Usina de narrativas semeadas por Maria Luiza Cardinale Baptista! Seja bem-vindo!
sábado, 10 de novembro de 2012
Ainda “stamos em pleno mar”...
E assim, a vida vai mudando de rumo, de novo, como uma espécie de rio que vai procurando o mar, eu diria, ‘a-mar’. Vai tergiversando, sinuosamente desviando dos obstáculos, tecendo o próprio rumo, enquanto provoca desassossegos tantos em quem o vê passar. Incontido e obstinado, o rio esse vai deixando ‘passados’ no caminho, vai se embora. Tem que ser. São boas as lembranças, as risadas, as conversas. Ah.. as conversas, a amoramizade é mesmo um espetáculo do relacionamento! Mas tudo tem um tempo, às vezes um dia, uma semana, meses, anos.. uma ou algumas vidas.
Conversar, ‘ versar com’ gente de bem-querer-bem, com amores amigos, saber da vida, rir junto, às vezes, mas só às vezes, chorar junto também, que ninguém é de ferro. Eu não sou, embora tenha sido forjada de um tipo de matéria forte, que me faz sempre ir em frente, avançar... tentar... se não conseguir desviar o rumo, voltar... ir embora.
Na semana cheia de sobressaltos e desafios... a frase que me veio é...depois de tanta tempestade, não é qualquer chuvisco que me molha. A semana foi de chuvaradas e mares bravios. Em compensação, vejo que fiz laços bons, renovei a convicção de que, se alguma coisa nos ajuda, nesse tempo de Meu Deus... é a condição de ‘estar junto’, do modo possível, sem modelo nem dogma, apenas e principalmente pelos fluxos intensos de afetos de bem-querer. Eu verdadeiramente conheci bons navegadores na vida. Não estou sozinha na travessia.
Na loucura do tsunami de tarefas, lembrei da minha avó cerzindo roupas... da nonna costurando meias...pensei nos curativos de feridas , feitos com carinho, ao mesmo tempo em que a voz segura de alguém que gostamos vai cuidando... vai curando a dor, o machucado. Hoje sou eu a ‘costureira de sentimentos’. Eu é que estou chamada a ‘me tecer’, reconhecer e autopoieticamente me reinventar todos os dias. Eu é que também tive que aprender a ter paciência comigo...
Eu também tenho a doce tarefa de acolher gentes no meu abraço, pessoas que precisam e se permitem viver esse aconchego, acolhimento terno de quem se preocupa, de quem se preparou para ‘sobreviver na selva’. É isso. A tarefa é a da sobrevivência na selva caosmótica desses tempos de mais desafetos que afetos explícitos. “Stamos em pleno mar”, disse o poeta Castro Alves, no clássico Navio Negreiro. Há muito tempo eu penso isso: agora sobre escravos do quê mesmo? As respostas possíveis são diversificadas e, por falar nisso, agora eu vou dormir.
O Navio Negreiro
(Tragédia no mar)
'Stamos em pleno mar... Doudo no espaço
Brinca o luar — dourada borboleta;
E as vagas após ele correm... cansam
Como turba de infantes inquieta.
'Stamos em pleno mar... Do firmamento
Os astros saltam como espumas de ouro...
O mar em troca acende as ardentias,
— Constelações do líquido tesouro...
'Stamos em pleno mar... Dois infinitos
Ali se estreitam num abraço insano,
Azuis, dourados, plácidos, sublimes...
Qual dos dous é o céu? qual o oceano?...
'Stamos em pleno mar. . . Abrindo as velas
Ao quente arfar das virações marinhas,
Veleiro brigue corre à flor dos mares,
Como roçam na vaga as andorinhas...
Donde vem? onde vai? Das naus errantes
Quem sabe o rumo se é tão grande o espaço?
Neste saara os corcéis o pó levantam,
Galopam, voam, mas não deixam traço.
Bem feliz quem ali pode nest'hora
Sentir deste painel a majestade!
Embaixo — o mar em cima — o firmamento...
E no mar e no céu — a imensidade!
domingo, 7 de outubro de 2012
Leoa Malu e o ‘Rumo Da Prosa’
Malu: Então, está satisfeita, dona Maria Luiza?
Maria Luiza: Com o quê?
Malu: Com a nova configuração existencial? As mudanças, o substrato transformado. O discurso da leoazinha Luiza. Fala de gente grande, aff...
Maria Luiza: Nada. Não acredito em superficialidades. Não sei ainda a consistência dessa racionalidade súbita. Não sei se isso não é passageiro. Se as desistências não são apenas instinto de sobrevivência, blindagem, pra seguir adiante... apenas isso.
Malu: Superficialidades? Mas a senhora se dá conta o que aconteceu? Fico pensando no filme que assistimos no Amorcom!: “O Ponto de Mutação!”, baseado na teoria do Fritjof Capra. É isso. Parece que algo se desalojou dentro de nós e produziu uma mutação no ‘sistema’ interno...uma mutação cósmica, no que há de nós que é cosmo, entende?
Maria Luiza: Ah.. tá.. pára, Malu. Nada de muito mirabolante. O que parece é que nos cansamos de sentimentalismos. Sabe o nome disso? Exaurimento. Exauriu o sistema, só isso. Não há mais lágrima, não há mais disposição interna pra ficar enamoradinha ou mamãezinha.. ou qualquer coisa ‘inha’, quando a vida bate lá fora e todos os dias o galo nem canta mais ou, se canta, canta longe de nós, porque resolvemos nos enfiar numa cidade grande, bem diferente de onde viemos...
Malu: Eu, por mim, me mudava pra o interior de São Paulo.
Maria Luiza: Sei, você e a Luiza. Viajamos pra lá e vocês se encantaram com o reencontro com o lugar, com o que viveram lá.
Malu: Coisas simples, dona Maria Luiza. Coisas simples. Somos simples, a senhora bem sabe disso. Conhecer vários países do mundo, ser intelectual, ter doutorado em Comunicação pela USP, viagens nacionais e internacionais. Nada disso muda a matriz. Somos gente simples, simplesmente amorosas.
Maria Luiza: Ai.. não me vai ter uma recaída romântica. Aí eu perco a paciência!
Malu: Como eu sempre digo: ninguém pode perder o que nunca teve. A senhora nunca teve paciência. Quer tudo na hora, do seu jeito. É mandona. Autoritária.
Maria Luiza: Não gosto de enrolação, nem dúvida, nem de choraminguice. Meu negócio é jogo lógico: A ou B. Vetor prático operacional. Você me conhece.
Malu: Nossa.. me arrepio com sua lógica. Não gosta de dúvida! Que beleza. Mas Meu Deus, onde estão as certezas? A senhora tem a pretensão de ter certezas? Eu falo em O Ponto de Mutação e isso não tem nada a ver com certezas. A senhora diz o quê?: “Não gosto de dúvida!”. Pode não gostar, mas isso não muda nada. A maioria do mundo é dúvida.. é incerteza.. é probabilidade. Nem fui eu que inventei isso. Nós já estudamos bastante pra senhora vir com discurso raso.
Maria Luiza: Calma, calma... eu sou a mais racional de todas nós. Também estive na linha de frente dos nossos estudos. Então, sei bem do que você fala, sei da mutação cósmica, das teorias da física quântica, dos fatores de sincronicidade, etc etc etc na mesma data...
Malu: Hum, só falta agora recitar o currículo!
Maria Luiza: Depois, eu que sou a impertinente. Eu só estava tentando dizer que entendo isso, da mutação cósmica, lógico. E justamente por isso não aguento a paralisação emocional, em função de nada. Se tudo é movimento, por que não eu? Por que não nós? Por que ficaríamos paradas... esperando Godot? Esperando o trem, esperando amém....entende isso?
Malu: Entendo, claro que entendo, mas isso não tem a ver com certeza ou dúvida.
Dra Cardinale: Mas, Malu, por que a irritação? Você está descontente com o que chama de ‘rumo dos acontecimentos’?
Malu: A senhora sabe, a prosa não me favorece. Não são as minhas opções que estão prevalecendo. Tudo tenho que aceitar, entender, ter paciência, calma. Odeio que me peçam calma.
Dra Cardinale: A questão é você entender o básico, a vida. Você traz acionada a metralhadora de desejos e a urgência da mistura da adolescente e a jovem adulta. Tem pressa, tem urgência pra tudo. Você acusa a Maria Luiza, mas também gostaria de controlar o resultado, os desfechos. Também tem dificuldade de entender, na prática, na vida, a mutação cósmica, no que diz respeito ao tempo de espera, aos riscos de não brotação, à dureza dos sacrifícios para sobreviver às intempéries... o vazio no núcleo, o átomo, para falar um pouco de teoria complexa, que sei que é coisa que você gosta.
Malu: É, eu me empenhei por compreender o mundo de complexidade que nos rodeia.
Dra Cardinale: Também precisamos compreender a complexidade do mundo interno. E não é só entender para discursar, entender para elaborar racionalmente o discurso na superfície, porque isso a Maria Luiza faz com maestria. Ela declama teorias. É preciso pulsar o saber, fazer valer nas tripas, no coração, na pulsação toda. Como diz o Restrepo, no livro O Direito à Ternura, ‘splacnisomai’ – sentir com as tripas. Ou você respira e faz circular nas nossas veias o nosso saber ou ele não vale a vida, não nos ajuda. Já é hora de serenar.
Malu: Hum... serenar.. risos..
Dra Cardinale: Mas que criatura, estou falando sério!
Malu: Nunca vi a senhora brincar, mais parece a Maria Luiza.
Dra Cardinale: Melhor me tirar da mira da tua metralhadora de acusações. Eu existo para compor, pôr junto, juntar, ajudar a alinhar as leoas. A propósito, vê se te ‘apruma vivente’, como diriam os gaúchos.
Malu: Uff...mais uma a me xingar...
A CASA DOS MEUS SONHOS
Tenho pensado muito na grandiosidade do significado de ‘casa’ pra mim, significado das minhas casas, das casas que tenho e das casas que tive, das casas que sonho, também, da ‘casa dos meus sonhos’. Diferente da maioria das pessoas, quando penso na expressão ‘casa dos meus sonhos, a imagem que me vem à mente é a da casa dos meus avós, que também foi a minha casa, quando eu era criança. A casa dos meus sonhos, a casa onde eu sonhei meus sonhos de menina, aqueles que têm o substrato de sonhadora maior, a base da leozinha Luiza, amorosa de nascença, apaixonada por jabuticabas e encantada pelo mundo.
Recentemente visitei Guarantã, a cidade onde nasci, e como faço todas as vezes em que vou à cidade, também desta vez dediquei um tempo para visitar ‘a casa’. Meus avós não estão mais lá. Faleceram há vários anos. Eu estava longe, quando isso aconteceu. Tenho, no entanto, em mim, lembranças inteiras, imensas, que marcaram a infância e que foram o palco da construção dos sonhos deste ser eu mesma, que agora escreve. Ali, naquela casa, nas madrugadas em que passava lendo, eu imagina o devir, o que deveria ser minha vida. Na casa simples, de madeira, que hoje está desabitada e vai ser reformada, eu aprendi a valorizar cada canto, cada espaço, aprendi a sonhar. Ali eu sonhei que seria escritora um dia, que viveria escrevendo, criando personagens, dedicando a vida a escrever e a ensinar. Ali eu produzi minhas inscrições ficcionais iniciais, escrevi poemas e li, li muito, quase que na mesma proporção com que imaginei o futuro. Futuro de um eu Luiza, que se formava enquanto tentava compreender o mundo, encerava o chão da casa pra vó, aprendia a bordar, fazer crochê, trançar barra de pano de prato e, nas madrugadas, lia e escrevia.
Na frente da casa, havia um jardim. Claro, no jardim, havia margaridas brancas, que floridas enterneciam a vida. Havia também rosas, dálias, palmas de Santa Rita, flores do campo e outras que não sei o nome. Lembro, em especial, das brincadeiras em meio a essas flores, com um dos meus irmãos, o Toninho. Durante um bom tempo, minha vó cultivou o jardim e se ocupava de acompanhar a brotação. Explicava a diferença das flores, o tempo de brotação, o modo de cultivo e renovação de cada uma delas. Eu me inquietava com o fato de que alguns canteiros não ficassem floridos o tempo todo. “Seria mais bonito, se tivéssemos flores o tempo todo”, eu pensava. Minha vó, pacientemente, explicava que não era assim, que as flores precisam brotar de novo, que teríamos que esperar, que ainda não era tempo. Eu aceitava, mas preferia que fosse diferente. Hoje percebo que o ‘tempo de brotação’, a espera, o tempo da florada, depois, a alegria da presença das flores abertas, exuberantemente encantadoras... tudo isso faz parte dos ciclos da vida e também ensina a compreender outras esperas, outros processos de semear e esperar, semear e esperar... semear, cuidar e esperar a brotação. Paciência para, um dia, ver a florada. Esta parece ser a ‘mensagem’.
Nessa casa, eu sonhava com meu futuro amoroso e já tinha claro que o amor é o bem maior, que o amor seria sempre a minha opção, meu motor existencial pra vida toda. Era uma visão pueril, ingênua, ainda romântica. Hoje estou bem diferente disso, mas ainda conservo o traço da amorosidade, em sentido amplo. Ainda acredito em fadas, duendes e outros seres do mundo abstrato, mas do amor romântico quero distância. A maior possível. O amor romântico é pautado pela idealização do Outro e isso é construção antecipada de decepção. Não há quem dê conta da idealização, porque ela tem componentes de ilusão e fantasia, que não combinam com vida real. O Amor existe, sim, mas também tem que ser cultivado todos os dias, tem diferentes tipos de brotação e tempos. Também não há possibilidade nenhuma de controle. O amor é da natureza. É ‘a’ natureza em nós. Vai brotar, ou não, na mistura de substâncias várias, no encontro de laços de afeto e onde houver terreno propício para a brotação. Se não brotar, não é culpa de ninguém. Não é uma sentença de impossibilidade, apenas uma confluência de fatores que fizeram não acontecer ‘ainda’. Não há que se preocupar exageradamente, porque o dia anoitece, depois amanhece, depois, como acontecia no jardim da vó Zefa, tudo começa a brotar de novo, tudo pode ser. Então, de novo haverá margaridas brancas e bem-quereres. Assim é.
sábado, 29 de setembro de 2012
Leoazinha Luiza cresceu....
Das Leoas... a Luiza sempre foi a leoazinha, a menina em mim. Ao longo da vida, as outras leoas foram ficando indignadas com a meninice da Luiza, com seu romantismo, seu sentimentalismo exacerbado. “Coisa de libriana”, sempre pensava a Malu, um tantinho mais paciente que a Maria Luiza, a mais racional das três. Esta, sim, bah... revoltada com o jeito ‘amor derramado’ da menina, nunca poupava adjetivos pejorativos...depreciativos. Só que o tempo tem mostrado que cada uma, do seu jeito, tem sua sabedoria... a Luiza também. Além disso, também é possível avançar no jeito, aprender com a experiência, reescrever a própria história, também (e talvez, principalmente) a própria história amorosa. Assim, um belo dia desses, me dei conta... a Luiza cresceu.
Luiza: Elas brigam tanto e, quando veem, o que mais querem é simples e está nas coisas que eu cultivei, que eu aprendi desde menina.
Malu: Ah.. tá. Vamos com calma. Você é a menina em nós. Eu quero muito mais coisas. Ainda tenho sonhos, projetos. Sigo planejando e produzindo. Sem minha disposição e força de ‘arranque’ pra batalhar pelas coisas... não seríamos nada.
Luiza: Planejando e produzindo. Aí é que está. Não vê que há graça em coisas que nunca foram planejadas? Coisas que são da natureza. Coisas sobre as quais não se fala, coisas que acontecem, singelas, simples.
Malu: Sim, eu sei do que você está falando. Tenho pensando muito nisso. As coisas simples...
Luiza: De tudo o que se viveu, eu ainda quero a simplicidade das toalhas de crochê, das flores ajeitadas na casa, a simplicidade da conversa na hora do almoço, do olhar de um homem ‘simples amado’, suas histórias, seus jeitos, seu riso, seu jeito de ficar indignado com injustiças sociais, às vezes. Quero também o riso dos filhos, almoço aos domingos ou, mesmo, como agora, quero estar um pouco sozinha, pra serenar por dentro... quieta, no ‘mim mesma’. É pouca coisa, mas é uma imensidão de alegria. Assim como foi uma das últimas viagens.
Maria Luiza: Foi marcante mesmo. Foi um retorno às origens, reencontrar o lugar, amigos, o pai, tudo.
Luiza: A senhora, pra variar, está racionalizando. Essa viagem me trouxe de volta, porque sinto que tudo o que sinto é o que verdadeiramente faz sentido, pra todas nós. Detalhes. Detalhes. Cada coisa, cada cena foi compondo informações de um estar bem, que faz muita diferença. A ‘cena da janela’ me contou isso. Outras cenas também... eu não digo aqui, porque, depois, este texto vai pro “Margaridas”.. bem.. mas todas vocês sabem...
Dra Cardinale: Vamos falar em sentido geral. A questão é que as viagens provocam uma desacomodação, uma desterritorialização, saída do território conhecido e habitual, que não é só física. É também interna, também psíquica. Quando viajamos, nós viajamos dentro de nós mesmas e encontramos ‘outros lugares’.
Luiza: Desta vez, encontraram a mim...(rindo).
Dra Cardinale: Sim, Luiza, a encontramos porque as vivências todas foram mostrando o que mais valorizamos na vida, uma poética do simples e um gosto de estar ali, na segurança de se sentir do lugar, de ser aceita e querida. Há outras lembranças contrárias a isso, quando nos sentimos ‘fora do lugar’, incomodadas pelas evidências de não desfrutar do direito de pertença, por não sermos autorizadas a ficar. Esta é a diferença.
Luiza: Talvez o choro na rodoviária tenha sido por isso.
Maria Luiza: Como disse a nossa irmã, você é mesmo uma ‘molenga’. Chora por qualquer coisa. Isso nem mais é levado em conta.
Luiza: Não é o caso. Ali o derrame de lágrimas era pela intensidade e singeleza do que se viveu. Simples. Tudo simples e mostrando como tem que ser.
Malu: Ah.. ótimo.. como tem que ser, só que o lugar é algo que está lá e você está aqui. Que lindo isso! É uma síndrome romântica, tendência de valorizar o ideal, o que não tem.
Luiza: Não. O sentimento está em mim. A vivência trouxe informação e, como sabemos, informação é sempre um bem. O querer e o bem-querer-bem têm que ser assim, simples e tranquilos. Essa é a novidade que veio dar à praia... ou à região caipira em nós. Amar tem que ser simples e intenso! Tá bom pra vocês???
Luiza: Elas brigam tanto e, quando veem, o que mais querem é simples e está nas coisas que eu cultivei, que eu aprendi desde menina.
Malu: Ah.. tá. Vamos com calma. Você é a menina em nós. Eu quero muito mais coisas. Ainda tenho sonhos, projetos. Sigo planejando e produzindo. Sem minha disposição e força de ‘arranque’ pra batalhar pelas coisas... não seríamos nada.
Luiza: Planejando e produzindo. Aí é que está. Não vê que há graça em coisas que nunca foram planejadas? Coisas que são da natureza. Coisas sobre as quais não se fala, coisas que acontecem, singelas, simples.
Malu: Sim, eu sei do que você está falando. Tenho pensando muito nisso. As coisas simples...
Luiza: De tudo o que se viveu, eu ainda quero a simplicidade das toalhas de crochê, das flores ajeitadas na casa, a simplicidade da conversa na hora do almoço, do olhar de um homem ‘simples amado’, suas histórias, seus jeitos, seu riso, seu jeito de ficar indignado com injustiças sociais, às vezes. Quero também o riso dos filhos, almoço aos domingos ou, mesmo, como agora, quero estar um pouco sozinha, pra serenar por dentro... quieta, no ‘mim mesma’. É pouca coisa, mas é uma imensidão de alegria. Assim como foi uma das últimas viagens.
Maria Luiza: Foi marcante mesmo. Foi um retorno às origens, reencontrar o lugar, amigos, o pai, tudo.
Luiza: A senhora, pra variar, está racionalizando. Essa viagem me trouxe de volta, porque sinto que tudo o que sinto é o que verdadeiramente faz sentido, pra todas nós. Detalhes. Detalhes. Cada coisa, cada cena foi compondo informações de um estar bem, que faz muita diferença. A ‘cena da janela’ me contou isso. Outras cenas também... eu não digo aqui, porque, depois, este texto vai pro “Margaridas”.. bem.. mas todas vocês sabem...
Dra Cardinale: Vamos falar em sentido geral. A questão é que as viagens provocam uma desacomodação, uma desterritorialização, saída do território conhecido e habitual, que não é só física. É também interna, também psíquica. Quando viajamos, nós viajamos dentro de nós mesmas e encontramos ‘outros lugares’.
Luiza: Desta vez, encontraram a mim...(rindo).
Dra Cardinale: Sim, Luiza, a encontramos porque as vivências todas foram mostrando o que mais valorizamos na vida, uma poética do simples e um gosto de estar ali, na segurança de se sentir do lugar, de ser aceita e querida. Há outras lembranças contrárias a isso, quando nos sentimos ‘fora do lugar’, incomodadas pelas evidências de não desfrutar do direito de pertença, por não sermos autorizadas a ficar. Esta é a diferença.
Luiza: Talvez o choro na rodoviária tenha sido por isso.
Maria Luiza: Como disse a nossa irmã, você é mesmo uma ‘molenga’. Chora por qualquer coisa. Isso nem mais é levado em conta.
Luiza: Não é o caso. Ali o derrame de lágrimas era pela intensidade e singeleza do que se viveu. Simples. Tudo simples e mostrando como tem que ser.
Malu: Ah.. ótimo.. como tem que ser, só que o lugar é algo que está lá e você está aqui. Que lindo isso! É uma síndrome romântica, tendência de valorizar o ideal, o que não tem.
Luiza: Não. O sentimento está em mim. A vivência trouxe informação e, como sabemos, informação é sempre um bem. O querer e o bem-querer-bem têm que ser assim, simples e tranquilos. Essa é a novidade que veio dar à praia... ou à região caipira em nós. Amar tem que ser simples e intenso! Tá bom pra vocês???
sábado, 4 de agosto de 2012
Leoas, quase amigas?
Maria Luiza: E aí?
Malu: E aí o quê? Não falei nada.
Maria Luiza: Não falou, mas pensou. Está pensando que é tempo de conversarmos.
Malu: É, mas não tinha decidiiiidooo, ainda.
Maria Luiza: Mas eu decidi. Vamos aos fatos?
Malu: Fatos? Você vai relatar fatos no blog? Você está bem? Está com febre?
Maria Luiza: Não preciso relatar, você sabe os fatos.
Malu: Até onde eu sei está tudo bem. Na verdade, não tinha decidido conversar, porque estou numa fase de certo modo nova pra mim... a mente parece mais esvaziada. Há textos, há acontecimentos cotidianos, mas há outra condição que me parece mais lenta e densa, dentro de mim, mais de sentir, ir sentindo, viver, ir vivendo, diferente.
Maria Luiza: Você sabe, isso tem a ver com o Caminho.
Malu: Sim, sei, com o Caminho e com outras orientações, que se entrecruzam.
Maria Luiza: Então, se fosse em outros tempos, as orientações que você recebeu te descabelariam.
Malu: Não brinque. Descabeladas, não vamos deixar de ser, em qualquer circunstância. Risos. Até quando lisas. Lembra aquela vez que a cabeleireira insistiu pra fazer escova, chapinha? Bah.. cabelo liso não combina com a ‘nossa’ personalidade. Lembro como se fosse hoje. Saí do salão, em plena avenida Osvaldo Aranha, em Porto Alegre. Ventava. Foi um horror. Cabelo liso desgovernado ao vento é uma loucura. Crespo, não. A pessoa já é descabelada de nascença. É mais coerente. É um descabelamento existencial, cristalizado ao longo do tempo. A pessoa se acostuma a ser descabelada crespa. Ninguém estranha mais... ‘Está descabelada? Ah.. tá, normal. É o meu normal’. Lembrei da expressão de um amor meu, aquele que é o ‘único’ que pode mexer nos meus cabelos... bom, mas isso é outra conversa.
Maria Luiza: É, não muda de assunto. Você é especialista em tergiversar. Sair pela tangente, quando o assunto não está favorecendo.
Malu: Eu e a torcida do Flamengo , né querida?
Maria Luiza: Você adora esta expressão! Vive repetindo.
Malu: Eu adoro expressões. Adoro escrever. Adoro as palavras. Você esqueceu que, literalmente, ‘vivemos disso’?
Maria Luiza: Não, mas você não precisava ser tão repetitiva. E o pior é que não se repete só nas palavras, nas expressões. Você se repete também nas atitudes, em algumas atitudes. Já é tempo de mudar algumas práticas. Estou vendo que vamos desencarnar e você vai levar junto alguns, digamos, procedimentos com ‘defeito’.
Malu: Tava demoraaaando. Começou a desfiar o rosário de críticas. Pra você eu sou toda errada. Estou sempre metendo os pés pelas mãos. Tá certo que me confundo às vezes, risos, mas não é sempre. Eu me confundo mais com os lados. Lado direito, lado esquerdo, risos.. tudo bem, é muita informação, pra quem já tem muita informação circulando no cérebro.
Maria Luiza: Mas vamos voltar ao que interessa. Diz pra mim, criatura de meu Deus, você entende quando falo na repetição?
Malu: Sim, claro que entendo. Mas a senhora entende que também estou aprendendo a mudar? Que as transformações recentes sinalizam para outro jeito de caminhar? Para outras estradas?
Maria Luiza: Não sei, não sei. Eu tenho cá minhas dúvidas sobre a profundidade dessas mudanças. Não sei se são consistentes, se já atingiram um nível de consistência que garanta permanecer na decisão.
Malu: Bem, claro, eu não posso e nem pretendo garantir nada. Aprendi que uma mudança, uma decisão, não pode existir apenas no discurso. Muitas vezes, nem precisa discurso. Ela tem que ir existindo de fato, na realidade. Estou avançando, aos poucos.
Maria Luiza: Beeeem aos poucos, você quer dizer. Risos.
Malu: Mas você não vê que não dá pra mudar do dia pra noite?
Maria Luiza: Do dia pra noite? Você sabe, estamos falando de coisas que você passou a vida inteira repetindo, procedimentos operacionais existenciais sobre os quais eu venho chamando a tua atenção e você não ‘habilita’ o corretor interno pra mudar de rumo. Parece mais uma mula empacada, quando se tratam de sentimentos.
Malu: Desempaquei. Desempaquei. Lembra? Ponto final? Ou melhor: lembra dos pontos finais? Do mais recente? Do novo início?
Maria Luiza: Sim, querida outro eu de plantão e mais frequente, lembro e te parabenizo. PelamordeDeus, o problema é quanto tempo você demora para fazer isso. Não vê que a vida pode ser mais fácil, mais leve, se você aciona o motor prático operacional. Lê o que está ocorrendo no cotidiano com clareza. Isso nós aprendemos bem e muito. Ler texto visível e invisível. Textos abstratos, subjacentes, nas entrelinhas. Você não precisa ficar fazendo de conta que não entendeu. Basta! Sai andando, vai embora. Não te prende. Já te disse, a estrada é grande. Olha o que está acontecendo agora? Não aconteceria, se você ficasse trancada, empacada.
Malu: É, mas você sabe, sou obstinada e intensa. Quando gosto de uma pessoa ou um projeto, eu invisto, eu acredito, está matriz do conceito de amorosidade, de desejo, a crença no devir, a esperança de conseguir. Já conseguimos muitas coisas sabendo desejar, também. Não é verdade?
Maria Luiza: É, está na matriz do conceito de idiotice também.
Malu: Este é um dos seus problemas. Você é incrédula. Você não acredita nas pessoas. Desconfia. Fica sempre me chamando atenção, pra não ser assim tão derramadamente afetiva e tal.
Maria Luiza: Calma. Não é que não acredito nas pessoas. Não acredito em tudo o que dizem, só porque dizem. Falar é muito fácil. Eu acredito no texto maior, que se constitui de frases, substrato informacional abstrato e, principalmente, atitudes. O resto é expressão sem consistência.
Malu: Ai meu Deus, resolveu me dar aula agora. Tô perdida.
Maria Luiza: Não adianta, você entende só o que quer... parece que existimos em canais diferentes... falamos mais outra hora. Quem sabe a Doutora aparece e junta de novo.
Malu: Ufa! Pensei que você não fosse mais desistir, que ia passar falando o resto da noite. Discursando. Até.
segunda-feira, 16 de julho de 2012
Leoas em tempo de mudanças!
Maria Luiza: Hum... começou o texto escrevendo o título, essa é nova. Você sempre põe o título depois... define o título à medida em que vamos conversando.
Malu: Mas a senhora é implicante mesmo! Quando estou tranquila, resolve se implicar com um título, um adereço existencial qualquer, já que não tem do que reclamar. Os tempos estão calmos.
Maria Luiza: Os tempos estão calmos? Jura? Só se for pra você! Quer dizer: como assim calmos? Você tem noção o que está dizendo, ainda mais depois dos últimos acontecimentos?
Malu: Calma, dona Maria Luiza. Não estou falando de calma externa. Nesse sentido, não há calma. Há muita coisa acontecendo, muita turbulência, sinalizando mudanças. Por isso, inclusive, o título já estava claro. Estou falando de calma interior. Calma em mim. Lá dentro. É uma calma... serena...em meio à confusão, entende?
Maria Luiza: Em tese, entendo. Só não vejo calma em muitas situações do dia a dia. Às vezes, você parece mais Maluca que nunca. Exaspera. Fica furiosa. Briga, sapateia. Atrapalha-se com coisas pequenas, até pra sair de casa, às vezes fica se debatendo, feito borboleta presa na vidraça.
Malu: Sou uma pessoa comum, simples, bem longe da perfeição, como a senhora faz tanta questão de frisar. É verdade. Sou atrapalhada, três vezes por dia, pelo menos. Mas estou falando de uma calma maior, nas grandes orientações da vida.
Maria Luiza: Hum, as grandes orientações da vida! Que bonito isso! Agora você está se achando uma filósofa da existência, que humilde!
Malu: Ai, meu Deus! Olha a ironia... eu já estou rodeada de gente irônica.
Maria Luiza: Não estou ironizando, eu sei o que você está falando, claro, mas pode parecer pedante, pode parecer presunção. Tem que se cuidar.
Malu: Mas por quê? É exatamente isso que estou falando... as grandes orientações da vida. A essas alturas da vida, eu tenho que ter encontrado pistas nesse sentido; se não, estaria perdida. Sou uma pessoa quase idosa. Somos. Não há como ser sozinha, enfrentando o que enfrento... sem orientações internas. Mas por quem me tomas, Senhora Meu Eu Senhora? Ah.. tá, lembrei, a senhora acha que sou uma louca desvairada, sem limites, nem consideração com as consequências.... entendi.
Maria Luiza: Você sabe, não estamos mais sozinhas.
Malu: Bem, isso é uma questão semântica, do significado de ‘sozinha’.
Maria Luiza: Não, não é. Fez-se uma rede de afeto. Há substrato amoroso em laços, em vínculos que são, sim, duradouros...vivemos o gosto da transformação do amor, de uma compreensão do amor, em sua plenitude. Isso não tem nada a ver com arroubos de adolescência, mas com um bem-querer-bem nosso bem-querer. Isso, por si só, já é companhia, isso já é sentir-se em sintonia...
Malu: Não vamos falar disso. A senhora não entende.
Maria Luiza: Percebe que estamos trocando os discursos?
Malu: Sim, percebo. Ainda não entendo bem como pode, mas percebo.
Maria Luiza: Pode, porque o que vivemos é algo amadurecido em nós. Ainda não sabemos o destino dessa ‘prosa’. Não sabemos o que exatamente está sendo escrito, narrado ou vivido. Apenas sabemos que é algo diferente de uma condição anterior. É um jeito de amar dos tempos de agora.
Dra Cardinale: Talvez esteja exatamente aí a tal da calma a que a Malu se refere. Essa orientação maior para a vida. O que acontece é o amadurecimento da condição amorosa, em nós. Aprender a saborear a amorosidade, sem exasperação, sem desespero apaixonado e exigente disso e aquilo, sem atropelo, sem cobrança de desfecho, sem urgência. O bom do amor consolidado em nós. Assim também é com a compreensão dos desfechos da vida, das decisões que precisam ser tomadas. Elas vão surgindo, como clareiras que se abrem à nossa frente, sem que precisemos fazer grande alarde, nem nos envolver com ‘pré-ocupações’. Quando vemos, elas se mostram, se insinuam, como quem diz: “vamos, é só dar o passo”. Assim o caminho e a decisão se fizeram... evidentes, marcados pela obviedade.
Malu: Bem, eu de minha parte já desisti de tomar as rédeas. Passei muito tempo pensando que podia decidir, que podia interferir, que podia isso ou aquilo.Depois, passei muito tempo me culpando pelo que não consegui. Hoje vejo que tudo isso é em vão. Não seria mais correto chamar isso de ‘des-ilusão’?
Dra Cardinale: Pode ser, se for entendido no sentido de não se iludir, não idealizar, não ficar mirabolando isso ou aquilo. Nesse sentido, ‘des-ilusão’ não é ruim. Ao contrário: é um grande ganho. Um grande aprendizado. Na prática, Malu, temos que compreender que tentar controlar demais, prever demais, é algo inócuo, sem sentido. Não adianta espernear. Temos que procurar sentir e fazer nossa parte. Fazer o possível. Usar também o que eu chamo de vetor racional. É fundamental mesclar. Vai vivendo. Deixa que cada um faça o que tem que ser feito. O Universo também tem que fazer a dele. Quando vemos, Ele vai ajeitando as coisas, como elas têm que ser. O bom disso tudo é que estamos juntas, numa ‘recostura’ de eus. Juntou-se desejo, emoção, razão, conhecimento. Há mais serenidade em nossa fala, em nosso coração, porque o amor ganhou outra dimensão. Já era tempo.
domingo, 8 de julho de 2012
Poética da existência e (des)ilusão
Eu me emociono com os textos que reviso, com as pessoas com as quais convivo, com quem trabalho, compartilho gargalhadas, tensões, risos, amizade, produção. Vou assim, sentindo as pessoas, tentando compreender e conviver, sempre e sempre mais. Desse modo, emocionadamente derramada, ‘afetivamente afetada’ pelos outros, eu vibro com suas conquistas e me enterneço com a poética das suas existências.
Foi assim essa semana, enquanto acompanhava a apresentação de orientandos meus de pesquisa, nas bancas. Eu sabia o que significava aquele momento, para cada um deles: o fechamento de um ciclo, o enfrentamento dos seus leões internos, os dramas familiares, a superação de sentenças condenatórias, proferidas por professores perversos, na infância, ou a sensação de impossibilidades, em função de uma origem humilde. Cada um deles, enfrentava, ali, seus maiores medos, em rituais aparentemente racionais, de apresentação de suas pesquisas 'científicas'.
E eu sempre, sempre, me sinto alguém muito privilegiada por acompanhar processos e momentos tão importantes para as pessoas. Estar ali, ter sido escolhida, por eles ou pela vida (a indicação de orientação às vezes é feita pelo aluno, às vezes pela circunstância), é algo que sinaliza uma história conjunta, partilhada, vivida e que vai marcar para sempre nossas existências. Estar junto na banca, não é pra qualquer um. Estar junto na banca é uma eleição pra vida toda. Estar junto na banca, como orientadora, é um laço que não se desfaz mais, permanece. Fica aqui minha declaração de amor profundo por todos os meus orientandos.
Ao mesmo tempo, acompanhar processos de aprendizagem tem me ajudado a ser mais paciente comigo e com minhas imperfeições (tantas!), tem me ajudado a me (des)culpar pelos meus erros (tantos); por algumas coisas que sei que não tenho como conseguir, as minhas impossibilidades (tantas!); pelas decisões que eu não tomei sozinha, mas que foram se mostrando, elas mesmas, como estrada já construída; decisões em tempo de solidão, mas que eu esperei que amadurecessem e, de alguma forma, elas se mostraram minhas companheiras. Quando vi, estavam ali, diante de mim, como opção única. Eu só tinha que seguir adiante. Eu vejo as pistas da sequência da ‘minha estrada’. Não são exatamente as que eu queria encontrar, mas isso também não importa mais. Vejo que estou aprendendo, com sofrimento e alegria, a ler os sinais e a aprimorar o olhar, assim como a não me debater contra o que tem que ser. Não adianta lutar contra o Universo. Ele soberanamente ESTÁ.
Em meio às decisões ‘que se decidiram por si’, eu vivo também as alegrias das emoções partilhadas, dos amores possíveis, dos afetos intensos com os seres que Deus se incumbiu de me presentear, tornar presentes no meu dia, na minha vida. Só que tudo, cada encontro, cada vivência, tem sido sob a ruína da idealização, sob a morte das fantasias de outro tempo. Meu olhar de hoje tem poética, tem encantamento, mas também tem (des)ilusão, no que isso pode ser compreendido como um bem. Da série, vivo ‘a vida como ela é’, as pessoas como são, os acontecimentos como eles verdadeiramente ocorrem... enfim.. o possível. Então, sigo, amorosamente... assim, um dia, também vou embora.
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