alguns momentos, mas não esquece o que deveria esquecer. Fica
assim meio que aprisionada na lembrança. Chega a me dar raiva da tal música que
diz: “Você é a saudade que eu gosto de ter!”... isso é masoquismo, sandice...
Malu: Lembro tudo. Sei bem o que a senhora lembra, quando
diz isso. Uma determinada madrugada, uma madrugada específica. Uma ‘madrugada
texto’. Eu sei. Deveria ter ‘lido ali’, deveria ter ido embora, sem falar nada.
A relação com a casa. A dificuldade de me sentir em casa. O mal-estar. O
desfecho estava claro. Eu sei o que deveria ter feito. Não fiz. Eu respeito
meus tempos. Era outro tempo. Outro momento. Não fico me lamuriando pelo que
não fiz. Com o tempo, eu aprendi a me ‘des-culpar’, a tirar a culpa pelo que
não consegui fazer no passado. Fiz o possível.
Maria Luiza: O possível é pouco, querida doida maluca
parceira de vida minha. Temos que fazer o impossível. Você não só se desculpa,
você tira a gravidade da cena. Passa por cima. Tanto é que demora a tomar uma
decisão, quando ela realmente importa. Sua amorosidade derramada é um
descalabro. Uma insensatez. Em outros
casos, é impetuosa e decide rápido demais. Falta reflexão. Realmente, assim não
dá pra ser feliz.
Malu: Parabeeeéens! Espetáculo de frases! Uma beleza. A senhora gosta de frases de impacto. Gosto
de refletir, mas realmente esse não é meu ‘dom principal’. Sou a parte de nós
que aciona o movimento, que põe o barco em ação, o motor pra trabalhar, nas
invencionices, nos movimentos desejantes... vou criando coisas, amorosidades,
sim, romances com a vida, romances que escrevo, que vivo... porque isso me põe
viva. É o que faço agora... é o que faço sempre. Desse modo, também reinvento
as madrugadas. Não fosse assim, não haveria ‘madrugadas de olhos imensos e
intensos’, a senhora sabe.... risos...
Maria Luiza: Tá
criatura... sem detalhes... Melhor
frases de impacto que bordões folhetinescos. Você assistiu muita novela na
vida. Isso afetou seu cérebro.
Malu: Nosso cérebro, a senhora quer dizer.
Maria Luiza: Não me lembre isso. Sim, nosso cérebro. E eu
passo o tempo todo tentando consertar, minimanente. Em vão. Quando estou
tentando planejar, pensar sobriamente sobre as possibilidades, vem você ou a
menina Luiza e desandam tudo... parecem bêbadas... da vida.
Malu: Oooh... nem tudo está perdido. A senhora está fazendo
poesia... risos.
Maria Luiza: Poesia é o escambau! Estou aqui preocupada,
pensando em providências necessárias para as nossas casas, de Porto Alegre e
Caxias, tanta coisa para organizar envolvendo as crianças, ops.. os filhos,
eles não são mais crianças e isso dá ainda mais trabalho, mais todo o
planejamento da Universidade e... claro... as novidades da Pazza Comunicazione...
os novos projetos...
Malu: Bah.. chega.. já estou cansada... só de pensar nisso.
Maria Luiza: Eu sei. Eu sei... eu também. Acho que vou ver
um pouco de novela, pra ver se fico tonta, feito você, e não me preocupo tanto.
Até a próxima.
sexta-feira, 24 de maio de 2013
IMAGEM DE DENTRO
Interessante encontrar essa imagem e texto nesta
manhã. Tenho pensando bastante nisso, em função das minhas pesquisas e da minha
própria vida.
Na
Universidade de Caxias do Sul, desenvolvo uma pesquisa intitulada Imagem,
Sujeito e Mídia. No dia a dia, percebo que a trama entre a imagem de si e a
imagem do outro interfere em uma série de situações existenciais importantes.
Nesse sentido, este é um grande desafio: aprender
a ver a 'imagem de dentro' de si mesmo e do Outro. O que há nessa imagem que
encanta, seduz e nos mantém em estado de amor, em enamoramento em relação ao
Outro e de valorização de nós mesmos, com a construção de uma autoestima
adequada?
Entendo que, quando amamos a 'imagem de dentro'
do Outro, conseguimos um amor pra vida toda, independente do que aconteça.
Quando reconhecemos a imagem de dentro de nós mesmos, somos mais pacientes com
nossas imperfeições, aprendemos a nos ‘des-culpar’ do que não conseguimos.
Acreditamos que, assim mesmo, imperfeitos, em qualquer tempo, temos nossa
potência imanente. Basta acioná-la.
É como se quebrássemos um espelho, uma vidraça do
‘si mesmo’ e mergulhássemos numa essência do sujeito, nós mesmos ou o
Outro. A imagem de dentro não é fachada,
não é a máscara, não se resume a uma estética, nem à aceitação dessa imagem por
esta ou aquela pessoa. A imagem de dentro não depende de admiração, nem
aprovação do círculo social. A imagem de dentro é o que é, humanamente
imperfeita.
No espelhamento amoroso, na troca de
investimentos desejantes em busca de felicidade, o bom, mesmo, é quando se
consegue 'o encaixe' e a paciência mútua para superar, 'sobre'viver às
dificuldades do Outro. Viver enamorado é conviver com os nossos 'apesar de'...
Desejo que sejamos amados pela nossa ‘imagem de
dentro’ e que essa imagem seja cada vez mais voltada para a amorosidade e o
bem-querer-bem.
quarta-feira, 22 de maio de 2013
PARA NÃO NAUFRAGAR...
Prazos, prazos e mais prazos. Prazos despencam do teto sobre nossas cabeças e se espatifam no atropelo dos dias. Prazos de artigos. Prazos de projetos. Prazos de relatórios. Prazos para enviar trabalho para eventos. Prazos para fazer inscrição disso e aquilo. Prazos para mais uma chamada imperdível de trabalho. Prazos para fechamento de projetos e trabalhos. Prazos de clientes. Prazos para entregar os originais para publicação. Prazo das matérias jornalísticas.
Prazos meus, teus, nossos. Prazos dos filhos meus. Os prazos que me dei para fechar esse ou aquele ‘nó’ não resolvido. Os prazos que não cumpri e outros a que me antecipei. Prazos que me dei e que têm me ensinado a me (des)culpar, porque os prazos são do Universo, do Universo Maior.
Olho em volta e vejo amigos e conhecidos, todos, imersos em um mar de prazos. Talvez estejamos todos em uma outra espécie de ‘navio’... numa viagem constante para uma vida que não se sabe bem onde vai dar, qual é o ancoradouro, o porto, qual é o destino dessa gente toda se debatendo, nesse mar, para continuar nadando e ... cumprindo prazos. Bem, diante disso, para aliviar... ‘agora um poema’, trecho de O Navio Negreiro, de Castro Alves, porque me parece mais que oportuno.
“'Stamos em pleno mar... Dois infinitos
Ali se estreitam num abraço insano,
Azuis, dourados, plácidos, sublimes...
Qual dos dous é o céu? qual o oceano?...”
Nessa grande Viagem, nesse mar de tarefas, o alento parece ser a dimensão poética da existência e os laços fortes que fazemos com algumas pessoas. É o que eu chamo de substrato amoroso, de amoramizade... pra não me afogar no mar... de prazos, sem rumo, sem lógica, sem explicação. Então, para o verso do poeta, minha resposta é não importa qual o céu ou o oceano: o que importa é com quem estamos, quem viaja conosco e se dispõe a partilhar esse céu e esse mar e enfrentar as tempestades e as brisas. Assim é. Parceria sem prazo pra acabar! Amor, nas suas múltiplas manifestações!
Prazos meus, teus, nossos. Prazos dos filhos meus. Os prazos que me dei para fechar esse ou aquele ‘nó’ não resolvido. Os prazos que não cumpri e outros a que me antecipei. Prazos que me dei e que têm me ensinado a me (des)culpar, porque os prazos são do Universo, do Universo Maior.
Olho em volta e vejo amigos e conhecidos, todos, imersos em um mar de prazos. Talvez estejamos todos em uma outra espécie de ‘navio’... numa viagem constante para uma vida que não se sabe bem onde vai dar, qual é o ancoradouro, o porto, qual é o destino dessa gente toda se debatendo, nesse mar, para continuar nadando e ... cumprindo prazos. Bem, diante disso, para aliviar... ‘agora um poema’, trecho de O Navio Negreiro, de Castro Alves, porque me parece mais que oportuno.
“'Stamos em pleno mar... Dois infinitos
Ali se estreitam num abraço insano,
Azuis, dourados, plácidos, sublimes...
Qual dos dous é o céu? qual o oceano?...”
Nessa grande Viagem, nesse mar de tarefas, o alento parece ser a dimensão poética da existência e os laços fortes que fazemos com algumas pessoas. É o que eu chamo de substrato amoroso, de amoramizade... pra não me afogar no mar... de prazos, sem rumo, sem lógica, sem explicação. Então, para o verso do poeta, minha resposta é não importa qual o céu ou o oceano: o que importa é com quem estamos, quem viaja conosco e se dispõe a partilhar esse céu e esse mar e enfrentar as tempestades e as brisas. Assim é. Parceria sem prazo pra acabar! Amor, nas suas múltiplas manifestações!
Assinar:
Postagens (Atom)




