sábado, 23 de julho de 2011

O homem que pode mexer nos meus cabelos....


Um dia, um dos meus filhos começou a bagunçar os meus cabelos (como se isso fosse preciso ou possível.. eles já são bagunçados por natureza) e eu o repreendi. Disse: “Não.. só quem pode bagunçar meus cabelos é Fulano”. Tá, não posso dizer o nome. O Fulano não foi consultado. Também não faz muita diferença pra você saber quem é Fulano. Fulano é uma incógnita, como “x”, lembra? Veja bem, eu disse “x”, que é um número preciso, específico, e não “n”... isso faz uma diferença, pra quem conhece um pouco da regra das incógnitas. Isso quer dizer que Fulano é alguém que existe, tem R.G., C.P.F., até passaporte... Sim, Fulano também tem passaporte. Não fiz nenhuma viagem internacional com ele, mas sei que tem passaporte. Fulano, claro, é alguém muito especial pra mim.

Eu conheço Fulano há muitos anos. Fulano é um espetáculo. Adquiriu a prerrogativa de mexer nos meus cabelos, porque adora meus cabelos, meus cachos. Penso que meus cabelos também o adoram. Eu adoro que ele adore. Sim, acho simpático que ele goste de algo que é tão característico meu. Costumo dizer que as pessoas que não gostam do meu cabelo dificilmente me entendem... Sou cacheada. Crespa. Às vezes mais cachos; às vezes mais crespos. Depende o dia. Na menina Luiza enamorada por tudo e todos.. os cachos contornavam o rosto, eram delineados pela mãe ou avó. Cachos, cachos, enroladinhos, formando espécies de túneis de segredos, de sonhos... Depois, a Malu adolescente encrespou de vez...deixou os cabelos crescerem... se rebelou, numa rebeldia ingênua, que só se soltou mesmo, mais tarde...na época da faculdade. Aí, sim, os cabelos cresceram e escresparam de vez.

Eu conheci o Fulano bem mais tarde... Meus cabelos ainda eram bem compridos, revoltadamente crespos... eram bem mais longos. Fulano é um homem especial. O jeito de olhar, de sorrir... Sério, do jeito que eu gosto. Justamente por isso, quando brinca, a brincadeira fica mais saborosa. Jeito de homem, homem, não de moleque! Fulano não é um qualquer. Fulano é o homem que pode mexer nos meus cabelos. E faz isso com maestria, desalinha, descabela.. acaricia...enrola...depois.... tudo de novo. Com Fulano, é bom se perder no tempo. Normalmente é o que acontece.

sábado, 16 de julho de 2011

Cinderela! Cinderela! Mas que mundo mesmo é o dela?


Gosto de escrever. Mais ainda de escrever sobre o que me emociona. O Grupo Gaia me emociona. Muito. É um grupo de dança de Porto Alegre, mas não é apenas um grupo de dança, o que já, por si só, significa muito. O Grupo Gaia é um grupo de pessoas densas, intensas, que põem na dança a expressão humana em movimento. O nome do grupo é sugestivo. Um grupo que se chama Gaia teria que ser assim, avassalador, como eles se mostraram, mais uma vez, hoje à noite, no espetáculo Cinderela Fashion Week!

Muitas coisas me encantam nesse grupo: a capacidade de reunir técnica e conceito, a aproximação das diferenças, a grandiosidade da expressão, o contágio de ‘afectos’ que se acionam quando ‘eles’ estão em cena. É sempre um gozo, uma alegria...vê-los voar ou calar...É interessante que, ainda quando ensimesmam e encarnam a densidade emocional tensa dos nossos dias, eles conseguem mobilizar, em nós, o prazer estético e nos fazem entrar em contato com sentimentos doídos ‘em estado de arte’. Então, porque - e só porque - ‘em estado de arte’... tratam até mesmo a substância que os faz existir.

Na passarela do Espetáculo Cinderela Fashion Week, diferentes subjetividades se expressam contrastantes. São ritmos e velocidades, alternando-se a exemplo das cenas contemporâneas das cidades. A convivência dos contrastes. A mutação constante. A fragmentação exacerbada que faz do sujeito ser dançante, convidado, o tempo todo, a ‘dar a volta por cima’. São cenas que também contemplam o sujeito fera, o ser que rasteja, que gira em si mesmo para se reinventar. Cinderela Fashion Week... na memória, cenas se misturam e fazem brotar os múltiplos caminhos internos acionados pelo, literalmente, ‘e-s-p-e-t-á-c-u-l-o’!!!!

Durante a apresentação, desfilam também diferentes humores, na caosmose pos-moderna de rupturas muitas. Humor, graça, riso, choro. O convívio entre o velho e o novo. Em meio à turbulência, a caixinha de música... os conflitos, os diferentes modos de amar, o abandono dos modelos cristalizados, o ato de despir-se, abandonar as máscaras e retomar as máscaras. Na convivência caótica, às vezes, retoma-se a repetição neurótica e, de repente, tudo se transforma em voo existencial, físico, na alma... a dança, em nós, também remexe as cinderelas internas, arcaicas, contemporâneas, na mescla das demandas cotidianas, tantas.

Depois... assim.. agora.. resta agradecer..o espetáculo tem uma potência mobilizadora de afetos que se destaca, nas produções contemporâneas que conheço. Sabedoria e alegria em corpo, movimento e pensamento. Adorei!

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Ideia que te quero 'idéia'


Há algumas coisas na vida que são difíceis de aceitar. Muito. Coisas que acontecem contra a nossa vontade e diante das quais temos que nos resignar. Tocar adiante, assimilar a mudança e seguir a vida. Não é nada confortável ter que engolir uma imposição existencial dessas, mas, fazer o quê? Nós não mandamos em tudo. Na verdade, mandamos em bem pouca coisa, ou, diria, pra ser mais exata, em quase nada... Bem, a situação a que me refiro é a mudança ortográfica da Língua Portuguesa, em especial no tocante à extinção do acento da palavra ideia.

Meu Deus! Quem teve uma ideia dessas? Por quê? A ideia com acento não incomodava ninguém. Ao contrário. Era uma ideia assimilada, a maioria das pessoas a aceitava como era, assim, com o acentinho ali em cima, marcando, destacando, pedindo a pronúncia aberta. Eu sei, sou uma jornalista, tenho que aceitar as normas da escrita, ainda mais as normas da Língua Portuguesa, que é a que adquiri primeiro. Não tenho que me rebelar. Como jornalista, sou uma guardiã das regras, para garantir o resultado maior, que é a boa comunicação. Regras e criatividade, experiência amorosa nos processos de escrita. Sim, eu preciso das regras, tento segui-las e vivo, no trabalho de supervisão de texto, ajustando dizeres dos outros às regras tantas, de várias gramáticas, verbais, visuais, audiovisuais, internéticas... ah.. claro, as da escrita científica também.

Também sei que as mudanças ortográficas foram resultado de muita discussão e que vêm como uma orientação maior. Tudo bem, mas não estou convencida da importância/necessidade de retirar o acento de ideia. O acento parece uma iluminação, a indicação de um devir realização e, nesse sentido, sem acento, a ideia parece perder a força... Eu gosto tanto das palavras que muitas vezes fico pensando na relação entre as suas dimensões de significantes e o seu sentido. Explico, cada palavra tem um som e uma grafia, que resultam no sentido que lhe é atribuído pelo grupo que a ‘cultiva’... então, nessa combinação, algumas parecem fazer mais sentido, em sua expressão física, som ou imagem das letras, outras nem tanto. Entendem? É isso que está se rompendo com a mudança ortográfica que retira o acento de ideia (eu não posso escrever com acento... mas... vocês sabem...tem que ler como se acento tivesse). O acento projetava a palavra, o sentido dela... sem ele, a ideia fica sem projeção, tem que se aquietar e se limitar às letras que a constituem, ali, ensimesmada no i-d-e-i-a. Isso não é próprio de ideia. Não é não.

Bem, eu sei que coisas como essas, que se interpõem em nossas vidas... dramas existenciais que rompem com nossos hábitos, nossas preferências narrativas, de inscrição na vida... são assim, compulsórias, porque fogem da nossa alçada, do nosso campo de decisão. Estão nas mãos do outro, das outras pessoas. A nós, basta refletir e seguir...aceitando e vivendo a adaptação ao rumo que a ‘prosa existencial’ tomou. Não era o que eu queria. Não era o que eu preferia, mas eu já estou bem grandinha pra me limitar a queixas e reclamos. Se não posso mudar, sigo adiante... incorporo no cotidiano. Ao menos, as minhas ‘idéias’, aquelas que vivo produzindo nessa prática cotidiana de invencionices...brotam com acento, com devires, com projeção para a realização. Depois... bom, depois não depende de mim... é o universo quem manda, a lei maior, a lei do Outro.

domingo, 3 de julho de 2011

Família que consegue gargalhar unida...



Estou com a cena na retina. Ontem à noite, em meio ao jantar em família, por um motivo corriqueiro, desatamos todos a rir... a gargalhar. Lembro que, ao mesmo tempo que me soltava às gargalhadas, em função do ocorrido, olhava cada um dos meus filhos e conseguia pensar: “Meu Deus, que espetáculo! Minha família unida no desequilíbrio do riso!”. Vocês sabem, eu sou uma criatura reflexiva. Então, tudo que vivo me serve para amadurecer, pensar... saborear a intensidade dos significados, em busca do ‘sentido da vida’. Assim, também uma cena familiar corriqueira instiga a reflexão, possibilita a emoção da vivência... convida a pensar o que há, na cena, que me diz que estou em outro momento. Ao menos, agora também voltei a desequilibrar no riso, não só no choro.

As pessoas que me conhecem mais de perto sabem que vivi, nos últimos anos, duros momentos, desafios imensos, dores inenarráveis (puxa, que palavrão..dores impossíveis de narrar, eu quis dizer). Enfim, tudo tem seu preço e tudo passa. Tudo tem um motivo, para fazer crescer, amadurecer, embora, claro, no momento em que se vive, nem sempre a gente compreenda. Entendo hoje bem melhor os caminhos dessas tortuosas linhas da vida... rumos que eu não pensei... não quis, mas tive que trilhar. Já disse, mas vale repetir: sei que existe uma ‘escrita maior que tece nossos destinos’. Não importa o nome que se dê: é o movimento cósmico, que conspira e nos faz girar; é Deus impondo seu Grande Texto... O certo é que é maior que nós mesmos.

Eu tenho sido, é verdade, uma leoa, para enfrentar tudo isso. Às vezes, parece que vou esmorecer. Tantas vezes, eu caio aos prantos, mas quando vejo meus filhos assim, como vi ontem, às gargalhadas... quando me sinto também, enfim, imersa numa cena de desequilíbrio pela alegria... eu reconheço a imensidão dessa Força Maior agindo e permitindo tudo isso. Que alegria! Meus filhotes estão crescendo e, com eles, meus desafios. Mas tudo isso é muito bom! É intenso. A maternagem é um dos meus grandes exercícios e sustentos existenciais.

O motivo das gargalhadas não importa muito. Era algo do grupo familiar. Às vezes, para alguém de fora não faz sentido, pelo menos não o sentido que faz pra nós. A graça toda vem do quanto nos conhecemos e nos misturamos. Há textos intuídos, submersos na rede de afetos que nos une. Olhares que desencadeiam frases internas, discursos antigos que nos produzem e constituem. É lindo isso! Nas famílias, há ‘cacos’ de frases, pedaços soltos que nos provocam pensamentos similares, lembranças de outras vivências. Isso vai nos amarrando numa trama de afetos pra vida inteira, nos fazendo parecidos em uma série de aspectos. E permitindo que nos reconheçamos, nas diferenças. Ainda: construindo o respeito por essas diferenças. Respeito e amor profundo, imenso, pra sempre.

Assim, os ‘filhos da Malu’ têm um vocabulário comum. Eles também se unem para ‘falar de mim’, como a ‘grande chefe do clã’, para tentar subverter o meu poder, para brincar com meus jeitos e trejeitos, minhas manias e frases prontas: “É o final dos tempos! O mundo acabou e esqueceram de me avisar? Tá se comparaaando a mim?”. Eles repetem as frases, zombando de uma prática de quem se esforça para botar ordem no grupo. Sabem que eu me debato, na vida, para fazê-los pessoas do bem, que sou cheia de defeitos, mas amorosamente esforçada. Eles também têm a segurança do meu afeto, o que permite brincar, às vezes – nem sempre, porque a italiana aqui é também uma fera, uma leoa. Mais que ninguém, eles também sabem disso, com certeza.

É engraçado... Uma pessoa como eu estudar tanto coisas de Psicologia da Comunicação e, depois, vivenciar todas na pele...Nem sempre é engraçado, mas ontem foi. Muito.

domingo, 26 de junho de 2011

Força e choro...



Eu faço tanta força para viver, fazer o que tem que ser feito... Visto-me de muralha, ser sujeito prático operacional. Vetor racionalidade, pra suportar as intempéries. Tudo tão necessário. Seguir sozinha, em tantas situações... chefe de família. Encaro as coisas como tem que ser. Procuro vê-las como são. Não tenho mais tempo para viver sonhando apenas. Eu faço o meu dia. Eu faço e aconteço, ao menos no que me cabe. No que não me cabe, provoco.. se não acontece, eu sigo. Não páro. Realmente, me constituí uma pessoa forte. Uma mulher forte.

Só que, às vezes, quando olho uma filha chorando... ao se distanciar de mim...me ‘des-monto'... 'des-ando'.. 'des-águo'.. num choro frouxo, que parece um pranto que verte também por todas as situações em que não me permiti chorar...é como se aquela expressão no vidro do ônibus acionasse a menina em mim...Então, eu também me permito chorar. Permito ‘me ameninar’...embora isso tenha acontecido cada vez menos...por motivos vários.

A vida é muito linda, mas também é muito exigente... emoções à prova o tempo todo... Eu sou, sim, uma fortaleza humana, mas também sou frágil, também sento e choro ou, mesmo, choro caminhando, onde estou. "Que me vejam...", penso. Às vezes, o meu choro é a minha verdade. Como hoje. É o que me lava, é o que me leva para um outro lugar, para uma nova condição. O sofrimento também vai forjando uma outra Malu, mais forte. Desse jeito, assim emocionada... mesclando a força e a choro... a alegria e o riso... me derramando em lágrimas e alegrias , eu sigo...

sábado, 14 de maio de 2011

A MATEMÁTICA E O AMOR



É madrugada. Mais uma vez é madrugada e cá estou eu a escrever. Muitas vezes me acontece isso, de um texto começar a brotar na minha cabeça e ficar remoendo... ecoando, até que eu dou um jeito, mesmo tendo pouco tempo, acabo não resistindo e me ponho a escrever. Pôr pra fora. Deixar vir a ideia, já que há tantas lá dentro. Não é à toa que minha cabeça dá sinais de cansaço. Sobrecarga de informação. Literalmente, muito pensamento. Se não cuidar, isso gera entropia e o processo trava. Sabe aquelas situações: “este programa executou uma operação ilegal e vai fechar. Em caso de persistência contate o fornecedor”? O problema é que esta configuração já não é nova e o fornecedor acha que o sistema tem que ser preservado. Não adianta sair trocando peças...bem, mas não é disso que quero falar neste texto. O assunto que tem se remexido no meu cérebro é a ‘matemática do amor’.

Talvez seja porque eu estou dando supervisão para um doutorado da Matemática, neste momento, e também porque falar de amor é uma espécie de defeito de fabricação desta Luiza, do ‘fundo do baú’. Ela é a base geradora da Malu amorosa, mas a diferença é que ela é mais terna, linear – no sentido de coerente com seus princípios -, mais chorona e mais serena, sob um certo sentido. Sim, talvez venha dela também esse resgate da Matemática, que sempre foi seu objeto de adoração. Luiza venceu uma Olimpíada de Matemática, quando criança. Compenetrada, estudiosa, não se detinha apenas nas letras. Divertia-se com as equações, os exercícios de álgebra. É estranho alguém se divertir com isso? Para Luiza, não era...achava uma graça o fato de que, exercitando, descobria o ‘jogo lógico’ da coisa e aí era uma questão de raciocionar e seguir uma matriz: pá pá pá pá... não.. não podia esquecer o detalhe, se não invertia todo o jogo... atenção extrema... o sinal... o expoente...cada elemento da equação anunciava um desfecho.

O amor não se resume a equações, é verdade. Mas também, com o tempo tenho aprendido, acho que com a Luiza ‘do fundo do baú’, a descomplicar as equações. Tenho a impressão que há um mundo de voltas e enredos e dramas que foram agregados à matemática do amor, em geral, complicando a ‘equação’. Tenho me proposto, então, o exercício de descomplicar e retomar o jogo lógico, quase matemático... ao mesmo tempo em que a supervisão do texto da tese da minha cliente tem me provocado a refletir sobre a presença da Matemática na vida, na formação do sujeitos.

No amor, hoje, eu penso que o jogo é também simples, dependendo de como a gente o vê. Ama. Não ama. Nos dois casos, a situação está completa. Ama e ponto. Não ama e ponto. Não é preciso fazer nada depois disso. Não há nada igual, nem diferença. Não é preciso somar, multiplicar, subtrair e, claro, muito menos dividir. O outro não precisa fazer nada e a gente também não. Ama-se. A própria palavra se volta para si mesma. Observem: A M A. Gosto disso. Amo. Como num jogo matemático em que tanto faz começar do início ou do final.... o que vale é AMA. Assim, a Matemática do Amor é completa. Ela se fecha em um número completo, um número Cardinal. Talvez a Luiza Cardinale também esteja amadurecendo o seu jeito de amar...segue tentando, ao menos. AMA.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Histórias de onça 1


Por entre as árvores, a onça vai se esgueirando, buscando caminho novo...tentando achar saídas para a vida. Há pouco ela aprendeu a subir a montanha, subiu a serra. Na verdade, ela busca alimento para os filhotes e para si própria. Não só alimento concreto, substância para aplacar a fome do estômago, mas busca alimento pra alma, pra vida toda. Algo da ordem de um tipo de substância mais ampla, que sustenta a existência, promovendo caminhos, atalhos, picadas, construindo pontes para as realizações. A onça não pára.

A onça não dorme. Quase nunca se cansa, mas quando isso acontece, se deixa adormecer, exausta, diante da tela das águas. A onça também chora, às vezes, de cansaço. É um choro ‘riscado’ no rosto de onça, desses que mais parecem um desenho-lamento, porque a onça, mesmo sendo onça, também se cansa de ser sozinha, de ter que enfrentar a floresta toda, vencer seus medos, enfiar-se por entre os meandros das brechas das cachoeiras, do lugares úmidos e sombrios, de dia, de noite, de madrugada. Saltar, deparar-se com animais perigosos. Enfrentar seus próprios fantasmas. Onça também tem medo. Onça, na verdade, também se exaure. Não é sempre, mas também acontece. Quando isso ocorre, ela se entristece e, nesses momentos, chora esse choro riscado que eu falei, que brota da alma da onça, que fica ainda mais brava por estar chorando. Acha ridículo onça chorar, mas as lágrimas não sabem disso. Lágrima não entende. Lágrima só sabe chorar e esse choro brota em quem tem sentimento. Onça tem sentimento. Ah.. tem sim... e como!

A onça chora também por amor. Onça também se apaixona. Onça se apaixonou. Ela também já entendeu que paixão existe pra isso mesmo: pra viver lindamente o encanto e, depois, tristemente desencantar-se, porque paixão é imensamente forte, tem o componente da ilusão que tudo faz brilhar, que tudo encanta...mas também o líquido que corrói o sentimento e faz vir à tona, a imagem verdadeira do amor da gente. É como é.. inteiro. Então, a onça chora a falta do seu ‘véio’ que ficou lá atrás, resgunguento, resmungão, discursando... se esforçando pra brigar, pra que a onça fosse embora. Ela não queria. Tentou o tanto que pôde, mas ele brigou tanto, se esforçou tanto, que a onça entendeu... Tá, vou seguir meu rumo, vou tomar prumo, não parar... tentar não olhar pra trás. Vez por outra a onça olha (desobediente, com o destino). Deixa-se tomar por lembranças lindas, da porta, o corredor... e os outros caminhos da floresta. Olha e chora. Também olha e sorri, feliz por ter vivivo ... o que foi vivido. Às vezes, balança a cabeça e sai xingando, também resmungando (acho que isso é doença que pega): “Idiota esse meu véio. Abriu mão do maior amor do mundo. Deixa. Pra ele é importante. E o importante é isso. Ele está feliz. Assim como tem que ser”.

A onça então mergulha no rio das lembranças, escorrega no lodo das tristezas, mas não retorna. Se enxágua, chacoala... se balança toda e quase nova, renovada, segue. A onça, então, salta, caminha. A onça tem foco, a essas alturas da vida. O foco são os filhotes, seu sustento...da alma, da existência. Este é o foco maior. Ela também se reconhece como fêmea onça e entende que às vezes é preciso encarar uns leoes mais valentes, mais destemidos, desses que têm mais coragem de saltar nos braços da onça... sem medo de se aprisionar. Esses leões são sempre recompensados pela sua coragem... Seu véio leão ficou lá atrás, às voltas com outras criaturas, que nem ela sabe bem a raça, a estirpe.... melhor não saber... a onça não quer saber. A onça é ciumenta. Melhor deixar assim... seu véio é rabugento, mas maravilhoso. Certamente, haverá muitas outras criaturas para estar ao seu lado... a onça quer o seu véio feliz. A onça ama de verdade! A onça não fala que ama à toa.

O bom...de tudo isso é que a floresta é grande. A onça encontra também outros leões... a vida segue... Existem verdadeiramente leões também interessantes... A onça também está conseguindo arrumar sua nova morada... a alegria de construir novo lugar para pouso... para repousar e também para ganhar forças e continuar a caminhada, no outro dia, quando haverá mais sol, quando a chuva for mais suave e terna, quando as águas jorrarem alegria, para fazer alegres as folhas e flores e árvores, da floresta... Meu Deus, penso que isso vai acontecer quando a onça aprender a não querer se amarrar sempre nos mesmos cipós e ficar balançando feito chita... Isso não está certo. Onça não é macaca.. .onça sabe ir embora... e que alguém diga isso para o meu coração, por favor... porque ele é um coração meio ‘ignorante’.. ele não sabe nada de onça... só sabe de querer bem meu bem querer... a única coisa que me consola... é que, na sua demora, ele amadurece a partida e, quando dispara o movimento... aí sim.. me faz viver feito onça. De verdade. Está quase!.