quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Segundo semestre e o Mar Vermelho


Segundo semestre é acontecimento bíblico. O semestre começou e essa ideia não me sai da cabeça. Eu não sou especialista no assunto, mas a grandiosidade do momento, a sensação de estar caminhando para um grande episódio, desafiador, me faz lembrar a passagem pelo mar vermelho. Lembrar do que eu li (bem explicado, eu não estava lá...ou talvez estivesse, não sei, em outra encarnação!). Lembrar do que eu ouvi falar, lembrar das lições que aprendi e, principalmente, das sensações que tive, quando entrei em contato com a história, sobre os desafios vividos pelo povo, que recebeu a ordem de marchar, de acreditar e seguir em frente. Sim, o segundo semestre é o nosso Mar Vermelho.

No começo, a gente consegue ver as águas levantadas, contidas por uma força maior, mas se sabe que, daqui a pouco, elas começam a se soltar e estaremos todos em meio às águas revoltas dos mares de tarefas em setembro em diante. Agora, é o momento de preparação. Vemos tudo ‘se armando’... se preparando... sentimos a intensidade se avizinhando, ao mesmo tempo em que já estamos todos meio inebriados, embriagados de tantos respingos das águas que nos avizinham, nos espreitam. A cada ano, parece que as águas se tornam mais fortes e que se desmancham antes nos jogando contra os rochedos, depois de perder o chão de nós mesmos. Que o Moço da Parede dos ajude a seguir Viagem!



sábado, 4 de agosto de 2018

Olhos quebrados não têm remendos!


Uso óculos há muitos anos. Miopia é a principal causa. Eu, que sou amante das metáforas e de reflexões sobre a subjetividade, fico pensando que a miopia tem também a ver com características emocionais. Lembro-me do professor Peñuela, que nos ensinava, na década de1990, na USP, que as imagens não nítidas têm a ver com o inconsciente. Onde não há nitidez, na imagem, há o inconsciente do criador e do receptor. Ali, inconscientes se encontram e produzem novas significações. Suas aulas eram encantatórias e, naquele tempo, eu entendi que faz muito sentido que eu seja míope, já que eu vejo a vida, o mundo, as pessoas, com os olhos do coração e isso me dá um ganho de intensidade e, tantas vezes, uma perda de nitidez, de 'clareza'. Percebo que, ao longo da vida, fui aprendendo a dosar essas duas tendências, por precaução, amadurecimento e autodefesa.

Quando começo a pensar nesse assunto, lembro-me sempre, também, da linda canção de Luis Carlos Borges, que diz: “me quebrou o vidro dos olhos, me fez chorar, me fez chorar. Quem o vidro dos meus olhos vai agora remendar?”. Ouvi essa música, pela primeira vez, em um sho do cantor e compositor, em um bar em São Paulo, cujo nome era também emblemático: “Vou Vivendo!”. Na época, fazia a pós-graduação na USP e, mesmo sendo paulista, depois de ter vivido um tempo no Rio Grande do Sul, já me sentia um pouco desgarrada dos pagos... sentia saudade do Rio Grande do Sul. Juntando a isso o fato de que era casada com um gaúcho, também amante da música gaudéria... enfim.. fomos ao show.

Quando Luis Carlos Borges cantou essa música, fiquei impactada. A letra me provocava a pensar, para variar. No caso, fiquei pensando que minha característica de chorona, então, poderia ser porque alguém ‘me quebrou o vidro dos olhos’. Já tinha entendido, no entanto, que isso não era verdade. O choro, em mim, assim como o riso fluem soltos, sem muitas travas capazes de conter. É bom não provocar, mas, tantas vezes, mesmo sem provocação, eles brotam naturais. Choro e rio por qualquer coisas. O choro, no entanto, é traço mais conhecido. Choro com comercial de tevê, a fala de um filho, o olhar de uma aluna, a voz de uma amiga distante, o simples encontro com os olhos com meus amores, na vida. Choro com lembranças, com músicas, já chorei em parada de ônibus, no Banco o Brasil (!), em despedidas, então, bom... aí nem se fala. Choro às vezes porque me olham; em outras, porque não me veem. Choro também de alegria, choro porque, muitas vezes, a emoção me diz que a vida vale a pena. Já chorei imensas vezes olhando a floresta amazônica e aprendiz com ela mesma que a chuva também é natureza e que o choro é chuva em mim, tem a ver com a minha natureza.

Os olhos e, nesse sentido, sua extensão, os óculos têm sido tão importantes na minha vida. Muitas vezes, ao me deitar, pego óculos antigos, para seguir assistindo ao programa de tevê. Caso adormeça, já estou de óculos, com lentes antigas, que me acompanharam por longo tempo, lentes mais sábias. “Só eu mesma!”, rio sozinha, desse meu pensamento. Também penso que durmo com esses óculos antigos para não correr o risco de não enxergar os sonhos, de não saber quem são as pessoas que estão nos meus sonhos e o que estão buscando, de não compreender as cenas, as vivências. A pretensão da pessoa querer interpretar o próprio sonho, enquanto sonha!  Enfim, amo também as pessoas que conseguem me encontrar nos meus sonhos. Entrar no meu sonho já é uma marca de significação, pra mim.

Olhos, óculos, sonhos, choro... enxergar pouco ou muito, encontrar os olhos das pessoas e as variações de luminosidade da vida. Tudo isso me toma o pensamento e o coração, o sentimento, por tantas vezes. Hoje, a retomada da temática se deu, porque tive que correr à ótica, porque meu óculos se quebraram! Uma das lentes se desprendeu, na lateral, por falha na solda. Lente solta, variações da imagem. Talvez sejam as mudanças no meu modo de olhar, que se associam ao aparato material (os óculos), pelo qual vejo as cenas tantas, motivo dessa transformação. Reflito, então, que preciso me dedicar ao ajuste dos óculos, dos olhos, do coração! Mais do que perguntar quem quebrou meus óculos ou de me repreender por tê-los deixado se quebrar, penso que preciso agir, ajustar as lentes, o aparato, o olhar, a visão, a emoção.



Na ótica, a moça me disse que não vale a pena soltar o que foi quebrado, é melhor trocar a armação! Fiquei pensando que isso também é um texto, metafórico, visual, existencial. Em grande parte das situações, não vale a pena soldar o que foi quebrado, é necessário conquistar ‘novas armações’. Rio sozinha, pensando nas múltiplas relações... e, como sempre, sigo Viagem. Até a próxima!


quinta-feira, 26 de julho de 2018

Casas são textos de vida


Casa da gente é morada, é templo, é texto de vida. Tenho dito que ‘tudo é texto’. E foi essa ideia que me assolou quando cheguei em casa hoje, no Solar Cardinale de Caxias do Sul. Percebo que sigo me sensibilizando pelas singelezas do cotidiano, apreendendo, nessas minúcias, narrativas existenciais.  Tem sido assim, sempre. Com a sensação de hoje, me dei conta que reside em mim, aconchegada, a menina de antigamente, que se detinha, tempos e tempos, olhando as miudezas das casas da vó, da nonna e da mãe. Nas nuanças da simplicidade das rendas, das plantas, das flores cuidadosamente arrumadas, as louças, as fotos espalhadas pela casa... cada coisa era parte de um texto, de vários textos, que contavam histórias. Na casa da minha mãe, ainda é! No interior de São Paulo, na cidade de Guarantã, cada vez que visito minha mãe, entendo que a casa dela é um templo, um canto de contemplação da vida, de aprendizado e de renovação espiritual. A casa della mamma! Ali eu revejo a minha própria história, da mamma Rita, dos ancestrais todos italianos, também reencontro a condição de gestação dos bapiús, eu e os manos, e suas brotações.


Percebo que fui, aos poucos, também, me compondo em ‘textos de casa’, ‘textos de vida’, no meu caso, agora, de duas casas, que tenho a graça de ter, dois Solares Cardinales, um em Porto Alegre e outro em Caxias do Sul. Minhas casas são também meus textos de vida, têm um tanto (ou muito!) do meu jeito, das minhas próprias histórias inscritas nos detalhes, as viagens tantas, também as viagens imaginárias e a minha relação com os personagens, os meus e os de outros seres ‘criadores de gentes, na literatura e na vida’. Personagens e autores sempre foram grandes companheiros para mim! Permanecem sendo, a tal ponto que geraram uma espécie de usina de brotação de ideias de projetos de investigação e criação em Comunicação e de gestação de outros personagens. Eu mesma fui me autorizando a ser autora do meu próprio texto, inscrevendo-me em personagens tantos, que começam com as próprias leoas, a quem agradeço aqui. Meus personagens estão soltos pelas minhas casas. Se você, um dia, me visitar, certamente poderia encontrar um deles... soltos, também se sentindo ‘em casa’.

Minhas casas trazem inscrições do meu inconsciente, expressas em materialidades que deixam escapar traços de singularidade dessa criatura que se fez gente, assim amorosa, assim batalhadora, assim um ser forte e doce, que se empenha todo o tempo em flor-e-ser, em florescer... entregar-se a flores e seres, cultivando amorosidade. Percebo que cultivo seres, assim como cultivo a mim mesma, todos os dias, tentando melhorar, tentando ser melhor nos detalhes, tentando aprender a ser mais calma, mais amorosa, mais cuidadora, mais paciente, também mais forte e mais valente, para que ninguém confunda amorosidade com fraqueza ou fragilidade. Eu já entendi que estou bem longe da fragilidade, porque quando revejo minha história de vida, penso que poucas pessoas teriam sobrevida a algumas situações que superei. Momentos de altíssima pressão.

Reconheço que caminhei por abismos existenciais, no fio fino da esperança e fé, que me possibilitou saltar do outro lado. Assim, também, atravessei grandes tempestades, sob rajadas de ventos, escapando de grandes desabamentos, de mim mesma, tantas vezes. Talvez por isso mesmo, tenha chegado a esse ponto assim, ao mesmo tempo amorosa ao extremo e com poucas reservas de paciência, para agressões e descasos. Preciso muito de calma e paz, de estar em calma e serenidade, em paz amorosa. Não tenho mais muitas reservas emocionais, porque sempre estive ‘no limite’ de mim mesma, oferecendo o meu máximo. Hoje, me reconheço. Entendo que não sou linear, sou complexa, ao mesmo tempo que a simplicidade me encanta, principalmente nas pessoas, na natureza e nas relações. Quero ser quem sou, plena e intensamente, senhora da minha idade, do meu corpo. Quero roupas simples e bonitas, do meu jeito, do modo que entendo me mostra melhor, por inteiro. Sou, ainda, um pouco a menina do interior de São Paulo, e também sou mãe de cinco filhos, jornalista, cientista, envolvida com produção de conhecimento nas áreas de Turismo, Comunicação e Subjetividade, na perspectiva ecossistêmica da vida, entre várias universidades e pesquisadores. Sou poeta e escritora. Sou Mulher, Malu Mulher! Olhem só, meu apelido ‘Malu’ se transformou em uma das minhas marcas mais fortes e hoje me dou conta que essa denominação surgiu na época da minissérie da Rede Globo, Malu Mulher, que apresentava uma mulher separada, que enfrentava a vida sozinha,  tentando criar a filha e ‘começar de novo’.

Todas essas elucubrações me foram possibilitadas pelas reflexões às voltas com minhas duas casas. Nesta semana, um amigo visitou o Solar de Porto Alegre e disse que a casa é um texto. Um texto, não. Muitos textos. Ele tinha os olhos brilhantes, estava sorridente, envolvido com os detalhes do lugar, a estrutura arquitetônica labiríntica do apartamento e o curioso amontoado de detalhes que me inscrevem, que contam a minha idade, as minhas histórias, as vidas tantas entrelaçadas na família, nos relacionamentos vários, entre alunos e amoramizades. História de alegrias, de dores e também de amores. Não seria diferente, sendo eu quem sou. Em meio às nossas conversas sobre temas e teorias variadas, ele se lembrava de alguma coisa e dizia: ‘nós temos que fazer uma festa aqui!”. Fiquei feliz com a reação dele e, ao mesmo tempo, achei curioso o fato de alguém se encantar com um lugar que tem também tanta expressão de sofrimento, com o tempo. Em vários cantos e recantos, o apartamento ainda demanda muitos cuidados especiais, precisa de reparos, que não pude fazer, durante uma longa fase da minha vida, em função de estar voltada para apagar ‘incêndios cotidianos’, com ocorrências familiares, de uma turminha de quatro filhos pequenos. Passei a maior parte da vida sozinha, para atendê-los, para resolver os problemas cotidianos, questões de saúde, a avalanche de tarefas e necessidades. Tudo foi tanto, tudo foi tão intenso, que precisei até mesmo, em certo momento, desterritorializar, gerar uma brotação do Solar, da Pazza Comunicazione, da minha vida e migrar para Caxias do Sul, onde fui trabalhar na UCS.

A chegada no Solar de Caxias hoje me mostrou que produzi aqui uma dobra, um des’dobra’mento de mim e da casa. Eu me desdobrei, literalmente, por amor, por um amor especial e pelo amor aos filhos, buscando ‘sobre-vivência’, em sentidos vários. A casa aqui floresceu, o texto de vida floresceu, a Malu floresceu, o Amorcomtur floresceu e o amor em mim só aumentou! O tempo, em mim, fez consolidar os substratos de amorosidade que construí, me ensinou a seguir semeando e a aceitar o que em mim brotou forte, com a profundidade de laços que enredam lindamente vidas e vidas, textos que transversalizam vidas, vidas que se fazem textos, se fazem casa, se tornam histórias... de amor, claro, com seus caminhos e descaminhos, mas histórias de amor sempre. Eu também aprendi, vivendo, que histórias de amor nem sempre têm os desfechos esperados, mas seguem sendo lindas, seguem sendo histórias, seguem valendo a pena. Assim, sigo.

segunda-feira, 16 de julho de 2018

Madrugada no Solar


Meus olhos se acenderam de madrugada, mais uma vez, no Solar Cardinale. No mesmo horário, aquele, em que eu acordei outras vezes: 3:34. Curioso fenômeno esse, de ser acordada num horário preciso, em datas tão diferentes. Eu fui dormir cedo, talvez tenha sido isso, mas, de qualquer forma, é curioso acordar 3:34, como das outras vezes. Talvez seja um horário espiritual, alguma conexão maior. A questão é que, quando acontece isso, eu acordo plenamente.  Do verbo: acordar... a-cor-dar, como gosto. Acordar quando os olhos abrem, sem que um despertador toque. Acordar por mim mesma, desperta, sem sono.

No pensamento, os amores maiores. Reviso cada um deles, os filhos e o amor da vida ‘aquele’. Revejo-os no seu riso, no seu jeito comigo. Imagino-os dormindo e espero que o sono seja calmo, que os sonhos sejam bons e alegres, que o descanso da noite ajude a serenar as emoções e recobrar as forças para a vida, para o dia que vem logo. Aos poucos, os ‘a-faz-eres’ também começam a se fazer presentes, como provocações. Eu sei, eu sei, eu sempre tenho tanto para fazer, porque fiz assim a vida, plena, entrelaçada entre seres e projetos, entre flores e seres, como eu costumo dizer. Gosto que seja assim, embora pense, às vezes, que eu tenho que cuidar essa minha fome de vida, a metralhadora de desejos e minha tendência a disparar invencionices e engendramentos de novas e novas e novas desterritorializações – ações constantes de sair do território existencial, mudar, movimentar, produzir movimento. Por outro lado, penso o que pode um ser cigano como eu, senão produzir movimento, acionar mutações, em mim, na casa, na vida, nos projetos, nos outros? Já entendi que a vida se refaz assim, se renova, se faz de novo. Assim tem sido.

Movimentos de amorosidade. Sim, cada um deve saber a que veio nessa vida. Eu vim assim, amorosa sem conta, plena de desejo de ‘inventar’, desejo de criação, de inscriacionices e movimentos que me levem ao coração das pessoas, aos lugares distantes que tanto sonhei, aos territórios secretos dos sentimentos dos seres que amo. Talvez por isso seja cientista, envolvida especialmente com Comunicação, Subjetividade e Turismo. Desejo de viajar nos caminhos do coração, dos mundos em que há seres que me querem, de me fazer presente na lembrança, como ser amoroso, como ser-flor, como campo de margaridas, como lugar calmo na vida, porto seguro para quem quer aportar e ficar junto, um tempo, o tempo possível nessa vida de Meu Deus!

Gosto do que vivo, nos encontros da vida, na graça de entrelaçamento com as pessoas. Gosto de estar sozinha também, ainda que a sensação seja de não estar só, mas nutrida de afetos tantos, dos fluxos intensos com quem me envolvo. Lembro do Drummond, que diz, em um dos seus poemas mais lindos, que “a ausência é um estar em mim, e sinto-a branca, tão pegada, aconchegada em meus braços, que essa ausência assimilada, ninguém rouba mais de mim.”.  Essa condição de estar em mim, me faz sentir, ainda, aqui, de madrugada, a conexão com os seres com quem me sinto mais envolvida, na vida, em envolvimentos de diferentes modos. Sou grata.


quarta-feira, 4 de julho de 2018

O barco "Florescer Projetos"



E de repente, ela olhou do lado e sentiu um profundo amor por cada detalhe, a flor da toalha, o enfeite trazido de uma viagem, a lembrança que ganhou de um amigo.... tudo, cada coisa, passou a ser uma imensidão de expressão de felicidade.

Tá doida, santa? Ela sempre foi assim! Assim meio encantada com o mundo, com as coisas, todas... inebriada da vida, meio ‘amalucada’.

Não, agora é diferente! Parece que, finalmente, as coisas estão voltando para o lugar, dentro dela. O tempo é sábio. O amadurecimento espiritual ajuda muito a compreender as teias-tramas da vida! Talvez porque não há mais resquício de mágoa, talvez porque as feridas sararam, talvez porque ela entendeu que as coisas são como são, mesmo que não compreenda bem os motivos... Percebeu, também, que há profundas camadas de verdade, que subjazem em mares e marés, e nas tempestades tantas, que, às vezes, tiram tudo do lugar...

Ela, então, levanta o olhar e encontra um barco, que ganhou de uma aluna querida da UFAM, Taciana é o nome dela. Sorriu, lembrando o encanto daquele momento. Taciana participava de uma oficina de Usina de Saberes Amazônicos, para fazer florescer a escrita na pós-graduação da UFAM. Em uma tarde, ela disse: “Professora, estou fazendo um presente para a senhora!”. À noite, chamou no facebook, e disse: “Está quase pronto o presente!”. A professora agradeceu, enternecida, com a iniciativa dela, no sentido de fazer algo para dar de presente, com o carinho, a doçura do gesto... No outro dia, ela chegou com uma cuia e um barco e disse: “Aqui na Amazônia, a cuia representa a amizade, e a gente só dá barco para quem a gente quer que volte sempre!” . 

Eu nunca mais esqueci a cena. No barco,  está escrito: "Florescer Projetos".
Sou muito grata! Muito!

sábado, 9 de junho de 2018

Abobrinhas Recheadas: Rei Roberto



No palco, entre os excelentes bailarinos amorosos, afetivamente afetados, de olhos brilhantes e movimentos e gestos precisos, está uma ruiva crespa, de cabelos desalinhados encaracolados: minha filha Giulia Baptista Vieira. Eu já imaginava a emoção do espetáculo. Pressentia, pelos ‘cacos de fala’ de nossas conversas sobre a produção, pelos momentos ‘aperitivos’ do espetáculo, divulgados nas redes sociais, e também, claro, porque Roberto é Roberto, um conceito em música amorosa, singular, intenso, pela singeleza com que expressa, diretamente, alguns dos mais profundos sentimentos do amor, de amizade, irreverência e humor. O espetáculo foi tudo isso e mais um pouco: resgatou o melhor da tradição ‘Abobrinhas Recheadas’, com brincalhonices saborosas, em diálogos muitos, com as músicas de Roberto Carlos, mas também com a arte em geral.

Fiquei pensando que estava onde gosto de estar: na comissão de frente, primeira fila de cadeiras (no caso de hoje), embevecida com a maturidade da minha filha, em cena, e também com o refinamento do espetáculo. Movimentos precisos, sujeitos entrelaçados em alegria e intensidade, em situações de constante desabar e levantar-se, metáfora plena de situações na vida, em que ‘se você cair, do chão não passa!’. Em muitos momentos, lembrei-me da fala de Fernando Sabino: “De tudo, ficaram três coisas: a certeza de que ele estava sempre começando, a certeza de que era preciso continuar e a certeza de que seria interrompido antes de terminar. Fazer da interrupção um caminho novo. Fazer da queda um passo de dança, do medo uma escada, do sono uma ponte, da procura um encontro”.

No espetáculo, é encantatória a habilidade de transitar com graça e maestria entre a queda e o salto, as palavras e os silêncios, os abraços e os afastamentos. No jogo de contrastes, a solidão e os encontros marcam também diversas situações das ‘abobrinhas de hoje’. Você  pisca e um bailarino salta, outro rasteja, outro dá cambalhotas. Um grita, outro emudece. Eles se alinham, desalinham. Como estrelas do universo, vão se movimentando em combinações várias, em meio à névoa do Universo cênico. No canto da cena, um que outro deixa rolar lágrimas emocionadas, de quem andou muito para estar ali, de quem fez e faz força, para reinventar o passo, o ‘movimento afetivo nosso de cada dia’. Eu penso: esse choro engasgado me fala de engasgos de histórias pessoais, que eles sabiamente transformam em arte da melhor qualidade. Meus olhos vagueiam na cena, encontrando-os, nos seus traços e gestos singulares, como quem quer acarinhá-los, em retribuição a tal proporção de entrega para a plateia.

Minha filha é uma entre os artistas profissionais em cena. Eu não me canso de repetir: Dance Giulia! E a cada espetáculo, a cada momento que a vejo exuberante e feliz em cena, eu penso que tenho orgulho por sua escolha pela dança, orgulho de ter uma filha que escolhe ser feliz profissionalmente, fazendo o que mais ama! Nesse sentido, eu também estou ali, na sua emoção em cena. O Amor em Cena! O Amorendança! Que ela faça da profissão a sua maior vibração, a sua melhor performance. Talvez por isso mesmo, um mar de pulsações me invadiu, quando eles dançaram a canção que eu tantas vezes cantei para ela dormir, falando que ‘debaixo dos caracóis dos seus cabelos há uma história para contar’. Olhei para seus cachos ruivos em cena, seu corpo altivo, senti sua emoção no peito. Eu estava bem próxima, não hesitei e, com as mãos, formei a representação do coração que entreguei para ela há quase 22 anos. Ela não viu, mas eu sei, nossos corações batem no mesmo ritmo, o ritmo da dança do amor entre mãe e filha!

Antes do espetáculo, eu estava curiosa! Sim, porque é delicado ‘mexer com Roberto Carlos’, personagem midiático emblemático e consolidado no imaginário brasileiro. Ele tem a marca de quem consegue falar simples e profundamente de amor, em um texto ‘rasgado’ de sofrimento e intensidade, ou de singelezas poéticas, que nem são somente dele. A emoção vem das vivências tantas, que foram compartilhadas aos sons daqueles versos e da sonoridade de suas canções. A marca do espetáculo de Natal, veiculado todo ano, talvez tenha a ver com isso... a ‘força tanta’ de melodias e letras, que atravessaram o tempo de muitas famílias brasileiras, acompanhando os encontros, namoros e perdas, os reencontros, casamentos e as novas desilusões, separações, os nascimentos, crescimentos, renascimentos. Nesse sentido, o espetáculo foi fiel ao Rei Roberto. É uma homenagem que, na metalinguagem do ‘abobrês recheado’, mistura a singularidade bem humorada e crítica, das abobrinhas, aos traços marcantes das canções que (parece!) ele fez pra mim, ops, para nós, para cada um de nós.

O espetáculo Abobrinhas Recheadas é mais uma das produções da Macarenando Dance Concept, sempre sob a direção de Diego Mac e Gui Malgarizi, com produção da querida Sandra Santos. Os trabalhos do grupo são sempre impecáveis e avassaladores. São plurais e sem preconceito de estilos, desmontando a arrogância da (suposta) arte que não se encontra com o complexo e diversificado universo que compõe o tecido social, a ambiência ecossistêmica  onde brota a vida e, nesse sentido, onde brota também a dança, uma das mais belas expressões da vida que pulsa!



sábado, 12 de maio de 2018

Lembrando do meu filho Rafael!




Há dias, meu filho Rafael não me sai da cabeça. Tenho pensado muito nele, imaginando onde ele pode estar, o que estará fazendo, como será que está sua vida. Será que se alimentou bem? Está agasalhado? E a escola? Os projetos de vida? Como serão seus projetos de vida? Eu gostaria tanto que ele tivesse projetos de vida...

Quem me conhece, quem me acompanha, de alguma maneira, na vida, sabe que eu não tenho um filho chamado Rafael. Então, de quem estou falando? Falo de um menino que um dia me mandou um cartão de Dia das Mães, sem nunca ter me conhecido. Foi um cartão muito especial, muito emocionante, impactante mesmo. Isso já faz vários anos, não sei ao certo, mas penso que já vão mais de 10 anos do acontecimento do ‘cartão’ do Rafael. Eu vou contar aqui.

Naquele ano, o Dia das Mães se aproximava e meu filho Pietro estava hospitalizado. Eu fiquei sabendo que ele teria visita somente aos sábados e não aceitei. Pensei: “Não, Dia das Mães é domingo! Quero ver meu filho Pietro no Dia das Mães!”. Fui falar com a direção da clínica e parecia não haver jeito... me disseram: “Não podemos liberar somente para a senhora! As outras mães também iriam querer”. Argumentei que então liberassem para todas as mães, que não havia sentido impedir que crianças hospitalizadas vissem suas mães nesse dia, que seria um absurdo, que eu não aceitava de jeito nenhum. Bem, falei tanto que eles concordaram e liberaram a visita para todas as crianças. Eu fiquei muito feliz.

Cheguei cedo, antes mesmo do horário de visitas. Quando liberaram a entrada, logo o Pietro desceu e me trouxe uma cartolina ‘de presente’, com desenhos em homenagem pelo Dia das Mães. Chamou muito a atenção que a cartolina estava dividida pela metade, com um risco, um traço bem no meio. Em uma parte, o desenho era bem nítido, com traços de criança, mas que demonstravam a figura de uma mãe e um filho. Do outro lado, o desenho era totalmente abstrato, eram riscos não agrupados em uma expressão figurativa clara, riscos em desalinho. Não era possível compreender o que expressavam claramente. Com a maior delicadeza do mundo, perguntei para o Pietro porque havia aquela divisão e porque ele havia feito desenhos tão diferentes, o que ele quis dizer. A surpresa veio daí.

Pietro me olhou e respondeu naturalmente, sem se dar conta da proporção do significado do que me contaria. Ele me disse: “Não mãe, eu só desenhei desse lado [o que estava mais organizado]. Desse outro lado aqui [e mostrou, apontando, os desenhos com rabiscos desalinhados, desordenados] quem desenhou foi o Rafael. Ele me pediu emprestado, me pediu para fazer, porque ele não tem mãe e nunca fez desenho para uma mãe. Ele estava triste, porque não tinha para quem fazer desenho e eu emprestei metade do meu papel para ele fazer um desenho para você”. Eu fiquei imobilizada, emocionada pelo gesto do Pietro e pela condição do Rafael. Fiquei tentando não chorar... bem difícil.

A situação complicou um tanto, para mim, quando Pietro olhou para o alto e viu um menino ao lado de um atendente. O menino olhava fixamente para a gente. Pietro, então, me disse: “Mãe, aquele lá é o Rafael!”. Imediatamente me levantei, olhei para ele e disse: “Rafael, eu adorei o desenho! Muito obrigada! Muito obrigada mesmo!”. Ele abriu um sorriso imenso, arregalou os olhos e começou a saltitar, alegre, dizendo para o atendente: “Viu tio, ela é uma mãe de verdade e gostou do meu desenho. Uma mãe de verdade gostou do meu desenho. Eu fiz o desenho e ela gostou. Um mãe de verdade”. Meu Deus, eu não tenho como esquecer aquela cena. Um menino sem mãe me chamando de ‘mãe de verdade’, imensamente feliz porque pôde fazer o desenho para mim! As regras da clínica não permitiam, mas eu queria muito ter dado um abraço nele. Como faço tantas vezes, diante de situações que não posso mudar, que estão longe do meu alcance, escrevo e peço ao Moço da Parede que ajude!

Deixo aqui meu abraço para o filho Rafael que me adotou sem me conhecer e, em nome dele, meu abraço a todas as crianças que não conheceram suas mães biológicas ou adotivas. Que a história do Rafael seja um incentivo a todos quantos puderem acolher crianças em suas famílias, fazê-los ‘filhos de verdade’ com ‘amor de verdade’, que é o que mais importa nesta vida. Por experiência própria, eu recomendo muito a adoção como possibilidade de viver a imensidão de alegria que é ser mãe! É uma experiência tão linda e tão maravilhosa quanto à maternagem biológica! Sou testemunha disso!




domingo, 14 de janeiro de 2018

Sobre silêncios e a escuta de si (de mim)


A escuta interior nos direciona. Quando conseguimos paz e tranquilidade para produzir essa escuta, na simplicidade e serenidade dessa paz, podemos nos conectar com boas energias, com nossos grandes mestres espirituais. Então, os caminhos se abrem, como vislumbres e indicações claras. Nem sempre o que vemos é o que desejamos, é o que gostaríamos, enquanto estamos tomados pelos ímpetos e amarras do cotidiano (ou do tempo!). Nem tudo o que se mostra indicado, nesse silêncio interno, é o que gostaríamos de ouvir, mas o que emerge nessa condição é sempre algo crucial, como recurso necessário à 'sobre-vivência', em sentido amplo!

Mesmo que contrarie nossos desejos imediatos, alguns indicadores brotam como óbvios, podem ser encarados como aqueles trechos do percurso em que temos que respirar profundamente, sentir o ar circulando e seguir, seguir, seguir... caminhar, avançar, compreendendo que a estrada é assim mesmo. Ela tem suas nuanças, suas manhas e peculiaridades. Eu sinto que tenho sido uma boa aluna da estrada. tenho aprendido a ceder, a aceitar e a renovar a disposição de seguir adiante, independentemente das intempéries, das agruras, do conjunto de ações a serem reinventadas, de trilhas a serem abandonadas e de novos rumos a serem empreendidos.

Nesse sentido, como viajantes do tempo, peregrinos do cosmo, penso que é preciso reconhecer nossa pequenez, nossa condição de elementos cósmicos ínfimos, em interação com uma Teia Maior, que nos conecta com outros seres e ecossistemas, com outros universos. A teia da vida, diria Fritjof Capra. O resultado de nossos passos interfere no todo e é por ele direcionado, porque esse todo nos perpassa constantemente, já que a ele estamos entrelaçados como 'seres-existência'. Nessa confluência de entrelaçamentos tantos, nossa tarefa é seguir, procurando semear amorosidade e bem-querer-bem, procurando praticar o autocuidado, no percurso, ao mesmo tempo em que ajudamos quem nos procura, quem nos rodeia. Isso foi sempre o que tentei, é sempre o que pretendo, apesar de todas as minhas limitações. 


Pelo que percebo, nada é sem sentido, ainda que, às vezes, não reconheçamos o sentido, no momento em que vivemos. Em muitas situações complexas vividas, eu me deparei com uma lógica maior, parece escrita num grande texto cósmico, no qual minha condição de autoria se viu sempre limitada. Alguns chamam isso destino. Eu chamo de texto teia trama da vida. Sigo tentando escrever a minha (ínfima) parte, dando a minha melhor contribuição possível. Então, vamos! Como sempre, é preciso força e coragem, cor-ação! 

domingo, 10 de dezembro de 2017

Matriz coração! ‘En-a-morada!’

Gosto de samba, gosto da Marrom (a Alcione)! Dia desses, o refrão de uma canção que ela canta me ‘brotou por dentro’ e eu fui atrás da música! Coração de Porcelana! E eu fiquei refletindo sobre a ideia... coração de porcelana! Durante muito tempo, eu mesma pensei que meu coração fosse de porcelana, delicado, frágil, fácil de quebrar. Pra minha alegria, a vida me ensinou que meu coração está bem longe de ser porcelana! É um coração grande e forte! Coração composto de fibra italiana com densos entrelaçamentos de amorosidade e brotações constantes, de mais e mais amor, mas isso não tem nada de fragilidade e tampouco representa risco de se (me) quebrar!

Em meu coração mescla-se o fluxo de sangue quente, a pulsação de gente que se reinventa a cada instante, a cada respiração, a cada pulsação. Gente que sobreviveu à guerra e atravessou oceanos, em busca de sonhos e de uma vida melhor. Há densidade e intensidade, nas batidas e nos modos de ‘dar passagem’ para novos fluxos, novos processos de reinvenção de vida. Assim, sinto hoje no peito um coração que sabe ser sereno e intenso ao mesmo tempo. Ele se nutre todos os dias da confiança amorosa, dos amores conquistados com o tempo, com laços profundos e entrelaços abstratos de energia! Eu sei o que fomos, eu sei o que somos e, assim, mesclados e entrelaçados no peito, sei que vidas se entrecruzaram e semearam devires. Cumpriram a sina de vidas 'en-a-mor'!

Fiquei pensando que a música é bonita, sensível, amorosa, mas romântica demais, no sentido do sofrimento amoroso, que não é minha opção no cultivo do amor. O refrão diz: “Onde andará?/ Que paixões terá?/ Quando voltará?/ Ou me esquecerá”, com uma deliciosa e dengosa melodia da Marrom. Esse chamamento, acredito, brotou em mim, pela lembrança de um amor antigo, que permanece na lembrança e vez por outra surge como uma nuvem de intensidade amorosa, que transita em mim, que se mistura com a imagem da cena cotidiana! Numa dança de memória, o encontro com essa ‘névoa amorosa’, me traz a sensação de graça e emoção alegre. É bom que tudo tenha sido vivido! Resta em mim o agradecimento pelo bem da vida, pelo que pôde e pode ser vivido. Se, como nos ensina Emmanuel, tudo é impermanência, que os instantes de amor vividos sejam a nossa constante, na lembrança, na vivência, no sentimento! Assim tem sido comigo, assim tenho vivido amorosamente!


Hoje reconheço meu coração como um feixe-trama de entrelaçamentos amorosos de grande consistência. São florações entrelaçadas, em um substrato fértil e pleno de húmus da vida! Deste coração, florescem sempre (até quando o Moço da Parede permitir!), com viço, novas possibilidades. Aqui são cultivados os floresceres que se tornaram possíveis e se mantêm plenos, também cultivados por outros seres que me amaram (que me amam!). Sou realmente muito grata, especialmente porque nessa complexa teia-trama da vida, a amorosidade se renova, longe da idealização. O amor é cultivo compartilhado, como quem cuida da floração e das sementes semeadas para gerar o fruto mais saboroso que existe! É bom se saber ‘en-a-morada’! Este, literalmente, é o meu território e a minha matriz existencial!

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

‘Segredos de liquidificador’ em sala de aula

Na minha frente, apresentando a análise de peças gráficas, um aluno treme, em sala de aula. Mais correto seria dizer: o aluno vibra, seu corpo estremece e se mostra em uma emoção alterada. O jornal, em sua mão, objeto empírico da análise, vai mostrando, ‘traidor’, que esse ser estudante tem a emoção à flor da pele. Ao mesmo tempo, ao falar, ele esboça um riso de quem se sente satisfeito pelas ‘descobertas’, pelo que pode enunciar de saber construído. Ele tem a emoção de aprender, assim, ali, visível aos nossos olhos, com um corpo que vibra, independentemente de sua vontade consciente. Eu me lembrei da canção "Codinome Beija-flor", de Cazuza, especialmente pela expressão "Segredos de liquidificador"!

Fiquei pensando que também a educação, o conhecimento, quando vividos com amorosidade e intensidade podem emocionar e nos desafiar como seres inteiros, com nosso ‘corpo vibrátil’, para lembrar um conceito da Esquizoanálise, uma das teorias que estudo. A emoção é diferente, da referida pelo poeta Cazuza, mas também é avassaladora e mobilizadora do conjunto do ser, feito corpo, alma e mundaréu de afetos. Somos seres complexos, em corpos que vibram e entram em sintonias com energiais circundantes e transversalizantes. E essa vibração não segue ou serve ao intelecto, nem se limita à materialidade do corpo, em si, mas diz respeito ao que nos emociona, o que nos põe vivos, o que nos transversaliza de emoção ‘derramante’, que nos mobiliza como seres inteiros e nos põe prontos para nos mostrar, nos entregar, de alguma forma. 

Nesse sentido, o encontro amoroso, com a emoção de quem encontra o outro e se emociona por isso, assim como a apresentação de um trabalho, a aula, a palestra, são situações que podem nos colocar em condição de estremecimento, de alteração nas vibrações emocionais e físicas, a tal ponto que isso transpareça, se faça visível. Isso ocorre em cada momento em que nos ‘enviamos’ para o outro, nos expomos, nos dispomos para, na entregar, sermos tocados pelo corpo ou pelo olhar do outro. Quando a situação nos emociona grandemente, nosso corpo vibra e, às vezes, essa vibração se expressa em tremor, em vida que jorra, nas suas variações, em riso, em choro, enfim...

Eu me lembrei também de outra canção, essa de Caetano Veloso, intitulada Força Estranha. Na letra da música, ele diz: “Eu vi um menino correndo/ Eu vi o tempo brincando ao redor/ Do caminho daquele menino”. E nesse momento, eu também vi o tempo, o tempo de docência, outros tantos meninos-moços, como aquele que, emocionado, apresentavam seu trabalho, com esforço e alegria. Lembrei-me de alguns, em especial, preparando-se para as primeiras apresentações de pesquisa, esforçando-se para se mostrarem corajosos e, com a voz embargada e certo estremecimento, mostrando a mim e a si mesmos a emoção de crescer e aprender, de se mostrar em cenas mais desafiadoras. Emociona-me o fato de que, sendo educadora, eu acompanho seres em processo de construção de projetos de vida, seres que investem muito mais que dinheiro e tempo; investem sua emoção, sua esperança e a si mesmos, inteiros, na construção de um devir vida, que os sustente existencialmente, em sentidos vários.

Fico pensando no compromisso e nas marcas que, como educadores, deixamos nessas estradas existenciais singulares e no quanto é necessário investir em amorosidade, acolhimento, bons afetos, nos processos de aprendizagens para que eles sejam geradores de alegria e potência de vida, pautada pela confiança amorosa, pela construção de autoestima e humildade, ao mesmo tempo. Fazer pontes entre as trajetórias que os trouxeram até nós e as novas estradas que se abrem. Ao mesmo tempo, compreender que é tudo construção conjunta, que a produção é resultado dos entrelaçamentos de saberes, das histórias de vidas todas que se encontram e que a transformação é ecossistêmica. Assim, também sinto que sou eu também que estremeço e umedeço o olhar com meu aluno que treme, com o jornal nas mãos.

Assim, nessa condição emocionada, lembrei-me também de Rubem Alves e do lindo livro Variações sobre o Prazer. Entre tantas bonitezas, ele afirma que o corpo sabe sem saber, e resgata o personagem Riobaldo, de Guimarães Rosa: “O corpo não traslada, mas muito sabe, advinha, se não entende” (p.77). Gosto também quando ele nos desafia a encontrar as crianças em cada um, pois a crianças sabem lidar melhor com as “caixas de brinquedos” enquanto os adultos, tantas vezes, ficam restritos às “caixas de ferramentas”. Assim, vale igualmente o pensamento do poeta Manoel de Barros, quando diz que “a palavra poética tem que chegar ao grau de brinquedo para ser séria”. Penso que isso é pertinente para a educação também, que precisa mobilizar afetos profundos. Para tanto, precisa fazer com que o sujeito se sinta em processos de brincadeira séria e, assim, se permita emocionar-se, revolucionar-se, crescer, ameninando-se, vibrando e, se preciso for, estremecendo com as experiências de se entregar, de se mostrar, de ser fazer seres em processos de autopoiese, de reinvenção de si mesmos.


segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Casa de floresceres!

A energia da casa precisa ser trabalhada com entrelaços de amorosidade e firmeza. Há laços a serem revisados, ajustados, laços que enlaçam, que envolvem os sujeitos, ao mesmo tempo que são agenciados por esses próprios sujeitos, numa energia que emana e se autoproduz constantemente. Campo de floresceres, campo de usinagem de vida. Habitat de seres-alma entrelaçados por uma razão sensível cósmica. Leva-se muito tempo para entender o que se sente todos os dias, o que vai tranversalizando a nós mesmos, construindo liames, em cenas compartilhadas, frases, olhares, risos, gestos, carícias trocadas. Momentos de aprendizado imenso...em que se aprende a compartilhar, conviver, dividir o alimento, o sustento, os sabores e amores.

A casa da gente é uma matriz ecossistêmica de força, de onde florescem projetos de vida, de seres-flores, seres que, em determinado momento, se vão, pelo mundo afora, para construir outras casas-matrizes de florescimentos. O que acontece é que a casa é uma roupa grande, uma outra pele, maior, mais densa, que reveste a vida da gente, na usina de produção, em entrelaços com os seres que o Universo escolheu para serem nossos, nessa vida, nessa passagem-viagem! Cada um constitui uma parte de um texto maior, textura, tessitura de vidas em brotação.

Eu gosto das minhas casas. Gosto de cada coisa, das minúcias. Em cada detalhe, há vestígios de mim mesma, ali, inscrita no tempo e nas minhas tantas limitações e algumas potencialidades.  Gosto do que venho construindo e tenho respeito pelo que pude (e também pelo que não pude!) fazer. Fui vivendo sempre no meu máximo, fazendo sempre o que podia, como tentativa imensa, me esforçando para conseguir manter a família, manter os projetos seres filhos, como seres de amor e bem-querer-bem. Há também sinais de muitas dores vividas, muitos momentos sofridos, desgastes da vida, momentos impensados, violência existencial. Nem tudo são flores, mas das dores também floresceu um ser Malu mais forte, sensivelmente mais forte. Fui o que precisava ser, em cada momento.

“De tudo ficou um pouco”, como diz Drummond, em um dos meus poemas preferidos, lindamente intitulado Resíduo. Também há nas minhas casas meus melhores momentos, os momentos cúmplices, os momentos de paixão, momentos de impetuosidade e italianidade, momentos ardentes. Foram todos momentos de amor profundo. É esse amor que sinto, ainda hoje, me sustenta e mantém viva a orientação para trabalhar a energia das casas, para tentar fazê-las mais acolhedoras, mais floridas, mais amorosas. São casas simples, sem cadeiras na calçada, porque minha condição de vida não me permite morar em ‘casa, casa’ mesmo... Meus espaços de vida são ‘casa’, porque fiz ‘casa’ dos apartamentos que tenho... casa, morada, toca da leoa, Solar Cardinale, onde transitam pessoas que amo ou por quem tenho amoramizade! Assim como tem que ser!


terça-feira, 1 de agosto de 2017

Um filho é uma alma da gente!

A frase me veio hoje à cabeça, em uma situação importante. Um filho é uma alma da gente! Eu sei, alma não tem dono, não faz sentido, mas eu penso que a frase veio, porque eu senti e pensei que um filho é uma alma que o cosmo escolheu para estar sob os nossos cuidados. Cuidados imensos, entrelaços na mesma proporção. Uma alma que nos desafia, nos alegra, nos preocupa, às vezes também nos cuida... Uma alma ‘nossa’! Uma alma amada, com quem se cultiva o amor e se aprende a amar e estabelecer e reconhecer limites! Uma alma que nos faz humildes, profundamente humildes, compreendemos que sabemos pouco da vida e que nada está decidido nunca, nada que sabemos de nós mesmos vale para o outro que vive outra vida, em outro tempo, com outras tramas existenciais. Tudo tem que ser construído na vivência e na trama de entrelaçamentos e acontecimentos.

Ao mesmo tempo, parece que somos nós mesmos do lado ‘de fora’. É como se fosse o desdobramento da nossa própria alma, um desdobramento do nosso corpo físico espiritual emocional. Eu já tinha ouvido falar que um filho é o coração da gente multiplicado. Não, não é só isso. É muito mais que o coração. Sinto que há entre nós uma ligação de natureza meio mágica, um filamento espiritual que nos une e nos faz conectados, para muito além do que é visível, para muito além do corpo físico, para muito além do que eu um dia pude imaginar. Eu sempre tive isso especialmente com minha mãe, mas não entendia bem. Só sabia que era uma conexão profunda. Ainda hoje temos conexões sem explicação no mundo físico, material. Coisas de mãe-filha.

Agora, nesse outro tempo da minha vida, todas as vezes que meu olhar encontra os olhos dos meus filhos parece que o mundo, a vida, faz sentido e eu vislumbro meu sentido de vida. E que o sentido mesmo é um texto que não pode ser dito na sua completude, até porque é um texto que eu não sei completo.  Eu só pressinto, porque é um texto sempre em construção, um texto que se constrói junto, na relação. Percebo que há uma matriz de desejo do que eu quero dizer, em síntese, para essas almas minhas. Sim, porque parece que viemos para nos colocar em situações de desafios de construção de potência, situações que são acionadas pelo motor gerador do próprio sujeito. E, assim, o que eu mais quero dizer é: acredita, você pode! Não há modelo, não há um jeito pronto, mas há o que 'você pode fazer' com seu jeito, com sua marca, descobrindo sempre ‘o que te importa?’. Eu não te quero do ‘meu jeito’, eu te quero ‘seu’, autônomo, ser por você mesmo. Meu modelo é insignificante para quem tem uma vida inteira pela frente. Minha vida e meu jeito não são modelos para ninguém. Eu me considero uma pessoa esforçada, totalmente voltada para o bem-querer-bem, mas isso não quer dizer que eu tenha respostas... que eu saiba muita coisa.

Fico pensando que apesar de lidar tanto com as palavras, com meus filhos eu falo mais intensa e adequadamente de outras maneiras. Produzimos interações e significações, muitas vezes, sem texto verbal. Produzimos textos intensidades abstratas, que nos conectam e fazem com que o rumo da prosa seja amoroso, intenso, até mesmo quando discordamos. É uma vida inteira, talvez mais que isso, é um tempo intensidade que, pelo que entendo, não se limita a esse tempo que estou por aqui. Bem, por óbvio, este texto aqui não termina... deixo, no entanto, a frase em resposta à pergunta de um dos meus filhos, quando pequeno. Ele chegava perto de mim e me perguntava: “Mãe, você nunca vai me esquecer?”.  E eu que digo frequentemente que ‘nunca’ é muito tempo, neste caso, posso afirmar: “Nunca! Não posso esquecer, desistir e não acreditar em transformações, para melhor, de seres que estão conectados à minha própria alma. São minha própria vida prolongada, meu fluxo de vida, minha respiração, minha pulsação existencial! Sou muito agradecida pelos filhos que tenho, pela almas que recebi para cuidar! Assim como sou muito grata pelas almas com as quais pude me (re)encontrar! Muito! Lembro-me do poeta  Fernando Pessoa, que disse: "Tudo vale a pena quando a alma não é pequena." No nosso caso, somos almas entrelaçadas e, por isso, fortes! Tudo vale muito a pena!







domingo, 30 de julho de 2017

Malu Jardineira



O encontro com a natureza tem me ensinado muito. Tanto ou mais que o encontro com os livros. Na verdade, são saberes complementares, entrelaçados. Gosto das abstrações e da poética da teoria, assim como gosto do ‘con-tato’ direto com a natureza, também a natureza em mim. Assim, na lógica dos floresceres, do amor pela floresta, pelas árvores todas, vou cultivando, eu mesma, como posso, flores, floresceres em minha casa, em minhas casas, de Caxias do Sul e de Porto Alegre.

Elas me dizem coisas da vida, da vida que brota e que demanda cuidados. Também me contam sobre o tempo que passa e do ciclo da vida, o que brota, ganha viço, depois enruga, enrijece, retorce, seca e morre. As plantas ensinam também sobre relacionamentos, sobre o que faz o entrelaçamento perdurar, sobre o que garante o laço, o entrelaço, a convivência e respeito ao espaço de cada folha, de cada pétala, de cada liame, dos fios que se soltam e se enredam, entrelaçam.


O trato com as plantas tem que ser delicado e firme, assim como com as pessoas. Delicado, para atender à condição da natureza mesma, às singularidades de cada planta, o seu jeito, seu trejeito, o modo como brota, como ganha viço e se mostra ‘exibida’. Tem que ser firme, porque às vezes envolve cortar, impedir que invada o espaço de outra planta, ou, mesmo, que vá se direcionando para cantos onde se coloca em risco (no apartamento).


Como no caso das pessoas, eu gosto de observar as diferenças das plantas, de perceber, em cada qual, sua beleza e sua força, no traço singular da sua existência. Gosto de interagir com elas e me colocar humilde, buscando compreendê-las. Muitas vezes, entendo que não brotam porque a terra não é fértil, e, neste caso, é preciso também agir, trocar de terra, buscar outros nutrientes, entender que não adianta insistir em substrato que é estéril de substâncias que ajudem a florescer, a renascer autopoieticamente, a planta, a flor, a gente!

Deixo, então, aqui, uma das lindas canções do Toquinho, nesse sentido. “Natureza Distraída”
“Como as plantas somos seres vivos,
Como as plantas temos que crescer.
Como elas, precisamos de muito carinho,
De sol, de amor, de ar pra sobreviver.

Quando a natureza distraída
Fere a flor ou um embrião,
O ser humano, mais que as flores,
Precisa na vida
De muito afeto e toda compreensão”.

https://www.letras.mus.br/toquinho/87302/

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Chiara e a Orquestra da UCS!




Aquele momento em que você está com a filha, de 16 anos, assistindo a um espetáculo interativo da Orquestra da UCS, chamado Orquestrando Organizações, oferecido aos professores da UCS, no Encontro de início do semestre. O maestro desafia o público, para que algum voluntário vá reger a orquestra no ‘lugar dele’ (com a ajuda dele, no início!), depois de ter ensinado alguns ‘movimentos básicos’! Nenhum professor se candidatou, em um primeiro momento, e quem levantou a mão? Sim... a Chiara Baptista Vieira! 

O espetáculo foi apresentado hoje duas vezes para o grupo de professores da UCS, como parte do encontro dos professores com a reitoria. De manhã, fiquei impressionada com a ‘aula mágica’, que recebemos sobre a composição e o funcionamento da orquestra, com suas várias ‘famílias’ de instrumentos, a beleza e singularidade de cada um. A importância da união de todos os instrumentos. Lembrei da minha filha Chiara, também apaixonada por música e pela Orquestra da UCS! Pensei: “ela vai amar assistir e aprender um pouco mais sobre cada instrumento, não pode perder essa oportunidade de assistir ao ‘nosso maestro’, Manfredo Schmiedt, explicando tão bem humoradamente como se produz a mágica da orquestra”.

Quando a convidei, não imaginei que ela subiria ao palco; apenas pensei que ficaria encantada, como eu, com as explicações. Lembrei de vários momentos da vida em que Chiara ficou hipnotizada com apresentações musicais, dos mais diferentes ritmos, desde pequena, desde muito pequena. Até mesmo em situações em que todas as outras pessoas do ambiente dançavam, a Chiara estava lá, olhando fixamente para os músicos, encantada, observando cada movimento. Pensem, por exemplo, em um baile de carnaval... sim a Chiara, pequenina, se parava diante da banda, em meio à confusão de foliões, e observava atentamente aos músicos e ao seu trabalho. Olhava detidamente, séria, só observava. Tá, outro exemplo: show do Exalta Samba, em Caxias do Sul, há alguns anos. Fomos em família. No camarote, eu me deliciava sambando e a Chiara, na minha frente, parada, olhando, só observando os músicos. Bom, houve também as apresentações com o irmão Giuseppe, para a família toda, com as composições próprias. Eles se divertiam criando música, quando eram muito pequenos.

Lembro de uma vez que fui buscá-la na aula de música e o professor a elogiou! Eu agradeci, pensei que era simpático da parte dele elogiar minha filha. Ele percebeu e reforçou: “Olha, a senhora não está entendendo. Ela realmente tem uma sensibilidade e habilidade que se destacam! Ela se destaca muito!”. Chiara tem cultivado a música intensamente, durante a sua vida (16 anos!, como eu já disse). Na escola, já tocou vários instrumentos, participou da Banda Escocesa, coral, fez aula de violão, escaleta e caixa. Tem em casa guitarra, teclado e violão, e decidiu que vai comprar um ukulele (que eu ainda nem sei como é!).  Nesse momento faz aula de canto e de teatro.


O mais importante de tudo: eu vi minha filha viver um momento absolutamente mágico, em que demonstrou coragem de ir viver seu sonho! Durante o período em que esteve no palco, Chiara sorria muito, embevecida com a cena, com o momento. Ajudou, claro, o fato de ser aluna do CETEC e de ter participado recentemente do CETEC Festival, com apresentações teatrais, em que ela também ousou interpretar uma personagem, de uma peça que ajudou a escrever, sobre os refugiados. A informação de hoje é: vivemos um momento em que se consolida a informação de que temos mais uma artista na família!





domingo, 14 de maio de 2017

"Filho Rafael': menino do 'desenho no cartaz'


Hoje foi mais um Dia das Mães. Vivi, como é de costume, emocionada e reflexiva. Houve um tempo, na minha história de vida, em que decidi que seria uma mamma italiana. Entendi isso, como uma verdade, em mim, mesmo antes de conseguir ser mãe, de conseguir ser mãe adotiva e mãe biológica. Vivi também muitos Dias das mães sem filho, antes disso. Passei dez anos, tentando engravidar, lutando com um diagnóstico, ou vários... vários, até chegar em um deles, que se interpôs como se fosse uma fatalidade, para alguém tão amorosamente decidida a viver a maternagem...

Depois de dez anos de tentativas e exames e alarmes falsos, o médico me disse: “Não adianta, não adianta insistir. Você tem endometriose em grau severo. Não há como engravidar com esse quadro!” . Eu disse: “Dá.”. Ele respondeu: “Não dá, impossível. No teu caso, só um milagre!”. Eu retruquei: “Que seja, o senhor pode esperar. Eu vou engravidar, pelo ‘método tradicional’, pode acreditar. E, enquanto isso não acontecer, vou adotar crianças”. Foi assim que resolvi partir para adoção e tive os meus primeiros três filhos, até que um dia engravidei, biologicamente, da quarta filha.  O ‘milagre’ se fez e hoje tem 15 anos. Linda.

O traço de maternagem em mim tem sido uma imensidão de amor, uma avalanche de afeto de bem-querer-bem, que me mobiliza desde criança a ser cuidadora, amorosa, afetiva. Como eu disse uma vez, amor derramado, sem meias medidas. Talvez também por isso, até hoje, eu me lembre tanto do Rafael, um menino de uns seis sete anos, no máximo, que conheci de longe, numa situação muito forte. Vou contar agora.

Um dos meus filhos estava hospitalizado, o Dia das Mães se aproximava e eu pensava como seria difícil que ele não estivesse em casa. Para piorar a situação, a Clínica em que ele estava internado não permitia visita aos domingos, somente aos  sábados. Eu não me detive. Fui falar com um, com outro, até chegar no diretor e pedir a liberação da visita no Dia das Mães. Insisti, disse que não ia passar sem ver meu filho, que isso seria importante para ele também. Então me disseram que não poderia liberar a visita só pra mim. Aí eu disse: “Mas é claro! Liberem pra todas as mães! Não faz sentido!”. Bom, de tanto eu insistir, eles concordaram.

Chegou o domingo à tarde. Quando fui fazer a visita, havia uma fila, muitas outras mães felizes pela ‘decisão’ da clínica de liberar a visita no domingo. Era um acontecimento raro ali. Meu filho ficou muito feliz também e veio me encontrar com um cartaz na mão. Ele tinha feito um desenho para me homenagear, para expressar seu amor. Quando peguei a cartolina branca nas mãos, olhei e percebi que a folha estava dividida ao meio. Em uma parte havia um desenho, sim, de criança, em que podia perceber que eu havia sido desenhada com os outros manos. Na outra parte, havia alguns riscos dispersos. Não era possível identificar o que estava desenhado, mas se percebia que havia ali um esboço, não nítido. Não havia uma figura nítida....fiquei intrigada.

Perguntei, então, ao meu filho, o que significava aquela divisão. E por que, de um lado da folha, ele tinha feito aquele desenhos ‘diferentes’. Ele respondeu que aquela parte da folha não era dele, mas do Rafael, um outro menino que estava hospitalizado e que, ao saber da vinda das mães, como ele não tinha mãe, pediu emprestado ‘a mãe do meu filho’, no caso, eu, e um pedaço da folha de cartolina para ele fazer, pela primeira vez, um desenho para ‘uma mãe’. Meu filho disse: “Ele é meu amigo. Não tem mãe. Então me pediu para também fazer um desenho pra você!”. Bem, eu fiquei sem poder falar... emocionada, até o momento em que meu filho olhou para cima e viu o Rafael. Ele estava na parte superior da clínica, em uma mureta, acompanhado de um atendente. Olhava fixamente para nós, acompanhando o ‘momento da entrega do desenho’. Meu filho o apontou e disse: “É aquele, aquele é o Rafael!”. Eu me levantei, mostrei o cartaz e disse pra ele: “Rafael, querido. Muito obrigada. Eu adorei o desenho, é muito bonito! Adorei mesmo!”.

Bom, pensem  em um momento dramático. Lindo emocionante, de chorar. Os olhos do menino se iluminaram, ele abriu um sorriso imenso e dizia insistentemente para o atendente: “Tio, viu, ela é uma mãe, uma mãe de verdade. Ela gostou do meu desenho. Viu tio? Uma mãe de verdade gostou do meu desenho. Ela é uma mãe. Uma mãe de verdade”. Meu Deus, ainda hoje a expressão do rosto dele está na minha retina, nos meus olhos, no meu coração. Pensei muito no ‘meu filho Rafael’, o do desenho no cartaz, pensei também em todas as crianças que, como ele, vivem o Dia das Mães, em meio a toda a parafernália midiática, sem ter para quem doar um abraço, um traço, um desenho um afago e ter isso retribuído de alguma maneira. Pensei também nas mulheres que desejam viver a maternagem e não puderam, pelo aprisionamento de diagnósticos que sentenciam a impossibilidade.

Mais que nunca, entendo hoje que, apesar de todos os desafios imensos que a maternagem nos impõe, a opção vale muito a pena, quando é resultado de decisão profundamente sedimentada em afetos de bem-querer-bem consolidados. Nesse sentido, a adoção é uma linda possibilidade, tanto quanto a gravidez biológica. No cotidiano, não faz diferença, filho é filho, adotivo ou biológico. Eles vão se entrelaçando com a gente, tanto e imensamente, a tal ponto que vamos entendendo que sua presença nas nossas vidas faz parte de uma Escrita Maior.


Eu quero deixar aqui, meu imenso abraço para o ‘menino Rafael’, que, naquele dia, não pude abraçar, impedida pelas regras da clínica. Eu fiz o que eu pude. Tem sido assim, na minha vida. Eu faço o máximo que eu posso... para acolher, adotar e cuidar. Fica aqui o meu desejo de que ele tenha também conseguido uma mãe adotiva e que receba muitos abraços sempre. Que os anjos o protejam, assim como às outras crianças todas, em todos os dias!

domingo, 30 de abril de 2017

CONVOCAÇÃO PARA A PAZ ENTRE AS LEOAS!



A urgência do tempo, em alguns sentidos, tem me conduzido a refletir mais sobre, afinal, o que querem essas leoas em mim? Por que elas brigam tanto? Que tempo é esse que ainda tenho, para viver às turras, internamente, com os desassossegos tantos, entre essas ‘criaturas’ fiandeiras do meu destino. Para quem não sabe, as leoas são minhas versões de garra e luta, em diferentes instâncias da vida, de diferentes modos. Quem me conhece, nem sempre conhece todas as leoas... Costumo dizer que cada um tem a leoa que conquistou. Elas são, em certa medida (sem medida certa!) manhosas, dengosas, birrentas, bravas (no sentido italiano de valentia e no sentido brasileiro de fúria, às vezes. Em suma, melhor não provocar!). Claro, são também ternas, amorosas, sim, muito amorosas. Isso, todas são.  Cada uma a sua maneira.

Há pouco tempo, tive um indicativo de diagnóstico – que não se confirmou, após uma biópsia! – de uma doença grave, lenta e silenciosa, dessas autoimunes. No caso, a explicação da tal doença dizia que, por motivos desconhecidos, algumas células começavam a matar as outras ‘por engano’. Pensei imediatamente nas brigas das leoas internas, a Maria Luiza, a Malu, a Luiza, a italiana, com as tentativas, nem sempre bem sucedidas da Dra Cardinale, no sentido de acalmá-las.

Apesar da situação nada boa, nem alentadora, comecei a achar certa graça da situação. Tantas vezes conversava comigo mesma e com minhas células e dizia... “Olha, vejam só, vocês se conhecem há tanto tempo! Vão começar a se matar agora?”. E, em seguida, imaginava as células ironizando: “ Ops, desculpe, te matei né? Desculpa, tá, fica aí mortinha!”. Com alguns amigos mais preocupados comigo, amigos chegados, que estão mais por perto no cotidiano, eu comentava isso, até como uma forma de descontrair. Não há porque se ‘pré-ocupar’, numa situação dessas. Penso que apenas devemos nos ocupar... fazer o que tem que ser feito, sem dramas, nem nada. Foi o que tentei, depois do impacto inicial da informação.

Enfim, a situação prolongou-se por praticamente um mês, entre receber a informação de indicativo de diagnóstico e esperar o agendamento de biópsia, fazer a biópsia, aguardar o resultado. Uff! Tudo isso fazendo tudo que faço, em meio ao gerenciamento de uma família com cinco filhos, a vida nas universidades UCS-UFAM, os orientandos, aulas, clientes de supervisão de textos da Pazza Comunicazione, tudo urgente, tudo com prazo-lâmina, com eu costumo chamar, tudo pedindo atenção, em um tempo em que eu precisei de tempo de reflexão, para construir calma interna, até mesmo para abrir agendas para consultas, exames, agendamento disso e daquilo. Eu, literalmente, não tenho tempo (nem paciência!) para adoecer, nem para falecer. Lamento.

Foi tempo suficiente para compreender a grandiosidade da vida e da velocidade do tempo em que ela passa. Também foi possível pensar o que quero e o que não quero. Pensar que são verdadeiramente poucas as coisas pelas quais devo brigar, ficar brava. Resolvi, eu mesma, finalmente, aderir à campanha que lancei com meus filhos – também os filhos acadêmicos – brincalhonamente, há tanto tempo, cujo slongan é: “Preserve Malu, antes que acabe!”. Eu sempre argumentei: “Sim, há tantas campanhas ecológicas de preservação de seres em extinção. Por que não eu?!”. Enfim, esse é um dos meus traços, brincar comigo mesma, fazer graça, como alternativa, até porque pelo que vivi, se não tivesse feito isso, não tinha aguentado.

Enfim, tudo isso me fez abrir um chamado interno para a paz,  a paz das leoas. Não. Não é nada fácil. Nenhuma delas é ‘morna’, nenhuma é  simples. Cada uma delas representa um modo meu de levar a vida e todas querem ter voz em mim, sendo que nem sempre suas vozes combinam. Geralmente não combinam. Enfim, todos os acontecimentos recentes, as pressões e transformações do cotidiano, resultaram na fala da doutora, no sentido de que, com o tempo passando, já é tempo dessas leoas serenarem, cultivarem a paz, ainda que sem concordância. Enfim, muita coisa não importa mais. Não vai dar tempo mesmo de fazer tudo o que eu desejo, porque eu sempre desejei muito. É preciso aprender a abrir mão do que desgasta, do que não rende calma, paz e alegria, principalmente confiança amorosa. As leoas são a minha natureza. Com elas convivi todo esse tempo. O encontro com a natureza, para mim, é sempre o encontro com a matriz de força e, ao mesmo tempo, com a minha poética. Respeito isso, sigo buscando respeitá-las, cada uma a sua maneira, fazendo graça com a choraminguice da leoazinha Luiza, tendo paciência com a impetuosidade da Malu e com a ranzinzices perfeccionistas da Maria Luiza, assim como dando espaço para a intensidade vulcânica da italiana. Assim, diante de tudo e depois de tudo, proponho um Tratado de Paz, entre elas... vamos ver quanto tempo dura!

Bem, pra quem não advinhou ainda quem está escrevendo, assino: Dra Cardinale.