sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

“Magiupiepechiá: um só coração!”.




O ‘converseiro’ das crianças em casa, desta vez, todos reunidos. Risos e uma movimentação acelerada, (re)descobrindo aqui e ali, dos cantos e objetos da nossa casa de Porto Alegre. De repente, a Chiara surge com o patinete! O Pietro quer dividir... Giuseppe trouxe o skate. Giulia nos esperou com a mesa pronta para o lanche. Há tempos, eles não se reuniam, todos, neste apartamento. Ora um, ora outro ficava em Caxias do Sul, por motivos vários. Desta vez, não. “Estão todos aqui!”, eu constatei, com imensa alegria e satisfação. Estão todos aqui, como eu tanto quis. Como eu esperei esse momento de retomada, momento resultado de muitas idas e vindas, pra construir os “momentos-família-reunida”!

Pietro na cabeceira da mesa. Ele se mostrava visivelmente emocionado. Cada um de nós, no seu posto, definido em outras épocas. Havia um brilho no olhar e o riso brotava solto, por razões simples, singelas, às vezes, sem razão aparente. ALEGRIA!  É a palavra.  Então, entreolhamo-nos, como se o tempo não tivesse passado, como quem sabe que o que se construiu, em nós, como substrato amoroso de família, é realmente mais forte que ventos e tempestades, que premonições catastróficas. Havia em nós olhares e risos cúmplices, de uma história partilhada e de superações tantas.

Lembrei da frase, que eu lhes ensinei e tantas vezes repetimos juntos, envolvendo o nome que demos à família: “Magiupiepechiá: um só coração!”. A família é união, respeito, convivência, segurança, confiança, amor! Que Deus permita que possamos seguir essa experiência de vida compartilhada com as pessoas que amamos!  Viver o amor possível, superando desafios e dificuldades de cada um de nós. O amor real, sem idealizações, sem expectativas mirabolantes, sem cobranças de perfeição ou de adequação a modelos. O amor que valoriza cada segundo de convivência, cada olhar e riso trocado, cada palavra de afeto e experiência corriqueira do cotidiano. O amor que se basta, porque se sabe que ‘é’.  Está em nós, pra sempre, instalado e que assim vai permanecer. Sempre e sempre mais!

domingo, 11 de novembro de 2012

Leoa Malu e as “batatinhas quando nascem”....

Maria Luiza: No que está pensando, Malu?

Malu: Nas batatinhas...

Maria Luiza: Nas batatinhas?

Malu: Sim, nas ‘batatinhas quando nascem, que se esparramam pelo chão’.

Maria Luiza: Você é doida, mesmo. Estou convencida.

Malu: Ah, tá. As pessoas passam gerações ensinando pras meninas que as batatinhas quando nascem se esparramam pelo chão, como se isso fosse uma coisa normal e eu é que sou doida?

Maria Luiza: Tô dizendo. Mas o que tem de errado, criatura? E por que isso te veio à cabeça, neste momento?

Malu: Olha, se as batatinhas, que são as batatinhas, que deveriam se dar o respeito... quando nascem, já se esparramam pelo chão, porque as menininhas, quando dormem deveriam pôr a mão no coração, apenas?

Maria Luiza: Mas olha que coisa doida! Isso é o texto de um poema infantil.

Malu: Sim, sei, poema infantil. Sempre pensei isso, mas agora, pensando bem... fico me lembrando tempos e tempos declamando isso, na presença da minha avó, da minha nonna e ninguém me dizendo nada. Só riam...

Maria Luiza: Sorriam, você quer dizer. As pessoas sorriem, quando as meninas declamam poema, pela graça da situação.

Malu: Mas que graça!? Uma pobre de uma menina, submetida a um poema desses? Isso é uma mega contradição e já a apresentação de um contexto de dominação dos seres femininos que, mesmo diante das batatinhas (que quando nascem se esparramam pelo chão!) devem se limitar a pôr a mão no coração. Ah, pelo amor de Deus! Como a senhora não percebe?

Maria Luiza: Criatura, é um poema inocente. Apenas um jogo de palavras, como todo poema. Neste caso, um singelo poema infantil feminino.

Malu: Sei. Não existe isso. Não existe poema inocente. O poema é um texto com intensidades abstratas que tendem a contagiar o sujeito com sua alma. Ninguém declama um poema de qualquer maneira. O poema entra na gente. No momento da declamação, incorporamos sua alma, tomamos o poema pra nós, como se nosso fosse. Lembra a quantidade de vezes que declamei “José”, do Drummond? Naquele momento, “José” era meu. Era eu quem o questionava, provocando-o a dar explicações para si mesmo e para nós. “E agora, José?”. Esta poesia esteve em mim a vida inteira e brotou nas mais diversas situações, provocando a minha existência, minha reflexão: “Você que é sem nome, que zomba dos outros, você que faz versos, que ama, protesta?...”. Lembra? Até meus filhos amam “José!”. Agoooraaaa: “Batatinha, quando nasce, se esparrama pelo chão. Menininha, quando dorme, põe a mão no coração”, é uma sacanagem.

Maria Luiza: Sacanagem?! Olha o que você está dizendo, quer dizer, ouve o que você está dizendo? Quer dizer, como o texto está escrito, olha o que você está dizendo? Bah. Não sei nem mais o que dizer. Você consegue me surpreender, com as suas loucuras.

Malu: Tá, e das batatinhas a senhora não fala nada? Adora falar das minhas loucuras, mas não fala nada das batatinhas, que, recém-nascidas, já se espalham pelo chão. Veja como a senhora me persegue. Eu me espalhei pelo mundo. Certo. Namorei muito. Certo, ainda namoro. É um dos meus ofícios preferidos, da minha natureza italiana. Mas... como poderia ser diferente, se a sou de uma geração que foi obrigada a declarar aos quatro ventos, a quem quisesse ouvir... ainda na voz frágil infantil feminina que ‘as batatinhas...’, bem, a senhora sabe, não preciso mais ficar repetindo. Se elas, lembram, as batatinhas, se espalham pelo chão no momento do nascimento, não me venham cobrar recato, bom comportamento. Até porque só me espalho por lugares selecionados, só me espalhei nessa vida com seres especiais. Que ninguém me cobre nada!

Maria Luiza: Meu Deus! Eu fico te ouvindo e pensando em qual momento você vai me dizer: “Tudo bem, estou brincando!”, mas, nada, você segue nesse discurso desvairado, enlouquecido, fazendo uma espécie de ‘ode contra as batatinhas’.

Malu: A senhora não entende. É um questionamento existencial. Sim, do universo feminino que foi transmitido para a minha geração, assim, em supostos poemas inocentes e recomendações de comportamento recatado. Ah. Mas com a senhora não adianta discutir. Aposto que concorda com as batatinhas.... Ah..vá plantar batatas, então . Me cansei.

Maria Luiza: A propósito, agora você vai se chatear comigo. O correto é:

"Batatinha quando nasce,
Espalha ramas pelo chão
Menininha quando dorme
Põe a mão no coração"

Então, observe, as batatinhas quando nascem, espalham ramas pelo chão, o que é da sua natureza, são batatas.

Malu: Então, quer dizer que passei a vida inteira, vida de menina, bem explicado, falando o poema errado?

Maria Luiza: Foi.

Malu: Ufa, se declamei o poema errado, o que fiz de errado nessa vida, está perdoado. Sim, porque se as batatinhas, quando nascem espalham ramas pelo chão e a senhora diz que não há nada de errado nisso, porque é da natureza delas...também não há nada de errado em mim... só fiz nessa vida de Meu Deus as coisas da ‘minha natureza’.

Maria Luiza: Você não tem jeito... risos.






sábado, 10 de novembro de 2012

Ainda “stamos em pleno mar”...


E assim, a vida vai mudando de rumo, de novo, como uma espécie de rio que vai procurando o mar, eu diria, ‘a-mar’. Vai tergiversando, sinuosamente desviando dos obstáculos, tecendo o próprio rumo, enquanto provoca desassossegos tantos em quem o vê passar. Incontido e obstinado, o rio esse vai deixando ‘passados’ no caminho, vai se embora. Tem que ser. São boas as lembranças, as risadas, as conversas. Ah.. as conversas, a amoramizade é mesmo um espetáculo do relacionamento! Mas tudo tem um tempo, às vezes um dia, uma semana, meses, anos.. uma ou algumas vidas.

Conversar, ‘ versar com’ gente de bem-querer-bem, com amores amigos, saber da vida, rir junto, às vezes, mas só às vezes, chorar junto também, que ninguém é de ferro. Eu não sou, embora tenha sido forjada de um tipo de matéria forte, que me faz sempre ir em frente, avançar... tentar... se não conseguir desviar o rumo, voltar... ir embora.

Na semana cheia de sobressaltos e desafios... a frase que me veio é...depois de tanta tempestade, não é qualquer chuvisco que me molha. A semana foi de chuvaradas e mares bravios. Em compensação, vejo que fiz laços bons, renovei a convicção de que, se alguma coisa nos ajuda, nesse tempo de Meu Deus... é a condição de ‘estar junto’, do modo possível, sem modelo nem dogma, apenas e principalmente pelos fluxos intensos de afetos de bem-querer. Eu verdadeiramente conheci bons navegadores na vida. Não estou sozinha na travessia.

Na loucura do tsunami de tarefas, lembrei da minha avó cerzindo roupas... da nonna costurando meias...pensei nos curativos de feridas , feitos com carinho, ao mesmo tempo em que a voz segura de alguém que gostamos vai cuidando... vai curando a dor, o machucado. Hoje sou eu a ‘costureira de sentimentos’. Eu é que estou chamada a ‘me tecer’, reconhecer e autopoieticamente me reinventar todos os dias. Eu é que também tive que aprender a ter paciência comigo...

Eu também tenho a doce tarefa de acolher gentes no meu abraço, pessoas que precisam e se permitem viver esse aconchego, acolhimento terno de quem se preocupa, de quem se preparou para ‘sobreviver na selva’. É isso. A tarefa é a da sobrevivência na selva caosmótica desses tempos de mais desafetos que afetos explícitos. “Stamos em pleno mar”, disse o poeta Castro Alves, no clássico Navio Negreiro. Há muito tempo eu penso isso: agora sobre escravos do quê mesmo? As respostas possíveis são diversificadas e, por falar nisso, agora eu vou dormir.



O Navio Negreiro

(Tragédia no mar)


'Stamos em pleno mar... Doudo no espaço

Brinca o luar — dourada borboleta;

E as vagas após ele correm... cansam

Como turba de infantes inquieta.


'Stamos em pleno mar... Do firmamento

Os astros saltam como espumas de ouro...

O mar em troca acende as ardentias,

— Constelações do líquido tesouro...


'Stamos em pleno mar... Dois infinitos

Ali se estreitam num abraço insano,

Azuis, dourados, plácidos, sublimes...

Qual dos dous é o céu? qual o oceano?...


'Stamos em pleno mar. . . Abrindo as velas

Ao quente arfar das virações marinhas,

Veleiro brigue corre à flor dos mares,

Como roçam na vaga as andorinhas...


Donde vem? onde vai? Das naus errantes

Quem sabe o rumo se é tão grande o espaço?

Neste saara os corcéis o pó levantam,

Galopam, voam, mas não deixam traço.


Bem feliz quem ali pode nest'hora

Sentir deste painel a majestade!

Embaixo — o mar em cima — o firmamento...

E no mar e no céu — a imensidade!



domingo, 7 de outubro de 2012

Leoa Malu e o ‘Rumo Da Prosa’


Malu: Então, está satisfeita, dona Maria Luiza?

Maria Luiza: Com o quê?

Malu: Com a nova configuração existencial? As mudanças, o substrato transformado. O discurso da leoazinha Luiza. Fala de gente grande, aff...

Maria Luiza: Nada. Não acredito em superficialidades. Não sei ainda a consistência dessa racionalidade súbita. Não sei se isso não é passageiro. Se as desistências não são apenas instinto de sobrevivência, blindagem, pra seguir adiante... apenas isso.

Malu: Superficialidades? Mas a senhora se dá conta o que aconteceu? Fico pensando no filme que assistimos no Amorcom!: “O Ponto de Mutação!”, baseado na teoria do Fritjof Capra. É isso. Parece que algo se desalojou dentro de nós e produziu uma mutação no ‘sistema’ interno...uma mutação cósmica, no que há de nós que é cosmo, entende?

Maria Luiza: Ah.. tá.. pára, Malu. Nada de muito mirabolante. O que parece é que nos cansamos de sentimentalismos. Sabe o nome disso? Exaurimento. Exauriu o sistema, só isso. Não há mais lágrima, não há mais disposição interna pra ficar enamoradinha ou mamãezinha.. ou qualquer coisa ‘inha’, quando a vida bate lá fora e todos os dias o galo nem canta mais ou, se canta, canta longe de nós, porque resolvemos nos enfiar numa cidade grande, bem diferente de onde viemos...

Malu: Eu, por mim, me mudava pra o interior de São Paulo.

Maria Luiza: Sei, você e a Luiza. Viajamos pra lá e vocês se encantaram com o reencontro com o lugar, com o que viveram lá.

Malu: Coisas simples, dona Maria Luiza. Coisas simples. Somos simples, a senhora bem sabe disso. Conhecer vários países do mundo, ser intelectual, ter doutorado em Comunicação pela USP, viagens nacionais e internacionais. Nada disso muda a matriz. Somos gente simples, simplesmente amorosas.

Maria Luiza: Ai.. não me vai ter uma recaída romântica. Aí eu perco a paciência!

Malu: Como eu sempre digo: ninguém pode perder o que nunca teve. A senhora nunca teve paciência. Quer tudo na hora, do seu jeito. É mandona. Autoritária.

Maria Luiza: Não gosto de enrolação, nem dúvida, nem de choraminguice. Meu negócio é jogo lógico: A ou B. Vetor prático operacional. Você me conhece.

Malu: Nossa.. me arrepio com sua lógica. Não gosta de dúvida! Que beleza. Mas Meu Deus, onde estão as certezas? A senhora tem a pretensão de ter certezas? Eu falo em O Ponto de Mutação e isso não tem nada a ver com certezas. A senhora diz o quê?: “Não gosto de dúvida!”. Pode não gostar, mas isso não muda nada. A maioria do mundo é dúvida.. é incerteza.. é probabilidade. Nem fui eu que inventei isso. Nós já estudamos bastante pra senhora vir com discurso raso.

Maria Luiza: Calma, calma... eu sou a mais racional de todas nós. Também estive na linha de frente dos nossos estudos. Então, sei bem do que você fala, sei da mutação cósmica, das teorias da física quântica, dos fatores de sincronicidade, etc etc etc na mesma data...

Malu: Hum, só falta agora recitar o currículo!

Maria Luiza: Depois, eu que sou a impertinente. Eu só estava tentando dizer que entendo isso, da mutação cósmica, lógico. E justamente por isso não aguento a paralisação emocional, em função de nada. Se tudo é movimento, por que não eu? Por que não nós? Por que ficaríamos paradas... esperando Godot? Esperando o trem, esperando amém....entende isso?

Malu: Entendo, claro que entendo, mas isso não tem a ver com certeza ou dúvida.

Dra Cardinale: Mas, Malu, por que a irritação? Você está descontente com o que chama de ‘rumo dos acontecimentos’?

Malu: A senhora sabe, a prosa não me favorece. Não são as minhas opções que estão prevalecendo. Tudo tenho que aceitar, entender, ter paciência, calma. Odeio que me peçam calma.

Dra Cardinale: A questão é você entender o básico, a vida. Você traz acionada a metralhadora de desejos e a urgência da mistura da adolescente e a jovem adulta. Tem pressa, tem urgência pra tudo. Você acusa a Maria Luiza, mas também gostaria de controlar o resultado, os desfechos. Também tem dificuldade de entender, na prática, na vida, a mutação cósmica, no que diz respeito ao tempo de espera, aos riscos de não brotação, à dureza dos sacrifícios para sobreviver às intempéries... o vazio no núcleo, o átomo, para falar um pouco de teoria complexa, que sei que é coisa que você gosta.

Malu: É, eu me empenhei por compreender o mundo de complexidade que nos rodeia.

Dra Cardinale: Também precisamos compreender a complexidade do mundo interno. E não é só entender para discursar, entender para elaborar racionalmente o discurso na superfície, porque isso a Maria Luiza faz com maestria. Ela declama teorias. É preciso pulsar o saber, fazer valer nas tripas, no coração, na pulsação toda. Como diz o Restrepo, no livro O Direito à Ternura, ‘splacnisomai’ – sentir com as tripas. Ou você respira e faz circular nas nossas veias o nosso saber ou ele não vale a vida, não nos ajuda. Já é hora de serenar.

Malu: Hum... serenar.. risos..

Dra Cardinale: Mas que criatura, estou falando sério!

Malu: Nunca vi a senhora brincar, mais parece a Maria Luiza.

Dra Cardinale: Melhor me tirar da mira da tua metralhadora de acusações. Eu existo para compor, pôr junto, juntar, ajudar a alinhar as leoas. A propósito, vê se te ‘apruma vivente’, como diriam os gaúchos.

Malu: Uff...mais uma a me xingar...





A CASA DOS MEUS SONHOS


Tenho pensado muito na grandiosidade do significado de ‘casa’ pra mim, significado das minhas casas, das casas que tenho e das casas que tive, das casas que sonho, também, da ‘casa dos meus sonhos’. Diferente da maioria das pessoas, quando penso na expressão ‘casa dos meus sonhos, a imagem que me vem à mente é a da casa dos meus avós, que também foi a minha casa, quando eu era criança. A casa dos meus sonhos, a casa onde eu sonhei meus sonhos de menina, aqueles que têm o substrato de sonhadora maior, a base da leozinha Luiza, amorosa de nascença, apaixonada por jabuticabas e encantada pelo mundo.

Recentemente visitei Guarantã, a cidade onde nasci, e como faço todas as vezes em que vou à cidade, também desta vez dediquei um tempo para visitar ‘a casa’. Meus avós não estão mais lá. Faleceram há vários anos. Eu estava longe, quando isso aconteceu. Tenho, no entanto, em mim, lembranças inteiras, imensas, que marcaram a infância e que foram o palco da construção dos sonhos deste ser eu mesma, que agora escreve. Ali, naquela casa, nas madrugadas em que passava lendo, eu imagina o devir, o que deveria ser minha vida. Na casa simples, de madeira, que hoje está desabitada e vai ser reformada, eu aprendi a valorizar cada canto, cada espaço, aprendi a sonhar. Ali eu sonhei que seria escritora um dia, que viveria escrevendo, criando personagens, dedicando a vida a escrever e a ensinar. Ali eu produzi minhas inscrições ficcionais iniciais, escrevi poemas e li, li muito, quase que na mesma proporção com que imaginei o futuro. Futuro de um eu Luiza, que se formava enquanto tentava compreender o mundo, encerava o chão da casa pra vó, aprendia a bordar, fazer crochê, trançar barra de pano de prato e, nas madrugadas, lia e escrevia.

Na frente da casa, havia um jardim. Claro, no jardim, havia margaridas brancas, que floridas enterneciam a vida. Havia também rosas, dálias, palmas de Santa Rita, flores do campo e outras que não sei o nome. Lembro, em especial, das brincadeiras em meio a essas flores, com um dos meus irmãos, o Toninho. Durante um bom tempo, minha vó cultivou o jardim e se ocupava de acompanhar a brotação. Explicava a diferença das flores, o tempo de brotação, o modo de cultivo e renovação de cada uma delas. Eu me inquietava com o fato de que alguns canteiros não ficassem floridos o tempo todo. “Seria mais bonito, se tivéssemos flores o tempo todo”, eu pensava. Minha vó, pacientemente, explicava que não era assim, que as flores precisam brotar de novo, que teríamos que esperar, que ainda não era tempo. Eu aceitava, mas preferia que fosse diferente. Hoje percebo que o ‘tempo de brotação’, a espera, o tempo da florada, depois, a alegria da presença das flores abertas, exuberantemente encantadoras... tudo isso faz parte dos ciclos da vida e também ensina a compreender outras esperas, outros processos de semear e esperar, semear e esperar... semear, cuidar e esperar a brotação. Paciência para, um dia, ver a florada. Esta parece ser a ‘mensagem’.

Nessa casa, eu sonhava com meu futuro amoroso e já tinha claro que o amor é o bem maior, que o amor seria sempre a minha opção, meu motor existencial pra vida toda. Era uma visão pueril, ingênua, ainda romântica. Hoje estou bem diferente disso, mas ainda conservo o traço da amorosidade, em sentido amplo. Ainda acredito em fadas, duendes e outros seres do mundo abstrato, mas do amor romântico quero distância. A maior possível. O amor romântico é pautado pela idealização do Outro e isso é construção antecipada de decepção. Não há quem dê conta da idealização, porque ela tem componentes de ilusão e fantasia, que não combinam com vida real. O Amor existe, sim, mas também tem que ser cultivado todos os dias, tem diferentes tipos de brotação e tempos. Também não há possibilidade nenhuma de controle. O amor é da natureza. É ‘a’ natureza em nós. Vai brotar, ou não, na mistura de substâncias várias, no encontro de laços de afeto e onde houver terreno propício para a brotação. Se não brotar, não é culpa de ninguém. Não é uma sentença de impossibilidade, apenas uma confluência de fatores que fizeram não acontecer ‘ainda’. Não há que se preocupar exageradamente, porque o dia anoitece, depois amanhece, depois, como acontecia no jardim da vó Zefa, tudo começa a brotar de novo, tudo pode ser. Então, de novo haverá margaridas brancas e bem-quereres. Assim é.


















sábado, 29 de setembro de 2012

Leoazinha Luiza cresceu....

Das Leoas... a Luiza sempre foi a leoazinha, a menina em mim. Ao longo da vida, as outras leoas foram ficando indignadas com a meninice da Luiza, com seu romantismo, seu sentimentalismo exacerbado. “Coisa de libriana”, sempre pensava a Malu, um tantinho mais paciente que a Maria Luiza, a mais racional das três. Esta, sim, bah... revoltada com o jeito ‘amor derramado’ da menina, nunca poupava adjetivos pejorativos...depreciativos. Só que o tempo tem mostrado que cada uma, do seu jeito, tem sua sabedoria... a Luiza também. Além disso, também é possível avançar no jeito, aprender com a experiência, reescrever a própria história, também (e talvez, principalmente) a própria história amorosa. Assim, um belo dia desses, me dei conta... a Luiza cresceu.



Luiza: Elas brigam tanto e, quando veem, o que mais querem é simples e está nas coisas que eu cultivei, que eu aprendi desde menina.

Malu: Ah.. tá. Vamos com calma. Você é a menina em nós. Eu quero muito mais coisas. Ainda tenho sonhos, projetos. Sigo planejando e produzindo. Sem minha disposição e força de ‘arranque’ pra batalhar pelas coisas... não seríamos nada.

Luiza: Planejando e produzindo. Aí é que está. Não vê que há graça em coisas que nunca foram planejadas? Coisas que são da natureza. Coisas sobre as quais não se fala, coisas que acontecem, singelas, simples.

Malu: Sim, eu sei do que você está falando. Tenho pensando muito nisso. As coisas simples...

Luiza: De tudo o que se viveu, eu ainda quero a simplicidade das toalhas de crochê, das flores ajeitadas na casa, a simplicidade da conversa na hora do almoço, do olhar de um homem ‘simples amado’, suas histórias, seus jeitos, seu riso, seu jeito de ficar indignado com injustiças sociais, às vezes. Quero também o riso dos filhos, almoço aos domingos ou, mesmo, como agora, quero estar um pouco sozinha, pra serenar por dentro... quieta, no ‘mim mesma’. É pouca coisa, mas é uma imensidão de alegria. Assim como foi uma das últimas viagens.

Maria Luiza: Foi marcante mesmo. Foi um retorno às origens, reencontrar o lugar, amigos, o pai, tudo.

Luiza: A senhora, pra variar, está racionalizando. Essa viagem me trouxe de volta, porque sinto que tudo o que sinto é o que verdadeiramente faz sentido, pra todas nós. Detalhes. Detalhes. Cada coisa, cada cena foi compondo informações de um estar bem, que faz muita diferença. A ‘cena da janela’ me contou isso. Outras cenas também... eu não digo aqui, porque, depois, este texto vai pro “Margaridas”.. bem.. mas todas vocês sabem...

Dra Cardinale: Vamos falar em sentido geral. A questão é que as viagens provocam uma desacomodação, uma desterritorialização, saída do território conhecido e habitual, que não é só física. É também interna, também psíquica. Quando viajamos, nós viajamos dentro de nós mesmas e encontramos ‘outros lugares’.

Luiza: Desta vez, encontraram a mim...(rindo).

Dra Cardinale: Sim, Luiza, a encontramos porque as vivências todas foram mostrando o que mais valorizamos na vida, uma poética do simples e um gosto de estar ali, na segurança de se sentir do lugar, de ser aceita e querida. Há outras lembranças contrárias a isso, quando nos sentimos ‘fora do lugar’, incomodadas pelas evidências de não desfrutar do direito de pertença, por não sermos autorizadas a ficar. Esta é a diferença.

Luiza: Talvez o choro na rodoviária tenha sido por isso.

Maria Luiza: Como disse a nossa irmã, você é mesmo uma ‘molenga’. Chora por qualquer coisa. Isso nem mais é levado em conta.

Luiza: Não é o caso. Ali o derrame de lágrimas era pela intensidade e singeleza do que se viveu. Simples. Tudo simples e mostrando como tem que ser.

Malu: Ah.. ótimo.. como tem que ser, só que o lugar é algo que está lá e você está aqui. Que lindo isso! É uma síndrome romântica, tendência de valorizar o ideal, o que não tem.

Luiza: Não. O sentimento está em mim. A vivência trouxe informação e, como sabemos, informação é sempre um bem. O querer e o bem-querer-bem têm que ser assim, simples e tranquilos. Essa é a novidade que veio dar à praia... ou à região caipira em nós. Amar tem que ser simples e intenso! Tá bom pra vocês???





sábado, 4 de agosto de 2012

Leoas, quase amigas?





Maria Luiza: E aí?

Malu: E aí o quê? Não falei nada.

Maria Luiza: Não falou, mas pensou. Está pensando que é tempo de conversarmos.

Malu: É, mas não tinha decidiiiidooo, ainda.

Maria Luiza: Mas eu decidi. Vamos aos fatos?

Malu: Fatos? Você vai relatar fatos no blog? Você está bem? Está com febre?

Maria Luiza: Não preciso relatar, você sabe os fatos.

Malu: Até onde eu sei está tudo bem. Na verdade, não tinha decidido conversar, porque estou numa fase de certo modo nova pra mim... a mente parece mais esvaziada. Há textos, há acontecimentos cotidianos, mas há outra condição que me parece mais lenta e densa, dentro de mim, mais de sentir, ir sentindo, viver, ir vivendo, diferente.

Maria Luiza: Você sabe, isso tem a ver com o Caminho.

Malu: Sim, sei, com o Caminho e com outras orientações, que se entrecruzam.

Maria Luiza: Então, se fosse em outros tempos, as orientações que você recebeu te descabelariam.

Malu: Não brinque. Descabeladas, não vamos deixar de ser, em qualquer circunstância. Risos. Até quando lisas. Lembra aquela vez que a cabeleireira insistiu pra fazer escova, chapinha? Bah.. cabelo liso não combina com a ‘nossa’ personalidade. Lembro como se fosse hoje. Saí do salão, em plena avenida Osvaldo Aranha, em Porto Alegre. Ventava. Foi um horror. Cabelo liso desgovernado ao vento é uma loucura. Crespo, não. A pessoa já é descabelada de nascença. É mais coerente. É um descabelamento existencial, cristalizado ao longo do tempo. A pessoa se acostuma a ser descabelada crespa. Ninguém estranha mais... ‘Está descabelada? Ah.. tá, normal. É o meu normal’. Lembrei da expressão de um amor meu, aquele que é o ‘único’ que pode mexer nos meus cabelos... bom, mas isso é outra conversa.

Maria Luiza: É, não muda de assunto. Você é especialista em tergiversar. Sair pela tangente, quando o assunto não está favorecendo.

Malu: Eu e a torcida do Flamengo , né querida?

Maria Luiza: Você adora esta expressão! Vive repetindo.

Malu: Eu adoro expressões. Adoro escrever. Adoro as palavras. Você esqueceu que, literalmente, ‘vivemos disso’?

Maria Luiza: Não, mas você não precisava ser tão repetitiva. E o pior é que não se repete só nas palavras, nas expressões. Você se repete também nas atitudes, em algumas atitudes. Já é tempo de mudar algumas práticas. Estou vendo que vamos desencarnar e você vai levar junto alguns, digamos, procedimentos com ‘defeito’.

Malu: Tava demoraaaando. Começou a desfiar o rosário de críticas. Pra você eu sou toda errada. Estou sempre metendo os pés pelas mãos. Tá certo que me confundo às vezes, risos, mas não é sempre. Eu me confundo mais com os lados. Lado direito, lado esquerdo, risos.. tudo bem, é muita informação, pra quem já tem muita informação circulando no cérebro.

Maria Luiza: Mas vamos voltar ao que interessa. Diz pra mim, criatura de meu Deus, você entende quando falo na repetição?

Malu: Sim, claro que entendo. Mas a senhora entende que também estou aprendendo a mudar? Que as transformações recentes sinalizam para outro jeito de caminhar? Para outras estradas?

Maria Luiza: Não sei, não sei. Eu tenho cá minhas dúvidas sobre a profundidade dessas mudanças. Não sei se são consistentes, se já atingiram um nível de consistência que garanta permanecer na decisão.

Malu: Bem, claro, eu não posso e nem pretendo garantir nada. Aprendi que uma mudança, uma decisão, não pode existir apenas no discurso. Muitas vezes, nem precisa discurso. Ela tem que ir existindo de fato, na realidade. Estou avançando, aos poucos.

Maria Luiza: Beeeem aos poucos, você quer dizer. Risos.

Malu: Mas você não vê que não dá pra mudar do dia pra noite?

Maria Luiza: Do dia pra noite? Você sabe, estamos falando de coisas que você passou a vida inteira repetindo, procedimentos operacionais existenciais sobre os quais eu venho chamando a tua atenção e você não ‘habilita’ o corretor interno pra mudar de rumo. Parece mais uma mula empacada, quando se tratam de sentimentos.

Malu: Desempaquei. Desempaquei. Lembra? Ponto final? Ou melhor: lembra dos pontos finais? Do mais recente? Do novo início?

Maria Luiza: Sim, querida outro eu de plantão e mais frequente, lembro e te parabenizo. PelamordeDeus, o problema é quanto tempo você demora para fazer isso. Não vê que a vida pode ser mais fácil, mais leve, se você aciona o motor prático operacional. Lê o que está ocorrendo no cotidiano com clareza. Isso nós aprendemos bem e muito. Ler texto visível e invisível. Textos abstratos, subjacentes, nas entrelinhas. Você não precisa ficar fazendo de conta que não entendeu. Basta! Sai andando, vai embora. Não te prende. Já te disse, a estrada é grande. Olha o que está acontecendo agora? Não aconteceria, se você ficasse trancada, empacada.

Malu: É, mas você sabe, sou obstinada e intensa. Quando gosto de uma pessoa ou um projeto, eu invisto, eu acredito, está matriz do conceito de amorosidade, de desejo, a crença no devir, a esperança de conseguir. Já conseguimos muitas coisas sabendo desejar, também. Não é verdade?

Maria Luiza: É, está na matriz do conceito de idiotice também.

Malu: Este é um dos seus problemas. Você é incrédula. Você não acredita nas pessoas. Desconfia. Fica sempre me chamando atenção, pra não ser assim tão derramadamente afetiva e tal.

Maria Luiza: Calma. Não é que não acredito nas pessoas. Não acredito em tudo o que dizem, só porque dizem. Falar é muito fácil. Eu acredito no texto maior, que se constitui de frases, substrato informacional abstrato e, principalmente, atitudes. O resto é expressão sem consistência.

Malu: Ai meu Deus, resolveu me dar aula agora. Tô perdida.

Maria Luiza: Não adianta, você entende só o que quer... parece que existimos em canais diferentes... falamos mais outra hora. Quem sabe a Doutora aparece e junta de novo.

Malu: Ufa! Pensei que você não fosse mais desistir, que ia passar falando o resto da noite. Discursando. Até.