sábado, 12 de fevereiro de 2011

Tontice de Nascença


Uma das coisas que acontece é que não gosto que me façam de tonta, ou que pensem que estão me fazendo de tonta, porque, de tonta mesmo, eu tenho alguns traços, mas são raros. E mesmo esses traços são meus, assumidos, não é que alguém, fora de mim, tenha condições de provocar a minha tontice interna. Não. Eu já tenho isso instalado, configurado de nascença. Natural. Tontice de fábrica, digamos assim. Todo mundo tem um pouco. Até quem não se dá conta. Tem gente que pensa que não tem nada de tonto. Esses são os mais tontos. Esses aí às vezes perdem grandes oportunidades, empregos, projetos, amores, só porque não querem parecer tontos. Tontos!

Parece que à medida que nos relacionamos vamos ficando mais ressabiados com o risco que temos de nos tornarmos ‘tontos’ para os outros. Bobagem. Ser um pouco tonto, em algumas situações, por amor, por medo, por ansiedade ou qualquer outro sentimento humano é quase uma predestinação. É daquelas coisas que, quanto mais se teme, mais acontecem. Então, melhor relaxar. Deveria, inclusive existir um verbo. Não, eu sei. Existe o verbo tontear, mas não é disso que estou falando. Proponho, então, a criação do verbo ‘atontecer’, cujo significado seria ‘acontecer tonto ou tonta’. Assim: eu atonteço, tu atontece, ele atontece, nós atontecemos, vós atonteceis, eles atontecem. Pra mim, está bem, Infelizmente, eu ‘atonteço’ mais que gostaria, embora, como disse, esse ‘atontecimento’ seja produzido a partir de uma mobilização interna. Quer dizer, é acionado por mim mesma.

Claro que tenho tentado desconfigurar esse ‘programa interno’ de ‘atontecimento, mas isso não é nada fácil. Parece algo semelhante àqueles programas de acesso à internet, que recebíamos em casa, há algum tempo. Quem era louco de acreditar, instalava aquilo e depois morria tentando desinstalar. Bem.. eu não tenho como morrer, já expliquei isso em outro texto.... Então, sigo....tonta, mas por conta própria.

O chato mesmo é olhar em volta e perceber o quanto as pessoas se divertem, têm prazer, em achar que estão fazendo a gente de tonta. Acham que conseguem ‘enrolar’, acham que a gente não percebe. Putz! Eu fico realmente furiosa com isso. Ainda mais porque sei a minha mobilização para as pessoas, a minha orientação de acolhimento, de afeto verdadeiro, genuíno, de cuidado mútuo. Então, olhar para as cenas e entender, pelo detalhe, pela minúcia, que, por dentro, a pessoa está tentando te botar numa situação de ‘atontecimento’, pelo simples e bel prazer de tirar uma ‘vantagenzinha’. Mais doído ainda é quando acontece com alguém que a gente gosta.

Uma vez, uma pessoa me disse o seguinte: “Eu tenho uma arma contra você! O teu sentimento. Você gosta tanto de mim, que eu consigo tudo o que quero. Você não faz nada.” Era uma pessoa doente, que eu realmente amava muito (e ainda amo, em certo sentido). Tive que aprender a me defender ‘do meu próprio sentimento’, fortalecer o ‘eixo’ de mim mesma, para que essa pessoa fosse colocada no seu lugar, longe de mim, apesar do meu amor. Tive que aprender a abrir mão e a deixar claro que, na lista de prioridades, eu não estou no fim da fila. Fiz isso, continuo fazendo. Reconheço, no entanto, que algo de razão essa criatura tinha. Meu amor desmesurado, esse jeito de amor derramado, de entrega intensa, tem, por característica, me trazer problemas. Muita gente não valoriza isso e, mais, ao ser dar conta que está no terreno do substrato amoroso, se sente à vontade para fazer o que quiser, tratar de qualquer maneira, ‘des-cuidar’, tentar fazer (de) tonta. Isso é grave, para mim, mas eu percebo que não é só para mim. É uma pena!

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Leoa furiosa: Não se aproxime!


Hoje é um daqueles dias que tenho que tomar cuidado para não jogar tudo fora. Mas tudo mesmo. Quando preciso de algum texto, abro com cuidado as pastas, porque a sensação é que se eu me deparar com alguns arquivos, em especial, vai tudo pra lixeira...

Sabe, eu sou uma pessoa otimista, procuro enfrentar tudo sempre, de peito aberto, com coragem, mas há dias que a gente cansa... Hoje é o meu dia de cansar. Mas eu, como leoa, me canso de um jeito diferente. Fico brava, quando me canso, parece que fico girando na jaula, de um lado pra outro, produzindo sons de fúria de leoa. Bem, não preciso dizer, a recomendação, nesses casos, é: “Não se aproxime!”.

Um ser como eu não nasceu pra ficar quieta, parada, esperando, passivamente, que os outros seres se movimentem na floresta e façam sua parte. Eu quero estar junto. Na lida. Na linha de frente, participando, de alguma forma. Tá. Eu sei, isso é traço de controladora... mas também é de amiga, de gente que se entrega pra o que tem que ser feito. Às vezes, fico pensando que sou um ser antissocial, porque, se não tenho paciência para esperar que as criaturas outras se movimentem, é porque eu quero que se movimentem no ritmo que eu quero... bah... profissionalmente é de enlouquecer isso...pessoalmente também...

Gestão de pessoas, conviver, entender que o movimento não é só nosso, que dependemos (sempre dependemos) de muitas outras pessoas. Não há como fazer as coisas sozinho. Não há como ser feliz sozinho. Depois, reflito melhor, penso que não é tão dramático. Afinal, acho que pra antissocial eu não sirvo...sou educadora, empresária, estou rodeada de pessoas, amorosamente, em todos os sentidos. Não tenho do que reclamar, geralmente, só às vezes.

Tenho claro que minha impaciência com as pessoas é algo que está errado em mim. Então, tento me corrigir. Calmamente me convenço que cada um tem seu ritmo, que as pessoas têm outras ocupações, preocupações, que tal e tal e não sei quê.. mas quando vejo o tempo passando e as coisas não ficando prontas, como deveriam estar... Quando depois me dizem: “Ah, mas isso.. Ah.. mas aquilo”, tentando disparar a metralhadora de culpas ou ganhar tempo... eu penso que é melhor não falar nada. Se eu falar, vou brigar. Se não quero brigar.. não digo nada. Então, por outro lado, fico pensando, neste caso, que se eu não estou falando mais é porque já estou desistindo.

Na verdade, eu sou uma criatura muito brava. Minhas crianças dizem, umas para as outras: “Se você fizer isso, vai enfrentar fúria de Malu!”. Não é recomendável. Da série: Ministério da Saúde adverte: Fúria da Malu faz mal à saúde! Lógico, tento conter.. brinco... abstraio.. me concentro...mas chega um ponto que eu também desisto. Certo, esse ponto demora a chegar, porque minha amorosidade extrema faz com que eu persista calmamente, tente librianamente, de todas as maneiras, manter as histórias, profissionais e pessoais. Exercito isso, evito demitir, evito romper, evito terminar histórias. Tento aceitar as pessoas como são, na convivência, honrando o amor, a amorosidade, lembram? Faço isso na gestão profissional e das relações pessoais. Às vezes, fico em dúvida, penso que demoro mais do que deveria...mas é o meu jeito. Ajuda a ficar tranquila, depois, quando eu penso que fui até as últimas consequências. Só desisto, quando entendo que ‘é impossível’ continuar.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Encontro de leoas 4: a leoa e a 'leoazinha'



Maria Luiza: Eu achei, sinceramente, que, na dureza desses tempos, na turbulência do cotidiano, como diria o Skank, você não apareceria.

Luiza: Estou sempre aqui. A senhora bem sabe. Eu e a Malu tomamos as grandes decisões, sempre, enquanto a senhora discursa.

Maria Luiza: Mas olha só, a 'leoazinha' apareceu e apareceu valente. Isso hoje. Ontem estava aos prantos, com o final do livro que estamos escrevendo para o Sindicato dos Comerciários de Carazinho.

Luiza: Aos prantos, não. Estava emocionada, é diferente. A senhora também deveria estar, depois de tanto trabalho, ao reler o último texto, em que nos despedimos dos leitores e agradecemos a amizade de todos. Emoção por tudo, pelas pessoas, pelo carinho, pelo amor envolvido, pelo trabalho de Jornalismo da Malu, as idas e vindas a Carazinho, as viagens... eu me emociono.

Maria Luiza: eu sei de tudo isso. Só eu sei bem de tudo. Não fosse você e a Malu e esse raio de emoção derramada as coisas seriam mais fáceis. Será que vocês nunca vão aprender a fazer as coisas sem se emocionar tanto? Vocês vieram com defeito de fabricação instalado. São descompensadas emocionalmente. Você, então, nem se fala... vive sempre no limite da poética da existência. A Malu, ao menos, é impulsiva, e isso, às vezes ajuda (atenção, eu disse às vezes, que ela não me escute).

Luiza: Bem, defeito por defeito, eu prefiro os meus. É melhor do que o seu, nesse jeito prático de encarar a realidade o tempo todo, de tentar enxergar tudo às claras, sua obsessão pelo real, o real. Mas que real? Eu cresci acordando de madrugada para ler histórias e já chorava e sofria com os personagens. A ficção já era parte da minha vida...agora vou ter que viver tudo no real?..Isso é impossível. De certa forma, eu sei que sou um ser da ficção.

Eu não sei de onde a senhora arruma tanta frieza, para tantas vezes, só virar as costas e seguir adiante, ir embora, pisando firme. Faz cara de brava e vai em frente, enquanto eu fico me demolindo aqui dentro.

Maria Luiza: Eu sofro também, mas de nada adianta. Sou descendente de gente que atravessou o mar para buscar uma nova vida, para reinventar a Itália, aqui nessas bandas. Gente que aprendeu a engolir o choro porque ninguém valoriza quem chora. Eu
não tenho tempo para me derramar em lágrimas. sou uma pessoa que não tenho tempo para adoecer nem para falecer.

Uma vez, atendi uma ligação de um vendedor de seguros de vida. Achei graça até. O rapaz, com uma conversa típica de telemarketing, queria de todas as maneiras me convencer a comprar um seguro de vida. Eu o indaguei: mas pra quê? Você não tem noção. Uma pessoa como eu tem estabilidade na vida. Mãe de quatro filhos, divorciada, microempresária, educadora, jornalista. Como é que vou morrer? Tá doido?

Ele não aceitava muito. Tentou argumentar que ninguém sabe o que vai acontecer, que ninguém prevê o futuro. Eu respondi: 'Mas é uma questão de lógica! Vivo movida pelo jornalismo (da tal Malu aquela que você conhece). Como empresária, também vivo de informação e intuição. Não há, no cenário, digamos assim, nenhum indício de falecimento da Malu, nem meu, nem de você ou da Cardinale e as outras. Sei lá... se o resultado é bom eu não sei, mas que eu tenho um monte de tarefas.. .ah isso eu tenho...então não tem lógica. Aquele Senhor que tudo comanda não vai me tirar daqui tão cedo. A lista que ele me deu é imensa. Então, eu sigo tentando.

Luiza: Então aproveita...

Maria Luiza: Claro... claro.Agora conta a do papagaio que essa é muito boa. Quem aproveita é a Malu, que sai fazendo o que lhe dá na telha. E depois pergunta: o que deu errado? Mas não era verdade? (quando pergunta, porque aquela lá é a empáfia pura...vive se quebrando e acha que está certa ainda, a apaixonada por natureza, criatura desmedida). Eu tenho é que apagar os incêndios que ela arma, reacende - a tonta - e conter as enchentes que você produz, quando você desagua.

Luiza: (olhando pela janela do ônibus) Olha que bonita a serra gaúcha! Estamos indo a Caxias, para iniciar um projeto novo de trabalho. Nem tudo vai ser como eu queria, mas penso que vai ser lindo... a vida mudando, o movimento... a estrada...recomeço, ainda que diferente do que pensamos..recomeço.

Maria Luiza: (pensando) Pronto. Começou o delírio. Ela já se soltou na linha da poética da existência. Melhor não dar corda. Fazer de conta que não percebo. Luiza é assim. Se eu der bronca e largar umas verdades 'verdadeiras'...ela desaba no choro e aí vai o dia inteiro. Melhor não falar nada. É uma questão de custo-benefício. Vou continuar listando as tarefas e fazendo alguns contatos pelo celular. Daqui a pouco estaremos em Caxias e tenho o dia cheio.

Maria Luiza: Tá. Então tá.. é sim.. tudo lindo (melhor não contrariar). Depois falamos mais.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Encontro de leoas3



Malu: E então? Dona Maria Luiza, o que me diz do rumo dos acontecimentos?

Maria Luiza: Hum, se você vem puxar assunto é porque tem carta na manga...tá o que você quer? Já sabe que não ando lá com o humor em alta... só aquele natural de instinto de sobrevivência. Então desembucha!

Malu: É que eu acho uma graça, a senhora andando de ‘coleira’ por aí, nesse calor.

Maria Luiza: Isso não é uma coleira, é um colar para a coluna. De vez em quando eu preciso, em tempos de ‘muuuittta tranquilidade’...período que é praticamente um ‘spa’(tifei) na curva, digamos assim. Uma delícia....realmente... meu sonho de criança....

Malu: Então, se me ouvisse mais... não precisaria viver de ironia.

Maria Luiza: Se te ouviiiissseeee mais?!? Ah tá, agora você pirou de vez. Se eu te ouvisse mais aí eu estaria internada ou no fundo do rio. Digamos que eu sobrevivo a você. É o máximo que consigo...Por enquanto só estou com um colar para a coluna. Se você continuar agindo daqui a pouco vou me amarrar... bem, você sabe, isso já aconteceu uma vez.

Malu: Sim, risos.. patético.. estávamos indo para a Unisinos. De trem. No estilo de sempre...Malu Maria Luiza e seus lenços italianos e bolsas atravessadas, mais pastas com materiais dos alunos.. mais sacolas com compras no centro. Passamos para comprar o nosso perfume aquele, que não revelamos o nome nem sob tortura. Aquele que é a marca da Malu.

Maria Luiza: Minha marca também, minha cara.. minha também...perfume francês dos melhores.

Malu: Claro, claro, ainda não chegamos ao ponto de conseguir diferenciar os eus através dos perfumes. Além disso, talvez seja um dos únicos pontos em que concordamos...o perfume esse.

Maria Luiza: Sim, porque no restante não dá pra chegar a um acordo contigo...

Malu: Tá não começa reclamar.. mas aí...entramos no trem, lotado, como sempre. Sentamos depois de um tempo e quando chegamos na estação da Unisinos.. pimba! Era tanta coisa...lenço, pasta, sacola e tudo.. que tínhamos nos amarrado... os braços estavam presos. Você, ‘sensata como sempre’ optou por levantar, como se nada tivesse acontecido. Claro, ninguém ia pensar que uma criatura tinha conseguido amarrar a si própria com lenços e bolsas. Saímos e, depois, encostadas num pilar... fomos, discretamente, desatando os nós de nós mesmas (os que podiam ser desatados, é lógico, porque os internos.. ah.. esses são mais complexos)....Hilário. Conclusão óbvia: por isso eu tenho uma coleção de lenços italianos. Em casos de muuuuitttaaa loucura, extrema mesmo, você pode me amarrar.

Maria Luiza: Sim, então, vou te amarrar todos os dias, de manhã bem cedo. Hum.. será que também dá pra amarrar cérebro? Assim você não teria mais essas ideias malucas que tem.. e me deixaria planejar a vida mais serenamente, mais racionalmente, apenas orientada pelo motor operacional.

Malu: Ah... sei. E você acha que ia ser feliz assim? Sem minhas maluquices?

Maria Luiza: Não, penso que não. Mas a vida seria mais calma, sem tantos sobressaltos... eu estou buscando paz no coração e você é um vulcão! Não combina. Eu tenho que focar no trabalho e você vive de amorosidades...vive rodeada.

Malu: Vivo rodeada, não. Você sabe que tenho foco, nesses assuntos. São amorosidades diferentes. Nem vem...

Maria Luiza: Bah.. quando escolhe um foco, aí é pior... vamos deixar pra outro dia a sequência da conversa. Agora chegou num ponto em que não há acordo messsssmooooo.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Óculos são seres sensíveis!



Meus óculos são seres sensíveis. Acordaram ontem em crise. Uma das lentes estava se soltando... Uma crise existencial, imagino. Não sei se porque os encontrei jogados em meio à roupa de cama. Muitas vezes, quando estou sozinha, acabo adormecendo de óculos. Já pensei nisso. Acho que fico com medo de não enxergar bem nos sonhos. Sério. Fico com a sensação de que, se dormir sem óculos, vou sonhar ‘sem óculos’ também. Bobagem, com óculos também não enxergo. Tanta coisa que me passa batido no dia a dia. A imagem. O olhar. Os espelhos humanos. Essas são questões muito caras pra mim, muito especiais, mas, ao mesmo tempo, sempre armadilhas humanas, justamente porque têm um vínculo direto com o mundo dos afetos.

A imagem pode ser pensada como composto de características visuais, na sua dimensão mais técnica, mas prática, mais concreta. Muito além disso, o plano de significação se constitui na trama afetiva que os feixes informacionais dessa imagem constituem. A trama dos afetos, do que afeta o sujeito ‘olhador’, para citar a expressão de Marcel Duchamp. Aí, pra variar, a coisa complica. Na USP, em disciplinas com Eduardo Peñuela Canizal, um dos meus mais queridos gurus intelectuais, eu tive contato com a poética das mensagens não verbais e a ilusão especular e o mito de narciso, em dois momentos do mestrado e doutorado que considero momentos ímpares. Entre tanta coisa que aprendi, refletindo sobre imagens e suas significações, uma delas tem significado especial: na imagem, a não nitidez remete o sujeito ao inconsciente. O que não é totalmente nítido, gestaltico, insinua e aciona instâncias internas do plano dos afetos do sujeito receptor, provocando sensações que interferem na significação da imagem.

Assim, se a não nitidez remete o sujeito ao mundo do inconsciente, entendi também que existe toda uma lógica no fato de que sou muuuuiitttooo míope. Então, pensem o que quiserem, em mim, até a miopia é conceitual, tem uma consistência conceitual, que é coerente com essa minha tendência ao abstrato. Não teria lógica que eu enxergasse tudo nítido. Não é da minha natureza. Claro que às vezes exagero e ponho lentes muito particulares, especiais, que encantam as cenas. Faço de uma cena simples ou fala espontânea, por força do momento, um ‘episódio existencial’. A fala aciona uma trilha de sentimentos, que provoca um fio narrativo. Talvez por isso também trabalhe com publicidade. Um filtro de água é um filtro de água, tem suas funções de filtro de água e tal... características técnicas. Segundo a publicidade, um filtro de água representa o carinho que você tem pelos seus filhos, o cuidado com a saúde deles. Sua preocupação com qualidade de vida. Enfim, a publicidade põe as lentes do valor emocional agregado e isso gera um certo encantamento pela coisa publicizada.

Por sorte, também tenho minhas zonas de nitidez. Meu motor prático operacional acionado que me faz voltar ao prumo, meu lado empresária e de planejamento. Então, entendendo que andei me descuidando com as imagens, me soltando muito no mundo do inconsciente, fui ao oculista. Bingo. Meus óculos estão fracos. Óbvio, como eu deixei isso acontecer? Como deixei tanto tempo sem renovar? Talvez seja minha meninice arraigada e a ideia (ilusão) de que o mundo do inconsciente pode trazer de volta alguma coisa perdida, uma cena. Não pode. Mundo inconsciente é como mundo virtual. Simula, provoca, insinua, mas não entrega. Então, na imagem e na vida, penso que é importante combinar. Não dá pra viver só um ou outro. Por via das dúvidas, já encomendei óculos novos... talvez isso ajude alguma coisa...

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Ninguém tem paciência com o jovem adulto!


Eu tenho dito que um dos problemas do jovem adulto é que ele tem uma metralhadora de desejos dentro de si. É semelhante ao que ocorre na adolescência, com a diferença de que, como diria o Chaves, ‘com o jovem adulto, ninguém tem paciência!’. A adolescência é publicamente reconhecida como uma fase de encrencas, de explosão do sujeito dentro de si mesmo. Então, uma certa revolta ou uma revolta inteira são comportamentos esperados (‘be suppose’ – é esperado que o adolescente tenha certa quantidade de ‘pitis’ e seja indeciso, inseguro, arrogante, petulante, dependente querendo demonstrar o contrário, enfim, um poço de contradições (na verdade, como observam, é um ensaio para ser adulto, as contradições permanecem, por bom tempo e há pessoas em que elas não passam).

Só que o jovem adulto tem tudo isso, com o agravante de que a sociedade e a família já ‘esperam’ uma outra configuração existencial. Ele ainda tem, em si, a metralhadora de desejos, a insegurança, é marcado pela autoestima sempre em xeque (por isso, precisa o tempo todo demonstrar que pode, o tempo todo provar pra si e para os outros que está bem, que ‘é o cara’ ou ‘a guria’. Por isso também, às vezes, não consegue escolher com quem ‘ficar’). O jovem adulto é cobrado, é muito cobrado. Tem que começar a apresentar resultados, para uma sociedade pautada pela produção. Quem está em volta começa a olhar.. meio que perguntando: e aí? Quando vai começar a trabalhar? Se namora, ele é cobrado porque namora, supostamente perdendo tempo que deveria usar para estudar e se preparar para ‘um futuro melhor’ ou para se dedicar ao trabalho...com a mesma lógica. Se não namora, também é criticado, porque ‘é esquisito’, porque não se fixa... porque vive perdendo tempo com amigos ou amigas que não querem nada com nada... enfim... jovem adulto é cobrado a se tornar adulto logo, assumir responsabilidades, partilhar afazeres, começar a cuidar dos mais velhos.

Se uma tia fica doente, o jovem adulto é chamado a ficar no hospital. Afinal, é jovem...e adulto..e supostamente.. não tem muito o que fazer, mas precisa se comprometer com a família. Precisa, verdadeiramente precisa. Chega um tempo que tios e pais vão cobrar os cuidados. Você vai ter que se apresentar e fazer a sua parte. Vai ter que aprender a abrir mão dos seus tempos, do seu planejamento, porque faz parte das suas tarefas, já faz, ser cuidador de quem te cuidou. É assim.

Houve um momento, em que um dos meus amores do tempo do hospital psiquiátrico, me disse, que ia embora, que voltaria para São Paulo, porque a família dele estava precisando que ele voltasse. Ele se especializou em tratamento de pacientes alcoolistas e tinha um alcoolista na família. Tinha certeza que podia ajudar. Eu até que tentei dissuadi-lo, explicando que, na família, somos família, não somos técnicos, especializados em Psiquiatria, com formação para tratar alcoolistas. Somos filho, cunhado, irmão... enfim.. não adiantou. Ele se foi embora e, um tempo depois, me ligou dizendo que o caso do cunhado dele era muito complicado, que ninguém na família o ouvia, que ele não conseguia ajudar. Quer dizer, não adiantou. Nós nos perdemos, mas ele fez o que sentiu que tinha que ser feito. Jovem adulto se iniciando na lida de cuidador.

Grande parte da minha vida eu passo às voltas com jovens adultos, os alunos, sujeitos que têm me dado muitas ‘alegrias’, que me ajudam a reinventar a vida, reinventar a Malu, questionar, pra quem eu dedico boa parte do meu tempo, pensando em como criar situações agradáveis de ensino-aprendizagem. Gosto disso. Amo. Penso que o que me ajuda na relação com eles é a combinação entre a minha maluquice e a minha marca materna, de mãe italiana. Vejo que muitas vezes consigo surpreendê-los. Outras, são eles que me surpreendem. Muitas. Maravilhosas vezes. Sinto também que temos uma relação cúmplice de acolhimento mútuo, de cuidado.

Percebo que a desorientação do jovem adulto é algo que inspira cuidados, que desafia pais e educadores a estarmos juntos com eles, em parceria, entendendo que a preparação para a vida ainda é ‘em caráter precário’. Às vezes, tenho a impressão que os pais querem que o jovem adulto tenha a compreensão da vida e atitudes de acordo com o amadurecimento que adquirimos, a duras penas, sofrendo na pele, as agruras, os contratempos, as consequências dos nossos atos, muitos, errados, atrapalhados. O jovem adulto tem tamanho, tem aparência de adulto adulto, mas está mais para adolescente que adulto. Indeciso, ele oscila. Seus humores também ‘batem no teto’ todos os dias...e os atiram ao penhasco da existência, muitas vezes. Ser jovem adulto não é fácil. Principalmente porque ninguém tem paciência com ele.

Bem...eu às vezes fico pensando nisso e, depois, rio sozinha, quando me vem a frase, trágica para os jovens adultos: ‘Olha, não sei se te consola, mas a tendência é piorar’. A vida do ‘adulto adulto’ essa, sim, é de arrepiar os cabelos (bem, os meus já são suficientemente arrepiados.. não faz diferença)...mas deixa pra lá.. cada coisa tem seu tempo. A gente vai vivendo, vai fazendo, vai tentando acertar. Estamos juntos...

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Tempos de Maluca


Eu trabalhei um tempo em um hospital psiquiátrico. Às vezes, penso que foi um estágio para ser jornalista, radialista, empresária da Comunicação, educadora, pesquisadora, mãe, mulher e tantas outras ‘utilidades’, digamos assim, que vou assumindo no cotidiano. Tudo fica ainda mais complexo, quando penso nas atividades e emoções que envolvem cada uma dessas perpectivas de ação. Pra mim, é tudo muito. Muita coisa para fazer. Muita conta pra pagar. Muito amor pra dar. Muitos filhos pra criar. Muitos amores... na vida. Um pouco de cada vez... de diferentes tipos, bem entendido.

Nessa minha tendência ao roteiro existencial, tenho a impressão de que inventei, pra mim, um papel de de super-heroína. Certo, super-heroína ‘à moda da casa’, sem grandes feitos, sem notoriedade, incógnita e tantas vezes não reconhecida. Uma heroína meio ‘macarrônica’, que se atrapalha nas cenas mais simples, principalmente as que gosta mais, as que gostaria ficassem impecáveis. É mais ou menos o que acontece quando a gente resolve fazer uma nossa receita especial, mas fácil de fazer, para uma visita importante. Caprichamos, caprichamos, mas, ódio, nem sempre dá certo, por incrível que pareça. Eu, na minha função de heroína do cotidiano, sou um pouco assim...me ‘apateto’, do verbo ‘apatetar-se’ – eu me apateto, tu te apatetas, ele se apateta...e assim vai.

A experiência, como um todo, no tal hospital psiquiátrico, é inefável, ‘indizível’, é muita coisa. Alguns episódios, no entanto, são inesquecíveis. Ali eu conheci dois dos grandes amores da minha vida. Bem, em se tratando de mim.. normal...conhecer amores em um hospital psiquiátrico; um só, seria ‘quase normal’. Não é o meu caso. Não, eles não eram pacientes. Eram enfermeiros. Queridos, queridos. Lindos, cada um no seu estilo. Os dois tímidos e malandros. Apaixonadamente tímidos. Na deles. Deliciosamente malandros. Havia uma proibição de relacionamentos amorosos entre os funcionários da tal clínica. Nós obedecíamos. Ali dentro. Ninguém sabia nunca de nada. Ninguém podia saber. Os dois nunca souberam, um do outro – até este texto, pelo menos.

Digamos que, em certo sentido, eu fui fiel. Eram histórias que não poderiam ser, que não poderiam existir e assim foram. Não existiram, em público. Já ouvi dizer que o que não se publica não existe. Então, vale para a ocasião. Só existem a partir de agora. Mas agora são histórias que prescreveram...o Direito deve prever isso também. Tempo de prescrição para histórias amorosas. Não posso ser mais punida. Bem, eu tenho que fazer a ressalva: era um outro tempo, eu era muito jovem e tinha muitas dúvidas – hoje também tenho, mas não com relação a quem amo...ufa! Alguma coisa, aprendi. Hoje conheço bem os meus quereres. Não resolve muito, mas conheço.

Bem, desculpas dadas, para o comportamento pouco recomendável – esse apaixonamento desmedido de jovem adulta (vem aí um texto sobre isso, sobre essa fase.. aguardem). Paciência. Mas, no hospital esse, vivi momentos importantes para a minha vida, além de conhecer esses dois lindos rapazes. Os pacientes me ensinaram muito. O ambiente, o desafio de (tentar) manter a lucidez e consciência em ambiente tenso, carregado de ‘derrames’ do inconsciente. Sim, porque, depois de dois anos trabalhando ali, eu entendi, claramente, que a grande diferença entre os sujeitos de fora e os de dentro é que, nós-de-fora, ainda conseguimos conter parcialmente o inconsciente e, na convivência, disfarçamos bem, ou mais ou menos bem, às vezes não tão bem assim. Foi isso que eu disse para uma senhora, que me perguntou se eu não tinha medo de conviver com os ‘loucos’. Aos poucos, eu fui entendendo que o pior é o preconceito. As pessoas, em geral, não se dão conta das próprias loucuras, aquelas situações do cotidiano em que parece que a vida (lúcida) se escapa e a gente fica à mercê dos fluxos abstratos, bem longe do controle racional. E isso ocorre com todo mundo, aqui fora e lá dentro.

Foi o que me alertou um paciente. Ele trabalhava comigo na recepção do hospital. Era uma atividade terapêutica. Ele solicitou ao médico AT-Recepção. Veio, agendou um horário fixo, para todas as semanas e estava, naquele dia, cumprindo seu ‘turno’. Era um paciente conhecido e sempre estava calmo. Aparentava ser uma pessoa muito calma. Eu não sabia porque ele estava internado. Não entendia. Não tinha nada de aparência de louco. Em um determinado momento, recebemos um outro paciente, que estava baixando, ingressando no hospital. Ele, como era de praxe, vinha acompanhado de três outros pacientes, que desempenhavam suas funções em outra atividade solicitada ao médico – Aréa de Recepção e Despedida (ARD).

O paciente que estava baixando era um velhinho impertinente e resmungão. Trazia duas sacolas (que eu tinha que revistar, para ver se não tinha algum objeto proibido). Uma delas tinha roupas. Tudo bem. A outra, remédios. Putz.. nada daquilo podia entrar. Eu, então, comecei a explicar para o paciente que ele não poderia levar os remédios para a Unidade Terapêutica, que eu os encaminharia para o médico e que somente o médico poderia receitar, anotar na planilha o que ele deveria ingerir. O velhinho foi ‘à loucura’, entrou em crise. Gritava, que eu o estava querendo matar, que eu era aliada da mulher dele... e mais um mundo de coisas. A cada caixa que eu retirava da sacola, para anotar o nome, ele soltava impropérios, xingamentos os mais diversos e ia explicando porque tinha que tomar o remédio. Eu, calmamente, explicava a mesma coisa, o encaminhamento dos remédios para o médico... etc.

Quando o paciente foi levado para a Unidade, eu me sentei, balancei a cabeça e proferi a fatídica frase do cotidiano ( que tantas vezes falamos sem pensar, sem considerar o que, realmente, estamos dizendo): “Esse senhor está louco de querer levar os remédios para a Unidade. Eu seria demitida...”. O outro paciente então, me interrompeu bruscamente, com a pergunta: “Onde você trabalha?”. A voz dele estava um pouco mudada, tinha um tom mais ríspido, severo, muito diferente do que eu estava acostumada ouvir dele. “Como?”, indaguei surpresa. “Onde você trabalha?”. Eu respondi, tentando ganhar tempo: “Seu fulano...lembra.. eu trabalho aqui, na recepção. O senhor está fazendo AT-Recepção. Lembra?”. Ele continuou com a expressão séria e insistia, repetia insistentemente a pergunta, falando cada vez mais alto: “Eu tô perguntando onde você trabalha? O nome do lugar?”. Quando eu, incrédula, com o aparente descontrole dele, disse o nome do hospital - bastante conhecido pelas suas características – ele respondeu: “Então, esse velho só pode ser doido, se está baixando aqui. O que você queria? E você, o que é?”. Bem, eu entendi o que ele dizia. O óbvio. De certa forma, por não cuidar o que dizia, diante de quem eu estava, com quem eu estava ao lado, eu também era um pouco doida. Não podia falar do paciente que estava baixando. Não podia reclamar dele.

A história me acompanha, desde então. Tento retomar sempre, para aprender de novo. Tentar entender o lugar do outro. Comprender o território em que estou produzindo meus textos de vida, minhas cenas existenciais. Depois de dois anos trabalhando no hospital, ‘pedi alta (demissão)’ e saí com código 4, que, na época, significava ‘quadro inalterado’.