domingo, 16 de janeiro de 2011

Quando os filhotes partem....



Estranha a sensação de ver os filhotes partindo. Fui hoje ao aeroporto levar meus dois filhos menores, Giuseppe e Chiara, que vão ficar até o final do mês na casa do pai, em Curitiba. Essa situação tem se repetido em outros anos e, por isso, já estou acostumada. Estou? Quem disse? Meu instinto materno, de fêmea ‘onça’, não vê graça em enxergar os filhotes se afastando, em meio à selva humana, se distanciando junto com outros ‘animais’ de nossa espécie. Os dois, embora pequenos (11 e 9 anos), viajaram sozinhos, de avião, com autorização judicial. Foram acompanhados por uma funcionária da empresa aérea, até o embarque, e, depois, do avião até o desembarque, onde encontraram o pai.

Tento me convencer com argumentos racionais, repetindo: “Olha, paciência, é o curso natural das coisas. Lembra, você os cria para o mundo. Assim tem sido e assim vai ser. Não adianta espernear!”. Está bem, eu considero tudo isso, mas então, quem tira a sensação interna, mistura de tristeza e fúria, me sinto meio como uma onça girando em volta de mim mesma.... reagindo ao afastamento, contra toda a racionalização. Parece que não está certo, deixar ir. Está certo, sim. Está. Os filhotes de outras espécies também vivem isso. Chega um momento em que têm que aprender a andar sozinhos na floresta, vivem a iniciação, o afastamento... Ai meu Deus. Mas tudo é tão perigoso. Adultos adultos, nós ficamos mais valentes, quando os riscos dizem respeito a nós próprios. Suportamos mais as dores no nosso próprio corpo. Mas quando são as ‘crias’, os filhotes que estão em jogo... ah.. aí a coisa muda um pouco de figura. Em todo caso, acaba prevalecendo a verdade de que cada um tem que construir seu caminho e, pra isso, só caminhando e aprendendo a caminhar sozinho... é assim.

Certo, certo, há depois os ‘doces momentos de sozinha’, a que me referi no outro texto. Além disso, eu sei que eles vão estar bem, que vão estar felizes, aproveitando as férias. Também precisam de contato com o pai, desse tempo de usufruir da outra referência de vida... O mundo do Pai. Eu, de minha parte, posso retomar as minhas coisas, me aquietar em mim mesma, um tempo.

De qualquer forma, não é muito fácil a hora de vê-los, assim, arrumadinhos (lindos, pra ser bem sincera, risos), prontos pra partir. O Giuseppe (11 anos) engroçando a voz, meio que se sentindo responsável pela irmã Chiara (9 anos).... Na hora do abraço, os dois, quase ao mesmo tempo, dizem: “Mãe, não chora!”. A moça da empresa aérea, que os acompanhava, para o embarque, olhou e disse: “Bom, mas aí já é querer demais!”. Fiquei pensando, ‘será que ela me conhece?’ Não, talvez ela também seja mãe, ou , pela experiência de acompanhar esses momentos de separação, saiba que isso não é sem dor. Bem, me contive o que pude, até porque eu e a Chiarinha já tínhamos feito nosso ‘ritual desaguador’ no dia anterior, arrumando as malas.... Bah. Se ela chora, não me peçam pra não chorar...aí não dá pra aguentar (lembram do texto: Quer um balde?”).

Giuseppe, no dia anterior, me pediu para ficar um pouco com ele, quando foi se deitar. Me encheu de declarações de amor e pediu ‘juras’ de que eu não vou esquecê-lo. Pode? Como esquecer? “Filhos, filhos, melhor não tê-los, mas se não os temos? Como sabê-los?”, disse Vinicius de Morais, no Poema Enjoadinho. Melhor tê-los, penso eu, quando se tem muito desejo e maturidade pra isso. Como eu disse hoje, depois, para um amigo, ao telefone, eles me tiram o couro, literalmente, me ‘sugam de canudinho’, me exaurem a paciência, tantas vezes, mas também prenchem a alma, dão brilho pra vida, fazem a ‘passagem’ essa aqui, na vida, ter muito mais sentido. Ter muito mais graça. O sentido não é só por eles, claro, mas, com eles, é muito melhor.

Eu gosto de coisas simples, gosto da simplicidade do cotidiano em família. Então, curto ‘cacos de frase’, o jeito de cada um, a fala trocada no início da linguagem, o machucado no joelho no jogo de futebol, o chamado por mim, o brilho no olhar comendo o bolo que eu faço, o clássico aqui de casa – e eventual, por motivos óbvios (nutricionistas não me crucifiquem!) – “Festival das Batatas Fritas”. É interessante que cada família vai criando tradições do grupo, que vão desde brincadeiras a pequenos rituais, jeitos de como fazer as coisas. “O fulano, se estivesse aqui, diria....”. Há sempre alguém que dispara a frase, para fazer presente, quem não está. Então, também é natural, que, em meio a esse tempo extra, para escrever minhas coisas, finalizar tarefas, descansar, namorar, fazer nada, praticar esportes, dançar... eu também sinta a sua ausência.

Só que é a ausência, no sentido de Drummond, a ausência, como um ‘estar em mim”. Eu aprendi, com o tempo, pra amenizar a saudade, a desfrutar de presenças de pessoas amadas ‘em mim’. Pessoas que se constituiram como seres de afeto, que, se ‘instalaram feito posseiros, dentro do meu coração’, para fazer referência à música, daquele ‘homem para adorar’, a quem homenageei, em outro texto do Margaridas Brancas.


Ausência (Carlos Drummond de Andrade)

Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.


Teresinha (Chico Buarque)

[...)
O terceiro me chegou como quem chega do nada
Ele não me trouxe nada também nada perguntou
Mal sei como ele se chama mas entendo o que ele quer
Se deitou na minha cama e me chama de mulher
Foi chegando sorrateiro e antes que eu dissesse não
Se instalou feito posseiro, dentro do meu coração.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

UM HOMEM PARA ADORAR...

Há alguns homens que são incomparáveis, estão acima, muito acima da média, destacam-se por algum motivo e permanecem incólumes, ao longo dos tempos, no imaginário feminino. Assim é Chico Buarque. A Rede Globo exibiu essa semana quatro episódios de ficção, em que a temática é o amor, e a inspiração é a música de Chico Buarque. Um espetáculo ficcional, que não poderia ser diferente, considerando a base, o substrato, a partir do qual foi produzido. Tenho repetido uma frase, com convicção: “Chico Buarque é o MÁXIMO!”. Sim, penso isso mesmo, não é que seja perfeito, mas com a sua imperfeição de ser humano, Chico faz poesia e da melhor qualidade.

Talvez seja exatamente sua capacidade de dizer, de expressar o amor, que faz com que, nós, mulheres de várias idades, tenhamos Chico como uma referência masculina amorosa, acima de qualquer coisa, acima de qualquer um (afinal, nenhum homem pode ter ciúme de Chico Buarque,não faz sentido). Falando do amor, em suas múltiplas manifestações, Chico também retrata, com maestria, o sofrimento, a dor, a alegria, o prazer, o gozo, as contradições, oscilações, hesitações, impetuosidades, as travas dos sujeitos todos que vivem em busca de felicidade e se debatem dentro de si mesmos, mais se escondendo do que se mostrando.

O texto de suas músicas expressa a multiplicidade de sentimentos humanos, possibilitando o espelhamento também plural. Chico torna pública sua fragilidade, o que é raro, para um homem; seu amor desmedido, em falas que qualquer mulher gostaria de ouvir do homem amado. São raros os homens que conseguem se soltar no texto e se permitir a expressão solta, ‘entregue’ da fala amorosa. Isso é jóia rara. Isso é pra poucos, e, claro, pra ser saboreado por poucas. Daí Chico fica intacto como modelo de fala amorosa, de homem que se desnuda, sem medo de parecer e com certeza sem se tornar menos homem, diante da mulher... diante das mulheres.

Claro que aqueles olhos verdes ajudam muito. Além de tudo, ele foi brindado com uma beleza, elegância e graça de uma expressão de homem, aparentemente tímido, que o tornam sedutoramente imbatível. A combinação entre a volúpia amorosa expressa nos seus textos, mesmo quando reclama o amor, mesmo quando choraminga, associada à beleza de um homem aparentemente tímido (em público) é algo arrebatador. Nem precisavam os olhos verdes. Com os olhos verdes, então, é um Deus me acuda!

Assim, Chico Buarque, sem dúvida, é um homem para a d o r a r. Mesmo. Com intensidade, com devoção amorosa. É preciso tentar devolver um pouco do que ele nos deu, com poesia, a emoção produzida em nós, as sensações intensas proporcionadas por sua música. Ad-orar. Contemplar. Olhar com admiração. Mirar com encantamento. Alguém que tem a chave das palavras e do coração das pessoas, que transita entre a cena amorosa sexual e as misérias humanas de um país de desigualdades e sempre, sempre, sempre faz isso como arte e encantamento é alguém que merece ser adorado. Sem nunca tê-lo visto, sem nunca tê-lo encontrado, posso dizer, sem dúvida, que Chico Buarque é um dos homens que marcaram minha vida. Depois, fico pensando que, diferente do que a maioria dos homens diz, não é difícil entender as mulheres, só é preciso ser Chico Buarque.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Quer um balde?

Quer um balde? Foi o que me perguntou minha filha, chamada Chiara, de nove anos, ao me ver, aos prantos, assistindo as cenas da Itália na novela Passione, da Rede Globo. Eu chorava de saudade da Itália, pelo reencontro com um tipo de emoção que me caracteriza. Trata-se de um tipo de intensidade afetiva, que faz com que eu viva de ‘afetos’, de enternecimento por uma paisagem (como a da Toscana, que tantas vezes vi presencialmente), pela lembrança de um amor, por um gesto, um olhar, uma palavra, uma música.

Minha relação com a Itália sempre foi assim, desde criança eu chorava de saudade de lá, mesmo antes de ter ido pela primeira vez. Era – e ainda é – uma saudade ancestral, provavelmente uma saudade de outras vidas, vividas na Itália, acredite quem quiser. O certo é que, para usar uma expressão do meu pai, “o jeitão dessa madeira” Malu é italiano, em grande parte, mesmo que eu também adore o Brasil, ame mesmo. Sou italiana por dentro. Isso me traz consequências, é verdade, mas, no geral, no ‘conjunto da obra’, traz mais vantagens que desvantagens, para mim e para as pessoas que me querem bem.

Lembro uma vez, em Roma, que entrei em um café, de manhã, e fiquei observando a ‘chiacchiera – conversa’ das pessoas do lugar. Era uma conversa do cotidiano, comum, de encontro de pessoas conhecidas em um café, em Roma. Não era só o conteúdo que chamava atenção, era o jeito das pessoas, a entoação, uma brincalhonice com um quê de malícia e sensualidade. Em meio às falas de bom dia, a insinuação sobre o motivo para aparentar cansaço, já de manhã, ou para a exuberância da alegria. “Cosa hai fatto questa notte per svegliare cosi Felice? (O que fizeste esta noite para acordar assim feliz?)”, brincava o dono do café com um amigo que acabara de entrar. (È stata una bella notte, veramente! (Foi uma bela noite, de verdade!)”. “Ah, hai incontrato Il tuo fidanzato? (Ah, encontrou o teu namorado?)”. E o grupo de pessoas do café desatou num riso frouxo, inclusive o sujeito diretamente envolvido, apesar de um pouco constrangido com a insinuação. Nesse momento, ele respondeu como um bom italiano, com caras e bocas e gestos muitos, que todos entendemos. Negava, dizia (sem falar) que sua preferência é outra. E todo mundo ria e gesticulava, numa troca de olhares, que depois desencadeava outras falas, risos e olhares e assim sucessivamente. Havia uma alegria, um tipo de emoção típica. As falas eram simples, de cumplicidade, entre amigos. Um elogio aos cabelos aqui, um comentário sobre a cor da roupa, uma parada para retrucar com um olhar que fingia repreender. Como quem diz: “Nãaaao provooca!”. Sei que fiquei olhando aquela cena cotidiana, as pessoas, seu jeito e pensei: ‘eu sou daqui’. Eu sei, eu sou de lá. Então, o que estou fazendo aqui? Bem, ao menos, estou indo passar uma parte da vida em terra de italianos, aqui no Sul do Brasil. Faz sentido.

A pergunta da minha filha de nove anos pode soar estranho para quem não me conhece, mas faz todo o sentido, pra quem se acostumou a me ver aos prantos, por motivos vários. Meeu Deus! Está bem, eu declaro publicamente que sou uma chorona inveterada... Já tive períodos de entressafra. Só que eles representam mais problema que solução, pra mim. Há pouco tempo, eu não conseguia chorar, por nada. Um dia tive que chamar a SAMU, em Porto Alegre, porque uma dor no peito insistia em não ir embora e eu fiquei em dúvida se estava tendo um treco. Queriam me remover. Também suspeitavam que as coisas não iam bem dentro de mim. Eu, que às vezes mais pareço uma nonna italiana, não quis ir. É horrível se sentir morrendo de dor, sem saber o que está acontecendo, mas enfrentar a espera de atendimento, a burocracia... ah... aí eu morreria mesmo... me irrita profundamente esse tipo de atendimento, mesmo nos hospitais particulares. Bem, não morri. Claro, se tivesse morrido não estava aqui contando a história... Depois, minha irmã me disse que se eu tivesse morrido ela me matava, por não tê-la chamado, por não ter pedido ajuda. Outra italiana dramática, risos.

A propósito de novela, “Insensato coração” - expressão que dá nome à próxima novela da Globo - parece a minha definição perfeita. Pra falar bem a verdade, eu não gosto disso. Prefiro meu jeito prático operacional, de executiva na vida, de coordenação de projetos, de racionalidade e sagacidade, que me faz vencer o tempo com jornalismo e amorosidade, com os processos de supervisão de texto na Pazza, no esmiuçar estratégico de planos e planejamentos em consultoria comunicacional. Ah.. como é fácil resolver os problemas dos outros, principalmente os problemas comunicacionais. Já fiz muita gente parar de chorar em momentos dramáticos, acionando estratégicas de psicologia cognitivista, disparando perguntas desconcertantes, que eu mesma não consigo fazer para mim, às vezes... só depois, só depois de um tempo... quando me digo: “Pára, sua tonta. Ficção é ficção. Realidade é realidade. O problema da vida é a diferença que existe entre as duas. Na ficção, as pessoas entram em crise vão pra Paris ou Roma (sniff sniff sniff). E ainda por cima lá vivem uma linda história de amor, com trilha sonora e tudo...às vezes, até neve... risos... Na vida real, tudo é mais concreto e menos afeto. Há que se abrir mão, com frequência, de amores verdadeiros, mas que não se mostram práticos operacionais, por uma razão ou outra. E seguir adiante no mesmo cenário ou em outro semelhante, sem a poética da Itália, só a poética italiana interna, aquela que não muda, não se desconfigura”.

Então, o fato é que o traço ‘cachoeira’ sempre volta, mesmo depois da ‘entressafra’, e eu, literalmente, ‘desaguo’, sem pudores, sem contenção, ‘sem vergonha’. Sinto-me melhor, quando consigo chorar... ao menos, o sentimento não fica preso no peito. Como eu disse pra minha filha hoje: “Quando eu choro, eu não estou sofrendo, durante o choro... eu já estava sofrendo antes. Quando eu choro, eu ponho pra fora o sofrimento!”. Bem, explicação de chorona, é verdade, mas é a que tenho. Preocupo-me porque há pouco tempo, li num texto que “o choro não é opção para lutadores”. A frase ficou ecoando em mim como uma condenação, uma impossibilidade para a vida. Como, então, eu posso ser uma lutadora (como sou, na prática da vida) se choro tanto? Talvez porque o meu choro tenha o princípio do fluxo d’água sentimento, fluxo de líquidos do corpo, que saem, se vão, passam, produzindo emoções fortes e, depois, ‘descarregam o sistema’. Fluxo de lágrimas que lavam internamente e, imediatamente depois do torpor de chorar, eu me levante e acione os dispositivos práticos operacionais, desista de ser golfinho ou de qualquer outra ideia louca, de entrega sem limites, quando não encontro as pontes, para a travessia.

O problema mesmo é quando ‘a maré’ volta a subir dentro de mim. Pra isso, algo como as imagens da Itália, da Toscana, de Napoli, Roma, de Verona... é suficiente, mais que suficiente. Pior, na mesma noite de hoje, olhei em volta e vi minha filha, também aos prantos, emocionada com uma cena da novela. Pensei: Meu Deusss... por que ela teve que herdar esse meu traço? Pra tentar descontrair, abracei-a e devolvi a pergunta: “Quer um balde?”.

sábado, 8 de janeiro de 2011

Doces momentos de ‘sozinha’

Janeiro sempre é assim. Mais frequentemente, neste mês e no próximo, eu consigo viver períodos ‘de sozinha’. Eu comigo mesma. Assim, olhar para a casa e pensar: ah.. ‘minha casa’. É doce também estar sozinha, às vezes, para quem tem a vida às voltas com um mundo de gente. Ainda mais, uma criatura mãe de quatro filhos... No meu caso, o silêncio da casa, às vezes, a dimensão dos momentos de quietude, de contemplação do meu próprio ser.. de remoer minhas ‘mirabolices’...caraminholas, intimidades reflexivas... são, seguramente, muito doces. São revigorantes até mesmo para eu viver a maternagem, que também gosto muito, e que conquistei depois de muito pedir a Deus, como contei em outro texto deste blog – “Eu sou Mãe Malu-a”, em maio do ano passado.

Costumo dizer que amo tudo o que eu faço. E não digo à toa. Digo porque é a mais intensa e pura verdade. Amo, porque é da matriz Malu amar. Eu só sei viver assim. Quem me gosta tem que ter paciência. Gostar assim mesmo, se for pra gostar. Como disse o grande poeta Drummond: “Que pode uma criatura, entre outras criaturas, senão amar?”. Bem, eu sou sua ‘seguidora’...literalmente ‘vivo disso’, amorosidade e poesia, intensidades afetivas, imiscuídas em um cotidiano truculento desses típicos do Capitalismo Mundial Integrado, diria Guattari, um autor que estudo. Orientada pelo poeta e outros...também por minha fé, é claro, eu sigo amorosamente vivendo. Lembrando Restrepo, vou adiante tentando resgatar “O Direito à Ternura” – título de um dos livros mais lindos que já li e que recomendo veementemente.

Assim como em muitas coisas na vida, também nesse sentido sou aprendiz. Estou tentando a aprender a ‘amar, sem amarrar’. Tentando desapegar... me soltar. Assim, nessa idade...enfim... algumas coisas já aprendi. Por exemplo, o que expressa o conceito de amor, de Humberto Maturana: "O amor é o reconhecimento do outro, como legítimo outro, na convivência". Isso é diferente da paixão. A paixão tem um componente de idealização do outro, de espera que o outro corresponda às nossas expectativas... às nossas carências... O amor, não.. O amor tem a ver com um afeto desmedido, mas que é pelo que o outro é, e não pelo que a gente espera que o outro seja....e isso.. na partilha.. .na convivência... ou, mesmo, na ausência, misturando componentes de paixão, respeito, amizade, tesão... sem ordem, nem desordem... só sendo.....sem cobrança nem nada... existindo.

Então penso que aprendi muitas coisas. Me sinto transformada, em múltiplos sentidos. Conseguir ficar sozinha, assim... me encontrar e mergulhar em meus sentimentos e pensamentos é uma delas. Acredito no que diz o trecho do texto de Osho: “Somente aquelas pessoas que conseguem ficar sozinhas são capazes de amar, de compartilhar, de penetrar no mais profundo âmago da outra pessoa – sem possuí-la, sem se tornar dependente dELA, sem criar “o outro”, reduzindo-o a uma coisa, e sem se viciar no outro”.

Mesmo assim, quando amo, amo. É certamente um amar profundo. Gosto de estar junto, gosto de cuidar, gosto de compartilhar pequenas coisas, de viver tudo e mais um pouco, do que cada tipo de amor torna possível. Gosto de ser dengada, di ‘coccole’, como se diz em italiano, gosto de ‘dar colo’, em sentido amplo, mas, principalmente, vou me nutrindo do substrato amoroso, que lindamente se constitui em algumas relações. Assim, continuo me nutrindo do amor, mesmo quando aparentemente o amor acaba, quando o amor não está, quando o amor não vem, quando o amor saiu, quando o amor viajou, quando o amor se foi. Em algumas situações, em alguns momentos, sinto fortemente uma dor de saudade, apertada, física mesmo, pela grandiosidade do vivido e partilhado. Com o tempo, no entanto, vou me acostumando, entendendo que o mais importante de tudo é que a pessoa – meus filhos, meu 'amor-homem', meus amigos, minha família.. enfim – esteja bem, esteja feliz, segundo seus desejos e necessidades, mesmo que não esteja comigo. Penso que o amor é assim e se o amor é amor.. de alguma forma, ele volta.

Há um tempo, na vida, em que tudo tem uma urgência desesperadora, tudo é pra ontem, em que ainda temos cristalizado o fatalismo do mundo da criança. A criança quer ir no supermercado com a mãe ou é infeliz! A lógica dela é essa. É tudo agora ou .. a fatalidade de ‘ficar em casa, sem ir ao super’. Quantas vezes vi meus filhos, aos prantos, escorregando na porta, com os braços estentidos, porque a resposta era negativa. Mas pranto, pranto mesmo... como se o mundo estivesse acabando, ele (ou ela) estivesse sendo abandonado... No mundo da criança, isso já não é fácil de lidar, mas o maior problema é que isso não se perde facilmente.. não é um ‘programa’ que seja desinstalado a um ‘clique’. Então, quando jovens, os seres humanos mantêm essa característica e tantas vezes se desesperam, porque o que queriam muito que acontecesse não aconteceu, no tempo e na hora esperada.

Eu que já perdi tanta coisa, que já vivi, acredito, grandiosas perdas e derrotas, como a que comentei no outro texto (“Derrotas também ensinam”), não tenho mais tempo nem vocação para sofrimento. Não estou mais em tempo de amargura, mas em tempo de bem querer e ser bem-querida! Não me grudo no que ‘não pode ser’.. entrego para o ‘Universo’ e deixo livre ao movimento cósmico.. É assim como tem que ser. Não é fácil, mas é preciso. Além disso, conto com a maturidade ‘na gestão da vida’, como eu tenho chamado. Ah... isso é bom da passagem do tempo na vida da gente. Nem tudo é bom, mas isso é. Um tanto de serenidade, muito de segurança interna, de autoestima, de reconhecimento da força motriz de ‘ser humano’ que nos move, que não se desaloja ou desmancha, que não se destrói ao primeiro abalo – nem ao segundo, nem ao terceiro.. nem ao décimo milionésimo quinto...

Por essas e outras coisas, saboreio os instantes de ‘sozinha’, não como de ‘solidão’, no sentido dramático e pejorativo com que ele tem sido usado, mas de ‘paz interna’, de possibilidade de contemplar meu território subjetivo dentro e fora, desde minha mesa de ‘cheia dos meus pedaços’, até meus sentimentos entrelaçados, costurados no tempo, minhas feridas narcísicas. Posso comemorar suas cicatrizes, verificar que há muito já tecido, trabalhado, nessa trama existencial maluca, Malu Cardinale. Que bom!

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Lição de Economia dos Desejos e da Felicidade 3

O mercado está cada vez mais complexo. Há uma multiplicidade de ofertas, que se acumulam, que se esbarram nos sujeitos o tempo todo, como se nós tivéssemos que aceitar qualquer coisa, qualquer proposta de consumo. Não temos. No mercado contemporâneo das relações de troca, literalmente, o problema não é oferta, mas a qualidade do que está sendo oferecido. Então, é preciso ter critérios bem definidos.

Pra quem não sabe o que quer, qualquer coisa serve, mas se o sujeito tem claro o rumo dos seus investimentos, se não tem dúvidas quanto ao que espera de retorno, como compensação aos fluxos desejantes, o consumo não pode ser aleatório, nem pautado pela multiplicidade. Há de ser seletivo e orientado pela qualidade. A maturidade na gestão da vida proporciona sabedoria para separar uma coisa de outra e, se for o caso, para esperar o melhor negócio, para abrir mão de outros, que até se mostram sedutores, em um primeiro momento, mas não têm consistência no que é fundamental, para a felicidade: o substrato amoroso.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Derrotas também ensinam

Em 2010, eu tive a minha maior derrota da minha vida. Ela foi implacável, seus efeitos ainda têm sido cruéis comigo. Perdi uma grande batalha, tive que ‘entregar’, abaixar a cabeça, aceitar minhas limitações, escrever um texto assumindo impossibilidades, depois viver a dor pior, ir pessoalmente, acompanhar, entregar e, depois disso, continuar vivendo. A derrota envolveu um dos meus filhos. O que mais me doeu, além da situação em si, foi ter que fazer tudo, a parte mais dura, absolutamente sozinha. Sozinha como adulta, tentando confortar e acomodar meus filhos, como era possível, naquele momento. Assim, sozinha, eu tenho vivido momentos decisivos da minha vida. Acontece.

Eu, sinceramente, achei que não ia conseguir, mas fiquei até mesmo sem essa alternativa. Não havia ‘não conseguir’. Não havia como ‘abandonar o barco’, ir embora, ‘pedir dispensa’ da vida. Também este não é o meu perfil. Quem me conhece sabe disso. Eu sou maciça de conteúdo, de consistência e força! Fui forjada numa madeira existencial que me ensinou que dores todos temos, que não queremos que as grandes tragédias aconteçam com a gente, mas elas acontecem. Em determinado momento, eu, estudiosa das telenovelas, parei e pensei comigo mesma que a vida, às vezes (ainda bem que não é sempre) parece um daqueles roteiros melodramáticos de novelas mexicanas.... Meuuu Deusss... só com muita fé, mesmo, para superar.

No plano espiritual estive amparada, minha fé me ajudou a aguentar a dor, respirar fundo, continuar caminhando, produzindo. Em muitos momentos dramáticos, brotavam dentro de mim canções de adoração, que aprendi na Igreja Batista de Montserrat, em Porto Alegre, espaço de acolhimento, de encontro com pessoas amigas, apesar dos meus vínculos com a dimensão espiritual. É interessante porque eu não me lembrava das músicas, elas brotavam... começavam a soar dentro de mim, como que me dando força... Não sei se consigo me explicar, mas é diferente de lembrar... é sentir o som...de dentro.

Os ensinamentos da minha sensei de Karatê, a Adelaide, a vivência dos treinos, também foram cruciais. Fortaleceram meu eixo, me fizeram me sentir mais forte. Sou principiante no karatê... aprendiz, aprendiz...mas fiquei feliz pelo aprendizado que pude vivenciar. O karatê é diferente do meu jeito ‘matriz’, mas, por isso mesmo, me fez e faz muito bem. A pista do karatê eu tive com uma pessoa que eu gosto muito. Sua fala sobre os ensinamentos do karatê, sua orientação para a vida, tudo foi me fazendo entender que o karatê é uma filosofia de vida, mais do que um trabalho físico (embora o resultado do corpo também seja muito importante). Depois, a Adelaide me convidou, eu entendi que precisava, por mim mesma, tentar...ousar. Lembro que, no começo, eu dizia o tempo todo, meio que rindo: “Você vai ter que ter paciência comigo... eu mal sei caminhar...como vou fazer karatê?”. Ela também ria e não dava bola. Seguia me ensinando...feliz, empolgada. Adelaide é uma pessoa ímpar, especial.

Quanto ao meu filho, a mesma derrota, no entanto, me ensinou a dimensão da minha força. Ao sobreviver, é como se tivesse voltado de uma tempestade em alto mar, que durou anos. Eu voltei machucada, mas, durante o ano, fui curando aqui e ali, tive amparos muitos, me botei em outros desafios, percorri muitos lugares falando de paixão-pesquisa, até viver o encontro com a floresta (Amazônica), mas isso já é assunto pra outro texto... Sei que fui tendo o alento de ser ‘tirada’ de cena e levada para onde me solicitavam, me queriam, com as minhas teorias, com o meu pensamento, com o meu trabalho e tudo o que eu me preparei para ser: sou cientista da Comunicação, além de jornalista, comunicadora, empresária, mãe, mulher.. etc etc..

Sigo, então, por mim, pelos meus filhos... pela vida que Deus me deu, pelo projeto da minha existência, que eu sei não é só meu... Sei que há uma escrita maior que me inscreve no mundo e que é menos ‘pra mim’ e mais por ‘coisas que preciso fazer’, trabalho existencial de amparo e ajuda a outras pessoas, a outras ‘existências vida’. Enfim, há muita coisa por fazer. Sou espírita e, por isso, acredito que ‘não estamos aqui a passeio’... há realizações a serem produzidas... Essa vida vem de longe e ainda tem um longo caminho, nas suas idas e vindas. Algumas coisas que gostaria de fazer, às vezes parecem difíceis, nessa encarnação, mas já encomendei uma encarnação ‘golfinho’...quem sabe na outra eu consigo.

Realidade e Ficção

Sou uma repórter, por excelência... profissionalmente e na vida. Isso me dá sustento, me ajuda a viver, mas também, às vezes, faz com que eu me depare com a realidade da vida, dos acontecimentos, de um jeito cruel...

Estudiosa de Comunicação e Psicologia,Doutora em Ciências da Comunicação, o mundo dos afetos é minha principal matéria. Vivo disso, acionamento de sensibilidade...psicomunicação. Comunicação e amorosidade. Mas o mundo dos afetos é denso...complexo... ufa! Às vezes seria melhor não saber.... tanto. Sigo, no entanto, estudando. Um amigo meu diz que as pessoas estudam o que mais precisam aprender....

Sou escritora de ficção também
(http://www.pazza.com.br/pazza/capitulos.htm)..
então, imagino, crio... invento personagens, situações... mundos discursivos imaginados em que o desfecho depende em grande parte de mim. Mesmo assim, nem sempre me agrado dos desfechos. O texto de ficção parece que ter sua própria vida...há personagens que vão existindo, tomando ‘corpo’ e, quando eu vejo, eles vão produzindo falas (na minha cabeça)... se soltando...eu os deixo, um pouco, afinal são seres de ficção. Podem mais.

Na vida é um pouco mais complicado. Na vida, nem sempre a realidade coincide com os desfechos imaginados, mas sigo vivendo (fazer o quê, né?), tentando ser feliz.. compor um texto vivo, que agrade às pessoas e a mim mesma. Nem sempre consigo, mas ao menos, depois de tudo, ao final de tudo... eu sei que fiz o meu máximo. Sempre acredito que é possível. É assim que tem que ser...